A Salvação Pela Bíblia

Aristarco D’Assell

Fernando estava finalmente frustrado com toda a humanidade. Nenhuma de suas primitivas expectativas grandiosas sobre o mundo vinha se cumprindo. No recôndito turbuleante de seu ser abalado, questionava-se, perplexo: qual é o sentido da vida? Não, não obtivera felicidade até aquele momento. E desejaria com todo o ardor compreender o porquê de seu infortúnio. Num esforço supremo, dedicou-se a ingrata tarefa de reconstituir sua vida.

A infância fôra uma maravilhosa época, da qual guardara singelas recordações. Não por que fôra fenomenal, fôra relativamente normal, mas não sofrêra tanto como posteriormente. Fôra um garoto de recursos escassos e simples, mas bem humorado, de boa compleição física e saudável. Casara-se cedo, por sorte arranjou um bom emprego e trabalhou arduamente para que sua mulher desfrutasse de conforto. Até aí, não vislumbrara ainda o sofrimento em toda sua extensão. Porém logo tudo começou: foi demitido e depois abandonado pela esposa. Amargurado, dedicou-se à bebida, numa infrutífera tentativa de reaver a bem-aventurança perdida. Os licores etílicos trouxeram-lhe doenças e mais miséria. Uma miséria interior que rasgava-lhe o corpo e oprimia o peito doído e cansado do fardo pesado de viver.

“Qual seria a solução? Quais seriam as causas do meu sofrer?” perguntava-se um perplexo Fernando. “O sistema econômico? Como irei saber, não tenho condições para declarar isso, não tive instrução necessária para tanto… “. Após muito refletir, lembrou-se, de repente, de algo que negligenciara até então: a Bíblia. “Sim, pode ser” – pensava, e seus pensamentos conturbados de repente pareciam convergir e tornar-se mais claros quanto a questão. Interpretou tal fenômeno como um aviso divino e decidiu: “Nas Sagradas Escrituras devem estar as respostas às minhas perguntas, o porquê de haver tanto sofrimento para mim assim como para a grande maioria da humanidade…”.

Lembrara-se de uma Bíblia que recebera de presente de aniversário de sua avó, já falecida, e retornou ao seu mísero lar para lê-la. Todavia, antes de abri-la, refreou sua avidez doentia e resolveu se prestar a algumas diretrizes para esse novo estudo que poderia alterar de forma radical seu futuro…

“Se na Bíblia está a palavra de Deus, ela deve bastar para nossa felicidade… Portanto, creio que posso reencontrar a bem-aventurança se agir de acordo com a palavra de Deus. Então, prometo alterar profundamente minhas convicções se estas forem de encontro às verdades reveladas, de forma a identificar a minha vontade com a vontade de Deus…” E pode-se dizer que a posterior leitura cuidadosa, na qual demorou mais de ano, modificou radicalmente suas concepções de vida. Tornara-se agora um profundo e amplo conhecedor da Bíblia, e esforçara-se de forma excepcional na compreensão dos sagrados textos bíblicos.

O que mudara na mente do Fernando? Como se estrutura seu pensar neste momento? Primeiramente, uma enorme diferença quanto ao seu antigo modo de pensar consiste numa crítica feroz e mordaz ao feminismo. Ele agora interpreta que a principal causa de sua anterior amargura foi o seu sacrifício à mulher, sua sujeição à pessoa feminina.

“O quão estúpido fui”- reflete agora de forma mais calma – “eu me tornei submisso, escravo dos desejos de minha esposa, quando o proceder de forma contrária era o correto”.

Lêra Colossenses 3:18:

“Mulheres, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor”.

E Fernando constatou que a Bíblia era profusa de advertências a esse respeito, e que ele, o culpado, não dera a devida atenção a essas diretrizes… Como poderia ele ter desobedecido o apóstolo Pedro, quando ele afirma em I Pedro 3:1

“As mulheres tem de ser submissas aos vossos maridos”?

Quanto sofrimento ele próprio trouxe ao não crer que

“A cabeça do homem é Cristo, a cabeça da mulher é o homem e a cabeça de Cristo é Deus” (I Coríntios 11:3)!

Por que ele não lêra a Bíblia antes, para saber que

“O homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem.”(I Coríntios 11:9)?

Por que dera vazão aos desejos de sua esposa quando nas Escrituras Sagradas há o mandamento claro e límpido:

“As mulheres devem ficar caladas nas assembléias de todas as igrejas dos santos, pois devem estar submissas, como diz a lei.”(I Coríntios 14:34)?

E ele compreendeu que começara a desvendar o que ele designara por “mistério do sofrimento do mundo”. As mulheres tem direitos demais, uma atitude claramente anti-bíblica! Como seria feliz se tivesse seguido os preceitos:

“Que a mulher aprenda em silêncio, com total submissão. A mulher não poderá ensinar nem dominar o homem”(I Timóteo 2:11-12) e “O marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja. Do mesmo modo que a igreja é submissa a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo aos maridos”(Efésios 5:22-24)…

Porém muitas coisas mais se alteraram na estrutura psíquica de nosso amigo Fernando. Suas crenças foram objeto de uma total reconstrução, e muito do que imaginara ser abominável para o homem agora crê ser o seu ideal.

“A Bíblia é a palavra de Deus, e devemos aceitar o que nela está escrito, pela fé, pois pela fé somos salvos. Mesmo que seus ensinamentos pareçam absurdos à primeira vista, devemos resignarmos com a palavra divina, que corta e fere, mas eleva nosso espírito.”E Fernando agora já não é mais adversário do incesto. Seu pensar estrutura-se dessa forma: “Não acusam a Bíblia de seguir os preconceitos da época em que foi escrita e, por isso, não ser de origem divina? Posso dar-lhes uma ótima objeção: a maioria esmagadora das sociedades abomina o incesto, mas a Bíblia não. Há melhor prova de que ela está acima dos errôneos preceitos humanos? A maioria de nós, pobre mortais, diria que incesto está contra os interesses da família, mas Lot, quem a Bíblia considera ser um homem de bem, fez sexo com as duas filhas dele (Gênesis 19:33-36); e não houve nenhum castigo para Lot ou para as filhas! Espantava-me tal proceder, todavia compreendi a extensão da sabedoria divina: quem melhor que um pai, com todo o amor paternal, para iniciar a filha nas carícias do amor?”

Fernando mudou de forma crucial seu pensamento numa questão que é objeto de unanimidade nos dias de hoje: a escravidão. Ele sempre rejeitou-a com todo o ardor de seu coração… Porém agora a Bíblia abriu seus olhos, e ele pode observar de modo elevado os meios pelos quais a justiça divina atua. “Por que a humanidade não se utiliza mais da escravidão? Por que insiste em designar-se cristã, rejeitando os ensinamentos divinos?” – e, diga-se de passagem, sua revolta é muito justa. Na Bíblia que lera não aparece constantemente o tema da escravidão? Ora, em Colossenses 3:22 lê-se:

“Escravos, obedecei em tudo aos vossos senhores terrenos, não só sob o seu olhar, como se os servísseis para agradar aos homens, mas com simplicidade de coração, por temor de Deus”, e em I Pedro 2:18 também lê-se: “Servos, sedes submissos, com todo o temor aos senhores, não só aos bons e humanitários, mas também aos que são duros”.

“Poderiam criticar-me afirmando que utilizo-me de somente duas passagens, o que porém não reflete a realidade”- pensa o agora afortunado Fernando. “Existem na realidade freqüentes passagens mais sobre a escravidão, levando-me a crer que esta não fere tão profundamente a vontade divina”.

Fernando, no objetivo de convencer-se, lembra-se dos trechos:

“Todos os escravos devem considerar os seus senhores dignos de toda a honra, para que não se fale mal do nome de Deus”(I Timóteo 6:1), “Escravos, obedeçam aos vossos senhores”(Efésios 6:5), “Os escravos devem estar submissos em tudo aos senhores. Que lhes sejam agradáveis, não os contradigam, não roubem.”(Tito 2:9-10).

É notável o fato de que a Bíblia também dita normas aos senhores de como proceder para com os escravos, e esse fenômeno não escapou ao minucioso estudo de Fernando. E novamente estas não se constituem em nenhum alívio do fardo do trabalho forçado, como um exultante Fernando observa:

“Se alguém ferir seu escravo ou sua escrava com um bastão e morrer sob suas mãos, seja punido severamente, mas se sobreviver um ou dois dias, não seja punido, porque é seu dinheiro” – Êxodo 21:20-21.

Um trecho muito interessante, que teve muita influência no advento da nova mentalidade de Fernando, é Êxodo 21:2-6:

“Quando comprares um escravo hebreu, servir-te-á seis anos, mas ao sétimo sairá livre e gratuitamente. Se entrou sozinho, sozinho sairá; se estava casado, sua esposa sairá com ele. Se seu amo lhe tiver esposa, e esta lhe tiver dado à luz filhos ou filhas, a mulher e os filhos serão de seu amo e ele sairá sozinho. Se o escravo porém, disser: “Amo meu senhor, minha esposa e meus filhos; não quero sair livre”, então seu senhor o levará diante de Deus, fá-lo-á aproximar-se da porta ou do umbrau da mesma e lhe furará a orelha com uma sovela, e ficará seu escravo para sempre”. As regras de como se adquirir escravos mais uma vez confirmam essa idéia: “Escravos e escravas para vos servires, podereis adquiri-los entre os povos circunvizinhos. Poderes também comprá-los dentre os filhos dos estrangeiros, que habitarem entre vós e dentre suas famílias, nascidos e crescidos na vossa terra, e serão vossa propriedade”(Levítico 25:44-45).

Fernando reflete seriamente na questão inevitável: “se a escravidão não fere a lei divina, então quem deve ser escravo?” E encontra a resposta no livro do Gênesis: quando Canaã comete o imperdoável pecado de ver seu pai nu, este se revolta e torna Canaã o último escravo de seus irmãos(Gênesis 9:25). Então Fernando chega à indubitável conclusão que quando alguém comete um pecado mortal imperdoável, deve ser feito escravo dos homens de bem.

Podemos agora vislumbrar num panorama mais amplo as grandiosas mudanças do pensamento de Fernando. É realmente um novo homem, pois agora sanciona o incesto, apóia o machismo e aprova a escravidão. E somos neste momento capazes de compreender a causa dos sofrimentos de Fernando.

“Não, não foi a bebida” – explica Fernando aos apressados que criticam seu alcoolismo – “Esquecem-se vocês de que Noé andava com Deus, era o mais justo e perfeito da Terra(Gênesis 7:9) mas se embriaga e aparece nu no meio de sua tenda(Gênesis 9:21)?

Se beber fosse essa depravação da qual sou acusado, porque o melhor homem da face da Terra se embriagaria?”, replica, imponentemente.

“A causa do meu antigo sofrer foi não ter seguido os ensinamentos bíblicos e haver tentado fornecer conforto à minha mulher…

Oh, Deus, perdoe-me a minha ignorância, não sabia o que fazia…” conclui, num ato de constrição e paradoxalmente, também de triunfo. O triunfo de haver desvendado o segredo da felicidade…

Fonte: http://www.mphp.org/racionalismo/a-salvacao-pela-biblia.html

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