Jesus Morreu na Cruz?

Tarciso S. Filgueiras

Sabemos que o fato aconteceu numa sexta-feira, porém o ano é incerto. Talvez tenha sido em 30 d.C. ou alguns anos antes ou depois. De qualquer modo, segundo os evangelhos, Yeshua de Nazaré foi levando ao Gólgota (lugar da Caveira) por ordem do praefectus da Judéia, Pontius Pilatus e foi crucificado entre dois lestai.(ladrões). Aqui aparece importante detalhe. A palavra grega traduzida habitualmente como ladrão é a mesma para zelota (lestés) e significa, literalmente, assaltante, salteador. O zelota (ou zelote) era, inicialmente, um rigoroso observador da Lei. Depois, o movimento evoluiu para o ativismo político e a insurgência. A ligação de Jesus com o movimento zelota é uma possibilidade que tem sido sustentada por vários autores. Neste caso, a crucificação de Jesus entre dois lestai é clara indicação de que a punição teria motivação política (levante contra Roma) e não religiosa, como aparece de forma ambígua nos evangelhos.

A crucificação não era usada para delitos comuns. Era punição capital, reservada para crimes políticos, de insurreição. Por isso, a morte deveria ser lenta, dolorosa, para servir de exemplo a quem passasse e visse os terríveis sofrimentos do supliciado. Segundo alguns historiadores, os crucificados ficavam de três dias a uma semana em indizível agonia antes de, finalmente, morrerem. Por isso, Pilatus se espantou quando, passadas apenas cerca de seis horas, José de Arimatéia se apresentou pedindo o corpo de Jesus para efetuar o sepultamento. Teria Jesus morrido neste relativamente curto espaço de tempo? Essa foi a dúvida de Pilatus. E a de muitos exegetas.

O momento da morte de Jesus é retratado de modo semelhante nos quatro evangelhos canônicos. Marcos, o mais antigo deles, diz que Jesus “dando um grande grito, expirou” (Mc 15:37), enquanto que para Mateus, ele, que já havia gritado antes (“Eli, Eli, lamá sabachtháni?”), depois de soltar um outro “grande grito, entregou o espírito” (Mt 27:45-50). Igualmente, Lucas diz que ele “expirou” (Lc 23: 46) e, finalmente, João diz que Jesus, “inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19:30). Expirar, entregar o espírito. Claro, todos esses verbos e expressões sugerem, figuradamente, a morte. Mas, o verbo morrer não aparece, explicitamente, em nenhum desses versículos. Por que isso? Teria Jesus realmente morrido na cruz? Ou, como sugerem os próprios textos originais, ele teria apenas, desfalecido, saído de si, desmaiado? Teria ele ingerido algo que lhe desse a aparência de ter morrido, para, posteriormente, ser revivido?

Há alguns indícios nos próprios textos sagrados de que isso teria ocorrido. Aqui serão examinados cinco deles, tomando-se como base a Bíblia de Jerusalém. O primeiro deles, como assinalado acima, é a conspícua ausência do verbo morrer nos versículos que descrevem o momento da morte de Jesus. O segundo é a suspeita oferta de uma bebida, vinagre, a Jesus agonizante. No contexto, percebe-se que o vinagre foi oferecido com o objetivo de diminuir as excruciantes dores que ele sofria. Mas, desde quando, vinagre tem função analgésica? Um simples vinagre teria o efeito contrário, faria com ele despertasse! A não ser que o “vinagre” (literalmente, vinho acre, azedo) tenha sido “alterado” com a adição de veneno.

Os antigos conheciam muitas drogas que tinham efeito analgésico e que induziam à inconsciência temporária. A Bíblia de Jerusalém traz a informação (nota “i”, p. 1755) que mulheres judias, movidas pela compaixão, costumavam oferecer entorpecente aos supliciados (“mirra e fel”, segundo os evangelhos), para diminuir seus sofrimentos. Portanto, tais substâncias estavam disponíveis naquela época e era corrente a prática de ministrá-las a condenados. Pelo que tudo indica, algo dessa natureza teria sido ministrado a Jesus. A droga teve efeito instantâneo, pois tão logo o “vinagre” foi ministrado, Jesus “morreu”, imediatamente!

Outro forte indício: quando Jesus já estava oficialmente morto, porém ainda na cruz, um soldado, usando uma lança, feriu seu flanco. Do ferimento saiu “sangue e água” (Jo 19:34). Segundo os tratados médicos, a circulação pára com a morte. Ou seja, cadáveres não sangram. Portanto, embora, aparentemente morto, Jesus, provavelmente, apenas desfalecera. Estava clinicamente vivo, um pouco antes de ser retirado da cruz.

Mais um indício. Nicodemos, um discípulo com hábitos noturnos, deixou, junto ao “corpo” de Jesus, quase 50 quilos de uma mistura de mirra e aloés, com o suposto objetivo do posterior embalsamamento do cadáver. Embora a mirra pudesse ser usada como fragrância, o uso principal e ordinário dessas substâncias era bem outro: provocar vômito (para expelir o veneno), estancar hemorragia (provocada pelos ferimentos e danos aos órgãos internos), agir como cicatrizante e emoliente, além de outros. Em vista do estado em que Jesus se encontrava, estes usos faziam mais sentido que um simples embalsamamento.

Por último, Marcos relata (15: 42-46) que quando José de Arimatéia, membro do Sanhedrin judaico (Assembléia de Anciãos) se apresentou a Pilatus, para solicitar o corpo de Jesus e providenciar o sepultamento, ele pediu o soma de Jesus. Em grego, soma quer dizer um corpo vivo. Pilatus se espanta com a notícia de que Jesus já tinha morrido e mandou um centurião investigar. Informado pelo centurião de que Jesus morrera, Pilatus “cedeu” o ptoma de Jesus. Ptoma, sim, significa, cadáver em grego. Esta passagem sugere que Marcos sabia que Jesus havia sido retirado da cruz com vida. Talvez isso fosse fato muito conhecido na época e ele não teve como dizer o contrário. No entanto, esta interpretação só pode ser feita a partir do texto grego, pois São Jerônimo (c. 347-420), ao traduzir a bíblia, do grego para o latim, a sua famosa Vulgata, usou uma única palavra (corpus) tanto para soma quanto para ptoma. O latim não tem a mesma sutileza do grego e, com isso, a possibilidade da sobrevivência de Jesus ficou sepultada no vocábulo corpus que tanto quer dizer corpo vivo quanto cadáver.  Não há elementos para se afirmar que essa tradução inapropriada tenha sido proposital ou não. Contudo, o antigo provérbio tradutori traditori– tradutores são traidores- vem, de imediato, à mente.

Bibliografia

  • Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Ed. Paulus, 2002.
  • – Baigent, M. Os manuscritos de Jesus: Revelando o maior segredo da história. Trad. R. Lyra, Ed. Nova Fronteira, 2006.
  • – Filgueiras, T.S. Ensaio sobre Jesus: Revelando o homem. São Paulo, Livro Pronto, 2ª ed., 2006.
  • – Lindell, H.G. & Scott, R. A Greek-English lexicon. Oxford University Press. 1940.
  • – Thiering, B. Jesus the man, Corgi, 1978.

Fonte: http://www.mphp.org/jesus-historico/jesus-morreu-na-cruz.html

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