O Toco de Vela

 

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Por Ana Burke

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Estávamos brincando, e brincávamos muito… na rua de preferência. De esconder, de pique, queimada, futebol, e tudo o que podíamos inventar. Amarrávamos uma tira numa lata qualquer, segurávamos na tira, subíamos na lata e andávamos em cima dela. Alguns mais espertos conseguiam até correr em cima da lata, outros caíam e quando ríamos o perdedor gritava enfurecido: “Deus vai castigar vocês”. Não nos importávamos muito com isto…os perdedores sempre ameaçavam usando o nome do invisível… ou para chantagear… Ele era o “cara” que mandava o povo pra o inferno. E o mais estranho era ver adultos fazendo isto o tempo todo. Eles pareciam ter mais medo de deus do que dos demônios. Alguma coisa dava errado e diziam: “Demônios dos infernos”…”aquele traste é um capeta”…”vai se meter com o diabo e dá nisto”…”O infeliz está com o diabo no corpo”…”pegue este satanás e dá uma surra nele”… “Este “coisa” é feio como o diabo”…


Aí eu pensava que o povo invertia tudo. Eles ofendiam o Satanás o tempo todo, o xingavam, o desmereciam, espezinhavam, davam cacetadas nele… chamavam ele de “coisa ruim”, peste ou cabra… Não podiam falar “diabo”, mas davam apelidos, os mais medonhos possíveis para o infeliz, substituindo uma palavra feia por outra mais feia e ofensiva ainda. Eu achava que o certo era “fazer média” com o diabo já que ele é quem tomaria conta da alma dos pecadores incuráveis. Eu já me considerava no inferno porque fiz coisa feia, seguida de outra coisa, mais feia ainda, e que não tinha perdão. E o meu pecado era medonho…Vou contar:


Eu…andando pela rua vi uma casa sem moradores cheia de plantas..todas morrendo de sede. Entrei e fiquei andando por lá muito penalizada e triste em ver que todas estavam morrendo. Olhei em volta e não encontrei nem uma gota de água. Vi uma flor linda plantada numa lata de vinte litros e pensei…esta não vai morrer. Juntei a lata cheia de terra com a flor e levei embora pra casa…suava e parava a cada cinco passos pra descansar. Muito difícil mas estava determinada a salvar a flor. Não desisti…não sou do tipo que desiste e fui…e fui..e pensava, “um passo de cada vez”.
Cheguei em casa com a lata e a minha mãe quase teve um treco. Me rezou um sermão e disse que eu tinha roubado a flor. Enfiou a lata dentro de um saco e me fez marchar de volta para colocar tudo de volta no lugar de onde eu tinha tirado, mas antes me disse que roubar era um pecado sem perdão e que eu iria para o inferno. Inferno pra mim era levar a flor de volta, mas com a minha mãe não adiantava argumentar…obedeci. Duas horas andando de volta, desta vez com a lata e a flor dentro do saco…eu acho que a minha mãe ficou com vergonha porque eu tinha roubado a planta e não queria que ninguém soubesse que a filha dela estava condenada a passar a eternidade no inferno. Eu já tinha desfilado com o produto do meu roubo pela cidade inteira…todos viram quando eu trazia a planta pra casa. Pra quê enfiar a planta num saco agora? Ela não sabia que a coitada ficaria toda machucada? Isto não importava…saco.


Deixei a planta lá e voltei chorando pra casa. Mas aconteceu de novo….vou contar:
Eu fui no cemitério acompanhando um enterro…não me lembro quem era o defunto. O cemitério ficava lá no alto do morro com a Vila no sopé. Da minha casa podíamos ver todas as procissões e defuntos subindo o morro, e eu gostava de me meter em tudo quanto era lugar no qual eu não era chamada (ou convidada). Lá fui eu acompanhando o enterro e só depois de ver o defunto muito bem enterrado é que eu voltava pra casa. Pois é, em um destes enterros eu roubei um toco de vela do túmulo…um túmulo qualquer. Quando cheguei em casa feliz com o meu toco de vela, a minha mãe me deu umas chineladas e me fez subir o morro umas seis horas da tarde, quase escuro já, pra colocar o toco de vela de volta no lugar onde eu tinha pegado. Ela era deste jeito mesmo e não tinha discussão. Era longe…olhei para o morro e o cemitério lá no pico, desanimei… mas fui. A minha mãe ficou me olhando lá embaixo pra verificar se eu estava cumprindo a ordem. E agora? Pensei…quase escuro…não tem ninguém mais no cemitério, só assombração…mas fui subindo. Eu tinha me esquecido de qual dos túmulos eu surrupiei o toco de vela. Empurrei o portão de ferro que rangeu…pulei pra trás…não era nada…não era nada…e entrei. O túmulo deveria ser pert daquele onde o defunto mais recente havia sido enterrado…e fui andando por entre os túmulos. Era melhor colocar no mesmo lugar. No fim cansei, já estava escuro e ouvi um barulho…joguei o toco de vela em qualquer túmulo, sai correndo e desci o morro em desabalada carreira. E lá estava a minha mãe me esperando e a molecada um pouco mais atrás “rachando” de rir. Inferno! Ela tinha aprendido a vigiar muito bem com o deus dela. Sabia de tudo e lia pensamentos. Me perguntou quando eu cheguei: Colocou no mesmo lugar? Jurei de pé junto. 

Deus disse: Não roubarás. Isto quer dizer que se eu roubei, não importa se era uma única vez, ou não, eu já estava destinada ao inferno. Descumpri um dos mandamentos e o jeito agora era elogiar o capeta e esquecer de deus.


A minha mãe foi pra dentro e lá veio o bando curioso me perguntar se eu tive medo…o que eu tinha visto…e me falavam dos perigos que eu corri porque o cemitério estava cheio de assombrações, e que eu teria que ir me confessar com o padre e que ele me absolveria do meu pecado. Comecei a chamar eles de ignorantes…como é que o padre poderia absolver alguém? Deus fez uma lei e pronto. Como é que o padre pode desdizer o que ele disse? Isto de padre absolver é lorota. Vocês não sabem disso? Que deus é um monstro fazedor de leis? E fazedor de diabos? E que vocês são os diabos?

Me perguntaram o que eu pretendia fazer com o toco de vela. Coloquei a mão na cintura…olhei bem pra cara deles e respondi…

Eu ía acender pro capeta.

Covardes! Debandaram.

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