Os Dragões da Bíblia

dragonfire

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Escrito por Emerson Borges

É comum na mitologia de diversos povos e civilizações a descrição de grandes animais, semelhantes a répteis (como imensos lagartos e serpentes), às vezes com asas, poderes mágicos e hálito de fogo. Em cada cultura os dragões assumem no folclore funções e simbologias diferentes, podendo ser fonte sobrenatural de sabedoria e força ou simplesmente uma fera destruidora. Em geral, acredita-se que a origem dos mitos sobre dragões possam ter surgido de observações dos povos antigos de fósseis de dinossauros ou outras grandes criaturas como baleias, crocodilos ou rinocerontes, tomados por eles como ossos de dragões. Por serem descritos como grandes criaturas é comum aparecerem como adversários mitológicos de heróis lendários ou deuses em grandes épicos que eram contados pelos povos antigos. É comum também serem responsáveis por diversas tarefas míticas, como a sustentação do mundo ou o controle de fenômenos climáticos. Em qualquer forma, e em qualquer papel mítico, no entanto, os dragões estão presentes em milhares de culturas ao redor do mundo.

     As mais antigas representações mitológicas de criaturas consideradas como dragões são datadas de aproximadamente 40.000 anos atrás, em pinturas rupestres de aborígines pré-históricos na Austrália. Tais dragões provavelmente eram reverenciados como deuses, responsáveis pela criação do mundo e eram vistos de forma positiva pelo povo. Na antiga Mesopotâmia havia uma associação de dragões com o mal e o caos. Os dragões dos mitos sumérios freqüentemente cometiam grandes crimes, e por isso acabavam punidos pelos deuses, como Zu, um deus-dragão sumeriano das tempestades, que em certa ocasião teria roubado as pedras onde estavam escritas as leis do universo, e por tal crime acabou sendo morto pelo deus-sol Ninurta. No Enuma Elish, épico babilônico que conta à criação do mundo, também há uma forte presença de dragões, sobretudo na figura de Tiamat. No mito, Tiamat, apontada por diversos autores como uma personificação do oceano e seu parceiro mitológico Apsu, considerado como uma personificação das águas doces sob a terra, unem-se e dão à luz os diversos deuses mesopotâmicos. Apsu, no entanto, não conseguia descansar na presença de seus rebentos, e decide destruí-los, mas é morto por Ea, um de seus filhos. Para vingar-se, Tiamat cria um exército de monstros, dentre os quais 11 que são considerados dragões, e prepara um ataque contra os jovens deuses. Liderados pelo mais jovem entre eles, Marduk, que mais tarde se tornaria o principal deus do panteão babilônico, os deuses vencem a batalha e se consolidam como senhores do universo. Do corpo morto de Tiamat são criados o céu e a terra, enquanto do sangue do principal general do seu exército, Kingu, é criada a humanidade.

     Visto que a cultura judaica foi fortemente influenciada pela cultura dos povos mesopotâmicos, encontramos várias passagens no velho testamento que retratam dragões. No livro bíblico de Jó é descrito um animal monstruoso chamado leviatã que tem características muito semelhantes a um dragão, veja como tal fera é descrita:

     “Lampejos procedem da sua boca,sim, faíscas de fogo escapam.Das suas narinas sai fumaça,igual a uma fornalha acesa com juncos.A própria alma dele incendeia carvões,e até mesmo uma chama sai da sua boca” (Jó 41:19-21).

     Os religiosos tentam de todas as formas desvencilhar este animal de um dragão fazendo todo um malabarismo interpretativo que fica até engraçado vê-los tentar de todas as formas relacioná-lo a um crocodilo ou algum tipo de criatura aquática de grande porte. Obviamente eles não querem relacionar tal animal descrito neste texto com um dragão devido ao contexto mitológico e fantasioso que envolve esta fera vindo de povos considerados pagãos. Suas mentes não conseguem assimilar que um escritor bíblico que supostamente foi movido pelo espírito santo ao escrever, descreva com tantos detalhes um animal que na verdade somente existiu na imaginação do ser humano. Até parece uma descrição de um livro de contos de fada com todos os seus ingredientes fantasiosos como “faíscas de fogo escapando de sua boca”, “fumaça saindo de suas narinas”, “chamas saindo de sua boca incendiando até mesmo carvões”. Seria realmente “forçar a barra” dizer que se trata de um crocodilo, afinal, você já viu um crocodilo deixar escapar faíscas de fogo pela sua boca? Você já viu algum crocodilo expelir fumaça pelas suas narinas? Você já viu algum crocodilo cuspir fogo pela boca incendiando até mesmo carvões? De duas uma, ou os crocodilos antigos eram muito diferentes dos de hoje e tinham este dom incandescente ou temos neste texto uma perfeita descrição de um dragão.

     Observe como outras versões da bíblia descrevem esta criatura e veja se o problema está na escolha errada de palavras devido a uma má tradução:

     “De sua goela saem chamas, escapam centelhas ardentes. De suas ventas sai uma fumaça, como de uma marmita que ferve entre chamas. Seu hálito queima como brasa, a chama jorra de sua goela” (Versão Católica).

     “Da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela. Das suas narinas procede fumaça, como de uma panela fervente, ou de uma grande caldeira. O seu hálito faz incender os carvões; e da sua boca sai chama” (Almeida corrigida e revisada fiel).    

     “A sua boca lança chamas, e dela saltam faíscas de fogo. O seu nariz solta fumaça, como a de galhos que queimam debaixo de uma panela. O seu sopro acende o fogo, e da sua boca saem chamas” (Bíblia na Linguagem de Hoje). 

 

     Parece que não melhorou muito. Falar que as descrições acima não são de um dragão, mas sim de um crocodilo, é não querer ver a realidade. Inclusive outras traduções da bíblia não tem pudor algum em traduzir dragão em diversos textos, observe trechos da Bíblia de Jerusalém:

    “Acaso sou o Mar ou o Dragão, para que me cerques com guardas?” (Jó 7:12).     

    “Poderás caminhar sobre o leão e a víbora, pisarás o leãozinho e o Dragão” (Salmos 91:13).

     Desperta, desperta! Mune-te de força, ó braço de Iahweh! Desperta como nos dias antigos, nas gerações de outrora. Por acaso não és tu aquele que despedaçou Raab, que trespassou o Dragão? (Isaías 51:9).

     

Em Isaías 27:1 o escritor bíblico entendeu claramente a descrição de Jó 41:19-21 como sendo um tipo de Dragão, pois ele relaciona o Leviatã como sendo uma espécie de Dragão:

     Naquele dia o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o leviatã, serpente veloz, e o leviatã, a serpente tortuosa, e matará o Dragão, que está no mar (João Ferreira de Almeida, Corrigida e Revisada, Fiel).

     Porém, algumas traduções “resolveram” verter a palavra Dragão por “monstro marinho” (mesmo reconhecendo numa nota ao pé da página que a Septuaginta Grega (LXX) verte “Leviatã” por “Dragão”) numa tentativa de disfarçar este texto embaraçador:

     “Naquele dia, Jeová, com a sua espada dura, e grande, e forte, voltará sua atenção para [o] leviatã, a serpente deslizadora, sim, para [o] leviatã, a serpente sinuosa, e certamente matará o monstro marinho que há no mar” (Tradução do Novo Mundo).

     Em todos os textos que a Septuaginta Grega (LXX) tem a palavra Dragão (do grego drákonδράκων) a Tradução do Novo Mundo verte “monstros marinhos”, como em Isaías 51:9 onde há uma nota dizendo que também na Vulgata Latina de Jerônimo está escrito Dragão (Draconem):

     “Desperta, desperta, reveste-te de força, ó braço de Jeová! Desperta como nos dias de outrora, como durante as gerações de tempos há muito passados. Não és tu aquele que despedaçou Raabe, que traspassou o monstro marinho?”

     Portanto, o escritor de Isaias coloca o Deus Judeu Iahweh (Jeová) golpeando e derrotando o dragão, fazendo uma alusão a Tiamat, o Deus dragão da mitologia babilônica que igualmente foi derrotado como diz o texto “como nos dias de outrora, como durante as gerações de tempos há muito passados”. De acordo com o Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, no Antigo Testamento, dragões tipificavam os inimigos do povo de Deus, como em Ezequiel 29:3 (referindo-se ao Faraó do Egito). Ao fazer isso, associa-se a idéia das mitologias de povos próximos, para dar maior entendimento aos israelitas.

     Muitos cristãos afirmam que o leviatã (dragão) era uma maneira dos escritores bíblicos personalizarem o mal ou descreverem ações malignas, retratando os inimigos do povo de Deus. Realmente existem algumas passagens bíblicas em que o dragão e claramente identificado como simbolizando governantes inimigos dos judeus como, por exemplo, em Ezequiel 29:3:

     “Fala, e dize: Assim diz o Senhor DEUS: Eis-me contra ti, ó Faraó, rei do Egito, grande dragão, que pousas no meio dos teus rios, e que dizes: O meu rio é meu, e eu o fiz para mim”.

Fica claro que o escritor está comparando o faraó do Egito a um grande dragão. Também em Jeremias 51:34 o escritor compara Nabucodonosor, rei de Babilônia a um dragão:

     “Devorou-me, consumiu-me, Nabucodonosor, o rei da Babilônia, ele me deixou como um prato vazio, engoliu-me como um Dragão, encheu o seu ventre de minhas melhores partes, ele me expulsou”.

     Portanto, nestes trechos específicos os dragões tipificavam os inimigos do povo de Deus, mas não devemos nos esquecer que o uso deste termo “dragão” como muitos outros é uma associação a idéias da mitologia de povos pagãos próximos, portanto, uma clara influência pagã. Além disso, o relato de Jó capítulo 41 não esta fazendo nenhuma comparação do leviatã com reis ou nações pagãs como nabucodonosor (Babilônia) e faraó (Egito). Se observarmos o contexto, Jó estava sendo disciplinado por Deus que usa descrições de suas criações como o planeta terra, o mar, a neve, o vento, a nuvem de um temporal, o gelo, relâmpagos, o leão, a cabra montesa, a zebra, o touro selvagem, o avestruz, a cegonha, o cavalo, o falcão, a águia, o beemote (que muitos acreditam ser o hipopótamo) e finalmente o leviatã (que muitos acreditam ser o crocodilo). Todos os animais e as coisas descritas por Deus para disciplinar Jó são reais, exemplos da criação de Deus. Neste relato, Deus não está fazendo uma comparação com reis ou nações pagãs, muito menos personalizando o mal ou descrevendo ações malignas. Temos uma clara descrição de um animal criado por Deus, portanto, real, usado como exemplo das grandes criações de Deus. É exatamente por isso que a maioria dos religiosos tenta relacionar o Leviatã descrito em Jó com o crocodilo.

     Na versão da bíblia Matos Soares existe um relato muito interessante envolvendo um dragão. Está registrado em Daniel capítulo 14 onde o Rei Ciro exige que Daniel adore um ídolo do deus Bel. Por aspergir cinzas no pavimento do templo e assim descobrir pegadas, Daniel prova que o alimento supostamente consumido pelo ídolo na realidade é consumido pelos sacerdotes pagãos e suas famílias. Os sacerdotes são mortos e Daniel destroça o ídolo. Então, o rei requer de Daniel adorar um dragão vivo. Daniel destrói o dragão, mas é lançado na cova dos leões pela população enfurecida. Durante os sete dias do seu confinamento, um anjo pega Habacuque pelos cabelos e leva tanto a ele como uma tigela de caldo da Judéia a Babilônia, a fim de prover Daniel de alimento. Habacuque é então devolvido à Judéia, Daniel é solto da cova, e seus oponentes são lançados nela e devorados. Nos versículos 22-26 é descrito como Daniel matou o famigerado dragão. Veja que relato interessante:

 “Lá havia também um grande dragão, que os babilônios veneravam. O rei disse a Daniel: Pretenderás também dizer que aquele é de bronze? Vive, come, bebe. Tu não podes negar que seja um deus vivo. Adora-o então. Eu adoro, replicou Daniel, unicamente o Senhor meu Deus, porque ele é um Deus vivo. Ó rei, dá-me licença para fazê-lo, e, sem espada nem bastão, matarei o dragão. Eu ta concedo, disse o rei. Então Daniel tomou breu, gordura e pêlos, cozinhou tudo junto, e com isso fez umas bolas e meteu-as na boca do dragão, que estourou e morreu. Daniel exclamou: Eis aí o que adoráveis!

Visto que os cristãos vieram dos judeus, assimilaram muitas coisas de sua cultura. Não é de admirar que seus escritos retratem o maior inimigo de Deus, o diabo, como um dragão conforme descrito no Apocalipse.

     “E viu-se outro sinal no céu, e eis um grande dragão cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres, e nas suas cabeças sete diademas; e a sua cauda arrasta um terço das estrelas do céu, e as lançou para baixo à terra. E o dragão ficou parado diante da mulher, que estava para dar à luz, para que, quando desse à luz, pudesse devorar-lhe o filho” (Apocalipse 12:3,4)

     “E irrompeu uma guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam com o dragão, e o dragão e os seus anjos batalhavam, mas ele não prevaleceu, nem se achou mais lugar para eles no céu. Assim foi lançado para baixo o grande dragão, a serpente original, o chamado Diabo e Satanás, que está desencaminhando toda a terra habitada; ele foi lançado para baixo, à terra, e os seus anjos foram lançados para baixo junto com ele” (Apocalipse 12:7-9).

     Os dragões nas histórias da cristandade acabaram por adotar esta imagem de maldade e crueldade, sendo representações do mal e da destruição. O caso do mais célebre dragão cristão é aquele que foi morto por São Jorge, que se banqueteava com jovens virgens até ser derrotado pelo cavaleiro. Esta história também acabou dando origem a outro clássico tema de histórias de fantasia, o nobre cavaleiro que enfrenta um vil dragão para salvar uma princesa.

     Na cultura moderna, Dragões aparecem em várias histórias do gênero fantasia, desde “O Hobbit” de J.R.R. Tolkien com o dragão Smaug, nas “Crônicas de Nárnia” de C.S. Lewis e J. K. Rowling em diversos livros de seu bruxo mundialmente célebre “Harry Potter”. Na série literária de fantasia “As Crônicas de Gelo e Fogo” de George R. R. Martin, os dragões estão extintos a muitos séculos e eram sinônimo de poder, símbolo de uma das Casas mais tradicionais e poderosas da trama, quando no final do primeiro livro ressurgem.

     Mas, como vimos, a origem de tais lendas e mitos envolvendo dragões remontam a povos antigos e a bíblia assimilou tais mitologias, sendo influenciada pela cultura suméria e babilônica. Apesar dos esforços de retirar tais referências da bíblia tentando esconder suas influências mitológicas pagãs, não há como negar o fato de que a bíblia nas suas línguas originais está repleta de citações a dragões evidenciando ser um livro cheio de mitos e lendas, que usa metáforas e descrições de um animal fantasioso criado pela mente humana como se fosse real.

     Alguns religiosos usam a velha desculpa da maioria dos cristãos ao se deparar com trechos da bíblia que mostram claramente sua origem puramente humana. Dizem que a bíblia é um livro espiritual e que deve ser entendida espiritualmente. Sinceramente, acho este raciocínio uma desonestidade intelectual, uma forma de fugir das evidências. Com esta suposta “mente espiritual”, usando sua fértil imaginação, podem ver o que quiser ou não querer ver.

Fonte: http://deusesereligioes.com.br/index.php/biblia/mitologia/item/1152-os-dragoes-da-biblia

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