História das Religiões: Ateísmo

 

ateismo

 


1- Definição de ateísmo

“Ateísmo” é uma palavra composta que deriva do grego άθεος, àtheos, e é formada, pelo prefixo α– privativo, (sem) e pelo substantivo θεός, «deus», vindo a significar, literalmente, “Sem Deus”. Aparece, por exemplo na Epístola de São Paulo aos Efésios (cap. 2, 11-12) (Possivelmente escrita nos inícios do século III), no início do século III, num belíssimo texto que opõe a vivência cristã à vivência pagã e que pode comparar-se ao texto da carta aos Romanos (Rom. cp. 3, vv. 9, 10, 22).
Eis o texto grego da carta aos Efésios, cap. 2,11-12 (Nestlé-Aland,1963, p.492)
2:11 Δίο μνημονεύετε ότι υμείς ποτέ τα έθνη εν σάρκα οι λεγόμενοι ακροβυστία υπό της λεγόμενης περιτομής εν σάρκα χειροποίητου 2:12 ότι ηίτε (eíte) εν τω καιρώ εκείνω χωρίς χριστού απαλλοτριωμένοι της πολιτείας του Ισραήλ και ξένοι των διαθηκών της επαγγελίας ελπίδα μη έχοντες και άθεοι …
2,11: Por isso recordai-vos que vós anteriormente éreis gentios na carne, assim dito pelos incircuncisos (de prepúcio incircuncisos) …2,12: que estáveis nesse tempo sem Cristo, separados da assembleia de Israel e estranhos aos testamentos, sem esperança da promessa, e sem Deus neste mundo.
• εθνη εν σαρκι – “Gentios na carne” — v. 11;
• οι λεγομενοι ακροβυστια υπο της λεγομενης περιτομης – “Chamados de prepúcio cortado em circo” (= circuncisão) — v. 11;
• εν σαρκι χειροποιητου – “Na carne feita à mão”;
• οτι ητε εν τω καιρω – Que em tempos;• ητε εκεινω “Estáveis”;
• χωρις χριστου – “sem Cristo” — v. 12;• απηλλοτριωμενοι της πολιτειας του ισραηλ – “Excluídos da Cidade de Israel” — v. 12;• ξενοι των διαθηκων της επαγγελιας ελπιδα – “Estranhos aos concertos da promessa ou testamento” — v. 12;
• μη εχοντες – “Não tendo esperança” — v. 12;• αθεοι εν τω κοσμω – “Sem Deus no mundo” — v. 12.
Em sentido alargado, “Ateísmo” é a rejeição ou ausência da crença em qualquer deus ou seres sobrenaturais. O ateísmo contrasta com o teísmo, que, em sua forma mais geral, acredita na existência, pelo menos, de uma divindade. Num sentido mais restrito, o ateísmo é precisamente a posição de quem nega a existência da divindade, seja ela qual for, e vive como tal (Rowe, William L. (1998). “Atheism“. Routledge Encyclopedia of Philosophy. Ed. Edward Craig. Taylor & Francis.. Consultado em 2011-01-26).
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2- Fundamento da Negação de Deus e tipos de ateísmo
Os ateístas crêem que se admitirmos a existência de Deus teríamos de admitir que a sua existência seria uma “barreira ao exercício da liberdade humana” (http://www.infopedia.pt/$ateismo) e tornaria incompreensível a existência do mal. Na verdade, se Deus existe, como se explica a existência do mal, sobretudo aquele que atinge os inocentes e indefesos?
Esta definição, porém, foi-se modificando no decorrer dos tempos e consoante as religiões professadas. Na verdade, na antiga Roma dava-se o nome de “ateus” a todos aqueles que não acreditavam e não aceitavam a adoração prestada aos deuses do Panteão Romano, sendo aplicada especialmente aos Cristãos.
Se para os teístas é fácil explicar a existência do mal, baseando essa realidade no facto da liberdade humana pela qual o homem pode escolher entre o bem e o mal, para os ateístas é completamente incompreensível o facto da existência do mal em crianças que nascem devido a deformações genéticas a que elas são alheias e em pessoas que sofrem violência física e moral de outras pessoas às quais não podem resistir de maneira nenhuma. Segundo os ateístas, pelo menos nestes casos, parece que é mais lógico admitir a não existência de Deus.
Uma outra dificuldade que contrapõem os ateus relaciona-se com a “Omnisciência” e “Omnipotência de Deus”. Será difícil compreender como é que “Deus omnisciente” pode ser, ao mesmo tempo, “todo misericordioso” e como é que poderá ser “omnisciente” sem ter um “corpo físico”.
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2.1- Outros tipos de ateísmo
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2.1.1- Ateísmo lógico: é aquele que defende que a ideia de Deus é contraditória em si;
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2.1.2- Ateísmo semântico: defende que o conceito de Deus é simplesmente vazio, ou seja, não tem qualquer referente que lhe possa corresponder.
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2.1.3- Um ateísmo explícito
Neste ateísmo, o homem rejeita consciente e voluntariamente a crença na existência de um deus. Aqui pressupõe-se um conhecimento das crenças teístas, que são deliberadamente rejeitadas. Este ateísmo identifica-se com ateísmo “activo” ou “forte”.
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2.1.4- Um ateísmo implícito (fraco, passivo ou agnóstico
É o ateísmo professado por uma pessoa que não acredita em um deus, embora não rejeite nem negue, explicitamente, a verdade do teísmo. Isto é: consiste apenas na “simples descrença” em relação à existência de Deus ou da multiplicidade de divindades. (http://ateus.net/artigos/ateismo/ateismo/). Estaremos, portanto, diante de um ateísmo antropomórfico, cósmico seja, perante o ateísmo de Espinosa, segundo Smith em “Atheism – The Case Against God” [(http://www.mphp.org/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=30) (Filipe Mogan)] Estaremos, neste caso, portanto, perante um ateísmo “passivo” ou “fraco”.
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2.1.5- Ateísmo Militante
O ateísmo na acepção dos números precedentes pode ser englobado no nome genérico de “Ateísmo Teórico” que, normalmente é “tolerante”. Mas esse ateísmo pode tornar-se “militante” quando a sua doutrina “é propagada como sendo um meio de salvação do Género Humano e quando ela combate acerrimamente todas as formas de religião, apresentando-as como uma aberração” (Rahner, K., 1968, p. 116).
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2.2- Ateus confessos 
Vários foram os homens de ciência que professaram o ateísmo, tanto na antiguidade, quanto na idade contemporânea.
2.2.1- Na antiguidade
O melhor representante desta época é Lucrécio, poeta e filósofo latino que viveu no séculoI a. C.  Foi um dos Padres da Igreja do primeiro século, porém, a sua doutrina nem sempre correspondeu ao sentir da Igreja. No seu célebre poema De Natura Rerum (Sobre a Natureza das Coisas) expõe a filosofia de Epicuro de Samos, onde ele defende que o epicurismo poderia desvendar os segredos do universo e proporcionar a felicidade da alma humana, que, segundo ele próprio, era mortal.
Sobre a Natureza das Coisas – Esta obra foi traduzida para português pelo latinista, filósofo, ensaísta e escritor e professora da Universidade de Lisboa Agostinho da Silva (George Agostinho Baptista da Silva) e foi publicada no volume V da colecção Os Pensadores da editora Abril Cultural)
2.2.2- Na Idade Média
Na Idade Média (do V ao XV século) houve várias correntes de pensamento contrárias aos teístas, como por exemplo, o cepticismo cuja doutrina defende a impossibilidade de se alcançar o “verdadeiro conhecimento” e o naturalismo, segundo o qual quem governa o mundo são apenas as forças naturais.
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2.2.3- No século XVIII
Vários pensadores Iluministas (1700-1789) eram ateus militantes, incluindo o escritor dinamarquês Baron Holbach (1723 – 1789) e o enciclopedista francês Denis Diderot (1713 – 1784).
Literatos ingleses como: os poetas Percy Shelley (1792-1822), Lord Byron (1788 – 1824) e o novelista Thomas Hardy (1840 – 1928).
Filósofos franceses, como Voltaire (François-Marie Arouet (1694 –1778).
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2.2.4- No século XIX
A este século pertencem os filósofos alemães : Ludwig Feuerbach (1804– 1872), Karl Marx (1818 –1883), Arthur Schopenhauer (1788–1860) e Friedrich Nietzsche (1844 –1900).
Escritores, como o novelista russo, Ivan Sergeyevich Turgenev (1818 – 1883;
Escritores americanos, como Mark Twain (1835 – 1910) e Upton Sinclair (1878 – 1968):
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2.2.5- No século XIX
Do século XX são: o filósofo britânico, Bertrand Russel (1872 – 1970), o psicanalista austríaco, Sigmund Freud (1856 – 1939), o filósofo e escritor francês, Jean-Paul Sartre (1905-1980).
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2.2.6- No século XXI
Na China hodierna os militantes do Partido Comunista chinês têm de ser ateus, como se depreende da notícia que foi publicada nos jornais portugueses (Público e Diário de Notícias[10], de 20 de Dezembro de 2011, como aqui retransmitimos:
“Os militantes do Partido Comunista Chinês estão proibidos de seguir qualquer religião, devendo pelo contrário promover o marxismo e o ateísmo[11] proclamou um responsável da organização citado hoje na imprensa oficial.
Nota do autor: Desta máxima marxista-comunista surgiu a doutrina católica, segundo a qual “um verdadeiro católico” não poderá seguir a doutrina marxista nem comunista. Na verdade, na base do marxismo e do comunismo está o ateísmo que contradiz qualquer religião.
“Se o Partido levantasse a proibição (de seguir uma religião), como algumas sugerem, isso teria perniciosas consequências”, escreveu Zhu Weiqun, vice-ministro do departamento do Comité Central do PCC encarregue dos contactos com sectores exteriores ao Partido (a chamada Frente Unida).
“Os organizações do Partido ficariam altamente enfraquecidas na luta contra o separatismo” se os seus membros se convertessem a uma religião, argumentou o responsável.
Zhu Weiquan referia-se em particular ao Tibete e a Xinjiang, duas regiões maioritariamente habitadas por etnias de religião budista ou muçulmana, e onde “as forças hostis, internas e externas, fazem tudo o que podem para usar a religião para atividades separatistas”.
“Não é por acaso que as organizações do Partido em Xinjiang e no Tibete, onde a luta anti-secessão é mais aguda, advoguem tão nitidamente que os seus membros não devem acreditar em nenhuma religião”, acrescentou.
A liberdade de religião está consagrada na Constituição chinesa, mas os membros do PCC – mais de 80 milhões – têm de seguir “a visão marxista do mundo” e “não podem participar em actividades religiosas”, realçou Zhu Weiqun, num artigo publicado no quinzenário Procurar a Verdade, o nome da revista teórica do Comité Central do PCC”.
No entanto, a Constituição da República Popular da China, de 4 de Dezembro de 1982 garante a liberdade religiosa aos seus cidadãos, como se lê no seu Artigo 36º:
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Artigo 36.º da Cosntituição da República Chinesa de 1982
“Os cidadãos da República Popular da China gozam de liberdade de crença religiosa.
Nenhum órgão do Estado, organização pública ou indivíduo pode obrigar os cidadãos a acreditar ou a não acreditar em qualquer religião; nem pode exercer discriminação contra cidadãos por estes pertencerem ou não a qualquer religião.
O Estado protege as actividades religiosas normais. Ninguém pode servir-se da religião para se dedicar a actividades que alterem a ordem pública, ponham em perigo a saúde do cidadão ou interfiram no sistema educativo do Estado.
As instituições religiosas e os assuntos religiosos não estão subordinados a qualquer domínio estrangeiro”. (cf. http://bo.io.gov.mo/bo/i/1999/constituicao/index.asp) – (Uma coisa, no entanto, é a teoria e outra é a prática. Uma coisa é para consumo interno, outra é para exportação).
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3- Ateísmo na Bíblia
A Bíblia refere-se também ao Ateísmo, advertindo claramente em, pelo menos seis passagens bíblicas, que admiti-lo equivale a demonstrar uma incongruência. (Soares, 1964, Bíblia Sagrada. São Paulo: Edições Paulistas)
1º Texto: Salmo 10, 4:
“Diz o ímpio na arrogância do seu espírito: “Não castigará; Deus não existe” (Soares, 1964, p. 612).
2º Texto: Salmo 13,1:
“O insensato diz no seu coração: “Não há Deus”. Os homens corromperam-se, praticaram acções abomináveis; não há quem faça o bem” (Idem, p. 614).
3 º Texto: Salmo 18, 1-6:
“Os céus anunciam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos…” (Idem, p. 617).
4º Texto: Salmo 53,1-2:
“Diz o néscio no seu coração: “Não há Deus”. Perverteram-se os homens, cometeram acções abomináveis; não há quem faça o bem (Idem, p. 636).
5º Texto: Romanos 1,19-28:
“Com efeito a ira de Deus manifesta-se do céu contra toda a impiedade e injustiça daqueles homens que retêm na injustiça a vontade de Deus; porque o que se pode conhecer de Deus, lhes é manifesto, porque Deus lho manifestou…” (Idem, p. 1355).
6º Texto: Efésios 2,12:
“… estáveis nesse tempo sem Cristo, separados da sociedade de Israel, e estranhos aos testamentos, sem esperança da promessa, e sem Deus neste mundo…” (Idem, pp. 1408-1409).

Leitura aconselhada
“Ateísmo, consequência natural do Evolucionismo” Por Fabio Vanini. In Evolucionismo – [Online] [Consult 13-12-2011] Disponível em: http://www.respostacatolica.com.br/index.php?pag=42.

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4- Bibliografia
Arvon, Henri (1974). O Ateísmo. Europa-América.
Baggini, Julian (2003). Atheism: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press.
Cancian, André Dispore (2005). Ateísmo e Liberdade. São José do Rio Preto: Edição 5.
Eurostat poll on the social and religious beliefs of Europeans (PDF). Disponível em Eurostat poll.
Gabriel, João (2006). “ASBER, organização de ateus que buscam justiça democrática”. Rio de Janeiro (Colecção Religiões: Seus Prós e Contras).
Lagrange, Frédéric, A. (1925). History of Materialism and Criticism of Its Present Importance, with an introduction by B. Russell (3rd ed.).
Nestlé-Aland (1963/1969). Novum Testamentum Graece et Latine. London: United Bible Societies.
Rahner, Karl (1968). “Atheism”. In Karl Rahner editor, in Sacramentum Mundi, Vol. 1, pp. 116-122. Burns & Oates.
Rideau, Émile. (1953). Paganisme ou Christianisme. Études sur l’athéisme moderne. Casterman.
Rossi, Mario Manlio. (1942). Alle Fonti del deismo e del materialismo moderno. Firenza: Nuova Italia.
Soares, Matos (1964). Bíblia Sagrada. São Paulo: Edições Paulinas.
Smith George H. (1979). Atheism: The Case against God. [S.l.]: Buffalo, New York: Prometheus. Souza, Draiton Gonzaga de (1994). O ateísmo antropológico de Ludwig Feuerbach. Porto Alegre: EDIPUCRS.
The Cambridge Companion to Atheism (2007). Cambridge: Cambridge University Press.
Thorower, James (1982). Breve história do ateísmo ocidental. São Paulo: Edições 70. (Colecção Saber da Filosofia).
Zdybiska, Zifia, J. (2005). Universal Encyclopedia of Philosophy: Polish Thomas Aquinas Association, vol. 1.

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