Religião é tortura e morte



Robert G. Ingersoll 



Afirma-se que um Deus infinito criou todas as coisas, que governa todas as coisas e que suas criaturas devem ser obedientes e gratas ao criador; que tal criador exige certas coisas, e a pessoa que concorda com tais demandas é religiosa. Este tipo de religião tem sido substancialmente universal.

Por muitos séculos e em muitos povos existiu a crença que tal Deus exigia sacrifícios — que lhe agradava quando pais derramavam o sangue de seus bebês. Posteriormente, supôs-se que ficava satisfeito com o sangue de bois, cordeiros e pombas, e que, em troca ou em consideração a tais sacrifícios, Deus dava a chuva, o sol e a colheita. Também se acreditava que se os sacrifícios não fossem feitos, este Deus enviaria pestilência, fome, inundação e terremotos.

A última fase desta crença no sacrifício foi, de acordo com a doutrina cristã, que Deus aceitou o sangue de seu filho — que, depois de seu filho ter sido assassinado, ele, Deus, satisfez-se e deixou de desejar sangue.

Durante todos esses anos e em todos esses povos, havia a crença de que este Deus ouvia e respondia orações, que perdoava pecados e salvava as almas dos verdadeiros fiéis. Isso, de um modo genérico, é a definição de religião.

Agora, as questões são estas: será que a religião foi fundamentada em qualquer fato conhecido? Será que este tipo de ser — Deus — existe? Será que foi ele quem nos criou? Será que alguma oração já foi respondida? Será que algum sacrifício de bebês ou bois assegurou a mercê deste Deus invisível?

Primeiro:

Um Deus infinito criou os homens?

Por que criou os intelectualmente inferiores?

Por que criou os deformados e os desvalidos?

Por que criou os criminosos, os dementes, os loucos?

O poder e a sabedoria infinitas podem apresentar qualquer justificativa para a criação dessas falhas?

Tais falhas estão sob a obrigação de seu criador?

Segundo:

Um Deus infinito é o governador deste mundo?

É o responsável por todos os chefes, reis, imperadores e rainhas?

É o responsável por todas as guerras que foram travadas, por todo o sangue inocente que foi derramado?

É o responsável por séculos de escravidão, pelas costas que foram feridas pelo flagelo, pelos bebês que foram vendidos ainda no seio de suas mães, pelas famílias que foram separadas e destruídas?

Este Deus é o responsável pela perseguição religiosa, pela Inquisição e por todos os instrumentos de tortura?

Este Deus permitiu que os cruéis e vis destruíssem os bravos e os virtuosos? Permitiu que tiranos derramassem o sangue de patriotas?

Permitiu que seus inimigos torturassem e queimassem seus amigos?

Quanto vale um Deus dessa espécie?

Um homem decente, tendo poder para evitá-lo, permitiria que seus inimigos torturassem e queimassem seus amigos?

É possível concebermos uma malevolência suficiente para dar preferência aos inimigos em vez dos amigos?

Se um Deus bondoso e infinitamente poderoso governa este mundo, como podemos justificar os ciclones, os terremotos, a pestilência e a fome?

Como podemos justificar o câncer, os micróbios, a difteria e o milhar de outras doenças que atacam durante a infância?

Como podemos justificar as bestas selvagens que devoram seres humanos e as serpentes cujas mordidas são letais?

Como podemos justificar um mundo onde a vida alimenta-se da vida?

Será que os bicos, garras, dentes e presas foram inventados e produzidos pela infinita misericórdia?

A bondade infinita deu asas às águias para que suas presas fugazes pudessem ser arrebatadas?

A bondade infinita criou os animais de rapina com a intenção de que eles devorassem os fracos e os desamparados?

A bondade infinita criou as inumeráveis criaturas inúteis que se reproduzem dentro de outros seres e se alimentam de sua carne?

A sabedoria infinita produziu intencionalmente os seres microscópicos que se alimentam do nervo óptico?

Pense na ideia de cegar um homem para satisfazer o apetite de um micróbio!

Pense na vida alimentando-se da própria vida! Pense nas vítimas! Pense no Niagara de sangue se derramando no precipício da crueldade!

Tendo em vista tais fatos, o que é, afinal, a religião?

É o medo.

O medo constrói altares e oferece sacrifícios.

O medo erige catedrais e curva a cabeça dos homens em adoração.

O medo dobra os joelhos e profere as orações.

O medo finge amar.

A religião ensina virtudes escravizantes — obediência, humildade, autonegação, perdão e conformismo.

Lábios — religiosos e tementes — repetem, tremulantes, esta passagem: “Ainda que ele me mate, nele confiarei” (cf. Jó — 13:15). Isso é um abismo de degradação.

A religião NÃO ensina autoconfiança, independência, hombridade, coragem, autodefesa. A religião faz de Deus o mestre e do homem seu servo. E tal mestre não consegue ser suficientemente grandioso para fazer da escravidão algo aprazível.

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