Luta pela Mente

William Sargant

Índice

Apresentação
Introdução
Capítulo I: Experiências com Animais
Capítulo II: Comportamento Animal e Humano Comparado
Capítulo III: O Uso de Drogas em Psicoterapia
Capítulo IV: Psicanálise, Tratamento de Choque e Leucotomia
Capítulo V: Técnicas de Conversão Religiosa
Capítulo VI: Aplicações de Técnicas Religiosas
Capítulo VII: Lavagem Cerebral na Religião e na Política
Capítulo VIII Lavagem Cerebral na Antiguidade (por Robert Graves)
Capítulo IX: A Obtenção de Confissões
Capítulo X: Consolidação e Prevenção
Capítulo XI: Conclusões Gerais
Apêndice: Considerações sobre a mistificação religiosa em tempos recentes (por Nélson Jahr Garcia)
Notas
Bibliografia

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Apresentação

Este livro, de William Sargant, traz revelações importantíssimas sobre o funcionamento da mente humana e sua manipulação por políticos e sacerdotes. Não se apoia apenas em especulações teóricas de gabinete, mas em experimentos concretos realizados por Pavlov, Freud, vários psiquiatras e, principalmente, por ele próprio.

Com o auxílio do historiador Robert Graves demonstra como a conquista de cérebros, longe de ser uma atividade recente, é uma prática existente desde a Antiguidade.

O leitor pode compreender as técnicas mais frequentes de manipulação tais como empregadas por políticos, religiosos, torturadores.

Torna-se possível compreender o objetivo de certas práticas do catolicismo, protestantismo e seitas derivadas, cultos africanos, vodu.

O leitor adquire condições de conhecer técnicas de hipnose e manipulação. Menos que empregá-las, importa aprender a se defender delas.

Nestes tempos de temor e insegurança, em que tantos perderam a noção de como sobreviver numa realidade adversa e estão a procura de salvação, tornando-se presas fáceis de manipuladores desonestos, a obra é de incrível atualidade.

 

Nélson Jahr Garcia

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Introdução

Políticos, sacerdotes e psiquiatras muitas vezes enfrentam o mesmo problema: como encontrar o meio mais rápido e permanente de mudar as convicções de um homem. Quando, ao aproximar-se o fim da Segunda Guerra Mundial, me interessou pela primeira vez a semelhança dos métodos que, periodicamente, têm sido usados pela Política, Religião e Psiquiatria, deixei de perceber a enorme importância que o problema tem agora por causa de um conflito ideológico que parece destinado a decidir dos rumos da civilização em séculos futuros. O problema do médico e de seu paciente com doença nervosa e do líder religioso que se dispõe a conquistar e conservar novos neófitos tornou-se agora o problema de grupos inteiros de nações que desejam não apenas preservar certas crenças políticas dentro de suas fronteiras, mas fazer prosélitos fora delas. (1) A Grã-Bretanha e os Estados Unidos veem-se, portanto, obrigados pelo menos a estudar seriamente as formas especializadas de pesquisa neurofisiológica que têm sido cultivadas com tanta intensidade pelos russos desde a Revolução e têm ajudado a aperfeiçoar os métodos agora popularmente chamados de “lavagem cerebral” ou “controle do pensamento”. Em agosto de 1954 o secretário da Defesa dos Estados Unidos anunciou a nomeação de uma comissão especial para estudar como os prisioneiros de guerra podiam ser treinados para resistir à lavagem cerebral. Reconheceu ele a conveniência de rever as leis existentes, os acordos governamentais e a política dos departamentos militares com relação aos prisioneiros capturados pelas nações do bloco soviético. Essa comissão enviou um relatório ao Presidente norte-americano em agosto de 1955. (2)

Também na Grã-Bretanha tem sido largamente reconhecida a necessidade de pesquisas mais sérias sobre as técnicas da conversão política rápida. Há muitos anos, por exemplo, a sra. Charlotte Tialdane advogou a realização de pesquisas sobre o mecanismo psicológico do processo pelo qual ela, esposa de um famoso cientista britânico, fora convertida à crença na interpretação russa oficial da dialética marxista; e aquele pelo qual se reconvertera ao ponto de vista ocidental, depois de não ter conseguido durante muitos anos perceber a falsidade do sistema russo. Koestler e muitos outros descreveram experiências pessoais idênticas. (3)

Muitos se espantam diante do espetáculo de uma pessoa inteligente e mentalmente equilibrada que, levada a julgamento atrás da Cortina de Ferro, acaba não só acreditando, mas proclamando sinceramente que todas as suas ações e ideias passadas eram criminosamente erradas. “Como se dá isso ?” — perguntam.

Nem sempre se percebe que isso pode ser o equivalente político daquela espécie de conversão religiosa que leva pessoas comuns e decentes a acreditarem que suas vidas não só foram inúteis como merecem eterna maldição por se terem descuidado de algum pormenor religioso. O mesmo processo psicológico pode ser visto em ação num paciente que se submete à psicanálise: ele pode ser persuadido de que anomalias em seu comportamento foram causadas por intenso ódio ao pai, embora sempre lhe tivesse demonstrado afeição e dedicação. Como podem as pessoas ser induzidas a acreditar naquilo que contradiz fatos evidentes? (4) Uma distinção geral deve ser feita entre as mudanças graduais de visão do mundo e comportamento devidas ao avanço da idade, da experiência e da razão, e a abrupta reorientação total de ponto de vista. Muitas vezes provocada pelos outros e que implica na renúncia a crenças longamente sustentadas e na adoção de novas crenças frequentemente opostas àquelas.

Este livro examinará alguns dos aspectos mecânicos e fisiológicos mais importantes do problema e como novas ideias podem ser transplantadas e firmemente enraizadas nas mentes até mesmo daqueles que a princípio as rejeitavam. Circunstâncias casuais estimularam meu interesse pelo assunto. A Segunda Guerra Mundial ofereceu à medicina oportunidades raras para estudar o colapso de pessoas normais submetidas a pressões intensas. Na Inglaterra, à época da invasão da Normandia em junho de 1944, medidas especiais foram adotadas para enfrentar novo surto de neurose aguda em militares e civis, resultante daquela operação. Certo dia, a caminho de um centro para tratamento de emergência de neurose, logo depois do começo da invasão, parei em um hospital neuropsiquiátrico norte-americano para visitar um colega, o dr. Howard Fabing. Acabara ele de ler um livro do renomado neurofisiologista russo I. P. Pavlov, intitulado “Reflexos Condicionados e Psiquiatria” (5) e me aconselhou a fazer o mesmo imediatamente. O livro consistia em uma série de conferências feitas por Pavlov pouco antes de sua morte, em 1936, aos 86 anos; mas só foi encontrado em inglês em 1941. Exemplares da tradução haviam sido destruídos durante a blitz de Londres no mesmo ano, mas o dr. Fabing conseguira obter um deles. Como muitos neuropsiquiatras da Segunda Guerra Mundial, achara as observações de Pavlov sobre os animais extremamente úteis para a melhor compreensão de certos padrões de comportamento observados quando seres humanos entram em colapso sob pressão anormal. (6)

As descrições clínicas de Pavlov sobre as “neuroses experimentais” que pode provocar em cães demonstraram corresponder de fato, muito de perto, às neuroses de guerra que estávamos investigando naquele tempo. Da mesma maneira, muitos dos tratamentos físicos, que por experiência foram desenvolvidos gradualmente durante a guerra para aliviar sintomas nervosos agudos, tinham obviamente sido antecipados por Pavlov, como resultado de suas longas pesquisas com cães. (7) Tornava-se claro, então, que havia necessidade de um estudo muito mais cuidadoso do que vinha sendo feito ultimamente na Inglaterra ou nos Estados Unidos sobre algumas daquelas descobertas, em sua possível relação com a psiquiatria humana.

As semelhanças entre estas neuroses e as neuroses de cães eram tão grandes que fizeram parecer ainda mais improvável serem corretas muitas das teorias psicológicas correntes sobre as origens das neuroses humanas e outras anormalidades de comportamento; a menos que se admitisse que os cães de Pavlov tinham subconscientes e também superegos, egos e ids. E a parte desempenhada pelas alterações na função do próprio cérebro humano também tinha sido, ao que parecia, sumariamente desprezada por alguns, na tentativa de explicar as razões não apenas de comportamentos neuróticos e criminosos, mas de todas as mudanças, reconsiderações e ajustamentos mentais que produzem o chamado comportamento “normal” em qualquer pessoa, à medida que reage contra o seu meio.

Quando, no fim da vida, Pavlov começou a comparar os resultados dos distúrbios da função cerebral notados em seus animais com aqueles verificados em seres humanos, essa fase de seu trabalho foi pouco estudada fora da Rússia; e inúmeros psiquiatras ingleses e norte-americanos ainda a desdenham, embora há muito tempo possam ser encontrados em ambos os países os livros referentes à questão. O fato é que Pavlov continua a ser conhecido principalmente pelas suas experiências de laboratório com animais e que lhe valeram o Prêmio Nobel; e muitos psiquiatras preferem uma base mais ampla para trabalhar do que o seu simples critério mecânico e fisiológico. Além disso, existe certa repugnância no mundo ocidental pelas investigações de Pavlov. Convicções culturais dão ao homem, além de cérebro e sistema nervoso, uma alma metafísica de ação independente, que se presume ajudar a controlar seu comportamento ético e determinar seus valores espirituais. De acordo com essa opinião ampla e vigorosamente sustentada, os animais irracionais têm cérebro, mas não alma. Isso torna odiosa qualquer comparação entre os padrões de comportamento do homem e dos animais irracionais. Esta opinião persiste, até mesmo entre alguns cientistas, quase como um teste de respeitabilidade moral, embora estudos das funções fisiológicas dos animais tenham sido reconhecidos como de grande valor para a compreensão do trabalho da máquina humana.

No Reino Unido, este preconceito contra Pavlov permitiu a muitos cientistas porem de lado o seu trabalho; e nos Estados Unidos teve o mesmo efeito a onda de entusiasmo pela psicanálise de Freud, que inundou o país muitos anos depois de sua introdução e uso na Europa. Muitos psiquiatras e psicólogos de ambos os países têm, de fato, fechado os olhos às teses de Pavlov, embora o seu ponto de vista seja impecavelmente científico. Pavlov sempre insistiu em que fatos experimentais que possam ser testados e verificados repetidamente devem ter precedência sobre as especulações psicológicas mais vagas e amplas, por mais limitado que seja o seu alcance.

As pesquisas psiquiátricas na Grã-Bretanha tornaram-se, contudo, muito mais realistas a partir da Segunda Guerra Mundial. Drogas e outros métodos físicos produziram resultados tão inegáveis no tratamento de neuroses de guerra agudas em civis e militares, que se deu alta prioridade às pesquisas de auxílios fisiológicos para a psiquiatria, e essa política ainda persiste. Na verdade, foi o uso de drogas em psicoterapia que sugeriu este estudo sobre os métodos experimentais de Pavlov para mudar os padrões de comportamento dos animais, e sobre a mecânica em que se baseiam as técnicas históricas de doutrinação humana, de conversão religiosa, de lavagem cerebral e coisas semelhantes. (8) No início da guerra, durante o tratamento de neuroses agudas resultantes da evacuação de Dunquerque, da Batalha da Inglaterra e da blitz de Londres, tornara-se óbvio o valor de certas drogas para ajudar o paciente a descarregar as emoções reprimidas das terríveis experiências que lhe haviam causado o colapso mental. Esse método fora usado em escala mais limitada nos tempos de paz por Stephen Horsley e outros. (9) À medida que a guerra avançava e depois de terminada, prosseguiram as experiências com grande variedade dessas drogas e muito se aprendeu sobre suas propriedades.(10)

Uma droga era administrada a um paciente cuidadosamente escolhido — através de injeção na veia ou inalação — e, quando começava a ter efeito, esforçava-se para fazê-lo reviver o episódio que lhe causara o colapso. Algumas vezes o episódio, ou episódios, haviam sido mentalmente suprimidos e era preciso trazer outra vez sua lembrança à superfície. Outras vezes o episódio era totalmente lembrado, mas as fortes emoções originariamente ligadas a ele haviam sido reprimidas. A melhora do estado nervoso do paciente era atribuída à descarga das emoções originais. Descobriu-se também que as emoções mais proveitosamente descarregadas — ou “abreagidas”, como se diz em psiquiatria — eram aquelas de medo ou raiva; pouco se poderia conseguir forçando, digamos, um paciente melancólico a chorar ou tornar-se mais deprimido.

Nossa primeira leitura do livro de Pavlov, em 1944, coincidiu com a aquisição de mais alguns conhecimentos sobre esse tratamento por meio de drogas. Descobriu-se que algumas vezes se poderia restaurar a saúde mental do paciente não por fazê-lo reviver uma experiência traumática particular, mas por incitar nele emoções fortes não diretamente ligadas àquela experiência e ajudá-lo a descarregá-las. Assim, em alguns casos de neurose aguda adquirida nas batalhas da Normandia, ou causada pela explosão das bombas V, podiam ser sugeridas a um paciente, sob a ação das drogas, situações inteiramente imaginárias para “abreagir” emoções de medo e raiva, embora tais situações estivessem de certo modo relacionadas com as experiências que vivera. Na verdade, resultados muito melhores podiam ser obtidos levando-se o paciente a emocionar-se com acontecimentos imaginários do que a reviver acontecimentos reais com pormenores. Por exemplo, o paciente que tivesse sofrido colapso depois de uma batalha de tanques poderia ser levado a crer, sob o efeito de drogas, que se encontrava num tanque em chamas e precisava lutar para escapar. Embora essa situação nunca tivesse realmente ocorrido, o medo de que acontecesse seria uma das causas de seu eventual colapso.

Essas explosões de medo e cólera, deliberadamente provocadas e estimuladas num crescendo pelo terapeuta, frequentemente seriam seguidas de súbito colapso emocional. O paciente cairia inerte no divã — em consequência da descarga emocional, não da droga — mas logo se reanimaria. Então, frequentemente acontecia que ele comunicava um dramático desaparecimento de muitos sintomas nervosos. Se, todavia, pouca emoção fora libertada e se ele apenas tivera reavivada a lembrança de algum episódio terrível, pouco benefício podia esperar-se. Entretanto, uma lembrança implantada artificialmente poderia criar uma descarga emocional maior do que a real e provocar os efeitos fisiológicos necessários ao alívio psicológico. Uma técnica de estimular deliberadamente raiva e medo sob drogas até prostrar o paciente foi finalmente aperfeiçoada com a ajuda das descobertas de Pavlov. Para isso contribuíram especialmente algumas observações que Pavlov fez sobre o comportamento de seus cães, depois que quase se afogaram na inundação de Leningrado, em 1924. Essas observações serão examinadas em outros capítulos.

Uma tarde, quando essa técnica estava sendo aplicada às vítimas mais normais de duras batalhas ou da tensão dos bombardeios — ela era menos útil no tratamento de neuróticos crônicos — visitei a casa de meu pai e tomei um de seus livros ao acaso. Era o “Diário” de John Wesley, de 1739-40. Meus olhos foram atraídos pelos minuciosos relatórios de Wesley sobre a ocorrência, duzentos anos atrás, de estados de excitação emocional quase idênticos, muitas vezes levando ao colapso emocional temporário, que ele provocava com uma pregação especial. Esses fenômenos geralmente aconteciam quando Wesley persuadia seus ouvintes de que deviam fazer uma escolha imediata entre a condenação eterna e certa e a aceitação de suas opiniões religiosas salvadoras de almas. O medo das chamas do inferno inspirado pela sua rebuscada pregação podia comparar-se à sugestão provocada em um soldado sob tratamento de que corria perigo de ser queimado dentro de um tanque em chamas e precisava escapar a todo custo. As duas técnicas pareciam incrivelmente semelhantes.

Os metodistas modernos geralmente se confundem ao ler os detalhados relatos de Wesley sobre esses sucessos; não compreendem que a razão de suas próprias pregações parecerem ineficazes talvez esteja apenas na moda atual de apelar ao intelecto em lugar de provocar emoções forte em uma congregação.

De fato, parecia possível então que muitos dos resultados alcançados através da “abreação” sob a ação de drogas fossem, em essência, iguais àqueles obtidos, não apenas por Wesley e outros líderes religiosos, mas pelos modernos “lavadores de cérebro”, embora diferentes explicações fossem dadas, sem dúvida, para cada caso. Parecia também que, ao modificar o comportamento de animais, Pavlov fornecera prova experimental que ajudara a explicar por que certos métodos de produzir mudanças semelhantes no homem davam certo. Sem essas experiências em um centro de neurose durante a guerra não teria surgido a ideia de ligar a mecânica fisiológica usada por Pavlov em seus experimentos com animais à conversão em massa da gente comum conseguida por Wesley na Inglaterra do século XVIII, e de realizar o presente estudo. (11)

No outono de 1944, um período de doença permitiu-me passar várias semanas seguindo esses indícios, estudando casos de conversões repentinas e os meios de induzir crença na possessão divina praticados por diversos grupos religiosos em todo o mundo. Em 1947-48 passei algum tempo nos Estados Unidos, onde tive oportunidade de estudar, pela primeira vez, algumas das técnicas de “revival” (12) ainda usadas em muitas regiões do país. Deram-me a impressão de ser importantes para esta investigação porque ainda são extremamente eficazes quando usadas por profissionais competentes. Na Inglaterra praticamente já desapareceram. (13)

Após dez anos de estudo intermitente, um segundo período de doença permitiu-me reorganizar e preparar para este livro diversos artigos escritos naquele tempo, muitos dos quais publicados em revistas científicas. A crua mecânica das técnicas estudadas compõe apenas parte do quadro; mas, porque sua importância é tão frequentemente ignorada por aqueles que acreditam serem os argumentos racionais muito mais eficientes do que os outros métodos de doutrinação, parece realmente importante que o mundo ocidental tome conhecimento delas.

Observar tais métodos em ação e apreciar seu devastador efeito sobre a mente de pessoas comuns é uma experiência tão horrível e desnorteante que nos sentimos tentados a voltar as costas ao que é matéria de fundamental importância para nosso futuro cultural e gritar desafiadoramente: “Os homens não são cães!” — como de fato não são. Os cães, pelo menos, não têm realizado experimentos com o homem. Enquanto isso, todavia, grande parte da população do mundo não apenas está sendo redoutrinada, como teve todo o seu sistema médico reorientado de acordo com as linhas pavlovianas — em parte porque o método de encarar do ponto de vista mecânico e fisiológico o que, no Ocidente, era mais comumente considerado como da esfera da filosofia e da religião, tem dado resultados politicamente convenientes.

Nos capítulos seguintes será fornecido o testemunho para as observações gerais feitas acima. Convém acentuar que este livro não cuida particularmente de qualquer sistema político ou ético; seu objetivo é apenas mostrar como crenças, boas ou más, falsas ou verdadeiras, podem ser implantadas no cérebro humano pela força, e como as pessoas podem ser convertidas a crenças inteiramente opostas àquelas que antes possuíam. Evitei um estilo muito técnico porque, se políticos, sacerdotes, psiquiatras e forças policiais em várias partes do mundo continuam a usar esses métodos, as pessoas comuns devem saber o que esperar e quais os melhores meios de preservar seus antigos hábitos de pensamento e comportamento, quando submetidas à doutrinação indesejável.

Admito que este livro não contém fato basicamente novo. Todo assunto discutido nele pode ser encontrado, para estudos ulteriores, em revistas e livros a que faço referência. Mas aqui tratei do assunto mais extensamente do que qualquer escritor que me precedeu, em uma tentativa de ligar e correlacionar observações de muitas fontes aparentemente desligadas e não relacionadas entre si. A conclusão é a de que realmente existem mecanismos fisiológicos simples de conversão e que, portanto, ainda temos muito a aprender, a partir de um estudo das funções do cérebro, sobre questões que até agora foram consideradas da esfera exclusiva da psicologia ou da metafísica. A luta político-religiosa pela conquista da mente do homem pode muito bem ser vencida por aquele que se torne mais versado nas funções normais e anormais do cérebro e esteja mais preparado a fazer uso do conhecimento obtido.

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Capítulo I

Experiências com Animais

Durante mais de 30 anos de pesquisas, Pavlov acumulou grande quantidade de observações sobre vários métodos de produzir — e em seguida destruir — padrões de comportamento em cães. Interpretou suas descobertas em termos mecânicos que desde então têm sido confirmados com frequência. Horsley Grantt atribuiu a ausência de erros importantes no trabalho de Pavlov a seus “métodos cuidadosos, seus controles adequados, seu hábito de entregar o mesmo problema a diversos colaboradores que trabalhavam em laboratórios ou institutos separados, com os quais verificava os resultados e inspecionava os experimentos…” (14)

Pavlov ganhara o Prêmio Nobel, em 1903, pelas pesquisas sobre a fisiologia da digestão, antes de iniciar os estudos sobre o que chamou de “atividade nervosa superior” em animais. O que mudou seu plano de investigação foi ter sentido que não poderia aprender senão um pouco mais sobre as funções digestivas até que tivesse investigado o funcionamento do cérebro e do sistema nervoso, os quais muitas vezes pareciam influir na digestão. Aí as implicações de seu novo estudo absorveram-no tão profundamente que concentrou nele toda a atenção até a sua morte em 1936, com 86 anos.

Pavlov era um dos cientistas russos do velho regime cujo trabalho Lenine julgou suficientemente valioso para ser encorajado depois da Revolução; e, ainda que criticasse bastante o novo regime, Pavlov continuou a receber generoso apoio do governo. Dentro e fora da Rússia admiravam-no pela corajosa atitude que adotou e somente no fim de sua vida resolveu aceitar viver sob uma ditadura. Ironicamente, ele é considerado agora como um dos líderes da Revolução e em publicações soviéticas recentes não se faz menções à sua persistente oposição ao regime. Horsley Grantt perguntou-lhe, ao visitá-lo em 1933, por que sua atitude era então mais conciliadora; e Pavlov respondeu-lhe, meio jocosamente, que aos 83 anos seu coração não mais podia suportar as suas violentas explosões contra as autoridades que o apadrinharam. (15) Além disso, mais ou menos naquele tempo, os nazistas começaram a ameaçar a Rússia, e a grande desconfiança de Pavlov pela Alemanha levou-o a arrefecer sua hostilidade pelo governo de seu país. Mas, embora já estivesse relacionando suas descobertas sobre os animais com os problemas do comportamento humano, é extremamente duvidoso que houvesse previsto a possibilidade de seu trabalho vir a ser usado como instrumento da política soviética. Como sempre exigiu e obteve liberdade de pensamento para si mesmo, é improvável que tivesse desejado diminuir a dos outros. Insistiu em viajar ao exterior para manter contacto com seus colegas e foi grandemente ovacionado ao fazer conferências na Inglaterra pouco antes de morrer.

Pavlov, portanto, não pode ser considerado um cientista típico do regime soviético, mesmo que grande parte de seus melhores trabalhos não tivesse sido feita antes da Revolução. Contudo, os comunistas devem ter considerado o critério mecânico para o estudo fisiológico do comportamento em cães e homens muito útil à execução de sua política de doutrinação. Em julho de 1950, baixou-se um regulamento médico na Rússia para a reorientação da medicina soviética de acordo com a linha pavloviana (16) — provavelmente em parte por causa dos impressionantes resultados obtidos pela aplicação das pesquisas de Pavlov a fins políticos. Entretanto, fora da Rússia, suas implicações continuam a ser ignoradas às vezes.

Logo depois que Pavlov expressou o desejo de aplicar suas descobertas experimentais sobre o comportamento animal a problemas de psicologia mórbida em seres humanos, o governo soviético colocou à sua disposição uma clínica psiquiátrica. Sua primeira conferência sobre esse tópico foi feita em 1930, com o título de “Tentativa de Excursão de um Fisiologista pelo Campo da Psiquiatria”. Pode ser que esses novos interesses datem de uma operação de vesícula que sofreu em 1927, pois, na ocasião, publicou seu significativo trabalho “Uma Neurose Cardíaca Pós-operatória Analisada pelo Paciente: Ivan Petrov Pavlov”. (17)

O trabalho de Pavlov parece ter influenciado as técnicas usadas na Rússia e na China para a obtenção de confissões, para lavagens cerebrais e para produzir conversões políticas repentinas. Suas descobertas, aplicáveis nesses casos, seriam facilmente compreendidas até pelo leitor comum sem necessidade de perder muito tempo com os detalhes de seus experimentos reais. A maioria dessas descobertas é bem relatada numa série das últimas conferências de Pavlov traduzidas por Horsley Grantt e publicadas na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos em 1941 sob o título “Conditioned Reflexes and Psychiatry”. (18) O instrutivo livro do professor Y. P. Frolov sobre esses experimentos, “Pavlov and his School” (1938) foi também traduzido e publicado em inglês. (19)O mais recente, “Life of Pavlov”, de autoria do professor Babkin, contudo, faz pouca referência a algumas de suas descobertas mais importantes do ponto de vista desse estudo. (20) E, embora o dr. Joseph Wortis no seu livro “Soviet Psychiatry”, publicado nos Estados Unidos (21), acentue a importância do critério experimental, usado por Pavlov no exame de problemas psiquiátricos, para a moderna medicina russa, poucos detalhes fornece acerca da última fase importante do trabalho de Pavlov. Uma biografia oficial de Pavlov publicada em Moscou em 1949, escrita por E. A. Asratyan (22), também contém muitos pormenores dos primeiros trabalhos experimentais de Pavlov sobre reflexos condicionados em animais, mas escassos detalhes de seus trabalhos posteriores sobre as técnicas de conversão e lavagem cerebral. De qualquer modo, nenhuma publicação em inglês explicou, até agora, esses trabalhos aos leitores comuns. Mas já se encontra em inglês uma boa tradução das obras escolhidas de Pavlov. (23)

Trinta anos de pesquisa convenceram Pavlov de que os quatro temperamentos básicos de seus cães se assemelhavam muito àqueles diferenciados no homem pelo médico grego da Antiguidade, Hipócrates. Embora muitas combinações de padrões básicos de temperamento aparecessem nos cães de Pavlov, podiam elas ser consideradas como tais e não como novas categorias de temperamento.

O primeiro dos quatro temperamentos correspondia ao tipo “colérico” de Hipócrates, que Pavlov chamou de “excitado”. O segundo correspondia ao “temperamento sanguíneo” de Hipócrates; Pavlov chamou-o de “vivo”, sendo que os cães desse tipo possuíam temperamento mais equilibrado. A resposta normal de ambos os tipos a tensões impostas ou a situações de conflito era uma excitação crescente e um comportamento mais agressivo. Mas onde o cão “colérico”, ou “excitado”, muitas vezes se tornava incontrolavelmente selvagem, as reações do cão “sanguíneo” ou “vivo” às mesmas pressões eram dirigidas e controladas.

Nos outros dois tipos principais de temperamento canino as tensões impostas e as situações de conflito eram enfrentadas com maior passividade, ou “inibição”, ao invés de agressivamente. O mais estável desses dois temperamentos inibitórios foi descrito por Pavlov como o “tipo calmo imperturbável, ou tipo fleumático de Hipócrates”. O temperamento restante identificado por Pavlov corresponde à classificação “melancólico” de Hipócrates. Pavlov chamou-o de tipo “inibido”. Descobriu ele que um cão desse tipo demonstra tendência constitucional a enfrentar ansiedades e conflitos com passividade e controle de tensão. Qualquer pressão experimental forte sobre o seu sistema nervoso o reduz a um estado de inibição cerebral e “paralisia pelo medo”.

Todavia, Pavlov descobriu que também os outros três tipos respondiam no fim com estados de inibição cerebral, quando submetidos a mais pressão do que podiam suportar pelos meios normais. Considerou isso como um mecanismo protetor normalmente usado pelo cérebro como último recurso quando pressionado além do ponto de tolerância. Porém, o tipo “inibido” de cão era uma exceção: a inibição protetora ocorria mais rapidamente e em resposta a pressões menos intensas — uma diferença da maior significação para o seu estudo.

Pavlov reconheceu plenamente a grande importância do ambiente, assim como a da constituição, ao determinar os padrões finais de comportamento de seus cães. Descobriu que certos instintos fundamentais, tais como sexo ou necessidade de comida, eram constantemente adaptados a mudanças de ambiente pela formação de padrões de comportamento apropriados. Um cachorro sem o córtex cerebral (que contém algumas das mais complicadas conexões entre os principais centros do cérebro) ainda podia engolir o alimento colocado em sua boca; mas precisava de córtex cerebral e meios de formar reflexos condicionados complicados para aprender que o alimento seria dado somente depois de um choque elétrico de certa intensidade ou depois que um metrônomo tivesse sido ouvido soando em determinado ritmo.

Ao discutir o tipo “inibido” Pavlov afirmou que, não obstante seja herdado o padrão básico de temperamento, todo cão é condicionado desde o nascimento pelas várias influências do meio que podem produzir padrões inibitórios de comportamento duradouros sob certas pressões. O padrão final de comportamento em qualquer cão reflete, portanto, o seu próprio temperamento constitucional e padrões de comportamento específicos induzidos pelas pressões do meio.

Os experimentos de Pavlov levaram-no a tomar crescente cuidado com a necessidade de classificar os cães de acordo com seus temperamentos constitucionais herdados, antes de submetê-los a qualquer de seus experimentos mais detalhados em condicionamento. Assim foi porque respostas diferentes à mesma pressão experimental ou situação de conflito vieram de cães de temperamentos diferentes. Se um cão entrasse em colapso e apresentasse padrão de comportamento anormal, o seu tratamento também dependeria primariamente de seu tipo constitucional. Pavlov confirmou, por exemplo, que os brometos auxiliam grandemente a restauração da estabilidade nervosa em cães que entraram em colapso; mas a dose de sedativo requerida por um cão do tipo “excitado” é cinco a oito vezes maior do que a requerida por um cão “inibido” de peso exatamente igual. Na Segunda Guerra Mundial a mesma regra geral serviu para seres humanos que entraram temporariamente em colapso sob a pressão de batalha e bombardeio, e precisavam da “sedação de linha de frente”. As doses requeridas variavam grandemente de acordo com seus tipos de temperamento.

No fim de sua vida, quando estava aplicando experimentalmente suas descobertas sobre cães a pesquisas da psicologia humana, Pavlov concentrou-se no que acontecia quando a atuação sobre o sistema nervoso superior de seus cães ia além dos limites da reação normal, e comparou os resultados com relatórios clínicos sobre vários tipos de colapso mental agudo e crônico em seres humanos. Descobriu que aos cães normais do tipo “vivo” ou “calmo imperturbável” podiam ser aplicadas, sem causar colapso, pressões mais intensas e prolongadas do que àqueles dos tipos “excitado” e “inibido”.

Pavlov veio a acreditar que essa inibição “transmarginal” (também tem sido denominada “ultradivisória” ou “ultramaximal”) que eventualmente dominou até mesmo os dois primeiros tipos — mudando-lhes dramaticamente todo o comportamento — podia ser essencialmente protetora. Quando ocorria, o cérebro não tinha senão esse meio de evitar dano em consequência da fadiga e da tensão nervosa. Achou um meio de averiguar o grau de inibição transmarginal protetora em qualquer cão e a qualquer momento: através do uso da sua técnica do reflexo condicionado da glândula salivar. Embora o comportamento geral do cão pudesse parecer normal à primeira vista, a quantidade de saliva secretada dir-lhe-ia o que estava começando a passar-se em seu cérebro.

Nesses testes o cão recebia um sinal definido — como a batida do metrônomo a certa velocidade ou a passagem de uma corrente elétrica fraca pela sua perna — antes de receber a comida. Depois de certo tempo o sinal provocava um fluxo antecipado de saliva, sem necessidade de se deixar o cão ver ou cheirar a comida. Assim, tendo-se estabelecido no cérebro um reflexo condicionado entre um sinal e a expectativa de alimento, a quantidade de saliva segregada podia ser medida com precisão em gotas, e quaisquer mudanças nas respostas dos reflexos condicionados e dos padrões induzidos do cérebro podiam ser perfeitamente registradas.

Permitam-me divagar aqui para salientar a importância dos experimentos de Pavlov sobre os reflexos condicionados para os fatos comuns da vida humana cotidiana. Muito comportamento humano resulta de padrões de comportamento condicionado implantados no cérebro especialmente durante a infância. Estes podem persistir quase sem modificação, mas muito frequentemente se adaptam gradualmente às mudanças de ambiente. Porém, quanto mais velha a pessoa tanto menos facilmente pode improvisar novas respostas condicionadas a tais mudanças; a tendência, então, é fazer o ambiente ajustar-se a suas respostas cada vez mais previsíveis. Muito da nossa vida consiste na aplicação inconsciente de padrões de reflexo condicionado adquiridos originariamente por árduo estudo. Exemplo claro é a maneira como um motorista acumula inúmeras e variadas respostas condicionadas antes de ser capaz de dirigir o carro através de uma rua cheia de gente sem prestar muita atenção consciente ao processo — o que muitas vezes se chama “dirigir automaticamente”. Se passar depois para um campo aberto, o motorista mudará para um novo padrão de comportamento automático. De fato, o cérebro humano vive adaptando-se constantemente de modo reflexo às mudanças de ambiente, embora as primeiras lições em qualquer processo — como o de dirigir automóvel — possam exigir difíceis e até tediosos esforços de concentração.

Os cérebros humanos e canino são obrigados a acumular uma série de respostas condicionadas e padrões de comportamento positivos e negativos. A maioria das pessoas no mundo dos negócios e nas Forças Armadas aprende por experiência a comportar-se negativamente diante de seus superiores e positivamente, às vezes até agressivamente, diante de seus subordinados. Pavlov mostrou que o sistema nervoso dos cães adquire extraordinários poderes de discriminação ao acumular essas respostas positivas e negativas. Demonstrou que um cão pode ser levado a salivar quando se emite um som de 500 vibrações por minuto, se esse for o sinal de alimento, mas não quando o som for de apenas 490 vibrações e nenhum alimento puder ser esperado.

As respostas condicionadas negativas não são menos importantes que as positivas, pois os membros das sociedades civilizadas devem aprender a controlar quase automaticamente as respostas agressivas normais, embora algumas vezes sejam obrigados a dar-lhes vazão, em questão de segundo, quando surge uma emergência. Atitudes emocionais também se tornam negativa e positivamente condicionadas: sente-se uma repulsa quase automática por certas classes de pessoas e uma atração automática por outras. Até mesmo palavras como católico e protestante, operário e patrão, Socialista e conservador, e republicano e democrata evocam respostas condicionadas muito fortes.

Uma das descobertas mais importantes de Pavlov foi o que acontece a padrões de comportamento condicionado quando o cérebro de um cão é “transmarginalmente” estimulado por pressões e conflitos a que não está capacitado a responder. Pavlov podia produzir o que chamou de “ruptura da atividade nervosa superior” pelo emprego de quatro tipos principais de pressões.

O primeiro era simplesmente um aumento da intensidade do sinal a que o cão estava condicionado; nesse caso, aumentava gradualmente a voltagem da corrente elétrica ligada à perna do cão à guisa de sinal de alimento. Quando o choque elétrico se tornava um pouco forte demais para o seu sistema, o cão começava a entrar em colapso.

A segunda maneira de atingir o mesmo resultado era dilatar o tempo entre a emissão do sinal e a chegada do alimento. Um cão faminto podia ser condicionado a receber alimento, digamos, cinco segundos depois do sinal de aviso. Pavlov prolongava então largamente o período entre o sinal e o fornecimento da comida. Sinais de inquietação e de comportamento anormal podiam tornar-se imediatamente evidentes no menos estável de seus cães. De fato, descobriu que os cérebros dos cães se revoltavam contra qualquer prolongamento anormal da espera sob tensão. O colapso ocorria quando o cão tinha de empenhar-se em uma inibição muito forte ou muito prolongada. (Seres humanos frequentemente também consideram os períodos prolongados de ansiosa espera por um acontecimento, mais cansativos do que o acontecimento em si mesmo.)

O terceiro meio de Pavlov produzir colapso era confundir os cães com anomalias na emissão dos sinais condicionantes: sinais positivos e negativos dados em seguida, continuadamente. O cão faminto tornava-se inseguro sobre o que viria a acontecer e sobre como encarar essas circunstâncias perturbadoras. Isto podia destruir sua estabilidade nervosa, da mesma maneira como ocorre com seres humanos.

O quarto meio de produzir colapso era desorganizar a condição física do cão, submetendo-o a longos períodos de trabalho, a irregularidades gastrintestinais e febres ou perturbando o seu equilíbrio glandular. Embora os outros três meios antes mencionados não houvessem provocado o colapso em determinado cão, este podia sofrer colapso mais tarde sob a mesma espécie de pressões imediatamente depois da remoção das glândulas sexuais ou durante uma desordem intestinal. Posteriormente examinaremos as vantagens advindas da debilitação e de outras mudanças das funções corporais de seres humanos para efeito de sua conversão política e religiosa. Em alguns casos, as descobertas de Pavlov podem ter sido exploradas; em outros, antecipadas.

Pavlov descobriu que, depois da castração ou de desordem intestinal, o colapso podia ocorrer até mesmo em cães de temperamento estável; mas descobriu também que o novo padrão de comportamento superveniente podia tornar-se elemento fixo no estilo de vida do cão, mesmo depois de recuperado da experiência debilitante.

No tipo “inibido” de cão os novos padrões neuróticos assim implantados podiam ser prontamente erradicados: doses de brometo eram às vezes suficientes para isso, embora não alterassem a fundamental fraqueza de temperamento do cão. Mas nos cães dos tipos “calmo imperturbável” ou “vivo” que, por exemplo, precisavam de ser castrados antes de poderem ficar nervosamente abalados, Pavlov descobriu que o padrão recentemente implantado não podia ser erradicado facilmente após o animal ter recuperado sua saúde física normal. Pavlov declarou que isso se devia à natural resistência do sistema nervoso de tais cães. Fora difícil implantar os novos padrões de comportamento sem produzir uma debilitação temporária; agora eles podiam manter-se tão tenazmente quanto os velhos. A pertinência destes últimos experimentos para com as mudanças de comportamento equivalentes em seres humanos dificilmente precisa ser salientada: sabe-se que pessoas de “caráter forte” muitas vezes mudam dramaticamente de crenças e convicções no fim de um longo período de doença física ou depois de um período de debilitação severa (amiúde produzida por um jejum forçado). Mesmo que recuperem a saúde, podem manter-se fiéis à nova orientação para o resto da vida. São frequentes os casos de pessoas “convertidas” em tempos de fome ou guerra, ou na prisão, ou depois de angustiantes aventuras no mar ou na selva, ou quando levadas à ruína pela própria vontade. Observa-se com frequência o mesmo fenômeno em pacientes psicóticos e neuróticos que sofreram operações glandulares, febres, perda de peso e coisas semelhantes, e só então adquiriram os seus padrões anormais de comportamento: se possuíam personalidades fortes, estes novos padrões podem persistir até muito depois do restabelecimento físico.

Pavlov verificou que a capacidade que o cão tinha de resistir a pressões intensas variava de acordo com o estado de seu sistema nervoso e de sua saúde geral. Mas, depois de provocada a inibição “transmarginal” protetora, algumas transformações estranhas ocorriam no cérebro do cão. Estas mudanças não só podiam ser medidas com alguma precisão pela quantidade de saliva segregada em resposta aos estímulos condicionados de alimento, como não estavam sujeitas a distorções subjetivas, como a dos seres humanos em experiências análogas: não havia perigo, por assim dizer, de os cães tentarem explicar e racionalizar seu comportamento depois de terem sido submetidos a estes testes.

Pavlov, no decurso de seus experimentos, identificou três estádios distintos e progressivos de inibição “transmarginal”. Ao primeiro chamou de fase “equivalente” da atividade cortical do cérebro. Nesta fase todos os estímulos, de qualquer força, resultavam apenas na produção da mesma quantidade de saliva. A observação é comparável aos frequentes relatos de pessoas normais, de que há muito pouca diferença entre suas reações diante de experiências importantes ou triviais em período de intensa fadiga. Embora os sentimentos de uma pessoa normal e sadia variem grandemente, de acordo com a força dos estímulos experimentados, as pessoas doentes dos nervos queixam-se frequentemente de que se tornam incapazes de sentir tristeza e alegria tão intensamente como antes. Em resultado da fadiga e da debilitação um homem pode mesmo descobrir, para o seu desgosto, que a excitação de receber um legado de 10 mil libras não é maior do que se fossem apenas 6 pence. Sua condição provavelmente aproxima-se então da fase “equivalente” da atividade cortical exausta identificada por Pavlov em seus cães.

Quando pressões ainda mais fortes são aplicadas ao cérebro, a fase “equivalente” de inibição transmarginal pode ser sucedida por uma fase “paradoxal”, na qual os estímulos fracos produzem reações mais vivas do que os estímulos fortes. Não é difícil descobrir a razão disso: os estímulos mais fortes estão então apenas aumentando a inibição protetora, mas os mais fracos ainda produzem reações positivas. Assim o cão recusa alimento acompanhado por um estímulo forte, mas o aceita se o estímulo for suficientemente fraco. Esta fase paradoxal também pode ocorrer no comportamento humano quando a pressão emocional é muito intensa, como se mostrará em um dos próximos capítulos. Nessas ocasiões o comportamento normal do indivíduo encontra-se de tal maneira invertido que parece bastante irracional não apenas a um observador distanciado, mas ao próprio paciente — a menos que tenha estudado os experimentos de Pavlov com os cães.

No terceiro estádio da inibição “protetora”, que Pavlov chamou de “ultraparadoxal”, as respostas condicionadas de positivas passam para negativas e de negativas para positivas. O cão pode então passar a gostar do empregado do laboratório por quem nutria aversão e tentar atacar seu próprio dono. Seu comportamento torna-se de fato exatamente o oposto de todos os condicionamentos anteriores.

A importância destes experimentos para a rápida conversão religiosa e política deveria ser óbvia até mesmo para os mais céticos: Pavlov mostrou, através de repetidos experimentos, exatamente como um cão — da mesma maneira que um homem — pode ser condicionado a odiar aquilo que amava e a amar aquilo que odiava. Da mesma maneira, um conjunto de padrões de comportamento no homem pode ser substituído temporariamente por outro que se lhe oponha, não apenas por doutrinação persuasiva, mas também pela imposição de sacrifícios intoleráveis a cérebros que funcionam normalmente.

Pavlov demonstrou também que podia ocorrer no cão, em que a inibição transmarginal começasse a sobrevir, um estado de atividade cerebral semelhante ao observado na histeria humana. Isto pode causar um estado de sugestionabilidade anormal a influências de ambiente. Seus fichários incluíam frequentemente relatórios sobre cães em estado hipnoidal e hipnótico. Relatórios clínicos sobre o comportamento de seres humanos sob hipnose, assim como em vários estados de histeria, contêm abundantes descrições de anormalidades correspondentes àquelas notadas por Pavlov nas fases “equivalente”, “paradoxal” e “ultraparadoxal” de colapso em cães. Em estados humanos de medo e excitação as sugestões mais fantasticamente improváveis podem ser aceitas por pessoas aparentemente sensatas. Em agosto de 1914, por exemplo, o rumor de que soldados russos estavam percorrendo a Inglaterra, “ainda com neve nas botas”, propalou-se pelo país, e com tantos pormenores, que chegou a afetar a estratégia alemã; e no início da Segunda Guerra Mundial circulava com insistência a notícia que o renegado inglês William Joyce (“Lord Haw-Haw”) dissera pelo rádio que o relógio da igreja de certa cidade — cujo nome sempre variava com o boato — estava atrasado três minutos.

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Sumário das Descobertas Acima

1 — Os cães, como os seres humanos, respondem a pressões impostas ou a situações de conflito de acordo com os seus diferentes tipos de temperamento herdados. Os quatro tipos básicos correspondem aos descritos como humores pelo médico grego da antiguidade, Hipócrates.

2 — As reações de um cão a pressões normais não dependem apenas de sua constituição herdada, mas também da influência do meio a que esteve exposto. Esta altera os detalhes de seu comportamento, mas não muda o padrão de comportamento básico.

3 — Os cães, como os seres humanos, entram em colapso quando as pressões ou os conflitos se tornam tão intensos que não podem mais ser dominados por seu sistema nervoso.

4 — Ao atingirem o ponto de colapso, seu comportamento começa a diferenciar-se daquele normalmente característico de seu tipo de temperamento herdado e de seu condicionamento prévio.

5 — A intensidade da pressão ou conflito que um cão pode dominar sem entrar em colapso varia de acordo com sua condição física. Uma diminuição da resistência pode ser produzida por coisas tais como fadiga, febres, drogas e mudanças glandulares.

6 — Quando o sistema nervoso é estimulado “transmarginalmente” (isto é, além de sua capacidade de reagir normalmente) durante período prolongado, as respostas dos cães tornam-se eventualmente inibidas, qualquer que seja seu tipo de temperamento. Nos dois tipos menos estáveis — o “inibido” e o “excitado” — o colapso ocorre mais cedo que nos dois tipos mais fortes, o “vivo” e o “calmo imperturbável”.

7 — Esta inibição “transmarginal” é protetora e resulta em comportamento modificado. As três fases distinguíveis de comportamento progressivamente anormal são as seguintes:

A. A chamada fase “equivalente”, na qual o cérebro dá a mesma resposta a estímulos fortes e fracos.

B. A chamada fase “paradoxal”, na qual o cérebro responde mais ativamente aos estímulos fracos do que aos fortes.

C. A chamada fase “ultraparadoxal”, na qual as respostas condicionadas e os padrões de comportamento passam de positivos para negativos e de negativos para positivos.

8 — Quando as pressões impostas ao sistema nervoso de cães resultam numa inibição transmarginal protetora, pode ocorrer também um estado de atividade cerebral semelhante à histeria humana.

Pavlov aprendeu muito observando o efeito de ocorrências acidentais e de experimentos planejados em seus cães. Um momento crucial foi a inundação de Leningrado em 1924. Já expusemos como os reflexos condicionados podem ser desorganizados e invertidos nas fases “equivalente”, “paradoxal” e “ultraparadoxal”. Foi a inundação de Leningrado que levou Pavlov a descobrir como os padrões de comportamento condicionado recentemente implantados no cérebro podiam ser praticamente varridos dele, pelo menos temporariamente. Pouco antes de sua morte, Pavlov disse a um fisiologista norte-americano que as observações feitas na ocasião o convenceram de que todo cão tinha seu “ponto de colapso” — desde que fosse descoberta e corretamente aplicada a seu cérebro e sistema nervoso a pressão apropriada. (24)

Pavlov implantara em um grupo de cães todo um conjunto de padrões variados de comportamento condicionado. Um dia, pouco tempo depois, as águas de inundação, penetrando por baixo da porta do laboratório, apanharam os cachorros numa armadilha; subindo gradualmente de nível, forçaram-nos a nadarem atemorizados dentro das jaulas, com os pescoços esticados. No último momento, um empregado do laboratório entrou na sala e tirou os cães das jaulas, pondo-os em segurança. Esta aterrorizadora experiência fez com que alguns dos cães mudassem de um estado de excitação aguda para um estado de severa inibição protetora transmarginal, como se descreveu no princípio deste capítulo. Testando-os outra vez em seguida, descobriu-se que todos os reflexos condicionados recentemente implantados também haviam desaparecido. Entretanto, outros cães que tinham passado pela mesma prova meramente através da indução de intensa excitação não foram igualmente afetados e os padrões de comportamento implantados neles persistiram.

Pavlov seguiu o indício com entusiasmo. Além das anormalidades induzidas nas fases equivalente, paradoxal e ultraparadoxal por graus inferiores de inibição protetora, existe outro grau de atividade inibidora, que descobrira por acaso, capaz de destruir temporariamente todos os reflexos condicionados recentemente implantados. Na maioria dos cães que havia alcançado esse estádio era possível restaurar mais tarde os velhos padrões de comportamento condicionado, mas isso podia exigir meses de paciente trabalho. Foi então que Pavlov deixou um fio de água correr por baixo da porta do laboratório. Todos os cães — e especialmente aqueles cujos padrões recentes tinham sido abolidos— mostraram-se tão sensíveis ao fato que sempre podiam ser afetados outra vez por este meio, embora parecessem normais sob outros aspectos. (25) O fato de alguns dos cães ainda sensibilizados terem resistido ao colapso total não abalou a convicção de Pavlov de que pressões apropriadas, aplicadas corretamente, poderiam ter efeitos profundos sobre todos eles.

A aplicação destas descobertas em cães à mecânica de muitos tipos de conversão religiosa e política em seres humanos indica que, para a conversão ser efetiva, as emoções do paciente devem ser estimuladas até atingir a condição de raiva, medo ou exaltação. Se esta condição for mantida ou intensificada por um meio ou outro, pode sobrevir histeria na qual o paciente pode tornar-se mais aberto a sugestões que rejeitaria sumariamente em circunstâncias normais. Alternativamente, podem ocorrer as fases equivalente, paradoxal e ultraparadoxal. Ou um súbito colapso inibitório completo pode redundar na eliminação das crenças mantidas anteriormente. Todas estas ocorrências poderiam favorecer o aparecimento de crenças e padrões de comportamento novos. Os mesmos fenômenos serão notados em muitos dos mais eficazes tratamentos psiquiátricos modernos descobertos independentemente um do outro. Todas as diferentes fases da atividade cerebral — da excitação intensa à exaustão emocional e colapso numa etapa final de estupor — podem ser provocadas por meios psicológicos, por drogas, por tratamento de choque produzido eletricamente ou, simplesmente, pela diminuição do açúcar contido no sangue do paciente, com o emprego de injeções de insulina. Alguns dos melhores resultados no tratamento psiquiátrico de neuroses e psicoses ocorrem quando são provocados estados de inibição protetora. Isso em geral se consegue pela imposição de pressões artificiais contínuas sobre o cérebro até atingir-se um estado temporário de colapso e estupor emocionais, depois do que, segundo parece, alguns dos novos padrões anormais podem dissipar-se e os mais saudáveis retornar ao cérebro ou ser nele implantados de novo.

Até agora foram examinados os resultados de pressões agudas e colapso no sistema nervoso, e não seu funcionamento cotidiano. Pavlov acreditava que os centros superiores do cérebro canino e humano estavam em permanente fluxo entre a excitação e a inibição. Assim como somos obrigados a inibir a atividade intelectual dormindo mais ou menos 8 horas, a fim de mantê-la com força suficiente para enfrentar as restantes 16 das 24 horas do dia, as áreas menores do cérebro não podem ser mantidas em funcionamento normal a não ser por um processo intermitente. Pavlov escreveu: “Se pudéssemos observar, através do crânio, o cérebro de uma pessoa pensando conscientemente e se o lugar de excitabilidade ótima fosse iluminado, veríamos tremulando sobre a superfície cerebral um ponto luminoso, de bordas ondulantes, variando constantemente de tamanho e forma, e circundado pela escuridão mais ou menos profunda que cobre o resto dos hemisférios”. (26)

Pavlov falava apenas figuradamente. As coisas não são tão simples assim, e pesquisas recentes indicam que o quadro seria muito mais complexo. Mas ele procurava acentuar que, quando uma área do cérebro se encontra em estado de excitação, outras podem, consequentemente, ficar inibidas. É impossível concentrar-se, cônscia e deliberadamente, em duas linhas diferentes de pensamento ao mesmo tempo. A atenção alterna-se rapidamente entre as duas, na frequência requerida. Shakespeare escreveu que nenhum homem “pode segurar uma chama na mão pensando no Cáucaso gelado”. Pavlov desafiou esta sentença mostrando que, se nosso sistema nervoso for suficientemente excitado pelas visões concentradas e estáticas do Cáucaso, o estímulo de dor da mão queimada poderá ser inibido. Consta que Sherrington, o grande fisiologista inglês, disse que as descobertas de Pavlov ajudaram a explicar por que os mártires cristãos morriam felizes na fogueira. (27)

Pavlov foi capaz de demonstrar que as áreas focais de inibição no cérebro — talvez produzindo, por exemplo, a perda histérica temporária da memória, da vista ou do uso dos membros — podem ser complementadas por grandes áreas de excitação em outras partes do cérebro. Isso dá uma base fisiológica para as observações de Freud de que memórias emocionais reprimidas geralmente conduzem a estados de ansiedade crônica sobre questões aparentemente sem nexo. O estado patológico pode também desaparecer quando a memória reprimida volta à consciência, de maneira que a inibição local e a excitação complementar em outra área qualquer também desaparecem.

Pavlov observou que certos movimentos estereotipados se sucediam depois que uma pequena área cortical do cérebro do cão atingia “um estado de inércia e excitação patológicas” permanente. Concluiu que, se esta condição do cérebro podia afetar o movimento, poderia também, da mesma maneira, afetar o pensamento, e que o estudo de tais áreas corticais dos cérebros dos cães tornaria possível explicar algumas obsessões humanas. Por exemplo: poderia explicar por que muitas pessoas são perseguidas por músicas que não lhes saem da cabeça e outras por pensamentos dolorosamente lascivos que nem reza, nem força de vontade parecem capazes de dissipar — embora possam desaparecer por motivos inexplicáveis.

Nos últimos anos de sua vida, Pavlov fez outra importante observação sobre estas áreas de “inércia e excitação patológicas”: descobriu que estas pequenas áreas estavam sujeitas às fases “equivalente”, “paradoxal” e “ultraparadoxal” de atividade normal sob pressão, que pensara aplicáveis apenas a áreas muito maiores do cérebro. A descoberta causou-lhe perdoável entusiasmo: poderia esclarecer perfeitamente, pela primeira vez do ponto de vista fisiológico, certos fenômenos também observados em seres humanos quando começam a agir anormalmente. Envolver outros em suas obsessões é uma característica bem conhecida das pessoas mentalmente desequilibradas. Assim, se um homem que sempre foi sensível a críticas perder a razão, provavelmente se queixará de que, aonde quer que vá, todos o caluniam e maldizem. E as mulheres que sempre temeram uma violência sexual serão muitas vezes levadas a crer, por meio de sensações internas, que realmente uma pessoa conhecida ou desconhecida as molestou. Pavlov pensou que, de fato, se poderia explicar fisiologicamente, em termos de inibição cerebral localizada, o que os psiquiatras denominam fenômeno de “projeção” e “introjeção” (quando um medo ou um desejo persistente é subitamente projetado para fora ou para dentro numa situação de realidade aparente).

Pavlov descobriu que alguns cães de temperamento estável eram mais propensos a desenvolver esses “pontos patológicos limitados” no córtex antes de entrar em colapso sob pressão. Novos padrões de comportamento resultavam desses pontos: podiam ser patadas compulsivas e repetidas na plataforma de experiência, tais como as que se seguem a uma interferência na função glandular ou a alguma forma de debilitação física. Descobriu também que, uma vez adquiridos por cães de temperamento estável, padrões desta natureza são difíceis de erradicar. Isso talvez possa ajudar a explicar por que seres humanos de caráter forte muitas vezes ficam fanáticos convictos e com ideias fixas quando, subitamente, “encontram Deus”, aderem ao vegetarianismo ou se tornam marxistas: é que um pequeno ponto cortical talvez tenha atingido um estado permanente de inércia patológica.

Dois anos antes de sua morte Pavlov escreveu profeticamente: “Não sou clínico. Fui e permaneço fisiologista e, evidentemente, neste momento e no fim da vida, não teria tempo ou possibilidade de vir a ser um… Mas certamente não estarei errando se afirmar que clínicos, neurologistas e psiquiatras, nos seus respectivos domínios, terão de reconhecer inevitavelmente o seguinte fato pato-fisiológico fundamental: isolamento completo de pontos patológicos (no momento etiológico) do córtex, a inércia patológica do processo excitativo e a fase ultraparadoxal”. (28)

Tinha razão. Não apenas clínicos, neurologistas e psiquiatras, mas pessoas comuns do mundo inteiro sentiram o impacto de seu método simples de pesquisa mecânica, algumas delas à sua própria custa. Trabalho futuro poderá modificar algumas das conclusões. Mas Pavlov forneceu explicações simples e às vezes convincentes, de ordem fisiológica, para muitas coisas que o mundo ocidental tende a obscurecer com teorias psicológicas mais vagas.

É reconhecidamente desagradável pensar em animais submetidos a pressões dolorosas em benefício das pesquisas científicas. Muito embora Pavlov não fosse um sádico que se interessasse tanto por curar como por causar colapsos em seus cães, alguns de seus experimentos dificilmente seriam tolerados na Inglaterra de hoje. Mas, como o trabalho foi cuidadosamente feito e relatado com precisão, é necessário não permitirmos que sentimentos legítimos ceguem nossos olhos ao seu valor para a psiquiatria humana ou a sua possível importância nos campos político e religioso.

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Capítulo II

Comportamento Animal e Humano Comparado

Temos ouvido repetidas vezes que as comparações entre o comportamento dos homens e o dos animais irracionais, como as que fizemos no capítulo I, não são válidas. O homem, dizem, tem uma alma ou, pelo menos, cérebro e inteligência infinitamente mais desenvolvidos. Entretanto, uma vez que os experimentos com o sistema glandular e digestivo de animais provaram ser de grande auxílio no equacionamento das leis fundamentais que governam estes sistemas no corpo humano, por que não realizar experimentos com o sistema nervoso superior? Se a analogia entre os sistemas glandular e digestivo de homens e cães tivesse sido desaconselhada e a experimentação animal proibida, a medicina geral ainda poderia estar tão atrasada quanto a psiquiatria. O fato é que a teoria psicológica tem muitas vezes substituído o experimento científico como um dos principais meios de determinar os padrões normais e anormais de comportamento humano.

Espera-se que este capítulo mostre como os experimentos de Pavlov em cães são aplicáveis a certos problemas do comportamento humano de maneira tão admirável que a sentença “Os homens não são cães” às vezes se torna quase irrelevante. Durante a Segunda Guerra Mundial, o comportamento do cérebro humano submetido a pressões e tensões ofereceu excelente oportunidade para submeter à prova as conclusões analógicas de Pavlov. Será, portanto, conveniente fazer um resumo de nossas próprias observações publicadas durante a guerra e outras registradas e discutidas em revistas e livros por Sir Charles Symonds (29), Swank(30), Grinker (31) e outros.

Em junho de 1944, por exemplo, foram admitidos em hospitais de emergência na Inglaterra muitos feridos de guerra procedentes da cabeça-de-praia da Normandia ou da Londres sob a blitz. Alguns deles mostravam todos os sintomas usuais de ansiedade e depressão observados na prática psiquiátrica em tempo de paz. Outros se encontravam em estado de simples mas profunda exaustão, geralmente acompanhada por acentuada perda de peso. Outros se sacudiam e contorciam em movimentos grosseiros e descoordenados, embora regulares. Estes movimentos eram realçados pela perda da voz, pela gagueira ou, às vezes, por um modo de falar explosivo. Um grupo de pacientes chegara a várias formas de colapso e estupor. (32) Foi para estes casos agudos que a obra de Pavlov “Reflexos Condicionados e Psiquiatria” — que então estudávamos pela primeira vez — provou ser mais esclarecedora: paralelos entre o comportamento deles e o dos cães de Pavlov, quando submetidos a pressões experimentais, saltavam aos olhos.

Roy Swank e seus colegas publicaram, a partir de 1945, uma série de trabalhos baseados em estudos sobre aproximadamente cinco mil vítimas de combate da campanha da Normandia, quase todas americanas. (33) Suas minuciosas descobertas revelaram a esmagadora influência do medo da morte e da tensão continuada no desenvolvimento da exaustão de combate. Acentua ele também que “a primeira reação que os homens tinham de enfrentar era o medo. (…) Indubitavelmente, em sua maioria, eles controlavam os seus temores, aprendiam a lutar e se tornavam confiantes, peritos na arte de guerrear”.

Foi apenas “após um período de combate eficiente que variou de acordo com os homens e a severidade da batalha, (que) os primeiros sinais de exaustão de combate apareceram”.

A “inibição protetora” relatada por Pavlov em seu estudo sobre os cães lança luz sobre o que se seguiu: “Os homens experimentaram um estado de fadiga constante que vários dias de repouso não eliminavam. Perderam sua capacidade de distinguir os diversos ruídos do combate. Tornaram-se incapazes de discernir seu canhoneio do do inimigo, as explosões de bombas pequenas e sua localização”.

 A excitação sintomática também podia tornar-se incontrolável. Assim: “Eles ficavam facilmente sobressaltados e confusos, perdiam sua confiança e tornavam-se tensos. Eram irritadiços, frequentemente perdiam a cabeça, reagiam em excesso a todos os estímulos. Por exemplo: deitavam-se no chão por qualquer motivo quando esta precaução estava reservada para estímulos específicos”.

Swank relata a dramática mudança final do estado de excitação para o de inibição, também observada por Pavlov em seus cães.

“Este estado de hiper-reatividade geral era seguido por outro grupo de sintomas anteriormente mencionado como exaustão emocional. Os homens tornavam-se obtusos e indolentes, física e mentalmente retardados, preocupados, e tinham crescente dificuldade em lembrar-se de detalhes. Ao mesmo tempo demonstravam indiferença e apatia, e exibiam uma expressão facial estúpida e insensível. (…) A uniformidade das histórias era indicação de que, em geral, as queixas não eram exageradas nem inventadas.”

 Acentua que, antes de ser submetido a tais tensões, “o soldado comum era (provavelmente) mais estável do que o civil comum, visto que indivíduos instáveis foram obviamente excluídos antes da batalha… Indiscutivelmente os homens considerados pertenciam a unidades de moral elevado e eram soldados dispostos. Parecia evidente que o desejo de esquivar-se representava papel pequeno, quase exclusivamente limitado aos homens com pouca experiência de combate”.

Sir Charles Symonds, expondo suas experiências médicas na Real Força Aérea durante a mesma guerra, concluiu, de maneira semelhante, que a tensão resultante de uma longa manifestação de coragem era um elemento importantíssimo no desenvolvimento da exaustão emocional. (34) Estas foram também nossas descobertas depois que lidamos com milhares de pacientes civis e militares admitidos nas unidades especializadas em neurose dos hospitais do Serviço Médico de Emergência.

De todas as descobertas de Swank, a mais interessante para este estudo da conversão política e religiosa relacionava-se com o cálculo do tempo necessário à ocorrência do colapso sob as contínuas pressões da batalha (ver diagrama).

Exaustão de combate

 “A exaustão de combate pode sobrevir em apenas 15 ou 20 dias, ou até em 40 ou 50 dias, ao invés de em 30 dias aproximadamente, como sucedeu à maioria dos homens. Uma coisa parece certa: praticamente todos os soldados de infantaria sofrem uma eventual reação neurótica quando submetidos às pressões do combate moderno por tempo suficientemente longo”. Em novembro de 1944, Swank ainda achava que só um ou outro soldado (“talvez menos de 2%”) pertencia ao grupo capaz de tolerar a tensão de combate por tempo extremamente longo. Mas em 1946, ele relata: “Isto parecia verdade (…) em novembro de 1944. Desde então concluímos que todos os homens normais acabam sofrendo a exaustão de combate em campanha prolongada, contínua e severa. As exceções às regras são os soldados psicóticos, e vários exemplos destes têm sido observados”. (35)

 Como certas técnicas de conversão política e religiosa podem tornar-se tão temíveis e exaustivas para o cérebro quanto as experiências de combate, deve-se salientar a importância das descobertas de Swank. Seus dados estatísticos e clínicos deveriam ser levados ao conhecimento daqueles que se iludem quanto às possibilidades de evitar-se o colapso na batalha ou durante a lavagem cerebral através do simples exercício da força de vontade e da coragem. Ao contrário, o exercício constante da força de vontade e da coragem podem, em algumas circunstâncias, exaurir o cérebro e acelerar o colapso final. Os cães entram em colapso mais facilmente quando cooperam nos experimentos para testar sua tolerância a pressões: os seus leais esforços diminuem-lhes a resistência.

Normalmente, ao que parece, o sistema nervoso humano, como o dos cães, encontra-se em estado de equilíbrio dinâmico entre a excitação e a inibição. Porém, quando submetido a estimulação excessiva, pode passar aos estados de excitação e inibição intensas que Pavlov observou nos cães. O cérebro, então, torna-se temporariamente incapaz de funcionar inteligentemente. Exemplos numerosos deste fenômeno foram relatados na literatura médica: como, por exemplo, os casos de soldados, até então normais, que passaram ao estado de excitação intensa, correndo sem rumo pela terra de ninguém e expondo-se de maneira suicida e inútil ao fogo das metralhadoras. Em 1945, divulgou-se que um soldado enfrentara duas vezes o fogo inimigo para ajudar um companheiro cuja perna tinha sido arrancada por uma explosão. Todavia, ao aproximar-se dele, ficou tão inibido que se sentiu incapaz de prestar a ajuda de emergência. Em seguida foi tomado por aguda excitação, bateu a cabeça contra uma árvore repetidamente e correu como um louco chamando uma ambulância. Quando a ambulância finalmente chegou, ele foi colocado nela, amarrado. Outro soldado, depois da morte de um amigo, tentou enfrentar sozinho um tanque alemão; seus companheiros foram obrigados a segurá-lo e ele foi enviado a um centro psiquiátrico. (36) Este tipo de excitação cerebral descontrolada parece caracterizar-se pela inibição da capacidade de raciocinar.

O estado de inibição “protetora”, notado por Pavlov em cães submetidos a pressões intensas, também parece apresentar-se nas vítimas de combate. Muitas vezes elas sofrem estupor, perda de memória, perda do uso dos membros, desmaios etc. Outras ficam paralisadas pelo medo. Outras sucumbem a simples exaustão nervosa e estas são geralmente homens de personalidade estável que, além da tensão mental, passaram longo tempo sem comer e dormir. Sir Edward Spears descreveu a ocorrência destes fatos na Primeira Guerra Mundial: “Foram tempos ruins estes, quando a trincheira, abarrotada de mortos e feridos, ruía sob o bombardeio, quando os homens trabalhavam com furor para desenterrar um camarada, viam-lhe o rosto desfigurado ao puxá-lo e então não cavavam mais. Nestes tempos frequentemente sobrevinha o estupor, uma espécie de sonolência avassaladora, misericordiosa, que o oficial, porém, tinha de dominar (…)”. (37)

 Em alguns casos a inibição parecia limitada a algumas pequenas áreas do cérebro. Um paciente, por exemplo, gaguejava diante da simples menção do nome de um oficial que o chamara de covarde. Era comum a mudez, seguida de gagueira durante a convalescença. Essas frequentes perturbações do que Pavlov denominava “sistema secundário de sinalização do homem” podem ser explicadas pela sua maior sensibilidade a estimulação excessiva, em consequência de desenvolvimento evolucionário mais recente. Outras formas de inibição cerebral focal foram observadas em pacientes com fisionomias rígidas e imutáveis, queixando-se de um nó na garganta, ou com as pernas dobradas e fracas, mas não completamente paralisadas. A paralisia total era incomum, embora muitas vezes o andar se tornasse mais vagaroso. Pavlov observou uma inibição progressiva semelhante nos cães submetidos a estímulos; começava na boca e nas partes dianteiras do corpo e levava algum tempo para alcançar as pernas traseiras.(38)

Com frequência os pacientes apresentavam ao mesmo tempo áreas de inibição focal e excitação focal. Eram acometidos de rigidez ou inibição de movimentos faciais ou da fala, combinada com tremores acentuados no corpo e nas mãos. Outras vezes a perda da fala combinava-se com movimentos do pescoço. A ansiedade aguda caracterizava-se frequentemente pela incapacidade de engolir. A parte superior do corpo podia tremer violentamente, enquanto o resto permanecia imóvel. Um rosto imóvel ou sorridente podia ser acompanhado de tremores, sacudidelas e contorcimento de outras partes do corpo.

Muitas vezes observavam-se mudanças súbitas do estado de excitação para o de inibição nestes casos “flutuantes”. Um homem, por exemplo, deitou-se tremendo numa trincheira, meio paralisado pelo medo, quando sua companhia recebeu ordens de avançar. Contudo, assim que o oficial o provocou, dizendo: “Uma menina representaria melhor”, ficou violentamente excitado, gritou “Vamos, meninos!”, saltou da trincheira para o ataque e desmaiou. Outros soldados corriam a esmo, em pânico, gritando, e em seguida ficavam mudos. Um homem, que caíra paralisado e sem fala na rua de uma pequena cidade sob bombardeio, começou a gritar e brigar quando levantado pelos camaradas. (39)

É importante notar que em muitos casos de colapso sob pressão intolerável, relatados por vários escritores, não foi possível verificar o motivo do restabelecimento imediato do paciente. Ao contrário, o restabelecimento muitas vezes ocorria precisamente quando o comportamento teria muito maior probabilidade de garantir segurança à vítima. Estes súbitos estados de total inibição ou colapso após pressões intensas lembram a fase “transmarginal” nos cães de Pavlov. Observaram-se outros exemplos desta forma extrema de inibição quando os homens chegavam ao hospital em estupor histérico quase total. Mais tarde, experimentalmente, estados semelhantes de inibição foram provocados fazendo-se os pacientes reviverem, sob drogas, suas experiências de batalha ou bombardeio, o que os deixava muito excitados.

Como nos cães de Pavlov, estes estados mentais anormais em seres humanos podem ser seguidos pelo que ele chamou de “estereotipia dinâmica” — isto é, um novo sistema funcional no cérebro, que requer cada vez menos trabalho do sistema nervoso. O padrão repetitivo de movimentos ou pensamentos assim apresentados por certos pacientes não conduzia facilmente a métodos simples de tratamento, tais como remoção para hospitais e repouso. Estímulos fortes podiam ser necessários para erradicar os novos padrões altamente anormais implantados. Todavia, um grupo de pacientes reagia melhor à sedução forte do que à reestimulação. Neste grupo havia pacientes em estado de excitação confusa, que ouviam vozes e ruídos imaginários e desenvolviam novas fantasias. Tais pacientes eram diferentes daqueles que sofrem alucinações semelhantes em tempo de paz; melhoravam rapidamente depois de um período de sono profundo e completo repouso provocados por sedativos, a exemplo do que ocorrera aos cães de Pavlov do tipo “excitado” a que se administraram fortes doses de brometo depois de um colapso agudo.

Tais reações evidentemente ocorriam apenas em pequena proporção dos soldados e membros da defesa civil durante a blitz. Os outros tiveram a oportunidade de experimentar, em meio a suas missões, períodos de repouso suficientemente longos para impedir o colapso. O ponto de colapso só era alcançado depois de repetidos ou continuados períodos de tensão. A exceção resultava de súbita imposição de uma pressão enorme sobre o sistema nervoso, como, por exemplo, na circunstância de salvar-se alguém, por um triz, de uma explosão. Nestes casos, soldados e civis, embora comportando-se aparentemente de modo deliberado e consciente, podiam guardar muito pouca ou nenhuma lembrança de seu comportamento subsequente por causa da superveniência repentina da inibição transmarginal. Mais tarde, de maneira igualmente repentina, podiam recobrar a consciência e preocupar-se em saber onde haviam estado nas duas ou três horas anteriores. Algumas lembranças do período perdido podiam emergir espontaneamente mais tarde ou então ser recuperadas por meio de sedativos que relaxassem a inibição.

A fase “equivalente” da inibição transmarginal, descrita por Pavlov em seus experimentos com cães, parecia frequente em nossos pacientes durante a guerra. Pessoas normalmente enérgicas e ativas passavam a queixar-se de que nada mais as interessava, alegrava ou entristecia. Esta fase passava gradualmente depois de repouso e tratamento, mas em alguns casos persistia por longo tempo. Observaram-se também exemplos fascinantes de comportamento humano correspondendo à fase “paradoxal” de Pavlov. Antes de ler os seus relatos sobre os experimentos em cães não éramos capazes de entender um caso como o que passo a expor. Um paciente que antes possuíra personalidade normal fora submetido a fortes tensões durante um bombardeio. Quando solicitado a estender as mãos para o médico ver se estavam tremendo, obedeceu; mas, subitamente, viu-se impossibilitado de baixá-las outra vez enquanto estava sendo observado. Isso o preocupou, mas, segundo afirmou, o pior foi verificar que podia baixá-las se não procurasse fazê-lo ou se pensasse em outra coisa qualquer; podia, por exemplo, baixá-las para tatear o bolso à procura de uma caixa de fósforo. De fato, o estímulo forte dirigido no sentido de levá-lo a fazer uma coisa que desejava não produzia resposta, mas um pequeno estímulo indireto continuava eficaz. Para satisfação sua, este estado logo desapareceu. Também tivemos muitos pacientes sofrendo de acentuada paralisia dos membros causada pelo medo; quanto mais se esforçavam para movê-los, tanto mais paralisados ficavam. Entretanto, assim que deixavam de preocupar-se com o problema, notavam súbita melhora. Esta fase paradoxal parece ser tão frequente na experiência mental quanto na física. Um exemplo simples é a condição a que o trabalhador intelectual está sujeito depois de um intenso período de esforços: tenta lembrar-se de nomes ou palavras, mas não o consegue enquanto não para de tentar.

Na paz ou na guerra pessoas normalmente agressivas podem, de repente, adquirir sentimentos de covardia e sentir, por algum tempo, a inutilidade de prosseguir lutando. E pessoas que normalmente mais gozam a vida podem, subitamente, sentir um forte desejo de morrer. Estas súbitas aversões inexplicáveis por coisas que antes a pessoa amava ou admirava ocorrem durante a fase paradoxal e ultraparadoxal. Da mesma maneira, sucede durante estas fases a alternação imprevisível de um comportamento extremamente agressivo para a submissão mais abjeta.

Durante a blitz diversas bombas caíram sobre nosso hospital perto de Londres e vários pacientes civis foram mortos em uma das explosões. O hospital continha muitos pacientes em tratamento de neurose de guerra aguda e estas mudanças paradoxais de comportamento sob tensão começaram então a aparecer e desaparecer. A explosão de uma bomba podia tornar o paciente incapaz de mover um braço, como se descreveu acima. Recebia ele, então, uma injeção intravenosa de barbitúrico para relaxar o funcionamento de seu cérebro, após o que recuperava imediatamente o uso do braço. Mas podia também recuperá-lo sem o auxílio de drogas quando se acalmava depois do bombardeio. Muitas destas mudanças da agressividade para a submissão, ou vice-versa, também ocorriam sem qualquer razão evidente.

As descobertas de Pavlov — de que a excitação localizada numa área do cérebro do cão podia provocar profunda inibição reflexa em outras áreas — pareciam perfeitamente aplicáveis a estes casos de comportamento humano. Pacientes eram admitidos com mãos trêmulas e fisionomias inexpressivas e extenuadas ou com a expressão denominada “bomb-happy”. Entretanto, às vezes, procuravam o médico pouco depois e pediam alta para voltar aos seus deveres civis ou militares. Geralmente o médico supunha que o paciente estava apenas com “conversa” e lhe dizia para deixar de ser tolo e voltar à sua enfermaria. Porém, ao médico que houvesse estudado os experimentos de Pavlov, seria claro que tais exigências podiam ter sido inspiradas pela ideia fixa temporária de ter de sair do hospital e, a qualquer custo, voltar ao trabalho; e que esta ideia causara uma inibição reflexa de todos os pensamentos sobre o seu lamentável estado físico e nervoso, o que certamente o impediria de executar qualquer trabalho. Se fosse então convenientemente esclarecido sobre a necessidade de adiar sua volta ao trabalho, o paciente podia perceber de repente a realidade das coisas e tornar-se mais cooperativo. A expressão “bomb-happy” explicava perfeitamente como um bombardeio e as reações de medo dele resultantes podiam destruir o poder do pensamento integrado sobre o passado, o presente ou o futuro em sobreviventes que tivessem escapado por um triz. Todavia, sedativos administrados corretamente nos próprios locais ou em centros e hospitais especializados podiam restaurar-lhes os hábitos normais de pensamento. Isto levava a crer que os sintomas anteriormente atribuídos à covardia moral ou a artifícios desonestos muitas vezes tinham sido produzidos meramente por uma falha temporária no funcionamento normal do cérebro. (40)

É importante observar que tais estados de comportamento anormal em pessoas até então normais, embora pudessem ser corrigidos rapidamente sob sedação imediata e apropriada, desapareciam espontaneamente. Em poucas semanas ou meses não restava senão um pequeno traço deste comportamento. Menos neuroses de guerra realmente incapacitantes, em pessoas que anteriormente possuíam estabilidade mental, parecem persistir dez anos depois da Segunda Guerra Mundial do que depois da Primeira Guerra Mundial. Entretanto, como aconteceu com os cães de Pavlov após a inundação de Leningrado, a sensibilidade que produziu seu esgotamento nervoso permanece indubitavelmente latente em homens que parecem perfeitamente reajustados à vida civil ordinária. Qualquer acontecimento que os faça recordar a neurose original pode afetá-los tão fortemente como a visão da água escorrendo sob a porta do laboratório afetou os cães de Pavlov.

Outro testemunho da aplicabilidade das descobertas de Pavlov a problemas da psicologia humana verificou-se na reação de nossos pacientes ao tratamento. Pavlov considerava a sedação pesada extremamente valiosa no auxílio aos cães que haviam entrado em colapso sob pressão. Obteve dos cães, classificados de acordo com os quatro temperamentos básicos, respostas inteiramente diversas ao tratamento; para os cães do tipo “excitado” e “inibido” do mesmo peso as doses necessárias variavam largamente. Descobrimos a mesma coisa nos pacientes que receberam sedação de emergência quando entraram em colapso sob a pressão dos bombardeios. Eles podiam ser classificados nos mesmos grupos, e a quantidade de sedativo que necessitavam variava consideravelmente.

O valor da sedação pesada de emergência para evitar que neuroses agudas se tornassem crônicas fora muitas vezes observado logo no início da guerra. (41) Mas não se reconhecia a necessidade de diferenciar as doses e, na maioria dos centros de tratamento, eram praticamente do mesmo tipo as doses prescritas para todas as pessoas que entrassem em colapso sob as pressões da batalha ou da blitz. Mas assim que tomamos conhecimento das descobertas de Pavlov e reconsideramos este ponto, decidimos que o sistema nervoso do homem reagia a pressões extremas de maneira muito semelhante à dos cães.

Sob pressões severas e prolongadas as pessoas de temperamento excitado ou inibido atingiam, como já se descreveu, estados de excitação descontrolada ou inibição paralisante. Os outros dois tipos de temperamento — o vivo, ou excitado controlado, capaz de responder à agressão com a mesma intensidade; e o “fleumático”, aparentemente insensível a pressões comuns — também ocorreram tanto em homens como em cães. A predominância de sintomas de inibição quando a vítima entra em colapso (aspecto importante quando consideramos a conversão política e a lavagem cerebral) foi demonstrada pelo relatório de uma descoberta de 1942, segundo o qual, no tempo da retirada de Dunquerque e da blitz de Londres, nada menos de 144 entre 1.000 pacientes admitidos em um centro de neurose para civis e militares, perto de Londres, sofreram perdas temporárias de memória. (42) Tal perda de memória é muitas vezes uma simples resposta inibida do cérebro às pressões intoleráveis. Em tempo de paz um psiquiatra raramente encontra um ou dois casos dessa determinada histeria no decorrer de um ano.

A necessidade de variar a dose de sedação para os seres humanos, conforme sejam “excitados” ou “inibidos”, tornou-se clara nas circunstâncias seguintes. Muitos soldados que entraram em colapso nas cabeças-de-praia da Normandia receberam imediata sedação de linha de frente; somente aqueles que não reagiram ao tratamento foram encaminhados aos centros de neurose na Inglaterra. Quando isso acontecia, de três a sete dias de sono já haviam sido provocados por pesadas doses de sedação. Os pacientes enviados de volta para tratamento em nossos hospitais apresentavam porcentagem anormalmente alta de psicóticos e neuróticos em suas famílias. Muitos deles já haviam sofrido colapsos nervosos antes da guerra e consultado outros psiquiatras; os sintomas que apresentavam geralmente sugeriam o tipo “inibido” da classificação de Pavlov. Mas quando os postos médicos das cabeças-de-praia ficavam temporariamente superlotados de feridos, os pacientes nos eram enviados antes de serem submetidos a um razoável período de sedação pesada. Estes mostravam reações de excitação muito mais agudas e sérias do que a leva anterior. Muitos deles, porém, reagiam bem com as grandes doses de sedativos prescritas e logo ficavam em condições de retornar, pelo menos, a trabalho menos pesado. Entretanto, as mesmas doses administradas aos pacientes “inibidos” (a exemplo dos cães de Pavlov) serviam apenas para agravar a inibição, de tal maneira que muitos chegavam com paralisia ou gagueira inibitória ou até mesmo em estado de profundo estupor histérico. (43) A experiência mostra que as reações inibidas em homens desse temperamento podem, de fato, ser corrigidas por sedativos, porém em doses menores do que as que beneficiam os tipos excitados. Pavlov havia explicado este fenômeno da seguinte maneira: “A melhor terapia contra as neuroses, de acordo com as descobertas desta clínica, são os brometos. (…) Mas a dose deve ser regulada cuidadosamente — para o tipo excitado cinco ou oito vezes maior do que para o inibido”.

 E acrescentava: “Antes chegáramos a uma conclusão errada a respeito disso. Como havíamos regulado a dose de brometo de acordo com o tipo, pensamos que sua administração a animais inibidos era inócua e até prejudicial quando em doses elevadas. (…) Uma parte muito importante da terapia é a dosagem exata correspondente ao tipo preciso de sistema nervoso”. (44)

A tendência que a debilitação tem de apressar o colapso sob pressões impostas foi notada por Pavlov em seus cães; e o mesmo fenômeno foi observado repetidas vezes em nossos pacientes. Aqueles que tinham anteriormente temperamento estável podiam com frequência ser distinguidos dos tipos instáveis observando-se se haviam ou não perdido peso antes de se terem queixado de doença pela primeira vez. Durante a blitz, civis começavam frequentemente a queixar-se de sintomas neuróticos, mostrando-se incapazes de compreender por que haviam adquirido ansiedades tão graves em relação a bombardeios, quando até então tinham permanecido semanas ou meses sem serem afetados por eles. Nesses casos, verificava-se muitas vezes que os pacientes haviam perdido de quinze a trinta libras de peso antes de tornar-se evidente esse aumento da sensibilidade ao bombardeio. Todavia, uma vez estabelecidas essas reações anormais depois de grave perda de peso, nem sempre podiam ser eliminadas engordando-se de novo o paciente, embora isso fosse feito no interesse geral de sua saúde, e tinham muita probabilidade de permanecerem fixadas.

Os tipos mais estáveis às vezes só entravam em colapso depois da perda de trinta libras de peso, causada pela falta de alimento nutritivo, falta de sono e fatores debilitantes semelhantes característicos de tempo de guerra. No entanto, os pacientes que se queixavam de sintomas semelhantes sem a menor perda de peso e que tinham, portanto, oferecido menos resistência, eram em geral tipos cronicamente neuróticos, sem probabilidade de reagir a qualquer tratamento de rotina.

Muitas das mais espetaculares reações às pressões de guerra podiam ser qualificadas como “histeria de ansiedade”. De fato, uma das reações finais mais comuns à pressão, em pacientes de temperamento anteriormente estável, ao contrário dos instáveis, era o desenvolvimento de respostas histéricas. Pavlov deu a mesma qualificação a respostas semelhantes em seus cães, a ponto de sofrer colapso sob pressões impostas, e diagnosticava constantemente estados hipnoidais ou hipnóticos neles. (45) A frequência de reações histéricas a pressões severas impostas tanto em seres humanos como em animais irracionais é da maior significação aqui. Em todos os livros didáticos de psiquiatria as descrições de histeria registram sintomas bizarros que nem sempre se tornam compreensíveis exceto por analogia com as experiências mecanísticas de Pavlov em cães. A aberração mental característica da histeria é muitas vezes semelhante a uma forma de inibição protetora, o mesmo acontecendo com a paralisia histérica. Mesmo na histeria de tempo de paz, pode-se distinguir algo que se aproxima da fase “bomb-happy” da neurose aguda de guerra.

Uma vez provocado o estado de histeria em homens ou cães por crescentes pressões que o cérebro não pode mais tolerar, é provável que sobrevenha inibição protetora. Isso perturba os padrões comuns de comportamento condicionado do indivíduo. Em seres humanos, são também encontrados estados de sugestionabilidade muito intensificada; e o mesmo acontece com seu oposto, isto é, estados em que o paciente é surdo a todas as sugestões, por mais sensatas que sejam. A histeria produziu pânicos repentinos e inexplicados na maioria das guerras, muitas vezes entre tropas famosas por sua atuação anterior em batalha. Entre os melhores combatentes do mundo antigo estavam os legionários veteranos de César e entre os mais bravos deles César escolhia seus porta-estandartes. No entanto, depois de dez a treze anos de contínua campanha na Gália, eles também sofreram repentino colapso. Suetônio (46) registra dois casos de porta-estandartes histéricos que fugiram correndo em ocasiões diferentes. Quando César procurou detê-los, o primeiro tentou feri-lo com a afiada ponta do estandarte, enquanto o segundo deixou o estandarte em sua mão e continuou correndo. Contudo esses são casos extremos. A histeria evidenciou-se também na sensibilidade dos londrinos aos boatos durante a blitz. Esgotamento cerebral levava-os a acreditarem em histórias sobre as irradiações feitas da Alemanha por “Lord Haw-Haw” que eles teriam prontamente rejeitado como inverídicas se estivessem em estado de maior descanso e menor esgotamento. A ansiedade provocada pela Queda da França, pela Batalha da Inglaterra e pela blitz criou um estado em que grandes grupos de pessoas se tornaram temporariamente capazes de aceitar sem críticas crenças novas e, às vezes, estranhas. O mecanismo dos crescentes estados de sugestionabilidade será discutido repetidamente nos capítulos posteriores, pois é um dos meios de doutrinar pessoas comuns tanto religiosa como politicamente.

As faculdades críticas podem ficar inibidas nesses estados de histeria de ansiedade. “Aqueles que os deuses querem destruir, antes de tudo fazem ficar loucos.” Assim, alguns soldados e civis em estado agudo de colapso não se deixam tranquilizar por observação alguma, por mais sensata que seja; outros aceitam qualquer observação tranquilizadora, por mais tolamente que sejam expressadas. Em muitas partes do mundo as forças policiais confiam nessa inibição das faculdades críticas e do discernimento normal para obter confissões completas de prisioneiros sujeitos a debilitação ou pressões emocionais, sem necessidade de feri-los fisicamente (ver Capítulo 9). O mesmo fenômeno pode também ser aproveitado para finalidade curativa por psiquiatras, como será mostrado na devida oportunidade. Permite-lhes sugerirem novas atitudes diante da vida e novos padrões de comportamento, na esperança de que substituam os prejudiciais.

Em suas palestras, Pavlov chamou atenção para muitas outras semelhanças entre neuroses caninas e humanas. Se variedades de comportamento neurótico em tempo de guerra aqui tiveram destaque, é porque elas foram relatadas com muita precisão por inúmeros trabalhadores psicológicos “de campo” e porque ocorreram entre tipos comuns de pessoas, não entre os tipos de personalidade predominantemente neurótica e psicótica internados em hospitais psiquiátricos em tempo de paz. Pavlov estava também presumivelmente lidando com cães comuns. Em ambos os casos, o cérebro estava sendo sujeito a pressões inevitáveis. O cão isolado em seu compartimento experimental, o soldado em sua trincheira ou em seu abrigo solitário e o civil em uma brigada de bombeiros ou num esquadrão de salvamento, todos eles são forçados a receber tudo quanto lhes acontece, e suas provações são semelhantes. Na sociedade de tempo de paz, é geralmente dada uma oportunidade de fuga àqueles que se acham em situações nas quais há excessivas exigências a seu sistema nervoso; daí a raridade entre pessoas medianas de comportamento impressionantemente anormal sob pressão. A população civil, mesmo na guerra moderna, em geral passa melhor que o soldado. Durante a blitz, por exemplo, os londrinos que começaram a apresentar sintomas de ansiedade no decorrer de bombardeio conseguiam muitas vezes ser evacuados ou obter um período de repouso. Ao soldado, porém, geralmente se aplicava o ditado: “Quem não tem meio de retirada precisa vencer ou morrer”.

Ao provocar neuroses experimentais em seus cães, Pavlov achou necessário, em regra, conquistar a cooperação dos animais. Em seres humanos, as neuroses são também mais comuns entre aqueles que tentam vencer as pressões a que ficam expostos. Como o cão no compartimento experimental, que recusa cooperar em uma experiência, os soldados que fogem antes de ser disparado o primeiro tiro podem manter intacto seu sistema nervoso e assim evitar colapso grave, até serem alcançados pelas dificuldades a que haviam escapado até então. Há alguma coisa a dizer em favor da filosofia taoísta chinesa, que recomenda evitar pressão, ao contrário das filosofias de agressiva ousadia que ainda prevalecem na Europa e na América do Norte.

As descobertas de Pavlov também esclarecem muitas variedades de comportamento anormal observadas em formas comuns de doença nervosa e mental. William Gordon (47) publicou um artigo muito interessante sobre esse assunto em 1948. Acentuou ele que o cérebro amadurecido forma sistemas de respostas condicionadas positivas e negativas pelas quais o indivíduo se adapta a seu ambiente, principalmente baseando seu comportamento presente em experiência passada, e que a saúde mental é determinada pela eficiência de tal adaptação. Em perturbação mental tão grave quanto a esquizofrenia, observa-se uma inversão parcial ou completa da maioria do condicionamento anterior. Gordon, como Pavlov, acredita que a esquizofrenia resulta da fase ultraparadoxal da atividade cerebral. Acentua que os esquizofrênicos são frequentemente descritos como tendo perdido todo interesse por seus anteriores prazeres e atividades, desenvolvendo depois repentinamente comportamento depravado, suicida ou antissocial. Esta mudança pode ser, às vezes, explicada mostrando-se que o paciente responde agora positivamente a seu condicionamento negativo anterior e negativamente a seu condicionamento positivo anterior.

Em uma série de argutas ilustrações, Gordon descreve como pode ser devastadora uma repentina inversão do condicionamento positivo e negativo da pessoa. O ser humano adquire hábitos de comer nos quais diversos estímulos envolvendo odor, vista, ouvido e paladar adquirem forte condicionamento positivo, enquanto outros adquirem respostas negativas igualmente fortes. Alguns odores, por exemplo, podem fazer a boca humana salivar — como acontecia com os cães de Pavlov — na antecipação de alimento; outros causam náusea e temporária perda de apetite. Pacientes com doença mental, porém, começam de repente a comer alimentos pelos quais anteriormente sentiam repugnância e a recusar outros alimentos de que gostavam antes.

As crianças são ensinadas a urinar e defecar em horas certas e em lugares apropriados. Como acentua Gordon, a vista ou toque ao urinol torna-se uma resposta condicionada fortemente positiva na criança pequena; ao passo que roupas de uso e de cama, soalhos e móveis adquirem carga negativa. Contudo, quando o paciente fica mentalmente doente, observa-se com frequência que as roupas de uso e de cama, os soalhos etc. se tornam positivos para micção e defecção, sendo quase impossível fazer com que ele use a bacia da privada, o urinol ou a comadre oferecidos, porque esses objetos então só provocam respostas negativas. Gordon acentua também o caráter aparentemente “proposital” e “deliberado” das novas atividades.

Inúmeros outros casos ocorrem em campos muito variados do comportamento humano. Condicionamento falho na infância ou repentina inversão de condicionamento causada por doença nervosa ou mental em época posterior da vida é capaz de causar devastações na função sexual, que pode tornar-se despudoradamente erótica em pessoas anteriormente inibidas ou totalmente inibidas naquelas de tendências normais.

Pensamento obsessivo torna-se particularmente penoso quando sobrevêm as fases paradoxais e ultraparadoxais da atividade cerebral. A mais conscienciosa das mães pode de repente ficar obsessionada pelo temor de fazer mal ao filho que ama mais que a qualquer outra coisa no mundo. As pessoas mais temerosas de morrer podem ficar obsessionadas pela ideia de jogar-se por uma janela ou sobre os trilhos de uma ferrovia elétrica. Percebem a anormalidade desses pensamentos, mas quanto mais lutam contra eles, tanto mais fortes eles tendem a tornar-se. A Igreja Cristã preocupou-se muito com o problema de exorcizar os maus pensamentos que persistem contra a vontade da pessoa. Um meio às vezes recomendado é não se incomodar em ter maus pensamentos; há outro, que consiste no uso prolongado da oração e do jejum até ser atingido um ponto de debilitação temporária, quando um padre ou homem santo talvez sejam capazes de alterar os padrões de comportamento na mente do penitente.

Em carta escrita a um irmão jesuíta em maio de 1635, o padre Surin, exorcista das freiras de Loudun, descreve em um ambiente religioso o que parecem ser perturbações cerebrais paradoxais e ultraparadoxais das mais aflitivas, causadas pela tensão e ansiedade de seus esforços psicoterapêuticos: “O extremo em que me encontro é tal que mal tenho uma faculdade livre. Quando quero falar, minha boca está fechada; na missa, fico de repente parado; na mesa, não posso levar o bocado aos lábios; na confissão, esqueço-me em um momento de todos os meus pecados; e sinto que o demônio vem e vai, dentro de mim, como se estivesse em sua própria casa. Assim que acordo, ele está comigo nas orações; priva-me de minha consciência quando lhe apraz; quando meu coração quer expandir-se em Deus, ele o enche de cólera; quando quero vigiar, ele me faz dormir; e (…) vangloria-se de ser meu senhor”. (48)

 Não é propósito deste livro documentar com o histórico de casos determinados todas as ocorrências de fases “equivalentes”, “paradoxais” e “ultraparadoxais” possíveis em seres humanos. Este capítulo sugeriu, porém, que, embora “os homens não sejam cães”, seria realmente tolice continuar a ignorar inteiramente a experimentação da atividade nervosa superior de cães como irrelevante para a psicologia humana ou para a questão de saber como os pensamentos e crenças do homem podem ser eficientemente mudados.

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Capítulo III

O Uso de Drogas em Psicoterapia

No verão de 1940 já estávamos receitando barbituratos, tanto em doses fortes administradas oralmente, como sedativos para extenuados sobreviventes da retirada de Dunquerque, quanto em pequenas doses intravenosas para produzir um estado de semiembriaguez que os ajudava a descarregar uma parte de suas emoções inibidas de terror, cólera, frustração e desespero. O valor do tratamento, que tivera emprego limitado antes da guerra, foi confirmado durante a subsequente blitz de Londres. (49) Desde então passou a ser chamado de “abreação por droga”, datando o termo “abreação” da época dos primeiros estudos de Breuer e Freud sobre o tratamento da histeria, quando observaram que alguns pacientes eram beneficiados pelo simples fato de falar. (50) Freud havia descoberto que “memórias sem afeto, memórias sem a menor descarga de emoções” eram quase inúteis; significando isso que, a menos que um médico pudesse levar seus pacientes a viverem de novo as emoções originariamente associadas à experiência reprimida que causara a neurose, o mero fato de lembrar-se da experiência não constitui cura. Consequentemente, Sadler definiu a abreação como “um processo de reviver a memória de uma experiência desagradável reprimida e expressar em fala e ação as emoções relacionadas com ela, livrando assim a personalidade de sua influência”. (51)

Na Primeira Guerra Mundial, o mesmo tratamento abreativo fora muito empregado com bons resultados, mas em sua maior parte com hipnotismo, não com drogas. Ficou então estabelecido que a experiência responsável por uma neurose podia ser algo lembrado intelectualmente pelo paciente, mas cujas associações emocionais ele reprimira. Freud veio a aceitar essa descoberta, pois se tornou cada vez mais evidente que sintomas neuróticos podiam ser causados até mesmo por incidentes bem lembrados no passado do paciente.

Em ambos os conflitos mundiais, seja com o emprego de drogas ou de hipnose, a abreação teve lugar definido no tratamento de neurose de guerra aguda. Millais Culpin (52) escreveu: “Uma vez vencida a resistência consciente do homem à discussão de suas experiências de guerra, grande alívio mental seguia-se à descarga de acidentes emocionalmente carregados. Era como se a emoção contida por essa resistência consciente tivesse por sua tensão dado origem aos sintomas. A memória, geralmente de uma natureza que eu não suspeitava, vinha então à superfície, sendo seu retorno precedido às vezes pelo congestionamento do rosto, pressão das mãos sobre o rosto, tremores e outros sinais físicos de emoção”.

 Em 1920, William Brown (53) sugeriu que a abreação emocional era com frequência meio muito mais eficaz de curar um neurótico de guerra do que a simples sugestão sob hipnose. “A sugestão elimina os sintomas, mas a abreação elimina a causa dos sintomas produzindo reassociação inteiramente adequada”. Contudo, esperamos mostrar que a sugestão pode também desempenhar importante papel na realização de curas por abreação.

Relatórios publicados sobre o valor da abreação por droga no tratamento de vitimas de neurose, provocada pela retirada de Dunquerque e da blitz, fizeram com que esse tratamento fosse amplamente adotado na Grã-Bretanha. Renovado interesse foi despertado então entre os psiquiatras americanos pelo emprego posterior do mesmo tratamento, em 1942, no norte da África, por parte de Grinker e Spiegel, embora tivessem eles mudado sua denominação, de maneira um tanto confusa, para “narco-síntese”. (54)Além disso, Harold Palmer, psiquiatra britânico, vinha obtendo resultados interessantes no mesmo teatro de guerra com o emprego de éter em lugar de barbituratos (55), aperfeiçoando uma técnica de tratamento de sintomas histéricos descrita pela primeira vez por Penhallow, em Boston, em 1915 (56), e usada por Hurst e seu colaboradores durante a Primeira Guerra Mundial. (57)

Quando, em 1944, nós também começamos a usar éter para provocar abreação, como recomendava Palmer, em lugar de barbituratos, notamos imediatamente grande diferença no comportamento de nossos pacientes. Na maioria dos casos, o éter descarregou grau muito maior de excitação explosiva, que tornou extremamente pungente ou dramático o relato de acontecimentos feito pelos pacientes. (58) Outra observação impressionante foi que repentinos estados de colapso, depois de explosões emocionais provocadas pelo éter, eram muito mais frequentes do que depois daquelas provocadas por hipnose ou barbituratos.

Ocorreu então a meu colega dr. H. J. Shorvon e a mim que esse fenômeno de colapso, que estávamos então observando repetidamente, poderia corresponder à “inibição transmarginal” de Pavlov, que sobrevém quando o córtex se torna momentaneamente incapaz de mais atividade. Lembramos como, em alguns dos cães de Pavlov, a inundação de Leningrado abolira, acidentalmente os padrões de comportamento recém-condicionado implantados por ele. Estaria a mesma coisa acontecendo em alguns de nossos pacientes que haviam experimentado repentino colapso dessa maneira? Nesse caso, poderíamos também esperar que outros se tornassem mais sugestionáveis ou apresentassem inversão dos padrões anteriores de comportamento e pensamento, pois estava sendo produzida uma fase de atividade cerebral paradoxal ou ultraparadoxal. (59) Ficou provado que isso acontecia pelo menos em alguns casos.

Sob a ação do éter, certos pacientes podiam ser facilmente convencidos a reviver experiências de terror, cólera ou outra excitação. Alguns deles podiam então ter um colapso de esgotamento emocional e ficar imóveis durante um minuto mais ou menos, indiferentes aos estímulos comuns; e, ao tornarem a si, muitas vezes desandavam a chorar e relatavam que seus sintomas principais haviam desaparecido de repente. Ou então descreviam suas mentes como livres do terror despertado por certos quadros obsessivos; ainda podiam pensar neles, se desejassem, mas sem a ansiedade histérica anterior. Quando a simples excitação pelo relato de experiências passadas não atingia a fase de inibição transmarginal e colapso, pouca ou nenhuma mudança ou melhora mental podia ser observada no paciente; contudo, se o tratamento abreativo era repetido e empregavam-se drogas para aumentar a quantidade de estimulação emocional até sobrevir colapso, podia ocorrer repentina melhora.

Técnica tão drástica nem sempre era necessária. Alguns pacientes, por exemplo, sofrendo de recente perda de memória, exigiam apenas pequena dose de barbiturato, injetada por via intravenosa, para relaxar o cérebro; e isso fazia a memória fluir de volta sem maior esforço. O éter mostrou-se útil em casos nos quais esse tratamento não era suficiente; por exemplo, quando o comportamento anormal se tornara tão organizado e fixo a ponto de assemelhar-se à “estereotipia” descrita por Pavlov em seus cães. Tais condições podiam tornar-se persistentes, incapacitantes e resistentes a medidas curativas mais simples. Todavia, a maciça excitação despertada sob a ação do éter, terminando em estado de inibição transmarginal e colapso, era capaz de romper todo o vicioso padrão de comportamento independente e provocar rápida volta à saúde mental mais normal.

Relatórios, publicados originariamente em 1945, a respeito de dois casos dessa espécie, servirão de exemplos. (60) Um soldado de vinte e poucos anos fora recebido em um posto de socorro na cabeça-de-praia da Normandia, chorando, sem fala e paralisado. Prestara antes disso quatro anos de serviço como motorista de caminhão no Exército e nunca se queixara de doença nervosa, até ser de repente transformado em soldado de infantaria e mandado para a linha de frente, onde o fogo de morteiro e bombardeio produziram um rápido colapso. Mostrando-se insensível a tratamento de sedação durante uma quinzena na França, foi evacuado para a Inglaterra. Ao dar entrada em nosso Hospital de Emergência de Guerra parecia estar mentalmente lento, tenso e apreensivo. Foram aplicados mais sedativos, seguidos uma semana depois por tratamento de insulina destinado a aumentar-lhe o peso. No entanto, seu estado mental não mudou. Andava devagar, as costas curvadas, e as feições rígidas. Sua apreensão e lentidão de pensamento tornavam difícil para nós arrancar-lhe a história.

Nessa fase aplicamos-lhe barbiturato por via intravenosa e pedimos-lhe que descrevesse o que havia acontecido. A droga deixou-o muito mais relaxado mentalmente, e ele contou que estivera sob fogo de morteiro durante oito dias na mesma seção da linha de frente. Depois levaram-no através do rio até uma mata e deram-lhe ordem para atacar. Na mata, ele ficou cada vez mais nervoso e começou a tremer e sacudir-se. Vários homens foram mortos pelo fogo de morteiro perto dele, com o que ele perdeu a voz, irrompeu em lágrimas e ficou parcialmente paralisado. Posteriormente, dois homens feridos ajudaram-no a chegar até uma ambulância. “Eu me sentia atordoado. Fiquei deitado chorando. Não podia falar, só podia chorar e emitir sons”. Contudo, os barbituratos provocaram muito pouca emoção enquanto ele fazia seu relato e nenhuma mudança foi observada em seu estado quer imediatamente após, quer na manhã seguinte.

Naquela tarde, porém, foi-lhe dada outra abreação e desta vez empregou-se éter em lugar de barbiturato. Quando levado de novo ao mesmo terreno, contou a história desta vez com muito maior emoção e, por fim, ficou confuso e exausto, tentou arrancar a máscara de éter e respirou de maneira exagerada, como que dominado pelo pânico, até ser interrompido o tratamento. Quando tornou a si e se levantou do divã, demonstrava uma mudança evidente. Sorriu pela primeira vez e parecia aliviado. Alguns minutos depois disse que a maioria de seus males desaparecera com o éter. Uma semana mais tarde, ainda continuava a dizer: “Sou um sujeito diferente. Sinto-me muito bem”. Uma quinzena depois essa melhora estava sendo mantida.

Outro caso ilustra eliminação semelhante de uma “estereotipia” cerebral pelo emprego do éter. Aqui, porém, se verá que o emprego do éter sozinho não foi suficiente para provocar completa abreação; depois de um malogro preliminar, a chama da excitação do paciente foi deliberadamente atiçada até ele ser levado ao necessário ponto de colapso. A estereotipia de seu padrão de comportamento desfez-se e então e ele melhorou muito. (61)

Este soldado havia passado quatro anos e meio no Exército como motorista-mecânico e desembarcara na Normandia uma quinzena depois do dia 1o. Seus sintomas apareceram gradualmente após ter estado em ação durante várias semanas. Recebeu também uma semana de tratamento de sedação na França, não reagiu e foi evacuado para um hospital na Inglaterra. Mostrava-se então deprimido e apático, queixando-se de tontura e incapacidade de suportar o barulho de tiros de artilharia ou de aviões. Não era capaz de tirar da mente a ideia de seus amigos que haviam morrido na França. O que reaparecia sempre em sua imaginação era uma cena na qual um de seus camaradas morria com um buraco na cabeça, o queixo de outro era arrancado e o sangue esguichava da mão de um terceiro.

Embora submetido a mais sedação e tratamento de insulina para restauração do peso, queixou-se uma quinzena mais tarde de que se sentia pior que nunca — a cena em que seus amigos eram mortos ou feridos persistia em sua imaginação. Então lhe foi dado éter para que revivesse essa cena, e ele ficou emocionalmente excitado, o suficiente para dizer que achava que a próxima cabeça arrancada seria a sua. Mas não chegou à fase de colapso. Ao recuperar a consciência, chorou e disse que não se sentia melhor. Podia “ainda ver tudo aquilo em sua mente”. Por isso, foi submetido a um segundo tratamento de éter. Desta vez foi levado a reviver outra experiência assustadora que ocorrera alguns dias antes daquela que estava então fixada em sua mente. Havia sido submetido a fogo de morteiro e bombardeio de mergulho no cemitério de uma igreja, e quando o terapista lhe sugeriu sob a ação do éter que ele estava novamente naquele lugar, começou a arranhar o divã com as unhas imaginando que se encontrava em uma vala. O terapista deliberadamente jogou com seus temores fazendo-lhe comentários realísticos sobre a situação cada vez pior até quando, atingindo um clímax de excitação, ele entrou de repente em colapso e ficou quase como se estivesse morto. Sobreviera a inibição transmarginal. Desta vez, ao recuperar a consciência, ele sorriu e disse: “Tudo acabou. Tudo está diferente. Eu me sinto mais aberto, doutor. Sinto-me melhor do que quando vim para cá.”

Quando lhe foi perguntado se lembrava do rosto do amigo sendo arrancado, sorriu e disse: “Pareço ter-me esquecido disso. A França não me preocupa mais agora”. Quando perguntado de novo sobre esse incidente, disse: “Sim, e também do rapaz com o buraco na cabeça, mas isso saiu de minha mente.” Quando lhe perguntaram por que havia acontecido tal coisa, respondeu: “Não sou capaz de explicar.” Em seguida, discutiu toda a cena com absoluta liberdade e sem a habitual demonstração de emoção. Mais tarde, no mesmo dia, disse: “Eu me sinto muito melhor. Fiquei livre disso. Sei tudo a respeito e isso não fica grudado em mim. Não me afeta da mesma maneira”. Começou então a melhorar rapidamente.

O aspecto mais notável neste caso está em que a experiência escolhida como meio de provocar excitação suficiente para destruir seus padrões anormais de comportamento não foi aquela que o perseguia. Em outras palavras, a explosão emocional limpou todo um capítulo de história emocional recente e seus padrões de comportamento associado que se haviam formado, devido à crescente incapacidade do paciente para suportar a tensão continuada da batalha.

Quanto mais tempo tiverem persistido esses padrões anormais de comportamento, tanto mais difícil será, naturalmente, eliminá-los com métodos simples como os que acabam de ser descritos. Um terceiro caso mostra, porém, que uma estereotipia de pensamento de seis meses, acompanhada por depressão e histeria, pode às vezes ser aliviada da mesma maneira.

Uma mulher de mais de cinquenta anos, ao dar entrada no hospital em 1946, declarou: (62) “Eu me sinto esquisita e vendo diferentes incidentes, com bombas-foguetes, pelos quais passei.” A mulher fora guarda antiaérea de tempo integral em uma área de Londres cruelmente bombardeada durante toda a guerra. Os principais sintomas neuróticos não se manifestaram senão em 1945, quando seu serviço estava chegando ao fim. Seu capacete fora arrancado por violenta explosão de foguete e uma coisa qualquer atingira a parte de trás de sua cabeça. Ergueu-se um galo; ela, porém, não lhe deu importância e continuou a ajudar no serviço de salvamento. “Vi coisas terríveis; muita gente cortada aos pedaços embaixo dos destroços.” De fato, cinquenta pessoas tinham morrido ou ficado feridas. Alguns meses depois, o incidente começou a persegui-la. Assim que fechava os olhos para descansar, via gente cortada e sangrando. A mesma espécie de quadro atormentava seus sonhos. Isso vinha ocorrendo desde seis meses antes de entrar no hospital. Estava deprimida e preocupada, incapaz de concentrar-se; perdera também muito peso e queixava-se de tontura, sentimentos de irrealidade, sono perturbado e uma fraqueza nas pernas que praticamente a imobilizava. Uma vizinha disse que ela, anteriormente mulher muito enérgica e brilhante, tornara-se descuidada, esquecida e desanimada.

Sob a ação do éter, reviveu o incidente da bomba-foguete com grande emoção e intensidade, descrevendo como ficara enterrada sob os destroços com o marido até ser salva por um irmão. Interrompeu seu relato, chamando freneticamente pelo marido. “Onde está você? Onde está você?” Repetiu isso várias vezes com toda a força dos pulmões, ao mesmo tempo em que tateava com os dedos como se o estivesse procurando entre os destroços. O clímax ocorreu quando ela descreveu o salvamento dele, ponto em que caiu de repente para trás, entrou em colapso e ficou inerte. Ao recuperar a consciência, verificou que podia perfeitamente usar seus membros, estava com a mente clara e não tinha mais temores ou visões. A melhora foi mantida e o tratamento de insulina devolveu-lhe o peso.

No entanto, nem sempre achamos essencial, na abreação, fazer um paciente recordar o incidente exato que precipitou o colapso. Muitas vezes é suficiente criar no paciente um estado de excitação análogo ao que causou sua condição neurótica e mantê-lo até entrar em colapso; então ele começa a melhorar. Assim, é preciso usar imaginação para inventar situações artificiais ou distorcer acontecimentos reais — especialmente quando o paciente, embora lembrando a experiência real que causou a neurose ou revivendo-a sob a ação de drogas, não atinge a fase transmarginal de colapso necessária para desfazer o novo padrão de comportamento mórbido. Entre os pacientes de cujos casos poderia ser deduzida a importante descoberta acima estava um soldado de um regimento de tanques que pudemos levar a ponto de colapso emocional, sob a ação de éter, apenas convencendo-o de que estava preso dentro de um tanque em chamas e precisava tentar sair a todo o custo. Isso nunca acontecera na realidade, embora devesse ter sido um temor persistente dele durante toda a campanha.

Alguns pacientes neuróticos recebem evidente ajuda no sentido da recuperação quando lembranças esquecidas são trazidas de volta à consciência. Tanto Freud como Pavlov, em suas pesquisas sobre o funcionamento do cérebro humano e do cérebro canino, respectivamente, sugerem que incidentes emocionais reprimidos podem criar grave ansiedade generalizada em alguns tipos temperamentais. Janet também acentuou a importância de reexcitar pacientes quando se tenta trazer de volta à consciência tais lembranças. (63) No entanto, nossa experiência na Segunda Guerra Mundial sugeriu que a estimulação de excitação grosseira podia muitas vezes ter maior virtude curativa que o reviver de qualquer experiência esquecida ou lembrada. De fato, a quantidade de excitação provocada parecia ser o fator determinante do êxito ou malogro de inúmeras tentativas de eliminação dos padrões de comportamento mórbido recém-adquirido. Emoção que não leva o paciente ao ponto de inibição transmarginal e colapso podia ser de pouca utilidade — o que é uma descoberta de muita relevância para o tema principal deste livro, isto é, a fisiologia da conversão religiosa e política. De igual relevância para o mesmo tema foram os aumentos de sugestionabilidade e as repentinas inversões de comportamento observadas em pacientes neuróticos quando presumivelmente se atingiu a fase ultraparadoxal de inibição: reações condicionadas negativas tornando-se positivas e positivas tornando-se negativas.

Mais um ponto precisa ser acentuado neste contexto: muitos pacientes que são submetidos a repetidas abreações, durante um período de meses, até mesmo anos, sobre o divã do psicoterapista, tornam-se cada vez mais sensíveis às sugestões do terapista. Este talvez possa então mudar os padrões anteriores de comportamento dos pacientes sem muita dificuldade: os pacientes reagem com maior disposição quando o psicoterapista tenta implantar neles novas ideias ou novas interpretações de ideias velhas, que teriam rejeitado sem hesitação antes de adquirirem “transferência” em relação a ele.

Para ser claro, espera-se mostrar que há notáveis semelhanças básicas entre: primeiro, o comportamento de muitos pacientes neuróticos durante a abreação e depois dela; em seguida, o comportamento de pessoas comuns sujeitas a sermões causadores de medo preferidos por um grande pregador; e, finalmente, o comportamento de suspeitos políticos em postos policiais e prisões nos quais são arrancadas confissões e implantados hábitos de “pensar direito”. Além disso, grupos normais podem ser estimulados em tempo de paz por pregação ou oratória de comício, tão seguramente quanto indivíduos neuróticos o podem ser por meio de drogas durante tratamento abreativo em um hospital de guerra. Nos capítulos subsequentes será passada em revista uma variedade de métodos empregados em diferentes contextos para conseguir efeitos semelhantes. Acentuemos, porém, sem mais demora uma descoberta: alguns tipos de pessoas são peculiarmente resistentes à “abreação” sob ação de hipnotismo ou drogas, bem como aos mais pacíficos métodos de conversão religiosa ou política. A pessoa excessivamente conscienciosa e meticulosa, por exemplo, que se sente obrigada a pingar todos os “ii”, a cortar todos os “tt” e prestar muita atenção em todos os “pp” e “qq”, raramente fica excitada demais mesmo sob ação do éter; e alguns pacientes melancólicos ficam também profundamente deprimidos para deixarem que suas emoções reprimidas sejam descarregadas pela estimulação de drogas.

“Abreação” sob ação de drogas é talvez frase solene demais para designar um fenômeno conhecido: quando um homem precisa desabafar alguma coisa que o está preocupando, o provável é que tome várias doses fortes de bebida e espere que elas lhe soltem a língua. Em sentido inverso, a bebida é usada no comércio, no jornalismo e nos serviços secretos, para forçar confissões indiscretas por parte de pessoas que tenham dificuldade em guardar segredo. Depois de vitórias no campo de batalha ou no campo de futebol, muitos vencedores de língua presa recorrem à bebida para descarregar suas emoções reprimidas de maneira socialmente aceitável. In vino veritas.

Emoções podem ser também descarregadas por meio de danças vigorosas. Foi com danças selvagens e histéricas que a Grã-Bretanha saudou o armistício de 1918. O jazz negro foi um presente dos céus para os neuróticos de guerra da época — a valsa e o “two step” não foram inventados para descargas de emoções fortes — e o tratamento curativo prolongou-se bastante pela década de 20. Algumas tribos primitivas usam a dança para a mesma finalidade. A abreação pela bebida — primeiro cerveja e posteriormente vinho — e por dança de ritmo selvagem era também o objeto dos ritos antigos em honra de Dionísio; mas os gregos tinham sua própria palavra para designá-la: catarse ou “limpeza”. Abreação é um velho truque psicológico que vem sendo usado, para o bem ou para o mal, por gerações de pregadores e demagogos a fim de abrandar a mente de seus ouvintes e ajudá-los a assumir os desejados padrões de crença e comportamento. Se o apelo tem sido feito com mais frequência para atos nobres e heroicos ou para crueldade e loucura é coisa que cabe ao historiador e não ao psicólogo decidir.

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Capítulo IV

Psicanálise, Tratamento de Choque e Leucotomia

Parece, portanto, que a eficácia das técnicas abreativas, embora atribuída no passado a vários fatores invocados pelo abreador, depende muitas vezes de poderosas forças psicológicas desencadeadas no processo. Para perceber isso, basta considerar quantas vítimas de neuroses inibitórias foram beneficiadas por meio de repentinos choques emocionais não específicos. Certas pessoas foram livradas de cegueira histérica por um forte e repentino trovão; outras recuperaram o uso das pernas depois de violento susto emocional provocado por um golpe repentino na cabeça.

Na Grã-Bretanha, durante os últimos dez anos, tem-se realizado pesquisas bastante intensas sobre o valor de diferentes drogas à disposição da psicoterapia, especialmente aquelas capazes de provocar excitação cerebral em vários tipos de doença neurótica. O óxido nitroso (gás hilariante) (64), dióxido de carbono e misturas de oxigênio (65), drogas como metedrina (semelhante à benzedrina, mas aplicada por via intravenosa) (66) e várias combinações de todas essas substâncias foram experimentadas. Como já foi mencionado, as neuroses comuns de tempo de paz não cedem ao tratamento de maneira tão dramática quanto as que foram tratadas durante a luta na Normandia e a blitz de Londres. Só em caso excepcional, quando uma pessoa até então estável fica desequilibrada devido a severo choque psicológico ou intolerável pressão, é que se repete a experiência de tempo de guerra. No entanto, o tempo de paz oferece abundantes exemplos do que acontece quando cérebro normal ou anormal é submetido a constante tratamento abreativo; e esses exemplos podem contribuir para maior conhecimento sobre a lavagem cerebral e as técnicas tradicionais de conversão religiosa.

Experiências com animais — convém repetir mais uma vez — mostraram que, quando o cérebro é estimulado além dos limites de sua capacidade de tolerar as pressões impostas, sobrevém finalmente inibição protetora. Quando isso acontece, não só podem ser suprimidos padrões anteriores de comportamento implantados no cérebro, mas também reações condicionadas positivas anteriores podem tornar-se negativas e vice-versa. Do mesmo modo, a aplicação de estímulos cerebrais muito excitantes ou muito frequentes pode, às vezes, fazer com que vítimas humanas voltem a seus padrões anteriores de comportamento. Outras têm probabilidade de tornar-se mais sugestionáveis, aceitando como verdade inegável tudo quanto lhe dizem, por mais absurdo que seja.

Todos esses efeitos podem ser observados quando pacientes psiquiátricos de tempo de paz são submetidos a repetidas abreações com ou sem drogas. Quanto mais comum a personalidade anterior, tanto mais pronta pode ser sua reação e mais confiante sua conversa sobre “ver coisas sob uma nova luz”. Depois de abreação particularmente severa, o paciente, às vezes, inverte completamente suas opiniões sobre religião ou política ou sua atitude em relação à família e aos amigos. Essas atitudes podem também variar em todos os sentidos com alarmante rapidez. Em muitas pessoas a sugestionabilidade pode ser aumentada, pelo menos temporariamente, por meio de abreação repetida. O paciente pode aceitar do psicoterapista vários tipos de garantia que nunca aceitaria de seu advogado, pastor ou médico da família, quando em estado de espírito mais calmo.

Ademais, assim como os cães de Pavlov permaneceram sensíveis à causa original de sua perturbação mental — isto é, a água escoando por baixo da porta do laboratório durante a inundação de Leningrado — os pacientes tendem a tornar-se altamente sensibilizados em relação ao terapista que neles causa repetidas convulsões emocionais. Os psicanalistas chamam isso de formação de transferência positiva ou negativa em relação a eles próprios. Neste ponto também Pavlov oferece uma possível explicação fisiológica para o que foi até agora explicado em termos psicológicos mais complexos. É precisamente provocando o fenômeno de “transferência” que Freud e sua escola psicanalítica explicam o êxito de seus métodos de tratamento. Embora hoje geralmente se admita que nem todas as doenças mentais são devidas a trauma sexual, na prática eles ainda encorajam o paciente a repisar as primeiras excitações sexuais e sentimento de culpa sexual associados, contribuindo assim para despertar nele as emoções necessárias à abreação eficaz.

Algumas técnicas de psicoterapia mostram, de fato, que métodos de conversão política e religiosa encontram suas réplicas na prática psiquiátrica comum e que é possível fazer o paciente “ver a luz”, seja qual for a luz doutrinária no caso, sem recurso a drogas ou debilitação especialmente provocada ou qualquer outro auxílio artificial de abreação. Drogas aceleram o processo promovendo as mudanças psicológicas necessárias na função cerebral; contudo, estas podem ser produzidas também pelo emprego de repetidos estímulos psicológicos.

Manda-se, por exemplo, um paciente submetido a tratamento psicanalítico deitar-se sobre um divã, onde diariamente durante meses ou talvez anos é encorajado a entregar-se à “livre associação de ideias”. Pode-se também perguntar a ele: “Que significa guarda-chuva para você?” — “Tio Toby.” “Que significa ”maçã“ para você?” — “A menina da casa vizinha.” É possível talvez encontrar significação sexual nessas respostas. O paciente tem de voltar a seus pecadilhos sexuais antigos e reviver outros incidentes que despertaram intensa ansiedade, medo, culpa ou agressão, especialmente na infância. À medida que prossegue a análise e crescem talvez as tempestades emocionais, o paciente torna-se cada vez mais sensibilizado em relação ao analista. Formam-se fisiologicamente as chamadas “situações de transferência”, tanto positivas como negativas, ajudadas muitas vezes nas primeiras fases do tratamento pelo cansaço e debilitação resultantes da ansiedade despertada. A tensão do paciente e sua dependência em relação ao terapista podem ser grandemente aumentadas. Chega-se finalmente a uma fase em que enfraquece a resistência às interpretações do terapista sobre os sintomas do paciente, e este pode começar a aceitá-las muito mais prontamente. Então, ele acredita e age com base em teorias sobre seu estado nervoso que, no mais das vezes, contradizem suas crenças anteriores. Muitos dos padrões habituais de comportamento do indivíduo podem ser também abalados por esse processo e substituídos por outros novos. Essas mudanças são consolidadas fazendo-se com que o comportamento do paciente se torne o mais coerente possível com o novo discernimento adquirido. Antes do término do tratamento, fazem-se tentativas de reduzir a dependência emocional do paciente em relação ao terapista. Como me observou um paciente que foi analisado pessoalmente por Freud: “Nos primeiros meses não fui capaz de sentir outra coisa senão crescente ansiedade, humilhação e culpa. Nada mais de minha vida passada parecia satisfatório e todas as minhas antigas ideias a meu próprio respeito pareciam ser contraditadas. Quando entrei em um estado completamente desesperado, ele (Freud) pareceu então começar a restaurar minha confiança em mim mesmo e juntar tudo em uma nova disposição. (67)

O tratamento psicanalítico é muito mais vagaroso na criação do que métodos mais violentos ou intensivos podem frequentemente conseguir no terreno psiquiátrico, político ou religioso. Embora repugne a alguns terapistas admitir que sua forma de tratamento pode equivaler a uma experiência de conversão, essa parece ser uma explicação muito provável para o que pode acontecer não apenas a alguns de seus pacientes, mas mesmo aos próprios médicos quando submetidos a análise para finalidades de treinamento. Isso porque, quando o tratamento é eficaz, os médicos podem ficar firmemente doutrinados nos princípios freudianos com exclusão da maioria dos demais princípios. Podem mesmo ter sonhos da orientação freudiana esperada por seus professores, para confirmar sua fé. Ainda mais, o mesmo tipo de pessoa (ou até o mesmo paciente) que visita um analista jungiano muitas vezes completa sua psicanálise com um tipo jungiano de “insight”, depois de ter tido sonhos “subconscientes coletivos” jungianos. Prova nesse sentido foi apresentada por um conhecido psiquiatra. Contou ele ao autor como, quando muito mais moço, veio à Inglaterra na década de 20 e se submeteu à experiência de três meses de análise por um freudiano, seguidos por três meses de análise por um jungiano. Suas anotações contemporâneas mostram que os sonhos que teve quando sob tratamento freudiano variaram muito daqueles que teve quando sob tratamento jungiano; e ele nega que tenha tido os mesmos sonhos antes ou depois disso. Entre as finalidades da terapia, parece, de fato, estar a destruição dos padrões anteriores de comportamento do paciente, ajudada pela provocação de emoções fortes. O aumento da sugestionabilidade do paciente pode ajudar o terapista não apenas a mudar seu pensamento consciente, mas até mesmo a dirigir sua vida de sonhos. A análise muitas vezes só é considerada completa quando foram inteiramente absorvidos os pontos de vista do terapista e anulada a resistência — ou a chamada “transferência negativa” — às interpretações do terapista em relação a acontecimentos passados.

A capacidade de sonhar tipos especiais de sonho para determinado terapista é encontrada também entre povos mais primitivos. Bengt Sundkler, em “Bantu Prophets in South Africa” (68), observa como os nativos bantus que se tornam pastores cristãos atribuem importância muito grande ao fazer com que aqueles que procuram converter-se ou que foram recentemente convertidos tenham a espécie certa de sonhos “estereotipados”. Relata ele que: “alguns missionários sentiram-se humilhados e até mesmo escandalizados devido à importância atribuída aos sonhos pelos africanos. Missionários ficam quase chocados pelo fato de uma revolução espiritual importante como a conversão ser atribuída em muitos casos a algum sonho absurdo e não à decisão consciente da vontade. (…) Os símbolos mais impressionantes que se repetem nos sonhos (estereotipados) citados por Allier são: luz, roupas brilhantes, grupo de cristãos do outro lado do rio convidando o sonhador a atravessá-lo. (…) Características (também) são as impressões claras e distintas registradas pelo sonhador. O comprimento, ou melhor, a curteza da grama verde vista no céu é sempre comentada. Pormenores insignificantes no vestuário e nos acessórios são com frequência acentuados”.

Sundkler dá muitos outros pormenores interessantes sobre a produção artificial de tais sonhos: “Alguns sionistas sabem a que se referem como ‘dom dos sonhos’. (…) Outros ainda precisam ser treinados e ensinados a sonhar a fim de conseguirem o sonho estereotipado certo. (…) O profeta X atribuía muito valor aos sonhos de seus neófitos. Depois de uma confissão geral de pecados, dizia a eles que fossem para casa e lá ficassem durante três dias e depois voltassem para relatar-lhe tudo quanto haviam sonhado naquele período. Não deixariam de ter sonhos muito significativos, garantia-lhes ele. A grande coisa esperada e desejada no sonhador é a revelação de Jeová, do Anjo ou de Jesus, sempre aparecendo em roupas brancas brilhantes”.

 Foi acentuado também que, como em outras disciplinas psicoterapêuticas, os sonhos estereotipados produzidos têm como corolários a apresentação de “interpretações estereotipadas e padronizadas” e que: “Em nome da liberdade do Espírito Santo a seita exerce assim um controle totalitário sobre o indivíduo, que não evita sequer as profundezas ocultas da mente subconsciente da pessoa. O indivíduo é maleável e a seita o está amoldando em um tipo padronizado”.

 Não é de surpreender que a pessoa comum, em geral, seja muito mais facilmente doutrinada que a anormal. Até mesmo psicanálise intensiva pode conseguir muito pouca coisa em distúrbios psiquiátricos graves como esquizofrenia e melancolia depressiva, e pode ser quase igualmente ineficaz em certos estados consolidados de ansiedade crônica e obsessão. Uma pessoa é considerada “comum” ou “normal” pela comunidade simplesmente porque aceita a maioria de seus padrões sociais e padrões de comportamento; significa isso, de fato, que a pessoa é suscetível à sugestão e foi persuadida a seguir a maioria na maior parte das ocasiões comuns e extraordinárias.

Pessoas que sustentam opiniões de minoria, embora postumamente possa ficar provado que estavam certas, são frequentemente chamadas de “malucas” ou pelo menos “excêntricas” enquanto vivas. Contudo, o fato de poderem sustentar opiniões avançadas ou atrasadas desagradáveis à coletividade em geral mostra que elas são muito menos sugestionáveis que seus contemporâneos “normais”; e nenhum paciente pode ser mais difícil de influenciar pela sugestão que o doente mental crônico. As pessoas comuns também têm muito maior capacidade de adaptação às circunstâncias que a maioria dos excêntricos ou psicóticos. Durante a blitz de Londres, civis comuns ficaram condicionados às mais bizarras e aterrorizadoras situações; continuavam cuidando calmamente de seu trabalho embora tivessem pleno conhecimento de que vizinhos seus haviam sido enterrados vivos em casas bombardeadas nas suas proximidades. Percebiam que preocupar-se com as vítimas quando nada mais podia ser feito para salvá-las provocaria seu próprio colapso nervoso. De fato, aqueles que sucumbiram durante a blitz de Londres foram em sua maioria pessoas anormalmente ansiosas ou anormalmente fatigadas que não podiam mais adaptar-se aos horrores e tensões incomuns.

Nunca será demais acentuar este ponto em sua relevância no fenômeno da conversão política ou religiosa. É uma ilusão popular ter a pessoa mediana maior probabilidade de resistir às modernas técnicas de lavagem cerebral que a anormal. Se o cérebro humano comum não possuísse capacidade especial de adaptação ao ambiente sempre mutável — criando mutáveis reflexos condicionados e padrões de reações, e submetendo-se temporariamente quando parece inútil oferecer mais resistência — o homem nunca teria sobrevivido a ponto de tornar-se o mamífero dominante. A pessoa com capacidade deficiente de adaptação e excessiva rigidez no comportamento ou pensamento está sempre em perigo de sucumbir, entrar em um hospital mental ou tornar-se neurótico crônico.

Convém também notar que os hipnotizadores de teatro, para demonstrar seus poderes de sugestão, costumam escolher os voluntários mais comuns que se oferecem. O soldado jovem, robusto e vigoroso ou o calmo atleta têm probabilidade de ser pacientes fáceis. Os hipnotizadores têm o cuidado, porém, de nada tentar com o neurótico desconfiado e ansioso.

A incidência mais elevada de fenômenos histéricos entre pessoas comuns submetidas a agudas tensões de guerra, em comparação com a verificada entre pessoas da mesma espécie sob as tensões menores em tempo de paz ou entre pessoas cronicamente ansiosas ou neuróticas, em tempo de paz ou de guerra, é mais uma prova (se isso ainda fosse necessário) do que estamos sustentando, isto é, que entre as vítimas mais dispostas à lavagem cerebral ou conversão religiosa podem estar os extrovertidos simples e sadios.

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Moderno Tratamentos de Choque e Leucotomia

Antes de poder mudar padrões de comportamento de pensamento e ação no cérebro humano com rapidez e eficiência, é aparentemente necessário em muitos casos provocar alguma forma de perturbação cerebral fisiológica. O paciente talvez precise ser assustado, enraivecido, frustrado ou emocionalmente perturbado de uma maneira ou outra, porque todas essas reações têm probabilidade de causar na função cerebral alterações que podem aumentar sua sugestionabilidade ou torná-lo propenso a abandonar seu condicionamento normal. Técnicas psicoterapêuticas que consistem meramente em falar com o paciente em geral se mostram ineficazes na cura de estados mais graves de perturbação mental, mesmo quando podem ser despertadas fortes emoções. Na maioria desses casos graves de doença mental, os padrões normais de comportamento já foram destruídos e outros anormais se estabeleceram ou se estão estabelecendo. Resultados muito melhores podem ser obtidos pela combinação de psicoterapia com um ou outro dos recém-introduzidos tratamentos modernos de choque ou com operação no cérebro. A história do tratamento psiquiátrico mostra, de fato, que desde tempos imemoriais foram feitas tentativas de curar perturbações mentais com o emprego de choques fisiológicos, sustos e vários agentes químicos; e tais meios sempre produziram resultados brilhantes em certos tipos de pacientes, embora tenham sido também aplicados indiscriminada e perniciosamente a pacientes que não podiam reagir a esse tratamento determinado.

Nos últimos vinte anos, foi empregada uma variedade de tratamento de choque, cada um deles descoberto separadamente dos outros. Contudo, a semelhança entre seus efeitos é fascinante quando encarada à luz das experiências fisiológicas de Pavlov com cães e das descobertas feitas em vítimas de combate na Segunda Guerra Mundial. Já foi demonstrado que algumas das curas mais rápidas e dramáticas pela abreação por droga e outros tratamentos psicoterapêuticos ocorrem quando estados de excitação produzidos nos cérebro continuam até atingir a fase de inibição protetora e colapso, ficando assim o cérebro livre de alguns de seus padrões de comportamento de pensamento recém-adquiridos. O tratamento de choque elétrico, que se mostrou muito útil para eliminação de certos estados de depressão mental grave, é simplesmente a provocação artificial de um ataque epiléptico. Consegue-se isso passando uma corrente elétrica através do cérebro, não sendo a força da corrente maior que o necessário para causar o ataque. (69) Uma série de quatro a dez ataques, provocados uma ou duas vezes por semana, pode reduzir a duração de tais acessos de depressão a apenas algumas semanas, em casos nos quais a doença provavelmente se prolongaria por um ou dois anos ou mesmo mais. No entanto, a menos que se produza um ataque epiléptico completo, esse tratamento elétrico não tem efeito. O chamado “subchoque”, um choque elétrico que não causa convulsão no cérebro, é inútil. Uma convulsão completa significa que o cérebro continua a convulsionar-se até o ponto em que não pode mais fazer isso, tornando-se então temporariamente exausto e inibido. Há semelhanças impressionantes entre uma convulsão e uma abreação emocional muito severa.

É muito difícil realmente fazer com que pacientes severamente deprimidos ab-reajam e descarreguem emoções reprimidas sob a ação de drogas. E as emoções nesse caso não são agressivas, como quando estão em tratamento tipos temperamentais mais fortes, mas consistem principalmente em auto-humilhação e autoculpa. Todavia, depois de uma série de convulsões eletricamente provocadas, logo cessa essa condição anormal, que apresenta indício de atividade cerebral paradoxal ou ultraparadoxal. O paciente começa a apresentar novamente uma agressividade normal contra o mundo, e não contra si próprio, deixa de sentir-se responsável por tudo quando acontece de errado e pode mesmo voltar-se colericamente contra o médico que o está tratando. Nesse ponto torna-se de novo sensível às formas comuns de sugestão e psicoterapia. Tendo a mente ficado livre de sua camisa de força inibitória, os delírios de culpa e iminente catástrofe do paciente dispersam-se e desvanecem-se. Indício significativo do problema foi dado por uma paciente americana deprimida que frequentava reuniões destinadas a despertar fervor religioso, em um esforço para curar-se de grave depressão mental associada a sentimentos de culpa religiosa. Descobriu que não era capaz de adquirir entusiasmo suficiente para participar da excitação de grupo que estava transfigurando quase todos os outros presentes — até que um curso de tratamento de choque elétrico lhe permitiu conseguir isso. Sugere esse fato que certos estados de atividade cerebral anormal reagem muito mais prontamente a repetidas convulsões eletricamente provocadas do que a abreação com ou sem drogas e igualmente destinada a produzir perturbação temporária de função cerebral. É possível, porém, que ambos os métodos funcionem de acordo com os mesmos princípios fisiológicos. O comparecimento a reuniões destinadas a despertar fervor religioso aliviou outro paciente americano de dois ataques de depressão anteriores, mas não de um terceiro ataque muito mais grave. Neste último, só reagiu a tratamento de choque elétrico. (70)

Já antes da Segunda Guerra Mundial, a esquizofrenia, especialmente nas fases iniciais da doença, estava sendo tratada com resultados positivos por meio de terapia de choque de insulina. (71) Consiste este método em dar ao paciente grandes doses de insulina para reduzir a quantidade de açúcar em seu sangue, produzindo assim um estado de confusão e excitação mental. Durante uma hora ou talvez mais, o paciente fica em estado de semi-inconsciência, até sobrevir um coma profundo. Quando emprega esse tratamento para alívio de esquizofrenia, o psiquiatra pode manter o paciente em coma durante meia hora. Em seguida é administrado açúcar, por meio de uma sonda estomacal ou injeção intravenosa, e o paciente acorda rapidamente. Os sintomas podem desaparecer depois de um curso desses tratamentos aplicados diariamente e com pouca psicoterapia adicional. Ai está, portanto, mais um tratamento que envolve uma fase inicial de excitação cerebral frequentemente descontrolada, terminando com temporária inibição cerebral e estupor.

Tanto o tratamento de choque elétrico como o de choque de insulina tendem a dispersar padrões recentes de comportamento anormal, embora raramente se mostrem eficazes nos casos em que esses padrões se consolidaram muito tempo antes. Os setores em que esses vários tratamentos têm utilidade estão agora se tornando mais claramente diferenciados; por exemplo, reconhece-se geralmente que casos graves de esquizofrenia inicial podem reagir melhor à terapia de insulina mais complicada, combinada às vezes com tratamento de choque elétrico, ao passo que estados de depressão mental causados talvez por pequena e prolongada ansiedade podem ser muitas vezes curados só com choque elétrico; e neuroses de guerra também, com sintomas depressivos causados por tensão mental mais violenta, podem reagir a abreações muito menos severas sob a ação de drogas. (72)

Entre os diferentes tipos de paciente que não reagem prontamente quer à psicoterapia, quer a qualquer dos modernos tratamentos de choque, inclui-se o neurótico obsessivo que sente o impulso de executar certas ações repetitivas — como o dr. Johnson precisava tocar certos postes indicadores quando descia a Fleet Street. Essas ações são muitas vezes inofensivas: um professor de letras clássicas de Oxford, na década de 1920, perguntou ansiosamente ao falecido dr. William Brown se era perigosa sua compulsão de andar sempre de um lado para outro da sala, em sequências de sete passos, quando lecionava. Brown tranquilizou-o, dizendo com ironia: “Quando descobrir que está andando em múltiplos de sete, venha procurar-me de novo! Simples setes não têm importância”.(73) Existem, de fato, graus progressivos de obsessão. Uma mãe pode, por exemplo, ficar continuamente preocupada com a possibilidade de ter deixado cair um alfinete de segurança aberto em uma garrafa de leite e essa garrafa ter sido devolvida à leiteria, onde não se seria lavada direito, de modo que a criança que bebesse em seguida o leite da mesma garrafa engolisse o alfinete. A mulher pode perfeitamente ter conhecimento da natureza absolutamente improvável desse temor repetitivo, mas apesar disso sentir-se compelida a examinar toda garrafa vazia de leite cinco ou seis vezes antes de devolvê-la ao leiteiro. Em todos os outros aspectos ela pode ser uma dona-de-casa sensata e eficiente. Outras, com sintomas menores da mesma doença, verificam antes de ir para a cama se todas as torneiras de gás estão fechadas e todas as portas convenientemente trancadas, repetindo o processo duas ou três vezes. Naturalmente, é provável que às vezes racionalizem seu comportamento dizendo que “todas as pessoas sensatas fazem várias verificações de segurança; vale a pena o trabalho”.

Os neuróticos obsessivos tendem também a ser excessivamente cuidadosos com relação à sua aparência e à limpeza de suas casas, a lavar suas mãos com desnecessária frequência e a ser meticulosamente rígidos em seus padrões cerebrais. Geralmente os vizinhos podem acertar o relógio pela hora em que o neurótico obsessivo passa pela rua quando vai e volta do serviço. Esse é o tipo de pessoa que se vangloria de em trinta anos nunca ter chegado atrasado ao serviço e nunca ter chegado mais que um ou dois minutos adiantado. É provável, porém, que infernize seu conselheiro espiritual com pequenas preocupações e dúvidas religiosas compulsivas que não consegue dissipar. O neurótico obsessivo é geralmente insugestionável, constituindo desespero do psicoterapista ou do hipnotizador de teatro.

Quando finalmente ele se torna tão cronicamente doente e compulsivo que passa a ser um peso para si próprio e para as pessoas a que está ligado, pouca coisa pode a psiquiatria fazer para ajudá-lo — a não ser por meio de uma operação cerebral chamada “leucotomia”, que será a seguir discutida. Esta resistência ao tratamento mostrar-se-á extremamente relevante quando forem discutidos, em capítulos posteriores, os mecanismos de conversão e lavagem cerebral. Alguns pacientes obsessivos submeteram-se a tratamento psicanalítico até durante quinze anos, entrando e saindo. Tendem a incluir seu tratamento no mesmo padrão obsessivo, esperando que um dia alguma lembrança subconsciente seja desenterrada e explique tudo.

O estudo de neuroses obsessivas mostra, porém, como certos tipos de cérebros são capazes de aferrar-se obstinadamente a seus padrões estabelecidos de comportamento. Muitas vezes tratamentos abreativos não fazem efeito e o paciente obsessivo pode ser submetido até a vinte ou trinta tratamentos de convulsão elétrica; mas, embora deles resulte confusão mental e o paciente possa até mesmo perder temporariamente grande parte de sua memória de acontecimentos recentes, assim que termina o tratamento e a memória começa a voltar, as antigas obsessões tendem a retornar com toda a sua força.

Os sintomas mais inquietadores de uma neurose obsessiva muitas vezes desaparecem gradualmente por si sós com o passar do tempo; e só podem mostrar-se agudos quando associados à depressão. Se for possível fazer desaparecer esta última, o neurótico obsessivo será beneficiado por tratamento de choque elétrico. Todavia, quando submetido à simples abreação psicológica, mesmo que não haja depressão, ele geralmente acha impossível entregar-se ao entusiasmo. Se sofre de choque causado por bomba, por exemplo, é capaz de discutir meticulosamente se a explosão ocorreu cinco ou dez minutos antes das três horas da tarde. Interrompe também as tentativas de excitá-lo transmarginalmente pela sua insistência em ter absoluta precisão em tudo quanto diz e fica imune a sugestões mesmo sob ação do éter. Portanto, se um dia for descoberto um meio médico simples de eliminar obsessões crônicas, terá sido forjada uma das armas finais para o arsenal dos especialistas em conversão religiosa e política. Enquanto isso, seus métodos dão muito melhor resultado com a maioria mentalmente sã. Falham frequentemente com o excêntrico, a menos que possam primeiro debilitá-lo fisicamente e esgotá-lo a um ponto em que suas crenças se tornem menos firmes e ele veja que sua única esperança de sobrevivência reside na submissão; nesse caso, às vezes, ele pode ser completamente mudado e redoutrinado. Muitos seres humanos excêntricos talvez se aproximem dos cães mais fortes de Pavlov, que só adquiriam novos padrões de comportamento após terem sido primeiro debilitados pela castração, pela fome ou por distúrbios gástricos provocados que lhes faziam perder muito peso. Uma vez redoutrinados, eram engordados e os novos padrões de comportamento tornavam-se tão firmemente fixados quanto os antigos; de fato, Pavlov não conseguia mais livrá-los deles.

Sintomas obsessivos em seres humanos ocorrem frequentemente depois de uma debilitante perda de peso, uma febre severa ou alguma operação ou doença que altere função glandular. Hoje fazem-se às vezes tentativas de tratar tais pacientes submetendo-os a uma dieta de perda de peso ou dando-lhes drogas para que percam o apetite: esperando que a debilitação resultante ajude a dissipar os padrões obsessivos de comportamento que foram adquiridos em circunstâncias semelhantes. (74) A história da religião contém muitos relatos de pensamento obsessivo pecaminoso que foi aliviado por meio de purgantes, vomitórios ou fome, após terem falhado métodos mais simples. Embora tenha sido constatado que todo cão tem seu ponto de ruptura eventual e o mesmo se possa presumir em relação aos seres humanos, nem mesmo na debilitação se pode confiar para alterar padrões obsessivos de pensamento e comportamento depois de firmemente estabelecidos pelo tempo.

Em um relato clínico de conversão religiosa e política, é impossível evitar classificar os pacientes humanos de acordo com seus tipos temperamentais básicos, cada um dos quais pode exigir um tipo diferente de tratamento fisiológico e psicológico. Quanto mais forte a tendência obsessiva, por exemplo, tanto menos sensível será o paciente a alguns tipos de técnicas de conversão; a única esperança é vencê-lo por meio de debilitação e prolongadas medidas psicológicas e fisiológicas para aumentar a sugestionabilidade. Hipnose individual ou coletiva é também ineficaz quando usada em vários tipos de neuróticos e psicóticos; em geral, só pode ser usada com confiança quando há prova da presença de sugestionabilidade.

No estado atual do conhecimento médico o único tratamento promissor para alguns pacientes obsessivos crônicos, esquizofrênicos crônicos e ansiosos ou depressivos crônicos, que não reagem a qualquer forma de terapia de choque, psicoterapia ou tratamento por drogas, é uma intervenção cirúrgica a que, em geral, só se recorre quando falha tudo o mais: a operação chamada “leucotomia pré-frontal” com suas mais recentes modificações pode ter efeitos tão interessantes que merece ser mencionada neste contexto.

A operação, em suas variadíssimas formas atuais, lança considerável luz sobre os mecanismos cerebrais pelos quais os padrões de pensamento e comportamento humanos são implantados ou erradicados. Foi introduzida pela primeira vez, em 1936, pelo neurologista português Moniz (75), que recebeu o Prêmio Nobel por ter conseguido fazer com que tantos pacientes cronicamente enfermos deixassem hospitais mentais e voltassem a seu trabalho e a suas famílias. Os efeitos secundários dessas operações sobre os processos de pensamento foram cuidadosamente estudados no caso de pacientes britânicos que se submeteram a ela há dez anos ou mais. Cerca de quinze mil pacientes já foram tratados só na Grã-Bretanha.

A leucotomia é reservada a pacientes que sofrem graves e persistentes estados de ansiedade e tensão, produzidos em alguns casos por fatos reais desagradáveis e em outros por alucinações ou delírios; mas, em qualquer dos casos, resistindo à dispersão por tratamentos não cirúrgicos. A operação, em especial nas suas formas recentemente aperfeiçoadas e modificadas, pode diminuir muito a tensão, embora nem sempre erradicando os pensamentos que a criaram. De fato, é possível por esse meio diminuir ansiedade excessiva resultante de pensamento tanto normal como anormal, sem afetar em grau acentuado outros processos de pensamento ou da própria inteligência; e com razoável probabilidade de serem permanentes os resultados favoráveis. A operação foi muito aperfeiçoada nos últimos anos e pode agora causar muito menos mudança na personalidade geral.

Quem observa o progresso de tais pacientes em seguida à operação percebe que, depois de diminuída sua ansiedade a respeito de uma ideia real ou imaginária, a própria ideia tem tendência a diminuir de importância. Um paciente pode, por exemplo, ser internado em um hospital mental por estar obsessionado pelo delírio de que tem uma fisionomia de forma anormal da qual riem todos os que a veem. Depois da leucotomia, o paciente pode ainda acreditar em sua fisionomia anormal, mas deixa de considerá-la uma deficiência social tão grande. Isso lhe permite sair do hospital, voltar ao trabalho e levar a vida como fazem muitas pessoas que têm deformações faciais verdadeiras. Alguns meses depois, pode-se constatar que a ideia delirante a respeito da fisionomia também desapareceu ou se tornou muito menos importante para o paciente por falta de continuado reforço emocional de sua ansiedade a respeito dela.

Costuma-se dizer que a leucotomia tende a tornar as pessoas banais e convencionais a ponto de perderem sua personalidade. E na verdade o resultado é, em geral, fazer com que elas se tornem membros mais comuns de um grupo, abertos a sugestão e persuasão sem resistência obstinada. Isso porque deixam de sentir profundamente em relação a suas ideias e podem, portanto, pensar mais logicamente e examinar novas teorias sem parcialidade emocional. Um exemplo: um paciente com delírio messiânico mostrara-se completamente insensível a tratamento psicanalítico intensivo, mas depois da leucotomia tornou-se capaz de discutir suas afirmações messiânicas com um enfermeiro inteligente e deixar que elas fossem vencidas por argumentos. Genuínas conversões religiosas verificam-se também depois das novas operações modificadas de leucotomia. Isso porque a mente é libertada de sua antiga camisa-de-força e novas crenças e atitudes religiosas podem então facilmente tomar o lugar das antigas.

Os sentimentos religiosos podem ser destruídos no homem se for efetuada uma operação extensa demais nos lóbulos frontais. Rylander descreveu pacientes assim na Suécia, enquanto Ström-Olsen e Tow (76) observaram outros neste país. Um dos pacientes de Rylander era: “… uma trabalhadora do Exército da Salvação, oficial de patente muito alta. Casara-se com um clérigo. Durante anos permaneceu no hospital, queixando-se constantemente de que cometera pecados contra o Espírito Santo. Queixava-se disso durante semanas e meses, enquanto seu pobre marido fazia o possível para distraí-la, mas sem sucesso. Depois decidimos operá-la. (…) Retiradas as ataduras, eu lhe perguntei: Como está agora? E o Espírito Santo? Sorrindo ela respondeu: Oh, o Espírito Santo? Não existe Espírito Santo”. (77)

Entretanto, empregando tipos mais modernos de operação e fazendo cortes muito mais limitados nos lóbulos frontais, podem ser diminuídos os sintomas de ansiedade e ruminação obsessiva sem produzir excessivos efeitos indesejáveis nas crenças religiosas comuns. Depois de cuidadoso exame de mais de cem pacientes que haviam sido acompanhados de um ano e meio a cinco anos após a operação, John Pippard relatou recentemente: “A atitude religiosa não é diretamente afetada pela leucotomia (modificada) rostral, mas está sujeita a ser afetada na reintegração da personalidade depois da operação, como realmente pode estar na reintegração depois da psicoterapia ou outro tratamento. (…) Os déficits de personalidade são desprezíveis depois de 95 por cento das leucotomias rostrais que proporcionam bom alívio sintomático, em comparação com apenas 44 por cento das leucotomias padronizadas (mais extensas). Mudanças positivamente indesejáveis ocorreram em apenas 2 de 114 casos, em comparação com 29 por cento das leucotomias padronizadas”. (78)

Para alguns naturalmente continuará sempre sendo discutível se é um erro transformar pessoas mentalmente angustiadas em seres mais comuns que não tenham sentimentos esmagadoramente fortes em um sentido ou outro. Em todo o caso, o sucesso da leucotomia serve para lembrar a inutilidade de encarar de maneira meramente racional muitos pacientes que sofrem de ideias fixas; e a inutilidade da consequente e infeliz tendência, registrada em toda a história, de recorrer a asilos de alienados, prisões, campos de concentração, força ou fogueira como meios de eliminar da sociedade todos os indivíduos que por outras maneiras não podem ser levados a aceitar as crenças aceitas pela maioria mais comum e sugestionável.

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Capítulo V

Técnicas de Conversão Religiosa

Ao tratar deste assunto, tentaremos descobrir o que é comum a muitas religiões nos métodos de conversão repentina empregados por seus sacerdotes e evangelistas. Esforçar-nos-emos para colocar isto em relação com o que sabemos sobre a fisiologia do cérebro. Precisamos ter o cuidado de não nos deixarmos distrair pelo que está sendo pregado. As verdades do Cristianismo nada têm a ver com as crenças inspiradas pelos ritos das religiões pagãs ou dos adoradores do diabo. Contudo, os mecanismos fisiológicos, de que fizeram uso as religiões de ambos os lados desse abismo, serão submetidos ao mais cuidadoso exame.

Os dirigentes das religiões bem-sucedidas nunca, pode-se realmente dizer, dispensaram de todo as armas fisiológicas em suas tentativas de conferir graça espiritual a seus semelhantes. Jejum, castigo da carne por flagelação ou desconforto físico, regulação da respiração, revelação de mistérios terríveis, toque de tambor, danças, cantos, provocação de medo, pânico, iluminação fantástica ou gloriosa, incenso, drogas inebriantes — esses são apenas alguns dos inúmeros métodos empregados para modificar a função cerebral normal em propósitos religiosos. Algumas seitas prestam mais atenção que outras à estimulação de emoções como meio de afetar o sistema nervoso superior; mas poucas a desprezam inteiramente.

Os indícios já apresentados sugerem que são análogos os mecanismos fisiológicos que tornam possível a implantação ou eliminação de padrões de comportamento em homens e animais; e que, quando o cérebro entra em colapso sob severa pressão, as mudanças de comportamento resultantes, seja no homem ou em um animal irracional, dependem tanto do temperamento hereditário do indivíduo quanto dos padrões de comportamento condicionado que ele formou pela gradual adaptação ao ambiente.

Acentuou-se também que aqueles que desejam dissipar crenças e atitudes mais sadias têm maior probabilidade de conseguir êxito se puderem primeiro provocar certo grau de tensão nervosa ou despertar sentimentos de cólera ou ansiedade suficientes para assegurar a atenção inteira da pessoa e possivelmente aumentar sua sugestionabilidade. Aumentando ou prolongando tensões de várias maneiras ou provocando debilitação física, é possível conseguir alteração muito mais completa dos processos de pensamento da pessoa. O efeito imediato de tal tratamento é, em geral, prejudicar o discernimento e aumentar a sugestionabilidade; e, embora a sugestionabilidade diminua quando a tensão é eliminada, as ideias implantadas enquanto ela dura podem permanecer. Se a tensão ou a debilitação física, ou ambas, são levadas uma fase além, pode acontecer que fiquem destruídos os padrões de pensamento e comportamento, especialmente aqueles de recente aquisição. É possível então substitui-los por novos padrões ou permitir que padrões suprimidos se reafirmem; ou o paciente pode ser levado a pensar e agir de maneiras que contradizem absolutamente suas maneiras anteriores. Alguns tipos temperamentais parecem relativamente impenetráveis a todas as pressões emocionais que lhes são impostas. Outros conservam suas crenças, depois de firmemente implantadas, com uma tenacidade que desafia os mais severos tratamentos de choques psicológicos e fisiológicos, e mesmo operações cerebrais especialmente destinadas a destruí-las. Essa resistência, porém, não é comum.

Tendo em mente esses fatos, pode-se esperar compreender mais claramente os mecanismos fisiológicos em ação em certos tipos de repentina conversão religiosa; daí o resumo repetitivo. Os métodos de conversão religiosa foram até agora considerados mais sob ângulos psicológicos e metafísicos que psicológicos e mecanísticos; contudo, as técnicas empregadas aproximam-se tanto frequentemente das modernas técnicas políticas de lavagem cerebral e controle da mente que cada uma delas lança luz sobre os mecanismos da outra. É conveniente começar com a história melhor documentada de conversão religiosa, que tem em comum com a conversão política o fato de um indivíduo ou grupo de indivíduos poder adotar novas crenças ou padrões de comportamento, em resultado de revelações surgidas na mente repentinamente e com grande intensidade, muitas vezes depois de períodos de grande tensão emocional. Todavia, como as prisões políticas não publicam relatos clínicos sobre as mudanças fisiológicas observadas naqueles que submetem a pressão mental intolerável, é conveniente citar os que foram observados em análogas vítimas de combate, e depois compará-los com os observados em pessoas que se converteram repentinamente à religião. Dois textos convenientemente paralelos são o “Diário” de 1739 de John Wesley e o relatório de Grinker e Spiegel sobre seu tratamento de neuroses agudas de guerra no norte da África em 1942.

Grinker e Spiegel (79) descrevem os efeitos de abreação de experiências de guerra sob a ação de drogas barbitúricas nos seguintes termos: “O terror demonstrado (…) é eletrificante de observar. O corpo torna-se cada vez mais tenso e rígido; os olhos arregalam-se e as pupilas dilatam-se, enquanto a pele fica coberta de fino suor. As mãos movem-se convulsivamente. (…) A respiração torna-se cada vez mais rápida e superficial. A intensidade da emoção torna-se maior do que pode ser suportada; e frequentemente, no auge da reação, há um colapso, e o paciente cai na cama e permanece quieto por alguns minutos (…)”.

 Relato de Wesley datado de 30 de abril de 1739: “Sabemos que muitos ficaram ofendidos pelo clamor daqueles que receberam o poder de Deus; entre eles havia um médico que tinha muito medo de que houvesse fraude ou impostura no caso. Hoje uma mulher que ele conhecia há muitos anos foi a primeira a romper em fortes gritos e lágrimas. Ele mal podia acreditar em seus próprios olhos e ouvidos. Foi ficar perto dela e observou todo sintoma, até que grandes gotas de suor correram pelo rosto dela e todos os seus ossos se sacudiram. Ele não soube então o que pensar, ficando claramente convencido de que não havia fraude, nem qualquer distúrbio natural. Mas quando tanto a alma como o corpo dela ficaram curados em um momento, ele reconheceu o dedo de Deus”. (80)

 Grinker e Spiegel relatam: “Os estuporados tornaram-se alertas, os mudos puderam falar, os surdos puderam ouvir, os paralíticos puderam mover-se, e os psicóticos, tomados de terror, tornaram-se indivíduos bem organizados”.

 Wesley também relata: “Eu vos mostrarei alguém que era um leão até então e é agora um cordeiro; alguém que era um ébrio e é agora exemplarmente sóbrio; o que era devasso e que agora odeia a própria roupa manchada pela carne”. (81)

 A principal diferença reside nas explicações dadas para os mesmos resultados impressionantes. Wesley e seus adeptos atribuíram o fenômeno à intervenção do Espírito Santo: “É o ato do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos”.

Grinker e Spiegel, por outro lado, acreditavam que seus resultados demonstravam a exatidão das teorias de Freud nas quais eles próprios acreditavam. Como será mostrado posteriormente, fenômenos fisiológicos e psicológicos quase idênticos podem resultar de métodos de cura religiosa e técnicas de conversão, igualmente nas mais primitivas e nas mais civilizadas culturas. Podem ser apresentados como provas convincentes da verdade de quaisquer crenças religiosas ou filosóficas que sejam invocadas. Todavia, como aquelas crenças são muitas vezes logicamente irreconciliáveis entre si e como a semelhança dos fenômenos fisiológicos produzidos por sua invocação é a única coisa que podem ter em comum — nós nos vemos diante de um princípio mecanístico que merece o mais cuidadoso exame.

Assim como selecionamos até agora experiências de Pavlov com cães para ilustrar um aspecto de nosso problema mais amplo e neuroses de combate da Segunda Guerra Mundial para ilustrar outro aspecto, os métodos e resultados de John Wesley serão aqui selecionados como típicos daqueles vistos em ambiente religioso efetivo e socialmente valioso. Ninguém pode duvidar de sua eficácia religiosa ou valor social, pois a pregação de Wesley converteu pessoas aos milhares e ele criou também um sistema eficiente para a perpetuação dessas crenças.

Harold Nicolson, escrevendo em 1955, disse: “Finalmente um revivalista (82) de gênio apareceu na pessoa de John Wesley. Com a morte de Wesley em 1791, o paganismo voltou por algum tempo à Inglaterra. A Igreja quase retornou à condição que o bispo Butler denunciara em 1736. (…) O bispo Butler não previu a grande chama que John Wesley ia atear tão pouco tempo depois ou que, após uma reação temporária, os evangelistas receberiam das mãos de Wesley uma tocha que fumegaria e bruxulearia durante cerca de oitenta anos”. (83)

 Admite-se hoje geralmente que ele levou inúmeros ingleses comuns a pensarem menos em seu bem-estar material que em sua salvação espiritual, fortalecendo-os assim, em um período crítico da Revolução Francesa, contra os perigosos ensinamentos materialistas de Tom Paine. A poderosa influência do “revival” metodista ainda impregna a Inglaterra sob a forma de sua “consciência não conformista”. Ademais, foram descendentes daqueles que promoveram essa poderosa campanha religiosa na Inglaterra que mais tarde abriram caminho para o grande Movimento Sindicalista Operário do presente.

O século XVIII, como o século XX, considerava-se a “Idade da Razão”. O intelecto era de fato considerado muito mais importante que as emoções, quando precisavam ser ditados hábitos de pensamento e comportamento. O grande sucesso de Wesley foi devido à sua descoberta de que era muito mais fácil implantar ou erradicar tais hábitos por meio de tremendo assalto às emoções. Muitos pastores wesleyanos confessam-se hoje perplexos quando leem relatos pormenorizados das conversões de Wesley, após terem cegado seus olhos ao tremendo poder ainda latente na técnica que ele empregava. Todos os indícios conspiram para mostrar que não poderá haver novo “revival” protestante enquanto continuar a política de apelar principalmente à inteligência e razão adultas, e enquanto os líderes da Igreja não consentirem em aproveitar-se mais do mecanismo emocional da pessoa normal para destruir velhos padrões de comportamento e implantar outros novos.

Os esforços do próprio Wesley como pregador foram relativamente ineficazes até quando seu coração se tornou “estranhamente aquecido” em uma reunião em Aldersgate Street em 1738. Em estado de grave depressão mental, ele procurara anteriormente auxílio com Peter Böhler, um missionário morávio, após regressar de um malogro total como pastor da recém-fundada colônia de Georgia. Até então sempre acreditara que a salvação espiritual só podia ser alcançada pela execução de boas obras e não exclusivamente pela fé. Sua repentina conversão transformou-o em uma pessoa que punha a fé acima de tudo, o que lhe permitia deixar de lado todos os seus temores; e encontrou inesperado aliado em seu irmão Charles, que estivera com ele na Georgia e que Peter Böhler também havia tentado modificar. Charles sofria igualmente de aguda depressão mental, causada por suas próprias experiências na Georgia e pela debilitação física depois de um segundo ataque de pleurisia. As repentinas conversões dos dois irmãos, com um intervalo de apenas três dias entre as duas, para a crença na certeza da salvação pela fé, em lugar das boas obras, estão provavelmente descritas em um dos famosos hinos de Charles Wesley:

Long my emprisoned spirit lay
Thine eye diffused a quickening ray…
I woke, the dungeon flamed with light;
My chains fell off, my heart was free,
I rose, went forth, and followed Thee. (84)

O leitor talvez encontre um pouco de dificuldade para compreender a imensa importância contemporânea do problema religioso que Peter Böhler ajudou os irmãos Wesley a resolver. Colocar a fé à frente das obras implicava em total reorientação da posição religiosa dos dois irmãos: mudança tão radical quanto seria hoje a do conservadorismo político para o comunismo.

Uma vez habituado ao novo padrão de pensamento, John Wesley pôs-se a implantá-lo nos outros. Com auxílio de seu irmão Charles, cujos hinos eram dirigidos às emoções religiosas e não à inteligência, ele descobriu uma técnica extremamente eficaz de conversão — uma técnica empregada não apenas em muitas outras religiões bem-sucedidas, mas também na moderna guerra política.

Antes de tudo, Wesley criava alta tensão emocional em seus prosélitos potenciais. Achava fácil convencer grandes públicos daquela época de que o fato de não alcançarem a salvação necessariamente os condenaria para sempre ao fogo do inferno. A imediata aceitação de uma fuga a tão medonho destino era veementemente incentivada sob a alegação de que quem deixasse a reunião “sem mudar” e sofresse um acidente repentino e fatal antes de haver aceito sua salvação iria diretamente para a fornalha ardente. Esse senso de urgência aumentava a ansiedade prevalecente que, à medida que crescia a sugestionabilidade, podia contagiar todo o grupo.

O medo do inferno eterno, que para a própria mente de Wesley era tão real quando as casas e os campos onde pregava, afetava o sistema nervoso de seus ouvintes de maneira muito semelhante ao medo de morrer afogado dos cães de Pavlov na inundação da Leningrado. Monsenhor Ronald Knox cita este relato autobiográfico de John Nelson (mais tarde um dos mais competentes assistentes de Wesley) descrevendo sua própria conversão: “Assim que subiu a seu estrado, ele (Wesley) alisou os cabelos para trás com a mão e virou o rosto para onde eu estava e eu pensei que fixava seus olhos em mim. A expressão de seu rosto despertou em mim tão terrível pavor, antes de ouvi-lo falar, que fez meu coração bater como o pêndulo de um relógio; e, quando ele falou, pensei que todo seu discurso era dirigido a mim”. (85)

 Wesley aprendeu em tempo que para conquistar um auditório tinha primeiro de medir sua capacidade intelectual e emocional. Relata a propósito de uma excursão pela Irlanda em 1765: “Eu fui a Wateford e preguei em um pequeno pátio, sobre nosso grande Alto-Sacerdote que entrou no céu por nós. Logo, porém, descobri que me colocara acima da maioria de meus ouvintes; eu devia ter falado sobre morte e julgamento. Na noite de terça-feira ajustei meu discurso a meu auditório (…) e profunda emoção transpareceu em quase todos os rostos”. (86)

 Wesley enche seu Diário com notas cotidianas sobre os resultados de sua pregação. Por exemplo: “Enquanto eu estava falando uma pessoa à minha frente caiu como morta, e depois uma segunda e uma terceira. Cinco pessoas caíram em meia hora, a maioria delas em violenta agonia. As dores como as do inferno sobrevieram a elas, os laços da morte apanharam-nas. Na aflição delas invocamos o Senhor e Ele nos deu uma resposta de paz. Uma delas com efeito continuou durante uma hora em fortes dores e uma ou duas outras durante três dias; mas o restante ficou grandemente confortado naquela hora e saiu regozijando-se e louvando a Deus”. (87)

 Wesley relata também: “Mais ou menos às dez horas da manhã, J… C…, que estava sentada trabalhando, foi de repente tomada por angustiantes terrores mentais, acompanhados por forte tremor. Continuou assim toda a tarde; mas na sociedade à noite Deus transformou sua tristeza em alegria. Cinco ou seis outros sentiram-se também angustiados neste dia e logo depois encontraram Aquele cujas mãos curam; como fez igualmente uma que vinha chorando desde muitos meses sem ter quem a confortasse”. (88)

 Isto ocorreu em Bristol; mas na prisão de Newgate, onde muitas das mulheres que o ouviram pregar iam logo morrer por enforcamento público, sua mensagem foi, não sem razão, ainda mais eficaz: “Imediatamente uma, outra e outra se afundaram na terra; caíram por todos os lados como que atingidas pelo raio. Uma delas gritou alto. Rogamos a Deus por ela e Ele transformou sua tristeza em alegria. (…) Uma segunda estando na mesma agonia, invocamos também Deus em favor dela; e Ele deu paz à sua alma. (…) Uma estava tão ferida pela espada do Espírito que se teria imaginado que não pudesse viver por mais um momento. Mas imediatamente Sua abundante bondade mostrou-se e ela cantou alto em louvor de Sua Justiça”. (89)

Com esses métodos de pregação não basta destruir os padrões anteriores de comportamento por meio de ataques emocionais ao cérebro; é preciso também proporcionar um meio de escapar da tensão mental provocada. O fogo do inferno é apresentado apenas como resultado de rejeitar a oferta de eterna salvação conquistada pela fé. Emocionalmente despedaçado por essa ameaça e depois salvo do tormento eterno por uma total mudança de ânimo, o neófito fica então em estado de ser ajudado a demorar-se no evangelho complementar do amor. O castigo para a recaída depois de encontrar-se em estado de graça precisa ser sempre tido em mente; mas depois de efetuada a conversão, pode ser usado amor, em lugar de medo para consolidar o ganho. Em 20 de dezembro de 1751. Wesley escreveu:

“Penso que o método certo de pregar é este. Quando começamos a pregar pela primeira vez em qualquer lugar, depois de uma declaração geral do amor de Deus pelos pecadores e de Seu desejo de que eles sejam salvos, pregar a lei (90), da mais forte, mais firme e mais penetrante maneira possível.”

“Depois de mais e mais pessoas estarem convencidas do pecado, podemos misturar cada vez mais do evangelho, a fim de despertar a fé, de elevar à vida espiritual aqueles que a lei matou. Eu não aconselharia a pregar a lei sem o evangelho, mais que o evangelho sem a lei. Indubitavelmente, ambos devem ser pregados em sua vez; sim, ambos de uma vez ou os dois em um. Todas as promessas condicionais são exemplos disso. São lei e evangelho misturados.” (91)

 A lavagem cerebral política aponta igualmente um novo caminho para a salvação depois de terem sido excitados o medo, a raiva e outras emoções fortes, como meio de destruir os velhos padrões de pensamento burguês. Se o evangelho comunista é aceito, o amor pode também substituir o medo; mas severas penalidades por reincidência aguardam os que recaem na dissensão.

Como as descobertas experimentais de Pavlov com cães e as experiências no tratamento de neuroses de guerra fariam esperar, o efeito de envolver-se demais emocionalmente, em sentido positivo ou negativo, com a pregação de Wesley, era aumentar de maneira acentuada a probabilidade de ser convertido. Frequentemente acontecia, de maneira inesperada para a pessoa interessada, que quando estava sendo elevada ao mais alto grau de indignação e cólera, a pessoa sofria repentino colapso e aceitava qualquer crença que lhe impusessem. Isso porque, como foi mostrado em capítulos anteriores, a cólera, assim como o medo, pode provocar na função cerebral perturbações que tornam a pessoa altamente sugestionável e invertem seus padrões de comportamento condicionado ou mesmo apagam a “lousa cortical”. Assim Wesley relata no domingo, 1o de julho de 1739: “A primeira a ser profundamente tocada foi L… W…, cuja mãe ficara não pouco descontente um ou dois dias antes, quando lhe disseram que a filha se expusera perante toda a congregação. A própria mãe foi quem caiu em seguida e perdeu todos os seus sentidos em um momento; mas foi para casa com a filha, cheia de alegria, como fez também a maioria daqueles que haviam estado em dores”.

 Em 15 de junho de 1739, sexta-feira, ele também relata: “Alguns caíram e lá ficaram sem forças; outros estremeceram e tremeram excessivamente; alguns foram tomados por uma espécie de movimento convulsivo em todas as partes de seus corpos e isso tão violentamente que quatro ou cinco pessoas não conseguiam segurar um deles. Eu já tinha visto muitos ataques histéricos e epilépticos; mas nenhum deles era como aqueles sob muitos aspectos. Imediatamente orei a Deus para que não permitisse que os que fossem fracos ficassem ofendidos. Mas uma mulher ficou muito ofendida, por ter certeza de que podiam evitar se quisessem (…), e ninguém conseguiu convencê-la do contrário; e eu estava a três ou quatro jardas quando ela também caiu, em agonia tão violenta quanto os demais”.

 Novamente em 30 de julho de 1739: “Uma dessas fora notavelmente zelosa contra aqueles que gritavam e faziam barulho, tendo certeza de que qualquer deles poderia evitá-lo, se quisesse. E a mesma opinião ela ainda mantinha, até o momento em que foi atingida, como que por uma espada, e caiu tremendo no chão. Gritou em voz alta, embora não de maneira articulada, sendo suas palavras engolidas. Nessa dor ela continuou durante doze ou catorze horas e depois sua alma foi posta em liberdade”.

 Esses fenômenos eram muito comuns quando Wesley começou a pregar pela primeira vez depois de sua própria conversão e quando se dirigia a congregações não acostumadas com seus métodos. Contudo, continuava a registrá-los mais de trinta anos depois, ainda convencido de que, para ser efetiva, a “santificação” precisava ser repentina e dramática. Havia inicialmente rejeitado essa teoria quando apresentada por Peter Bõhler, mas ao reler seu Novo Testamento descobriu que as conversões efetivas nele relatadas haviam sido de fato repentinas.

Wesley deu-se ao trabalho de conferir seus resultados cientificamente: “Só em Londres, encontrei 652 membros de nossa Sociedade que eram extraordinariamente claros em sua experiência e de cujo testemunho eu não podia ver razão para duvidar. Todo esses (sem uma única exceção) declararam que sua libertação do pecado fora instantânea; que a mudança se efetuara em um momento. Se metade desses ou um terço, ou um em vinte declarasse que fora gradualmente efetuada nele, eu teria acreditado nisso, em relação a ele, e pensado que alguns haviam sido gradualmente santificados e alguns instantaneamente. Mas como não encontrei em tão longo espaço de tempo uma única pessoa que assim falasse, não posso deixar de acreditar que a santificação é comumente, senão sempre, obra instantânea”. (92)

 Isso não significava, naturalmente, que um período de intensa ansiedade, depressão, autointerrogatório e indecisão, muitas vezes agravados por debilitação física devida a uma variedade de causas, não precedesse a “santificação”. Todos esses processos de “amaciamento” podem contribuir para as perturbações da função cerebral que ocorrem quando as pressões se tornam grandes demais e um mecanismo protetor começa a entrar em ação. O apelo de Wesley era feito com mais sucesso aos pobres e incultos; mas nós o encontramos relatando isto em 1742: “Não pude deixar de observar que aqui a chamada melhor gente estava tão profundamente convencida quanto os pecadores declarados. Vários deles eram agora obrigados a vociferar alto contra a inquietação de seus corações e esses geralmente não eram moços (como na maioria dos outros lugares), mas pessoas de meia idade ou bem avançadas em anos”.

 Em 1758, uma vigorosa campanha “revivalista” foi iniciada em Everton. Os trabalhadores agrícolas de Cambridgeshire absolutamente não são um grupo facilmente excitável, mas o reverendo John Berridge também descobrira o mecanismo básico do processo de conversão repentina. Embora acusado por seus detratores religiosos da vizinha Universidade de Cambridge de exortar seus ouvintes dizendo: “Caiam! Vocês não querem cair! Por que vocês não caem? É melhor cair aqui, do que cair no inferno” — ele não hesitava em provocar o estado final de colapso em seus neófitos, pois o número de “gemedores, suspiradores, saltadores e convulsionistas” também causava consternação na Universidade. Em “Simeon and Church Order”, Charles Smyth relata que ele escrevia: “E agora permitam-me fazer uma reflexão. Eu preguei sobre a Santificação muito ardorosamente durante seis anos em uma paróquia anterior; e nunca trouxe uma alma para Cristo. Fiz o mesmo nesta paróquia durante dois anos, sem o menor sucesso; mas assim que preguei sobre Jesus Cristo e a Fé em Seu Sangue, crentes foram acrescentados à Igreja continuamente; então gente acorria de todas as partes para ouvir o glorioso som do Evangelho, vindo alguns de seis milhas, outros de oito e outros de dez, e isso constantemente(…)”.

 Berridge dizia-lhes “(…) muito claramente, que eles eram filhos da ira e estavam sob a maldição de Deus, embora não o soubessem; (…) trabalhando para esmagar o orgulho; trabalhando para mostrar-lhes que estavam todos em um Estado perdido e perecente, e que nada poderia retirá-los desse Estado e fazer deles Filhos de Deus, senão a Fé em Nosso Senhor Jesus Cristo”. (93)

Por esse método, escreveu Southey, “este homem produziu uma epidemia de fanatismo mais violenta do que jamais se seguiu às pregações de Whitfield ou Wesley”. (94)

Algumas pessoas tendem a subestimar a importância de fatores psicológicos, dúvidas emocionais, debilitação física e coisas semelhantes nas conversões religiosas e acentuar sua importância quando procuram desculpar as vítimas de conversão política provocada de maneira semelhante. Contudo, a lavagem cerebral bem-sucedida também exige o despertar de emoções fortes e estas não precisam ter qualquer pertinência determinada com a nova fé desde que sejam suficientemente demolidoras. Por exemplo, Arthur Koestler descreve em “Arrow in the Blue” (95) sua conversão ao comunismo militante com as seguintes palavras: “Embora eu estivesse avançando firmemente rumo a uma posição comunista desde mais de um ano antes, a decisão final de ficar membro efetivo do Partido foi também repentina. (…) Desta vez o acontecimento que decidiu a questão foi de natureza mais profana. Mais precisamente, foi toda uma série de acontecimentos grotescos, comprimidos em uma única noite de dezembro de 1931”.

 Koestler passa a explicar como, certa tarde de sábado, foi buscar seu carro em uma garagem onde estivera sendo consertado durante quase três semanas. Encantado por tê-lo de volta, rodou diretamente da garagem para o apartamento do amigo onde estavam jogando pôquer. Koestler gostava de pôquer, não era grande jogador, mas raramente perdia muito. Naquela tarde, porém, perdeu o equivalente de vários meses de salário, muito mais do que podia perder.

“Abatido, rodei até o local de uma reunião de após jantar da boemia radical, onde prontamente me embriaguei como era de esperar naquelas circunstâncias. A festa durou até duas ou três horas da madrugada e não dei atenção ao fato de ter esfriado muito e não haver anticongelador no radiador de meu carro. Quando saí, o bloco do motor do carro recém-consertado havia estourado e uma grossa ponta de gelo saia de uma das cabeças do cilindro — visão capaz de fazer qualquer motorista chorar, mesmo que o carro não fosse seu.”

 Mais complicações ainda viriam: “Vendo minha aflição, uma moça que estivera na festa e que sempre me irritara os nervos ofereceu-me hospitalidade em seu apartamento nas vizinhanças; isso também levou às consequências que eram de esperar. Acordei na manhã seguinte com uma superressaca misturada com autocensura, ansiedade e culpa, ao lado de uma pessoa que eu detestava, financeiramente quebrado e com um carro estourado”.

 Koestler comenta: “Em minhas experiências a linguagem do destino é muitas vezes vazada em gíria vulgar. A série de grotescos infortúnios daquela noite de sábado parecia ter sido preparada por um mau palhaço; mas o rosto de um palhaço, inclinado até bem perto do nosso, pode ser muito assustador. Quando voltei a meu apartamento, minha decisão estava tomada, embora dificilmente eu achasse que era minha; ela se formara sozinha. Andando de um lado para outro em meu quarto, tive a repentina impressão de estar olhando do alto para a pista em que estivera correndo. Vi-me com grande clareza como um vigarista e um impostor, fingindo prestar serviço à Revolução que ia erguer a terra de seu eixo e ao mesmo tempo levando a vida de um carreirista burguês, subindo pela escada do sucesso comida pelos vermes, jogando pôquer e dormindo em camas não procuradas”.

 O padrão da vida de Koestler passou por uma modificação total e ele permaneceu comunista leal até seis anos mais tarde, quando experimentou uma reconversão igualmente intensa. Em “The God That Failed” (96) os fenômenos foram vistos como seguindo uma série de choques emocionais, quando foi capturado e encarcerado durante a Guerra Civil da Espanha.

“As experiências responsáveis por essa mudança foram medo, piedade e uma terceira, mais difícil de descrever. Medo, não da morte, mas da tortura e humilhação, e das formas mais desagradáveis de morrer (…) e finalmente um estado de espírito geralmente mencionado em termos emprestados do vocabulário do misticismo, que se apresentava em momentos inesperados e provocava um estado de paz interior que eu nunca conhecera antes, nem conheceria depois. (…)”

 Em “The Invisible Writing” (97) Koestler diz também: “No dia em que Sir Peter (Chalmers) e eu fomos presos, houve três ocasiões em que acreditei estar iminente minha execução. (…) Em todas as três ocasiões fui beneficiado pelo conhecido fenômeno de dupla consciência, um aturdido alheamento de si próprio, semelhante a um sonho, que separa o eu consciente do eu atuante — o primeiro tornando-se um observador desapaixonado e o último um autômato, enquanto o ar zumbe nos ouvidos da gente como no oco de uma concha. (…) Muito pior foi outro episódio no mesmo dia, ao ser fotografado para a galeria dos criminosos encostado a uma parede na rua, de mãos amarradas, no meio de uma multidão hostil”.

 Este último incidente fez reviver sentimentos de pânicos claustrofóbicos experimentados durante uma operação cirúrgica em sua infância. Koestler relata: “Isso, juntamente com outros acontecimentos do mesmo dia, e dos três dias seguintes com suas execuções em massa, aparentemente causou um afrouxamento e deslocamento da camada psíquica próxima do fundo rochoso — um amolecimento de resistências e reajustamento de estruturas que as deixou temporariamente abertas àquele novo tipo de experiência a que me estou referindo”.

 Essas observações clínicas tornam-se ainda mais interessantes quando ele emprega termos não religiosos para indicar a mesma espécie de experiência mística que enche a literatura da conversão religiosa. O fato é que experiências místicas, como conversões repentinas, nem sempre resultam de influências e pressões puramente religiosas; podem às vezes ser provocadas por meios químicos — como, por exemplo, mescalina, éter e gás hilariante.

Os pormenorizados relatos de Koestler sobre suas duas conversões e as experiências quase místicas que acompanharam a segunda delas mostra como são variadas as pressões emocionais e fisiológicas que podem contribuir para a conversão. As pressões de Koestler incluíram uma severa ressaca alcoólica, um automóvel quebrado, um grande prejuízo financeiro, uma desagradável complicação sexual; guerra civil, captura, ameaças de morte repentina por fuzilamento e a renovação de um pânico da infância. Em cada caso, as novas complicações amontoaram-se sobre as velhas até seu peso conjunto mostrar-se talvez maior do que poderia ser tolerado pelo sistema nervoso de Koestler, ocasião em que parece ter ocorrido uma mudança nos padrões cerebrais.

“The Insivible Writing” de Koestler deve ser lido pela descrição completa da experiência mística não religiosa ou de tipo de sonho que o autor teve na prisão: “Depois eu estava boiando de costas em um rio de paz sob pontes de silêncio. Vinha de lugar nenhum e corria para lugar nenhum. Depois não havia mais rio e nem eu. O eu deixara de existir”.

Koestler diz também: “O retorno à ordem inferior da realidade eu verifiquei ser gradual, como acordar de anestesia. (…) Se a experiência durou alguns minutos ou uma hora é coisa que nunca fiquei sabendo. No começo ocorriam duas ou mesmo três vezes por semana, depois os intervalos tornaram-se mais longos. Nunca podiam ser produzidas voluntariamente. Após minha libertação repetiram-se a intervalos ainda mais longos, talvez uma ou duas vezes por ano. Nesse tempo, porém, a base para uma mudança de personalidade estava concluída”. (98)

Experiências desta espécie podem ser provocadas por uma ampla variedade de pressões sobre o cérebro. Ainda mais, sentimentos de possessão divina e subsequente conversão a uma fé religiosa podem ser incentivados pelo emprego de inúmeros tipos de estímulos fisiológicos. Devia ser mais difundido que os registros elétricos do cérebro humano mostram ser ele particularmente sensível à estimulação rítmica pela percussão e luz brilhante entre outras coisas, e certas categorias de ritmo podem causar anormalidades registráveis da função cerebral e estados explosivos de tensão suficientes até mesmo para produzir ataques convulsivos em pacientes predispostos. Algumas pessoas podem ser persuadidas a dançar de acordo com esses ritmos até sofrerem colapso por exaustão. Além disso, é mais fácil desorganizar a função normal do cérebro atacando-o simultaneamente com vários ritmos fortes tocados em tempos diferentes. Isso leva a uma inibição protetora, rapidamente no temperamento inibido ou depois de prolongado período de excitação no temperamento excitado.

O toque rítmico de tambor é encontrado nas cerimônias de muitas religiões primitivas em todo o mundo. A excitação e a dança que o acompanham são também mantidas até ser atingido o mesmo ponto de colapso físico e emocional. (99) Álcool e outras drogas são usados com frequência para apressar o colapso, após o qual podem ocorrer sentimentos de estar livre do pecado e das más disposições, e de começar vida nova. A crença em possessão divina é muito comum nessas ocasiões, da mesma forma que o transe místico — essencialmente semelhante àquele experimentado por tantos cristãos e outros santos comprimidos em celas ou sob martírio e comprovado por Koestler quando ameaçado de fuzilamento pelas forças de Franco.

O culto vodu em Haiti mostra com que facilidade a sugestionabilidade pode ser aumentada submetendo-se o cérebro a fortes pressões fisiológicas. O vodu tem inúmeras divindades, ou loa, algumas delas deuses tribais africanos, trazidos para as Índias Ocidentais por escravos, outros santos que os padres católicos posteriormente ensinaram os escravos a invocar. Acredita-se que os loa baixam e tomam posse de uma pessoa, geralmente enquanto está dançando ao som dos tambores. A pessoa possessa comporta-se então como se comportaria a divindade em apreço, sendo os diferentes hábitos do loa questão de tradição. Como acontece com soldados que continuam a combater depois de ficarem temporariamente atordoados por uma explosão ou com jogadores de futebol que levam um pontapé na cabeça no começo de uma partida excitante, os possessos não tem lembrança, quando voltam a si novamente mais ou menos uma hora depois, do que pareceu aos outros uma atuação inteligente e eficiente.

O caso de homens e mulheres que foram levados a um estado de sugestionabilidade pelo toque de tambor vodu mostra o poder de tais métodos. Embora aparentemente inconscientes, eles apresentam todo o pormenorizado comportamento que se espera da divindade pela qual se acreditam possuídos. O sacerdote vodu aumenta a excitação e a sugestionabilidade alterando a altura e o ritmo do som dos tambores, assim como em um culto de manuseio religioso de serpentes, que observei pessoalmente nos Estados Unidos, o pregador usava a cadência e o volume do canto e das palmas para intensificar o entusiasmo religioso, enquanto o esfacelamento emocional era finalmente provocado jogando-se serpentes venenosas vivas nas mãos dos crentes. Depois de um colapso final que terminava em estupor, os participantes de ambos os grupos podiam acordar com uma sensação de renascimento espiritual.

Em 1949, Maya Deren foi ao Haiti com uma bolsa da Fundação Guggenheim para estudar e filmar as danças haitianas. Em “Divine Horsemen” (100) ela publicou pormenorizado relato dos efeitos psicológicos e fisiológicos do toque de tambor sobre seu próprio cérebro, terminando com sua aparente possessão por Erszulie, Deusa do Amor. Ela conta como os tambores gradualmente provocaram descontrolado movimento corporal, até um clímax em que sentiu chegar-lhe a possessão: “Meu crânio é um tambor; cada grande batida enterra aquela perna; como a ponta de uma estaca, no chão. O canto está em meu ouvido, dentro de minha cabeça. Este som vai afogar-me! Por que eles não param? Por que eles não param? Eu não consigo soltar a perna. Estou presa neste cilindro, neste poço de som. Nada existe em parte alguma a não ser isto. Não há saída. A branca escuridão eleva-se pelas veias de minha perna como uma rápida maré subindo, subindo; é uma grande força que eu não posso enfrentar ou conter, que certamente estourará minha pele. É demais, brilhante demais, branca demais para mim; esta é sua escuridão. Piedade! grito dentro de mim. Ouço isso repetido pelas vozes, agudas e sobrenaturais: Erszulie. A brilhante escuridão inunda meu corpo, atinge minha cabeça, engolfa-me. Sou sugada para baixo e explodida para cima ao mesmo tempo. Isso é tudo”.

 Maya Deren tenta também transmitir alguns dos estranhos sentimentos e impressões que lhe ocorreram enquanto dançava em volta do peristilo da casa de reuniões vodu, comportando-se como se supunha que a Deusa Erszulie se comportaria em tais ocasiões: “Se a terra é uma esfera, então o abismo embaixo da terra é também seu céu; e a diferença entre eles não é mais do que tempo, o tempo do giro da terra. Se a terra é uma vasta superfície horizontal (…)”.

 Esses sentimentos expressados em linguagem comum são incompreensíveis e mesmo absurdos para leitores que nunca experimentaram as fases paradoxais e ultraparadoxais de atividade cerebral provocadas por pressão intolerável; “branca escuridão”, por exemplo, não têm para eles mais sentido do que teria a intensa alegria mística provocada pela flagelação.

Maya Deren teve sentimentos de renascimento espiritual quando se recobrou de seu transe: “Como o mundo parece claro nesta primeira luz total. Como ele é puramente forma, sem ter, no momento, a sombra de significação. (…) Como as almas dos mortos fizeram, assim eu também voltei. Regressei”.

 Essas experiências, que alteraram seus planos para o futuro, assim como sua maneira de encarar o vodu, mostram também o que pode acontecer àqueles que tentam enfrentar ao invés de evitar esses processos mecanísticos por um exercício muito violento da força de vontade. A emoção gasta no esforço às vezes apenas apressa o colapso de tais pessoas. Maya Deren descreve como ela foi apanhada dessa maneira. Pouco antes de sua possessão, sentiu que se estava tornando “vulnerável” ao toque de tambor e virou as costas para os dançarinos, mas depois se reuniu de novo a eles por uma orgulhosa noção de dever profissional.

“Sei agora que hoje os tambores, o canto, os movimentos — essas coisas podem prender-me também. (…) Fugir seria covardia. Eu podia resistir; mas não devo escapar. E sou capaz de resistir melhor, penso comigo mesma, se puser de lado os temores e o nervosismo; se, ao invés de suspeitar de minha vulnerabilidade, colocar-me em atrevida competição com tudo isto que quer submeter-me à sua autoridade. (…)”

 Contudo, por fim ela se viu obrigada a submeter-se: “Com um grande golpe o tambor une-nos mais uma vez sobre a ponta da perna esquerda. A branca escuridão começa a erguer-se; eu solto o pé, mas o efeito arremessa-me através do que parece ser uma vasta distância e vou cair sobre uma firmeza de braços e corpos que me levantam. (…) Com todo músculo eu me solto e mergulho novamente através do vasto espaço e mais uma vez, assim que me equilibro, minha perna se enterra. Assim continua: a perna fixada, depois solta, uma longa queda através do espaço, novamente o enraizamento da perna — por quanto tempo, durante quantas vezes não sei dizer”.

 O melhor meio de evitar possessão, conversão e todas as condições semelhantes consiste em evitar envolver-se emocionalmente no processo. Raiva ou desprezo violento demais em relação ao sacerdote do vodu ou ao pregador do culto de manuseio de serpente pode ser tão perigoso quanto tremer de medo quando um ou outro inicia uma reunião. A atitude emocionalmente desprendida de Horace Walpole em relação à pregação de John Wesley, mencionada por Kno, foi provavelmente o que o preservou da santificação: “(Wesley era) tão evidentemente ator quanto Garrick. Proferia seu sermão, mas tão depressa e com tão pouca entoação, que me dava a certeza de já tê-lo proferido muitas vezes, pois era como uma lição. Havia nele talento e eloquência; mas ao aproximar-se do final ele erguia a voz e representava um entusiasmo muito feio”. (101)

 Mas teria sido Walpole capaz de manter essa atitude se Wesley visitasse Strawberry Hill com uma força de tamboreiros do Exército — alguns dos quais talvez fossem seus santificados prosélitos — para dominá-lo com ruflos e floreios?

Pavlov mostrou que, quando novos padrões de comportamento eram implantados em seus cães, estes podiam ficar sensibilizados a determinados estímulos associados a essa mudança. O mesmo pode acontecer com seres humanos. Maya Deren experimentou sete ou oito ataques de possessão, nos quais às vezes levava até quatro horas para recuperar a consciência. Achava cada vez mais fácil reagir aos tambores e à dança, e acentua em seu relato a sensação de estar “sendo dominada por uma força transcendente”.

Quem tiver sucumbido diante dos tambores e danças vodu ou do manuseio de serpente, mas for ignorante dos processos fisiológicos envolvidos, pode acreditar que os sentimentos de santificação ou possessão são devidos exclusivamente ao deus ou aos deuses invocados. Isso é o que lhes foi dito que esperassem, e o processo de amaciamento pode tê-los tornado sugestionáveis aos mais variados tipos de dogma.

Na África Ocidental, berço original do vodu, M. Jean Rouch, antropologista social francês que é também especialista na cultura da tribo Songhay, fez recentemente notável filme documentário mostrando migrantes Songhay que voltavam para a Costa do Marfim após uma visita à Costa do Ouro. Executavam eles uma dança aprendida com um grupo religioso da Costa do Ouro que acredita na possessão de espírito e que ajuda a despertar o necessário entusiasmo e sugestionabilidade com toque de tambor. Um aspecto interessante do filme é que os devotos chegam a acreditar que são possuídos, não pelos loa da tradição antiga, mas pelas personalidades de seres vivos importantes. Chegam mesmo a acreditar que o governador-geral da Costa do Ouro e oficiais superiores do Corpo de Fuzileiros da África Ocidental penetram espiritualmente neles e imitam realisticamente os gestos dessas pessoas; por estranho que pareça, as influências espirituais incluem também uma locomotiva, concebida como um demônio, pois muitos dos Songhays trabalham de vez em quando na estrada de ferro da Costa do Ouro. No filme, os dançarinos são vistos prosseguindo a viagem, no dia seguinte, sóbrios e evidentemente beneficiados por sua experiência abreativa. (102)

Todos esses métodos de implantar ou reforçar crenças podem ter resultados um tanto semelhantes. Quando Maya Deren está falando sobre os valores espirituais do Vodu, pode ser comparada a um paciente tentando discutir, de maneira razoável e comedida, uma psicanálise concluída com sucesso.

“Eu diria que (…) incorpora valores com os quais estou pessoalmente de acordo, demonstra aptidão não organizacional, psíquica e prática que eu admiro e obtém resultados que eu aprovo. Diria mais que os princípios que Ghede e outros loa representam são reais e verdadeiros. (…) Essa espécie de acordo e admiração em relação aos princípios e práticas do vodu foi e é minha atitude consciente em relação a ele” (103)

 Uma comparação entre os métodos já descritos e aqueles usados por algumas tribos primitivas em todo o mundo para iniciar e condicionar adolescentes do sexo masculino em sociedades religiosas deve ser também mencionada, porque os princípios fisiológicos básicos parecem ter certas semelhanças. Nesses casos, porém, as novas atitudes a serem implantadas são mais coerentes com a experiência anterior dos pacientes e sua tradição geral de cultura do que em alguns outros exemplos mencionados neste capítulo. Gustaf Bolinder, em “Devilman’s Jungle” (104) descreve como meninos da África Ocidental são tirados de seus pais e levados a um acampamento na mata, onde despem todas as roupas e são submetidos a condições de severa provação física. O processo é apropriado para provocar medo. Em primeiro lugar, dão aos meninos um remédio que, segundo lhes dizem, os matará com certeza mais cedo ou mais tarde se um dia revelarem os segredos da Sociedade ou os pormenores das cerimônias a que vão ser submetidos. Segue-se o banho ritual. Ao escurecer enfileiram os meninos e dizem-lhes: “A vida fora de Poro mal merece vivida. Aquele que não é membro vagueia nas trevas. É somente através de Poro que vocês percebem para o que precisam viver. Aquele que deseja tornar-se membro de Poro precisa dizer adeus à vida como a viveu até agora e nascer de novo”.

Em estado de crescente terror, os meninos veem então a mais assustadora máscara da sociedade secreta aproximando-se deles, com “olhos arregalados e sobrancelhas espessas, enormes maxilares como os de um crocodilo nos quais os dentes brilham vermelhos de sangue. Ele é barbudo como um velho, tem chifres e plumas na cabeça e uma figura informe — um manto de fibras que não têm semelhança com coisa alguma humana”.

Para os meninos é um verdadeiro demônio, mas eles não têm permissão de emitir um som. Ficam deitados lado a lado no chão; em seguida cada um por sua vez é agarrado pelos assistentes do demônio e, quase inconscientes de medo, erguidos e colocados entre suas mandíbulas. São depois socorridos e imediatamente submetidos à tatuagem ritual extremamente dolorosa. A cerimônia é acompanhada por altos sons de instrumentos de madeira.

“Gradualmente os noviços semiconscientes recuperam os sentidos. Sentem-se convencidos de que o demônio acabou com eles, mas Poro deu-lhes nova vida.”

 Alguns dias depois de terem secado as escaras da tatuagem, os meninos iniciam prolongado treinamento no acampamento destinado a fazer deles úteis membros da tribo e da sociedade de que se tornaram neófitos. Hábitos da infância são dissipados. Os meninos aprendem, entre outras coisas, a atitude correta que devem adotar no futuro em relação a seus superiores e aumentam sua robustez e coragem participando de vigorosas provas de resistência. É ministrado aos meninos ensino sexual, juntamente com instrução em artesanatos primitivos, carpintaria, pesca e coisas semelhantes: equivalendo tudo isso a um novo processo de condicionamento como membros de sua tribo e sociedade secreta. Aqui também um irresistível estímulo emocional leva o paciente a ponto de colapso emocional e sugestionabilidade intensificada. E aqui também o estímulo provocador de medo é compensado por um meio de salvação — o bondoso Poro — a que o menino se aferra em seu processo de recondicionamento. Gustaf Bolinder relata ainda: “Certos exercícios são usados para tentar apagar os remanescentes de individualidade pessoal e ideias não-ortodoxas; começam com movimentos monótonos do corpo e terminam com ritos místicos. O fator primordial aqui é a dança, uma dança que nada tem de estática; bastante sugestiva em sua uniformidade. (…) Ao redor da árvore os noviços dançam vagarosamente com as cabeças curvadas. Agora os retumbantes tambores de madeira incumbem-se do acompanhamento. Sem uma pausa, lenta e uniforme, a dança continua hora após hora. No fim os noviços estão apenas semi-inconscientes dando passos mecanicamente com o mesmo ritmo incessante. Não estão mais na terra — fundiram-se na unidade do poderoso demônio da floresta e sentem-se espiritualmente elevados”.

 Gil James Frazer em “The Golden Bough” (105) dá outros exemplos desses ritos de iniciação. Mostra que algumas tribos no norte da Nova Guiné e também muitas outras tribos australianas fazem da circuncisão um aspecto essencial da iniciação tribal e que a iniciação “é concebida por elas como um processo de ser engolido e vomitado por um monstro mítico, cuja voz é ouvida no som zumbidor do rugido de touro”. (O rugido de touro, também usado pelos gregos antigos e por eles chamado de rhombos, é um instrumento de madeira que, quando girado acima da cabeça na ponta de uma corda, faz um som semelhante ao do rugir do touro ou de forte vendaval).

Vários meios aterrorizadores de ser engolido são então descritos, mas o iniciado é inevitavelmente salvo. Em uma tribo: “(…) ele precisa então submeter-se à dolorosa e perigosa operação de circuncisão. Ela se segue imediatamente e o corte feito pela faca do operador é explicado como uma mordida ou unhada que o monstro deu no noviço ao vomitá-lo de sua enorme boca. Enquanto prossegue a operação, um som prodigioso é feito pelo giro dos rugidos de touro a fim de representar o rugido do ser pavoroso que está no ato de engolir os moços”.

 O mesmo processo de recondicionamento ocorre então: “Depois de terem sido circuncidados, os rapazes precisam permanecer alguns meses em retiro, fugindo a todo contato com mulheres e mesmo à vista delas. Vivem em uma comprida barraca que representa a barriga do monstro. Quando finalmente os rapazes, agora classificados como homens iniciados, são levados de volta à aldeia com grande pompa e cerimônia, são recebidos com soluços de alegria pelas mulheres, como se o túmulo tivesse devolvido seu morto”.

 Um pormenor interessante sobre o emprego de tais métodos é a declaração de Frazer de que várias tribos da Nova Guiné usam a mesma palavra para designar o rhombos ou rugido de touro e o monstro que se supõe engolir os noviços e cujo rugido aterrorizador é representado pelo som do primeiro. Uma estreita associação de ideias estabelece-se entre o som do rhombos e o poderoso fantasma ou espírito ancestral que engole e vomita o noviço em sua iniciação. O rhombos ou rugido de touro torna-se, de fato, “seu material representativo na terra”.

Esse emprego do rhombos como lembrança constante do poder e da presença do deus ou espírito ancestral faz lembrar a descoberta de Pavlov de que a maioria dos cães que quase morreram afogados em suas jaulas durante a inundação de Leningrado (106) e tiveram por isso seu padrões de comportamento destruídos, ficou altamente sensibilizada à vista daquele fio de água embaixo da porta do laboratório. Pavlov a partir de então influenciava-os simplesmente jogando um balde de água do lado de fora da porta.

Atualmente nos países cristãos altamente civilizados faz-se às vezes tentativa semelhante de investir no representante de Deus na terra o máximo possível de emoção de tom religioso. Contudo, a fim de proteger as crianças pequenas contra a condenação eterna, o rito do batismo, originariamente uma cerimônia de fato poderosa e reservada aos adultos, é agora executado algumas semanas ou meses após o nascimento. A confirmação em geral toma o lugar do batismo como rito de iniciação e, entre os protestantes, ainda proporciona forte estímulo emocional para os meninos e meninas na idade da puberdade; nos países latinos, porém, a “Primeira Comunhão” também tende a ser feita cedo demais de modo que não tem pleno efeito emocional. Parece certo que tais estímulos precisam ser tornados emocionalmente perturbadores para produzir seu efeito desejado — às vezes suficientemente severo para provocar experiência mística. Uma vez associada à Cruz ou a algum outro emblema religioso, a experiência mística pode ser revivida e confirmada pelo aparecimento subsequente do emblema.

A doutrinação intelectual sem excitação emocional é notavelmente ineficaz, como provam os bancos vazios da maioria das igrejas inglesas, relaxada que foi há muito tempo a pressão social que outrora fazia até mesmo os agnósticos e os tíbios irem aos ofícios matinais de domingo. Recentemente recebemos um vigoroso fundamentalista americano que veio reconquistar para as Igrejas as congregações por elas perdidas. O que pode ser a força da religião, mesmo nos paganismos civilizados, como o emprego de métodos eficazes, é mostrado pelo relato que Frazer faz em “The Golden Bough” do culto da Astarte síria. O grande festival dessa deusa realizava-se no começo da primavera: “Enquanto as flautas tocavam, os tambores batiam e os padres eunucos retalhavam-se com facas; a excitação religiosa propagava-se gradualmente como uma onda entre a multidão de espectadores e muitos faziam o que nunca haviam pensado em fazer quando compareceram ao festival como espectadores em férias. Homem após homem, com as veias latejando sob a ação da música, os olhos fascinados pela vista do sangue que corria, arrancavam suas roupas, saltavam para frente com um grito e, agarrando uma das espadas que se encontravam prontas para essa finalidade, castravam-se no local. (…) Quando cessava o tumulto da emoção e o homem voltava novamente a si, o sacrifício irrevogável devia ser muitas vezes seguido de apaixonada tristeza e eterno remorso. Essa alteração do sentimento natural após os frenesis de uma religião fanática é vigorosamente retratada por Catulo em um célebre poema”.

 Parece que os movimentos religiosos mais poderosos são acompanhados por fenômenos fisiológicos que causam aversão intelectual e consternação nos não participantes. Assim os inatacáveis “Amigos” de Fox, cuja fé se baseava na não violência, receberam o escarnecedor apelido de “Quakers” porque “se sacudiam e tremiam diante do Senhor”. (107)

“Em suas reuniões, homens, mulheres e criancinhas são estranhamente afetados em seus corpos e levados a cair, espumar na boca, rugir e inchar na barriga.” (108)

 O próprio Fox relata em seu diário: “Este capitão Drury, embora às vezes procedesse honestamente, era inimigo meu e da Verdade e se opunha a ela; e quando professores vinham procurar-me (enquanto estive sob sua custódia) e ele estava perto, zombava dos tremores e nos chamava de Quakers, como nos haviam apelidado antes os independentes e presbiterianos. Mas depois veio uma vez procurar-me e contou-me que, quando estava deitado em sua cama para descansar, durante o dia, sentiu-se tremendo, a ponto de suas juntas baterem uma na outra, e seu corpo sacudia-se tanto que ele não conseguiu sair da cama; ficou tão abalado que não lhe restaram forças e chamou pelo Senhor. E sentiu que Seu poder estava sobre ele, caiu da cama, chamou pelo Senhor e disse que nunca mais falaria contra os Quakers e outros que tremessem diante da palavra de Deus”. (109)

 Posteriormente, os Quakers assentaram-se, tornaram-se ricos e respeitáveis abandonando os meios pelos quais haviam criado sua força espiritual inicial. É destino das novas seitas religiosas perderem o dinamismo de seus “entusiásticos” fundadores; os líderes posteriores podem aperfeiçoar a organização, mas as técnicas originais de conversão são muitas vezes tacitamente repudiadas. A feroz militância dos primeiros tempos do Exército de Salvação do general Booth desapareceu. As frenéticas cenas do “revival” galense são esquecidas nas novas e respeitáveis capelas, onde o hwyl (um recurso de pregação galense para excitar a congregação até um frenesi religioso por meio de um canto selvagem) é hoje raramente ouvido. A surpresa que o sucesso do dr. Billy Graham causou na Grã-Bretanha, onde não precisou competir senão com mensagens religiosas dirigidas à inteligência da congregação e não a suas emoções, mostra como é geral a ignorância sobre as questões discutidas neste livro.

Mesmo no Cristianismo “o dom das línguas”, às vezes apenas uma babel incoerente, é ainda aplaudido por certas seitas primitivas como reproduzindo supostamente a experiência dos Apóstolos no Pentecoste, e também em outras religiões grande importância é atribuída ao aparecimento de fenômenos de transe. Demonstra isso a atribuição de sabedoria divina ao Oráculo de Delfos na Grécia Antiga. E demonstrado também no Tibete, onde a política nacional pode ainda ser decidida por um oráculo da mesma espécie. Harrer, em “Seven Years in Tibet” (110) descreve como seu amigo tibetano Wandula levou-o para fazer uma consulta oficial de Oráculo no Mosteiro de Nechun em Lhasa. Um monge de dezenove anos foi o porta-voz do Oráculo nessa ocasião e Harrer observa: “Era sempre uma experiência curiosa encontrar o Oráculo do Estado na vida comum. Eu nunca consegui acostumar-me a sentar à mesma mesa com ele e ouvi-lo tomar barulhentamente sua sopa de talharim. Quando nos encontrávamos na rua, eu costumava tirar o chapéu e ele correspondia curvando-se e sorrindo. Seu rosto era o de um moço de aparência agradável e não tinha semelhança com o semblante balofo, avermelhado e afetado do médium extático”.

 Harrer cita pormenores do que aconteceu quando o Oráculo entrou em transe; e indaga se não teriam sido usadas drogas ou outros meios para produzir o transe: “O monge precisa ser capaz de deslocar seu espírito de seu corpo, para permitir que o deus do tempo tome posse dele e fale através de sua boca. (…) Uma música soturna e cavernosa recebeu-nos no portão do templo. Dentro o espetáculo era medonho. De toda parede olhavam para baixo rostos pavorosos, deformados por esgares, e o ar estava cheio de sufocante fumaça de incenso. O jovem monge acabara de ser levado de seus aposentos particulares para o sombrio templo”.

 Eis a descrição que Harrer faz da possessão propriamente dita: “O tremor tornou-se mais violento. A cabeça pesadamente carregada do médium oscilava de um lado para outro e seus olhos saltavam das órbitas. Seu rosto estava inchado e coberto de manchas de vermelho vivo. (…) Ele começou então a bater sobre sua armadura peitoral com um grande anel polegar, fazendo um barulho que abafava, o monótono retumbar dos tambores. Depois girou sobre um só pé, ereto sob o peso do gigantesco toucado, que dois homens mal poderiam carregar. (…) O médium tornou-se mais calmo. Servos seguraram-no imóvel e um ministro do Gabinete avançou até a sua frente e jogou uma estola sobre sua cabeça. Em seguida, começou a fazer perguntas cuidadosamente preparadas pelo Gabinete, a respeito da nomeação de um governador, da descoberta de uma nova encarnação, de questões envolvendo a guerra e a paz. Pedia-se ao Oráculo que decidisse sobre todas essas coisas”.

Harrer continua dizendo que assistiu a muitas consultas com o Oráculo, mas nunca foi “capaz de chegar sequer a uma explicação aproximada do enigma”.

Algumas pessoas são capazes de produzir estado de transe e dissociação em si próprias ou em outros, com necessidade decrescente de pressões emocionais fortes e repetidas, até isso tornar-se um padrão tão condicionado de atividade cerebral que passa a ocorrer mesmo apenas com pequenas pressões e dificuldades; por exemplo, no contexto religioso primitivo, diante do renovado bater de um tambor ou do berrante rugir dos rhombos.

Estados de possessão ou transe foram também usados por inúmeras religiões na tentativa de ajudar o espectador, assim como a pessoa possessa, a aceitar como verdadeira a doutrina relevante. Se o transe é acompanhado de um estado de dissociação mental, a pessoa que o experimenta pode ser profundamente influenciada em seu pensamento e comportamento subsequentes. Mesmo que os espectadores permaneçam indiferentes e desprovidos de qualquer excitação emocional, ainda pode ajudar a convencer alguns deles da verdade da crença professada, especialmente se tiverem sido levados a pensar que um transe significa que a pessoa interessada está então possuída por certo deus ou em comunicação com ele. Quando o moderno médium espiritualista em sua residência suburbana usa mensagens de parentes mortos, do fantasma de um faquir indiano ou de um espírito infantil chamado Miosótis, podem ser vistos em ação os mesmos mecanismos que atuam quando o Oráculo Oficial do Tibete gira e faz barulho no Mosteiro de Nechung ou quando a narcotizada Pitonisa de Delfos, com o rosto contorcido pela divina possessão de Apolo, esbraveja sobre seu tripé, lançando uma torrente de confusa profecia que o sacerdote responsável, quando convenientemente pago, transforma em hexâmetros para o visitante.

A prova do pudim está no comer. Wesley mudou para melhor a vida religiosa e social da Inglaterra com o auxílio de tais métodos sob uma forma modificada e socialmente aceita. Em outras mãos e em outros países, esses métodos foram usados para finalidades sinistras. Contudo, devemos ser gratos por ter havido sempre, em todas as idades, pessoas cientificamente curiosas, dispostas a examinar e relatar os resultados efetivos obtidos antes de condenar precipitadamente tais métodos. Thomas Butts relatou o seguinte sobre a pregação de Wesley já em 1743: “Quanto ao fato de pessoas gritarem ou terem ataques, não pretenderei explicar isso com exatidão, mas apenas fazer esta observação: é bem sabido que, em sua maioria, aquelas que assim foram exercitadas absolutamente não tinham religião antes, mas a partir de então receberam uma sensação de perdão, sentiram paz e alegria em acreditar e estão agora mais virtuosas e felizes do que nunca antes. E sendo isso assim, não importa que observações se façam a respeito de seus ataques”. (111)

 O relato do sermão de Pedro no Pentecoste feito em Atos dos Apóstolos (Capítulo 2) também acentua a eficácia dos métodos religiosos discutidos neste capítulo. Conta-se que nada menos de três mil prosélitos se juntaram naquele dia ao grupo pequeno de apóstolos e outros crentes que permaneciam fiéis após a despedida de Jesus no Monte das Oliveiras. O capítulo começa assim: “Ao cumprir-se o dia de Pentecoste, estavam todos reunidos no mesmo lugar; de repente veio do céu um som, como de um vento impetuoso e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo, e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem (…) (e) (…) cada um os ouvia falar na sua própria língua”.

 Pedro então se levanta e começa a pregar. Acrescenta nova tensão a um auditório já meio estupefato diante da notícia daquele estranho “Dom das Línguas”. Em discurso muito enérgico Pedro anuncia que estão assistindo ao que foi previsto muito tempo antes pelos profetas. Cita o profeta Joel: “E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor. (…) Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais embaixo na terra; sangue, fogo e vapor de fumo. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia do Senhor. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.

 Depois dispara um raio emocional sobre seus assustados e excitados ouvintes. Diz a eles que Jesus de Nazaré foi um “varão aprovado por Deus diante de vós, com milagres, prodígios e sinais. (…)” que os sumos sacerdotes entregaram-no aos romanos para ser crucificado e morto “por mãos de iníquos”. Faz com que compreendam exatamente quem era o homem que haviam deixado os sumos sacerdotes entregarem para crucificação a seus patrões romanos, mas a quem Deus então ressuscitava dos mortos. Tendo deixado de fazer um protesto em massa, por mais atarefados que pudessem estar na preparação da Páscoa, haviam-se tornado, insistiu ele, homicidas no segundo grau.

“Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.”

 Os ouvintes de Pedro foram então levados a acreditar que o “Dom das Línguas” era um sinal de Deus, Deus que, de acordo com a profecia escatológica, escurecera o céu na Crucificação e dera à lua a cor do sangue, com uma temível tempestade de areia de Elam. Agora asseguravam-lhes que a vítima era representante de Deus na terra e que eles não podiam escapar à culpa por sua morte. É, portanto, fácil compreender como: “Ouvindo eles estas coisas, compungiu-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos? Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós será batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. (…) Com muitas outras palavras deu testemunho, e exortava-os, dizendo: Salvai-vos desta geração perversa. Então os que lhe aceitaram a palavra foram batizados; havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas”.

 As novas crenças e hábitos parecem ter sido prontamente impostas aos neófitos: “E perseveraram na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos… Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos”.

 O caso de Saulo na estrada de Damasco confirma nossa outra descoberta: que a ira pode ser emoção não menos poderosa que o medo para provocar repentina conversão a crenças que contradizem precisamente as crenças anteriormente sustentadas. No capítulo 9 dos Atos dos Apóstolos lemos: “Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Apresentou-se ao príncipe dos sacerdotes, e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos a Jerusalém todos os homens e mulheres que achasse seguindo esta doutrina. Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: ‘Saulo, Saulo, por que me persegues?’ Perguntou ele: ‘Quem é, Senhor?’ Respondeu o Senhor: ‘Eu sou Jesus a quem tu persegues. Duro te é recalcitrar contra o aguilhão’. Então, trêmulo e atônito, disse ele: ‘Senhor, que queres que eu faça?’”

Um estado de inibição transmarginal parece ter-se seguido a seu agudo estado de excitação nervosa. Parecem ter sobrevindo colapso total, alucinações e estado intensificado de sugestionabilidade. Outras manifestações histéricas inibitórias são também relatadas: “Então se levantou Saulo da Terra e, abrindo os olhos, nada podia ver. E, guiando-o pela mão, levaram-no para Damasco. Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu nem bebeu”.

Este período de debilitação física pelo jejum, acrescentado às outras pressões sofridas por Saulo, pode muito bem ter aumentado sua ansiedade e sugestionabilidade. Só depois de três dias é que o irmão Ananias chegou para aliviar seus sintomas nervosos e sua aflição mental, ao mesmo tempo implantando novas crenças.

“Então Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as mãos, dizendo: Saulo, irmão, o Senhor me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo. Imediatamente, caíram-lhe dos olhos como que umas escamas, e tornou a ver. A seguir levantou-se e foi batizado. E depois de ter-se alimentado, sentiu-se fortalecido.”

Seguiu-se então o necessário período de doutrinação imposto a Saulo pelos irmãos em Damasco e de sua total aceitação de todas as novas crenças que lhe incutiam.

“Então permaneceu em Damasco alguns dias com os discípulos; e logo pregava nas sinagogas a Jesus, afirmando que este é o Filho de Deus. Ora, todos os que o ouviam estavam atônitos, e diziam: Não é este o que exterminava em Jerusalém aos que invocavam o nome de Jesus, e para aqui veio precisamente com o fim de os levar amarrados aos principais sacerdotes?”

Em todo caso, a mais impressionante e importante conversão individual e a mais vasta conversão em massa da história dos primeiros tempos da Igreja estão registradas nos Atos dos Apóstolos em termos compatíveis com as modernas observações fisiológicas; a autoria dos Atos é atribuída a São Lucas, que era médico. Seria, portanto, tolice subestimar a eficácia de tais métodos. Não apenas contribuíram para a ascensão do Cristianismo como principal religião do mundo ocidental de hoje, mas também foram usados, vezes sem conta, para reforçar inúmeros outros tipos de crença religiosa e política — que serão discutidos no resto deste livro.

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Capítulo VI

Aplicações de Técnicas Religiosas

As epopeias de Homero estão ainda sendo publicadas em muitas línguas quase três mil anos depois de terem sido compostas. Seus leitores através dos séculos cresceram em ambientes sociais e religiosos muito diferentes, mas os tipos psicológicos e os padrões de comportamento normal e anormal que descreve em seus heróis ainda são facilmente reconhecíveis. Muitas vezes suas descrições de conflitos mentais dão-nos a impressão de que estão sendo descritos os nossos conflitos.

Se nossos temperamentos e modos de pensamento fossem em tão grande parte resultado de ambiente, da criação e do exercício do “livre arbítrio” como pensam alguns, o comportamento de personagens da literatura antiga muito pouca coisa poderia significar para nós. No entanto, como Ben Johnson (112) mostrou em sua comédias de “Humour”, não havia diferença notável entre os tipos temperamentais básicos do período de Jaime I e aqueles descritos por Hipócrates cerca de dois mil anos antes; e as peças de Johnson ainda continuam atraindo grande público. Os padrões básicos de comportamento no homem realmente dependem mais de nossos sistemas nervosos superiores hereditários do que nos mostramos às vezes dispostos a admitir. A personalidade só pode reagir dentro de linhas limitadas a todas as mudanças ambientais e a uma vida cheia de pressões. Se a pressão for muito forte, a personalidade mais segura e estável poderá mostrar sintomas de ansiedade, hipocondria, depressão, histeria, suspeita, excitação, raiva ou agressividade, e a lista fica então quase completa.

Portanto, como os mesmos padrões básicos de reação a pressão foram observados na era clássica, senão milhares e milhares de anos antes, e como seus equivalentes podem ser também demonstrados no comportamento de animais, parece muito provável que sejam fisiologicamente determinados. Além disso, tratamentos fisiológicos podem mostrar-se muito eficazes para eliminar de cérebros comuns padrões anteriores de comportamento e pensamento; e foi repetidamente acentuado neste livro que, em pessoas anormais e naquelas excessivamente meticulosas, podem ser necessários tratamentos muito violentos para que delírios e hábitos obsessivos firmemente fixados sejam de fato modificados.

Em 1902, William James, em “The Varieties of Religious Experience” escreveu o seguinte a respeito dos estados de profunda depressão espiritual: “Mas a libertação precisa chegar sob forma tão forte quanto a queixa, para que tenha efeito; e essa parece ser a razão pela qual as religiões mais grosseiras, revivalísticas, orgiásticas, com sangue e milagres, e operações sobrenaturais, talvez jamais possam ser eliminadas. Alguns temperamentos precisam muito delas”. (113)

A cura dos mais graves tipos de melancolia religiosa, em relação aos quais nada podia ser feito no tempo de James, mostrou-se ainda mais drástica do que ele previa. Os melancólicos, aos quais até mesmo as reuniões orgiásticas tendentes a despertar fervor religioso deixavam frios e indiferentes, são hoje rapidamente beneficiados por simples convulsões, provocadas mecanicamente pela passagem de uma corrente elétrica através do cérebro. (114)

A pregação de Wesley conseguia provocar tal estado de excitação externa ou interna em alguns tipos de pessoas que finalmente sobrevinha inibição cerebral e elas entravam em colapso por exaustão emocional. Danças de vodu, tambores e outros métodos semelhantes que produzem sentimentos de conversão a deuses e possessão por eles podem também causar tais estados de excitação cerebral em pacientes adequados. Muitas espécies de curandeiros espirituais parecem empregar a mesma técnica básica com o acréscimo de diferentes interpretações. Em Trípoli, por exemplo, Alberto de Pirajno descreve em “A Cure for Serpents” o tratamento de uma moça que sofria de melancolia supostamente “causada por um espírito negro e mau”. Dizia-se que uma grande rã com as pernas tingidas por hena continha o jinn ou espírito, que dava ao curandeiro nativo seu poder de curar “sem remédio provocando convulsões curativas em pessoas doentes”. O método exigia que a pessoa deprimida dançasse até o ponto de frenesi durante horas intermináveis ao som de tambores e de canto rítmico, e com uma crescente excitação de grupo até “uma torrente de espuma e suor escorrer pelos cantos de sua boca”. Com um “grito agudo” a paciente finalmente se jogava no chão, era despida de suas roupas e repetidamente mergulhada na água.

“Nua, a moça parecia feita de marfim enquanto pendia entre os braços cor de fumaça das negras que a levavam para a tina. (…) Quando vi a moça de novo, encontrava-se embrulhada em um cobertor e sua expressão estava completamente alterada (…) Sorria estaticamente e voltava os olhos para o céu (…) e sorridente recebia as congratulações de suas amigas, que a levavam até os pés do mago. O faqth não Se movera durante toda a sessão, a não ser para tomar no colo a rã com as pernas tingidas de hena.”(115)

A terapia de convulsão elétrica para pacientes deprimidos também parece pertencer a esta mesma categoria fisiológica, pois aqui o cérebro do paciente é eletricamente excitado até o ponto de convulsão e esta convulsão continua até o cérebro ficar totalmente exausto e ocorrer um estupor temporário. Assim causará surpresa observar os espantosos efeitos que uma série de ataques eletricamente produzidos podem ter sobre melancolias vistas em um ambiente religioso, apesar de todas as complicadas teorias filosóficas e metafísicas que eram apresentadas para explicá-las?

A maioria dos leitores pode citar casos de parentes ou amigos que sofreram depressão mental, cujos sintomas — ideias de culpa e indignidade grandemente exageradas — desaparecem repentina e completamente quando passa o ataque. Um longo período de trabalho excessivo, por exemplo, um choque emocional ou a perda de um ente querido pode fazer com que o paciente comece a torturar-se com a lembrança de pequenos pecados e encher-se de preocupações com o futuro. Sente também o impulso de confessar-se com todo o mundo — hábito que o enche de embaraço retrospectivo quando se restabelece — e pode tentar matar-se, embora acreditando que os suicidas são punidos com a condenação eterna, pois está convencido de que esse será seu destino em qualquer caso.

Importante sintoma da doença é a completa falta de reação do paciente à argumentação intelectual ou consolação espiritual. Seja o ambiente agradável ou desagradável, os sentimentos de culpa persistem até passar a depressão; às vezes os ataques são periódicos e separados por intervalos de comportamento normal e mesmo jovialidade; às vezes são crônicos e duram anos. William James disse o seguinte sobre melancolias religiosas: “(…) mas se estivéssemos dispostos a abrir o capítulo da melancolia realmente insana (…) seria uma história ainda pior — desespero absoluto e completo, todo o universo coagulando-se em torno do sofredor em um material de irresistível horror (…) e nenhuma outra concepção ou sensação capaz de viver por um momento em sua presença. (…) Aqui está o verdadeiro núcleo do problema religioso: Socorro! Socorro! Nenhum profeta pode proclamar que traz uma mensagem final a menos que diga coisas que tenham um som de realidade nos ouvidos de vítimas como essas”. (116)

E hoje a introdução de um simples método fisiológico — tratamento de choque elétrico — faz com que inúmeras vítimas dessa condição, para a qual o mais santo ou mais compreensivo padre nada podia fazer, sejam curadas em três ou quatro semanas, ao invés de morrer, como às vezes acontecia, devido à exaustão causada pela contínua obsessão de remorso e culpa. Pode não ser necessária psicoterapia alguma para aliviar um ataque e hoje o tratamento parece igualmente eficaz quando aplicado a um paciente anestesiado e profundamente inconsciente, que nada sente, embora ainda precise ter um “ataque cerebral” completo para que seja obtido bom resultado. É também importante observar em outros tipos de doença mental, como estados de ansiedade e neuroses obsessivas, que esse mesmo poderoso tratamento pode piorar ao invés de melhorar o paciente. Isto também sugere que padrões diferentes de comportamento cerebral anormal talvez muitas vezes exijam métodos diferentes de tratamento.

Os “revivalistas” perceberam há muito tempo como é perigoso usar pregação provocadora de medo em pacientes depressivos; embora útil como primeira fase na conversão de muitas pessoas comuns, a menção ao fogo do inferno pode agravar a melancolia religiosa ao ponto de suicídio. O paciente não fica mais exposto à sugestionabilidade de grupo, já estando talvez inibido demais para reagir à dança, gritos, toque de tambor, canto de grupo ou mesmo manuseio de serpentes venenosas. Antigamente, os “revivalistas” só podiam dizer a esses melancólicos insensíveis que esperassem até a graça de Deus voltar e o ataque de depressão passar por si só; hoje é possível recomendar tratamento de choque elétrico. Se a recomendação for seguida, o paciente pode tornar-se mais uma vez sensível à sugestão de grupo e na reunião seguinte de revigoramento do fervor religioso recuperar seus sentimentos de possessão espiritual, de modo que o enorme peso de culpa criado pela meditação sobre pecadilhos triviais sairá de suas costas como o peso do cristão em “The Pilgrim’s Progress”.

Descrevendo o ataque epiléptico propriamente dito, o dr. Denis Hill escreve: “O ataque epiléptico pode ser comparado a uma revolta civil na vida de uma população. Antes dele e conduzindo a ele há uma falha grave ou muitas falhas menos graves nas técnicas do organismo para enfrentar dificuldades, livrar-se de tensões e ajustar-se aos agentes perniciosos dentro de si próprio. Como uma revolta, o ataque altera a situação total do organismo. Não precisamos alongar-nos mais na analogia, mas é lugar-comum que a tensão, irritabilidade e distúrbio de personalidade que muitas vezes precedem um ataque são geralmente aliviados por ele”. (117)

O alívio da tensão que ocorre depois desses ataques em certos pacientes pode ser muito dramático. Acreditava-se antigamente que o paciente epiléptico era uma pessoa fundamentalmente diferente da pessoa normal; mas o método de provocar ataques eletricamente mostra que todo ser humano é potencialmente epiléptico. Se o cérebro é suficientemente excitado por meio de uma corrente elétrica bem calculada, ocorre um ataque epiléptico, do mesmo modo que toque de tambor vodu ou dança orgiástica em escala suficiente leva à excitação histérica e colapso por exaustão. Sabemos também que certas drogas, como a mescalina ou ácido lisérgico, podem produzir estados místicos: mescal — uma planta cactácea — é há muito tempo usada em certas cerimônias tribais mexicanas para dar aos participantes a completa certeza de que um deus os está de fato possuindo.

Aldous Huxley faz um relato muito interessante e sensato sobre suas próprias experiências ao tomar mescalina, um alcaloide extraído do mescal (118); manifesta surpresa pela semelhança entre os fenômenos místicos por que passou e aqueles contidos em relatos de misticismo religioso cristão e indiano. No entanto, o cérebro só pode produzir limitado número de padrões de pensamento sob essas pressões fisiológicas e químicas; e o misticismo prolongado e constante pode, em certos casos, ser quase indistinguível da esquizofrenia.

Casos de esquizofrenia às vezes oferecem ao médico oportunidade de examinar condições mais ou menos análogas aos estados extáticos relatados pelos santos medievais ou pelos indivíduos modernos que tomaram mescalina ou tóxicos semelhantes. O paciente pode ver o mundo exterior através de um espelho deformador e ficar intensamente preocupado com suas próprias experiências subjetivas; tem-se afirmado que algumas das maiores contribuições à arte, à religião e à filosofia foram prestadas por visionários em que estavam presentes pelo menos alguns dos sintomas da esquizofrenia. Todavia não é um destino feliz ser esquizofrênico; o esquizofrênico pode sentir-se à mercê de impulsos incontroláveis ou influências sinistras. Vozes falam-lhe dia e noite, algumas boas, outras más; a maioria má. É realmente muito raro um paciente experimentar delírios e alucinações de tipo constantemente agradável; o inferno na terra pode ser seu destino durante trinta ou mais anos, a menos que seja possível aplicar tratamento adequado na fase inicial.

A esquizofrenia era outrora atribuída à vingança de Deus pelo pecado ou à possessão pelo demônio; e, mais recentemente, na especulação psicológica, a um afastamento da realidade por motivação subconsciente da parte do indivíduo, uma tentativa de fugir aos problemas da vida. Contudo, sabe-se também que tratamento exclusivamente psicológico só beneficia algumas vítimas dessa doença, que ainda enche os leitos de hospitais mentais com mais adultos jovens que qualquer outra doença mental.

A teoria de que a esquizofrenia era devida principalmente ao afastamento da realidade por motivação subconsciente foi rudemente abalada para muitos terapistas há alguns anos quando começou a ser empregada a terapia de choque de insulina. Nesse tratamento, como se mencionou no Capítulo III, a redução temporária do nível de açúcar no sangue por meio de grandes doses de insulina produz períodos de confusão e excitação mental, que levam a um coma profundo. É aplicada uma série de comas diários. O esquizofrênico muitas vezes emerge de seu mundo místico de delírio e terror, aparentemente satisfeito por estar de novo passando bem e ser capaz de reiniciar suas tarefas cotidianas da vida normal. Torna-se mais aberto à persuasão e à correção de quaisquer ideias delirantes adquiridas durante sua doença. A terapia de choque de insulina mostrou-se o tratamento mais eficaz no maior número de casos de esquizofrenia inicial; mas precisa ser aplicada logo que possível e a cura não é certa. Embora aproximadamente dois em cada três pacientes possam ser beneficiados nas primeiras semanas ou meses pela insulina — combinada, se necessário, com tratamento de choque elétrico e psicoterapia — se forem abandonados por uns dois anos ou receberem apenas psicoterapia, suas probabilidades de recuperação sob tratamento podem tornar-se menores. (119) E quando tudo o mais falha e os delírios ficam tão firmemente fixados que não podem ser dispersados por qualquer forma de choque, terapia por droga ou conversa, há ainda recurso às novas formas da operação cerebral de leucotomia (ver Capítulo IV).

A esquizofrenia e a melancolia depressiva foram discutidas para mostrar que a mente humana, quando religiosamente doente (assim como quando religiosamente sadia), pode ainda ser profundamente influenciada por meios fisiológicos e pela provocação de excitação nervosa, levando a um estado de sugestionabilidade intensificada e, por fim, à confusão mental e colapso, quando podem dissipar-se os sintomas mórbidos recém-adquiridos; e que, mesmo quando falham as formas mais drásticas desse tratamento, uma operação no cérebro muitas vezes afrouxa o domínio de crenças religiosas anormais que nenhuma quantidade de persuasão religiosa (intelectual ou emocional) poderia vencer e devolve aos pacientes a paz e felicidade, permitindo-lhes voltar a uma vida de serviço a seus semelhantes, de que muitos deles gozavam antes da doença.

As enormes potencialidades da técnica de excitação fisiológica de grupo, como foi demonstrada, por exemplo, por Wesley e muitos outros, são admitidas por teólogos católicos, como monsenhor Ronald Knox. Seu livro, “Enthusiasm” (120), um estudo de seitas religiosas que empregaram tais métodos e com isso escandalizaram os crentes ortodoxos da época, tanto católicos como protestantes, acentua a variedade e o alcance de vários pontos de vista religiosos que podem ser firmemente implantados em muitas mentes sob pressão excitativa. Monsenhor Ronald Knox tem muita coisa a dizer sobre Wesley, mas preocupa-se menos com o conhecimento da mecânica do processo que com a filosofia fundamental que influencia esses vários movimentos heterodoxos: “Como explicar esses fenômenos — profecia da criança Camisard, convulsões jansenistas, desmaios metodistas ou glossolalia irvingita — é questão que não precisa deter-nos. O importante é que todos eles fazem parte de um tipo definido de espiritualidade, um tipo que não pode ser feliz a menos que veja resultados. Trabalho do coração, chamava-o Wesley; as emoções precisam ser agitadas até no fundo, a intervalos frequentes, por inexplicáveis sentimentos de contrição, alegria, paz e assim por diante, caso contrário como se poderia ter certeza de que o toque divino estava atuando sobre sua alma?”

Knox, ele próprio protestante que se converteu ao catolicismo, presta relutante tributo à extrema eficácia desses métodos: “Se tratei demoradamente deste lado singular do caráter de Wesley — refiro-me à sua preocupação por estranhas perturbações psicológicas, agora geralmente subestimadas — é porque penso que ele e os outros profetas do movimento evangelista conseguiram impor seu próprio padrão ao Cristianismo inglês. Conseguiram identificar a religião com uma experiência real ou suposta (…) para melhor ou pior, a Inglaterra que suportou as excitações e desapontamentos do começo do século XIX foi entregue à religião de experiência; não se baseiam as esperanças neste ou naquele cálculo doutrinário; sabe-se. Por essa razão, o inglês mediano foi, e é, singularmente insensível aos argumentos que tentam privá-lo de suas certezas teológicas, sejam elas quais forem”.

A técnica de excitação de grupo tem muitas formas espetaculares nos Estados Unidos, para onde inúmeras seitas perseguidas fugiram em épocas de intolerância religiosa. As palavras citadas de monsenhor Knox mostram como o comportamento de algumas congregações americanas se aproxima de perto do que foi outrora observado por Wesley nas Ilhas Britânicas: “… tremendo, chorando e desmaiando, até toda aparência de vida desaparecer e as extremidades do corpo assumirem a frieza de um cadáver. Em uma reunião nada menos que mil pessoas caíram ao chão, aparentemente sem sentido ou movimento”.

Inúmeras pessoas, mostra ele com citações, podiam até mesmo ser persuadidas por “revivalistas” a acreditarem que comportar-se como certas espécies de animais era um sinal de possessão por Deus: “Quando atacadas pela doença de São Vito, as vítimas de entusiasmo às vezes saltavam como rãs e exibiam toda contorsão grotesca e hedionda do rosto e dos membros. Os ladridos consistiam em ficar de quatro, rosnar, ranger os dentes e ladrar como cães… Estes últimos (que ladravam como cães) eram particularmente dotados em profecias, transes, sonhos, rapsódias, visões de anjos, do céu e da cidade Santa”.

Em 1859, porém, um sacerdote protestante, o reverendo George Salmon (121), posteriormente diretor do Trinity College, em Dublin, advertira os escritores católicos e especialmente os jesuítas de sua época de que não podiam dar-se ao luxo de criticar demais os métodos excitativos usados por outras seitas: “E a pessoa que, talvez, melhor compreendeu a arte de excitar emoções religiosas e a reduziu a um sistema regular foi o fundador da ordem dos Jesuítas. Qualquer pessoa que saiba alguma coisa sobre o sistema de exercícios espirituais que ele inventou, como os discípulos em seus retiros reuniam-se em uma capela escura, tinham seus sentimentos excitados por ejaculações que gradualmente se alongavam em vigorosas descrições, primeiro, do castigo devido ao pecado, dos tormentos do inferno e purgatório, depois do amor de Deus, dos sofrimentos do Salvador, da ternura da Virgem; como a emoção se intensificava à medida que o líder da meditação prosseguia e se propagava por contágio simpático de um para outro; quem quer que saiba alguma coisa sobre isto deve perceber que a Igreja Católica Romana nada tem a aprender em coisa alguma do que tenha sido inventado pelas mais entusiásticas seitas de protestantes. A mais violenta e extensa excitação religiosa que a história lembra ocorreu em um dos períodos mais sombrios da história da Igreja. Refiro-me àquele que levou às Cruzadas; quando milhões de cristãos acreditando no que exclamavam — ‘é a vontade de Deus’ — abandonavam seus lares apenas para perecer aos montes em terra estrangeira”.

Salmon insiste neste ponto com muito vigor, acrescentando: “Quem dirá que aquele movimento (as Cruzadas) foi só superstição e fanatismo, pois dele participaram os melhores e mais devotos da época…? No entanto, o resultado mostrou como aquele grande movimento foi promovido meramente por causas humanas. Isso porque não podemos acreditar que Deus seduzisse aquelas grandes multidões com falsas promessas e as levasse para perecer miseravelmente em uma terra distante. Vemos assim que a excitação religiosa pode existir sem conhecimento religioso”.

P. F. Kirby, em seu “The Grand Tour of Italy” acentua que, cem anos atrás, Smollett também comentara a maneira pela qual os católicos davam destaque aos aspectos assustadores e mais revoltantes de sua história religiosa para despertar as emoções: “O palácio do Escurial na Espanha é construído na forma de uma grelha, porque o convento foi construído em consequência de um voto a São Lourenço, que foi assado até morrer como um porco grelhado. Que pena os labores da pintura terem sido tão empregados nos chocantes temas do martirológio! Além de inúmeros quadros da flagelação, crucificação e descida da cruz, temos Judite com a cabeça de Holofernes, Herodiade com a cabeça de João Batista, Jael assassinando Sisera em seu sono, Pedro contorcendo-se na cruz, Estevão sendo apedrejado, Bartolomeu esfolado vivo e uma centena de outros quadros igualmente assustadores, que só podem servir para encher a mente de ideias sombrias e encorajar um espírito de fanatismo religioso”. (122)

Salmon achou também que era preciso pesquisar muito mais profundamente para explicar os fenômenos que então apareciam no Grande Revival no Norte da Irlanda. Observa ele: “Temos ainda muita coisa a aprender sobre as leis de acordo com as quais a mente e o corpo atuam um sobre o outro e de acordo com os quais uma mente atua sobre outra; mas é certo que grande parte dessa ação mútua pode ser reduzida a leis gerais e que quanto mais conhecermos tais leis tanto maior será nosso poder de beneficiar outros”.

Compara também corretamente os sintomas mais notáveis do “revival” com outros sintomas histéricos e com os fenômenos da hipnose — que estava então sendo praticada e discutida na Grã-Bretanha. Salmon adverte seus leitores quanto aos perigos e riscos do emprego de tais métodos, mas tem a honestidade de escrever: “…Desejo acrescentar que o testemunho que recebi não me deixa razão para duvidar que o movimento de “revival” no Norte foi acompanhado pela supressão da embriaguez e impiedade; pela reforma geral do caráter moral; pelo aumento de interesse por tudo quanto se refere à religião; pelo aumento da frequência ao culto público e à sagrada comunhão. Que esse trabalho seja permanente em todos os casos seria esperar demais — que o será em muitos, eu espero e acredito”.

Em um “post scriptum”, são pormenorizados alguns dos fenômenos vistos nesse grande “revival” e que geralmente se admite terem tido, de modo geral, resultados muitos benéficos: “Homens fortes romperam em lágrimas; mulheres desmaiaram e entregaram-se à histeria. Os agudos gritos daqueles que em altos brados pediam piedade e a agonia mental de que sofriam eram talvez mais comoventes do que se poderia imaginar. Os penitentes jogavam-se no chão, arrancavam os cabelos, aglomeravam-se em toda a volta para rezar por eles e pareciam ter a mais intensa convicção de seu perdido estado à vista de Deus.”

Prossegue dizendo: “Os efeitos físicos são de duas espécies. 1 — O paciente fica profundamente afetado pelos apelos que possa ter ouvido, solta as mais altas e furiosas exclamações de pesar e continua rezando e pedindo piedade a Deus, às vezes durante horas; ou 2 — torna-se completamente insensível e continua nesse estado por diferentes períodos que variam de cerca de uma hora a dois dias”.

Os resultados da continuação dessa excitação até o ponto de colapso são também anotados: “Durante a continuação do estado (2), a pessoa afetada permanece perfeitamente tranquila, aparentemente inconsciente de tudo quanto se passa em roda; as mãos às vezes cruzadas, como na oração, os lábios movendo-se e às vezes lágrimas correndo dos olhos; o pulso geralmente regular e sem indicações de febre (…); e as pessoas que dele se recobraram representam-no como o tempo de sua ‘conversão’. Há uma expressão muito notável no semblante delas, uma perfeita radiação de alegria, que eu nunca vi em qualquer outra ocasião. Eu seria capaz de distinguir as pessoas que passaram por esse estado pela expressão de seu rosto”.

Em “The Epidemics of the Middle Ages”, J. F. C. Hecker (123) descreve a maneira de dança histérica que ocorreu na Europa no século XIV: “Os efeitos da Peste Negra ainda não haviam cessado e os túmulos de milhões de suas vítimas mal haviam sido fechados, quando surgiu na Alemanha um estranho delírio, que se apossava das mentes dos homens e, apesar da divindade de nossa natureza, lançava corpo e alma no mágico círculo de infernal superstição. (…) Chamava-se a Dança de São João ou de São Vito, devido aos saltos bacânticos por que se caracterizava e que davam àqueles afetados, enquanto executavam sua selvagem dança, gritando e espumando de fúria, toda a aparência de pessoas possessas”.

Em seguida, descreve como (os dançarinos) ofereciam ao público tanto nas ruas como nas igrejas o seguinte e estranho espetáculo: “Formavam círculos de mãos dadas e, parecendo ter perdido todo o controle sobre seus sentidos, continuavam a dançar indiferentes aos espectadores, durante horas seguidas, em selvagem delírio, até que finalmente caíam ao chão em estado de exaustão. (…) Enquanto dançavam não viam nem ouviam, sendo insensíveis às expressões exteriores através dos sentidos, mas eram perseguidos por visões. (…) Outros, durante o paroxismo, viam os céus abertos e o Salvador entronizado com a Virgem Maria, conforme se refletiam em suas imaginações as noções religiosas da época”.

A doença logo se propagou da Alemanha à Bélgica. Muitos padres tentaram dissipar os sintomas por meio de exorcismo, atribuindo a doença à possessão diabólica, apesar do caráter religioso das ideias mantidas por muitas das vítimas. Conta-se que as ruas de Metz encheram-se certa ocasião com mil e cem dançarinos.

São Vito foi feito padroeiro das pessoas afligidas pela mania de dançar, da mesma maneira que São Martinho de Tours protegia as vítimas da varíola e São Denis, da França, os sifilíticos. São João tinha também relação com esse tipo especial de dança, não como seu padroeiro, mas porque o festival do Dia de São João tomara o lugar do festival de verão pré-cristão que sempre estivera associado a danças orgíacas. Com efeito, Hecker acha provável que a epidemia tenha sido iniciada nas selvagens folias do Dia de São João, em Aix-la-Chapelle, no ano 1374 depois de Cristo. No entanto, quase cem crianças haviam apresentado os mesmos sintomas em Erfurt, em 1237; e entre as muitas explicações peculiares então apresentadas para o surto incluía-se a ineficácia do batismo realizado por padres que não eram castos.

Até o início do século XVI, quando a mania de dançar se tornou objeto de interesse médico por parte de Paracelso e outros, só a Igreja era considerada capaz de tratá-la. É fascinante ver Hecker antecipar-se às descobertas modernas registrando que a cura mais segura encontrada consistia em manter o paciente dançando até ser atingido o ponto de total exaustão e colapso: “Urrando e espumando como eles estavam, os circunstantes só conseguiam contê-los colocando bancos e cadeiras em seu caminho, de modo que, pelos altos saltos que eram assim tentados a dar, sua força se esgotasse. Logo que isso acontecia, caíam ao chão como que sem vida e, muito vagarosamente, recuperavam de novo sua força. (…) A cura efetuada por esses tempestuosos ataques era em muitos casos tão perfeita que alguns pacientes voltavam à fábrica ou ao arado como se nada tivesse acontecido”.

Nenhum diagnóstico geral da doença pode ser tentado: alguns pacientes provavelmente sofriam das formas mais comuns de perturbação mental, alguns de histeria provocada e os sintomas de outros sugerem envenenamento pelo esporão do centeio, fungo tóxico que ataca o centeio e que se transmite ao pão. (124) A Peste Negra também provocava generalizada depressão nervosa. Contudo, o que nos interessa aqui é que o tratamento mais eficaz encontrado era levar tais estados de excitação anormal à exaustão final, depois da qual os sintomas se dissipavam.

“Por esse motivo os magistrados contratavam músicos para levarem os dançarinos de São Vito o mais depressa possível ao fim dos ataques e mandavam que homens atléticos se colocassem entre eles a fim de completar a exaustão, que produzia bom efeito, como se observara muitas vezes.”

Matthioli (1565) é também citado por Hecker como tendo observado: “Tomava-se o cuidado de continuar a música até ser produzida a exaustão, pois era melhor pagar alguns músicos adicionais que se pudessem revezar do que permitir que o paciente no meio do exercício curativo recaísse em tão lamentável estado de sofrimento”.

Muitos casos da mesma mania apareceram no século XVII na Itália, onde os sintomas nervosos eram atribuídos à picada da aranha tarântula e uma música de dança especial chamada Tarantella era tocada para assegurar a cura do paciente. Hecker cita um relato de G. Baglivi em 1710, segundo o qual essa crença ainda era sustentada com tanto vigor que ele vira pacientes que sofriam de febres malignas obrigados a dançar ao som da música, pelo temor de que os sintomas fossem devidos à picada da tarântula. Um desses pacientes morreu no local; dois outros pouco tempo depois.

A Igreja Católica considerava a Peste Negra como castigo pela iniquidade geral da Cristandade e recorria à ameaça de seu retorno como meio de levar o povo a um estado de submissão e verdadeiro arrependimento. Com seu assentimento, a Fraternidade dos Flagelantes, também chamados de Irmãos da Cruz, começou a promover reuniões especiais nas quais podiam ser publicamente confessados os pecados e dirigidas súplicas a Deus para prevenção da peste. Os bandos de flagelantes tornaram-se bem organizados e, embora começando como um movimento operário e camponês, passaram a ser controlados pelas classes mais ricas. Seus métodos para provocar excitação de grupo eram muito eficazes: tocavam sinos, cantavam salmos e flagelavam-se até o sangue correr em torrente. Seus dirigentes acharam conveniente organizar uma perseguição aos judeus, não apenas pela velha acusação de haverem crucificado Cristo, mas também pela nova e igualmente inepta acusação de propagarem a peste pelo envenenamento dos poços. Assim como a conversão das massas alemãs à fé nazista na Alemanha de Hitler era incentivada por meio de reuniões onde canto rítmico, procissões à luz de archotes e coisas semelhantes conseguiam levá-las a estados de sugestionabilidade histérica, mesmo antes que Hitler se erguesse para falar, o mesmo acontecia com os flagelantes que se anteciparam à fúria antissemita do ditador alemão. Só em Mainz, doze mil judeus foram mortos ou suicidaram-se; a chegada de uma procissão de flagelantes era muitas vezes o sinal de um massacre.

Hecker, que escreveu há mais de um século, parece ter tido sobre os mecanismos fisiológicos dessas reações de grupo visão mais clara do que alguns teóricos modernos. Apreendeu a importância do que os psicólogos chamam hoje de “transferência” e, em um capítulo especial intitulado “Simpatia”, acentuou a existência em todos esses movimentos de um estado intensificado de sugestionabilidade e a presença de um instinto que “liga os indivíduos ao corpo geral, que abrange, com igual força razão e loucura, bem e mal, e diminui o mérito da virtude, assim como a criminalidade do vício”.

Prossegue apontando a semelhança entre isso e os primeiros esforços da mente infante “que são em grande escala baseados na imitação. (…) A esse instinto de imitação, quando existe em seu mais alto grau, alia-se (também) à perda de todo o poder sobre a vontade, que ocorre tão logo a impressão sobre os sentidos se torna firmemente estabelecida, produzindo uma condição como aquela de pequenos animais quando são fascinados pelo olhar de uma serpente”.

Antecipando-se assim à comparação de Pavlov sobre fenômenos hipnóticos em seres humanos e animais, Hecker afirma que suas descobertas “colocam a autoindependência da maior parte da humanidade sob luz muito dúbia e explicam sua união em um todo social. Aliada ainda mais de perto à simpatia mórbida (…) está a difusão de excitações violentas, especialmente aquelas de caráter religioso ou político, que têm agitado tão fortemente nações dos tempos antigos e modernos e que podem, depois de uma submissão incipiente, transformar-se em perda total da força de vontade e verdadeira doença da mente”.

Pelo estudo dessas epidemias, Hecker chegou a compreender muito bem alguns dos mecanismos básicos do que hoje chamamos “lavagem cerebral” e “controle do pensamento”. Percebeu também que seus estudos o estavam levando para terreno muito perigoso e achou necessário atenuar suas descobertas: “Longe de nós tentarmos despertar todos os variados tons dessa corda, cujas vibrações revelam os profundos segredos que jazem ocultos nos recessos mais íntimos da alma. Poderiam muito bem faltar-nos forças adequadas a tão vasto empreendimento. Nosso interesse aqui é apenas por aquela mórbida simpatia, com cujo auxílio a mania de dançar da Idade Média se tornou uma verdadeira epidemia”.

Para ilustrar sua tese de que a tendência à “simpatia” e “imitação” aumenta sob a excitação provocada, Hecker descreve o que aconteceu em uma usina de algodão no Lancashire, em 1787. Uma operária fez um camundongo descer pelo pescoço de uma colega que tinha pavor desses animais; o ataque que ela teve imediatamente continuou com violentas convulsões durante vinte e quatro horas. No dia seguinte, três outras mulheres tiveram ataque e, no quarto dia, nada menos de vinte e quatro pessoas haviam sido afetadas, entre elas um operário do sexo masculino da fábrica, tão esgotado por conter as mulheres histéricas que ele próprio contraiu a doença, e duas crianças de uns dez anos de idade. A doença propagou-se às fábricas vizinhas devido ao temor provocado por uma teoria segundo a qual era ela devida a alguma espécie de envenenamento pelo algodão. O tratamento prescrito parece surpreendentemente moderno: “O dr. St. Clare levava consigo uma máquina elétrica portátil e pelos choques elétricos os pacientes eram universalmente aliviados sem exceção”.

Quanto ao tratamento posterior, tão logo os pacientes e seus colegas de trabalho se asseguraram de que o mal era meramente nervoso e não uma doença ocupacional, como “chumbo” entre os pintores, a histeria terminou. E: “Para dissipar ainda mais suas apreensões, os melhores efeitos foram obtidos fazendo-os tomar alegremente um copo de bebida e participar de uma dança. Na terça-feira, dia 20, dançaram e no dia seguinte estavam todos no trabalho, exceto dois ou três, que ficaram muito enfraquecidos por seus ataques”.

Hecker menciona também uma epidemia religiosa muito mais grave, causada por sugestão de grupo, em 1814, em Redruth, Cornualha, onde havia uma Capela Metodista: “(Um homem) gritou em voz alta: Que farei para ser salvo? (…) Alguns outros membros da congregação, seguindo seu exemplo, gritaram palavras da mesma espécie e, pouco depois, deram a impressão de estar sofrendo a mais cruciante dor corporal”.

A cena despertou atenção popular e alguns dos que foram à capela por curiosidade contraíram a infecção histérica. A capela permaneceu aberta durante alguns dias e noites, com o que os sintomas se propagaram a outras capelas metodistas nas vizinhas cidades de Camborne, Helston, Truro, Penryn e Falmouth, além de várias aldeias da região.

“Aqueles que eram atacados demonstravam a maior angústia e caíam em convulsões; outros gritavam, como pessoas possessas, que o Todo-Poderoso ia lançar prontamente sua ira contra eles, que os gemidos dos espíritos atormentados ecoavam em seus ouvidos e que viam o inferno abrir-se para recebê-los.”

A conversão da Cornualha, de país tradicionalmente católico para predominantemente não-conformista, pode ser explicada em parte pela aptidão de seus “revivalistas”, pois lemos: “Os membros do clero quando, no decorrer de seus sermões, percebiam que havia pessoas assim tomadas, exortavam-nas zelosamente a confessar seus pecados e esforçavam-se diligentemente para convencê-las de que eram por natureza inimigas de Cristo; que a ira de Deus ia, portando, cair sobre elas; e que, se a morte as surpreendesse no meio de seus pecados, os eternos tormentos do inferno seriam seu quinhão. A congregação, superexcitada por isso, repetia as palavras deles, o que naturalmente devia aumentar a fúria de seus ataques convulsivos. Quando o discurso já havia produzido todo seu efeito, o pregador mudava de assunto; lembrava aqueles que estavam sofrendo o poder do Salvador, assim como a Graça de Deus, e reproduzia para eles em cores brilhantes as alegrias do céu. Diante disso ocorria mais cedo ou mais tarde uma reação notável. Aqueles que estavam em convulsões sentiam-se elevados de suas maiores profundezas da miséria e desespero à mais alta bem-aventurança, e triunfalmente gritavam que seus grilhões estavam rompidos, seus pecados estavam perdoados e eles eram transportados para a maravilhosa liberdade dos filhos de Deus”.

Relatos sobre esse “revival” cômico mencionam todos os sintomas que ocorreram nas neuroses de combate da Segunda Guerra Mundial (ver Capítulo III). Mostram até mesmo que as extremidades inferiores foram afetadas mais tarde que o resto do corpo — como aconteceu com nossos pacientes na blitz e na Normandia, e como foi também observado nos cães que Pavlov submeteu às pressões mais severas.

O aumento da sugestionabilidade, muitas vezes provocado por tais métodos, revela-se claramente no relato do reverendo Jonathan Edwards sobre o “revival” de 1735 por ele iniciado em Northampton, Massachusetts. É possível, de fato, que Wesley tenha lido o relato de Edwards antes de iniciar sua própria campanha quatro anos depois. Edwards admitiu ocasionalmente que até mesmo ideias de suicídio podiam ser implantadas e transferidas de pessoa para pessoa em uma congregação superexcitada. Um dos paroquianos de Edwards, dominado por melancolia religiosa, tentou o suicídio; e outro conseguiu posteriormente cortar a própria garganta (o que era um dos mais graves pecados imagináveis na época).

“A notícia dessa extraordinária ocorrência afetou as mentes das pessoas daqui e encheu-as por assim dizer de espanto. Depois disso, multidões nessa e em outras cidades pareciam estar submetidas à forte sugestão e pressão para que fizessem o que essa pessoa havia feito; e muitos que pareciam não ter melancolia, algumas pessoas piedosas que não tinham mistérios especiais ou dúvidas quanto à bondade de seu estado, nem tinham qualquer complicação especial ou preocupação mental sobre coisa alguma espiritual ou temporal, ainda assim se sentiam incitadas, como se alguém lhes dissesse: Cortem suas próprias gargantas, agora é uma boa oportunidade! Agora! Agora! De tal modo que eram obrigadas a lutar com todas suas forças para resistir e, no entanto, nenhuma razão lhes sugeria por que deviam fazer isso.” (125)

As práticas religiosas de Rasputin, o monge ortodoxo russo cuja hipnótica influência sobre a última czarina contribuiu para precipitar a Revolução de Março, são também esclarecedoras com vistas aos métodos em discussão, O príncipe Youssoupoff, que em 1916 considerou ser seu patriótico dever assassinar Rasputin, descreve-as da seguinte maneira: “Ele (Rasputin) caiu sob a influência de um padre que despertou o que nele havia de místico; mas faltava sinceridade à sua conversão. Devido à sua natureza brutal e sensual, logo foi arrastado para a seita dos Flagelantes ou Khlystys. Diziam-se eles que eram inspirados pelo Verbo e que encarnavam Cristo. Alcançavam essa celestial comunhão por meio das práticas mais bestiais, uma monstruosa combinação de religião cristã com ritos pagãos e supertições primitivas. Os fiéis costumavam reunir-se à noite em uma cabana ou em uma clareira na floresta, iluminada por centenas de velas. O propósito dessas radenyi, ou cerimônias, era criar um êxtase religioso, um frenesi erótico. Depois de invocações e hinos, os fiéis formavam um círculo, começavam a balançar-se em ritmo e em seguida a virar em roda, girando cada vez mais depressa. Como um estado de tontura era essencial para o “fluxo divino”, o mestre-de-cerimônias açoitava todo dançarino cujo vigor diminuía. A radenyi terminava em uma horrível orgia, com todos rolando no chão em êxtase ou em convulsões. Pregavam que aquele que está possuído pelo Espírito pertence, não a si próprio, mas ao Espírito, o qual o controla e é responsável por todas as suas ações e por quaisquer pecados que possa cometer”. (126)

G. R. Taylor (127) sugere que talvez tenha sido por causa do uso da dança pelos primeiros cristãos e “porque eles eram dominados pelo Espírito, que os persas os chamavam de tarsa ou tremedores”. Acentua também que uma contínua linha de derivação pode ser traçada dos cristãos joaninos, através dos dançarinos medievais, shakers e quakers pós-medievais, até as seitas tremedoras e dançarinas dos séculos XIX e XX; e essa dança “é efetivamente o mecanismo através do qual se provoca a teolepsia”. As palavras de uma dança mágica dos Oito Gnósticos são mesmo atribuídas a Cristo em um antigo papiro egípcio. (128)

O mais alto fator comum a algumas das mudanças obtidas pelos primeiros metodistas, pelos “Holy Rollers”, pelos jansenistas, pelos modernos psicoterapistas e por aqueles psiquiatras que confiam na insulina, em choques elétricos, na leucotomia e coisas semelhantes, é provavelmente encontrado na fisiologia cerebral e não na psicologia; especialmente quando a implantação e ruptura de padrões de comportamento e presumivelmente de pensamento parecem também influenciar animais por perturbações análogas da função cerebral. De maneira nenhuma esta é uma opinião original; mas a atual doutrina de presumido progresso desencoraja muita gente de pensar que a inteligência possa ser dominada por perturbações cerebrais artificialmente provocadas quando novas crenças são proclamadas. William James escreveu, em 1903, em “The Varieties of Religious Experiences”: “Por fim, voltamos ao costumeiro simbolismo de um equilíbrio mecânico. A mente é um sistema de ideias, cada uma delas com a excitação que provoca, e com tendências impulsivas e inibitórias que se contêm ou se reforçam mutuamente (…) uma nova percepção, um repentino choque emocional ou uma ocorrência que põe a nu a alteração orgânica, faz com que toda a estrutura caia junta; e então o centro de gravidade afunda-se em uma atitude mais estável, pois as novas ideias que chegam ao centro, no reagrupamento, parecem lá ficar presas e a nova estrutura mantém-se permanente”. (129)

As pesquisas de James levaram-no também a concluir que: “Ocorrências emocionais, especialmente as violentas, são extremamente poderosas para precipitar reagrupamentos mentais. A maneira repentina e explosiva como amor, ciúme, culpa, medo, remorso ou ira pode dominar uma pessoa é conhecida de todos. Esperança, felicidade, segurança, resolução, emoções características de conversão podem ser igualmente explosivas. E emoções que entram dessa maneira explosiva raramente deixam as coisas como as encontraram”.

Em seguida, cita a conclusão do professor Leuba: “O terreno da convicção específica em dogmas religiosos é, portanto, uma experiência afetiva (emocional). Os objetos de fé podem mesmo ser absurdos; a corrente afetiva fará com que eles flutuem e lhes dará uma certeza inabalável. Quanto mais surpreendente a experiência afetiva, quanto menos explicável ela pareça, tanto mais fácil é fazer dela a transmissora de noções infundadas”. (130)

John Wesley, embora atribuindo à mão de Deus as milhares de conversões que provocou em toda a Inglaterra, nas pessoas mais improváveis, ainda assim especulava sobre possíveis fatores fisiológicos adicionais: “Como é fácil supor que a forte, viva e repentina apreensão da odiosidade do pecado, da ira de Deus e das amargas dores da morte eterna deve afetar o corpo, tanto quanto a alma, suspendendo as presentes leis de união vital e interrompendo ou perturbando a circulação ordinária e tirando a natureza de seu curso”. (131)

Foi observando assim cientificamente os resultados obtidos por diferentes tipos de pregação que Wesley contribuiu para levar até mesmo à Grã-Bretanha, notoriamente resistente a mudanças, a transformar alguns de seus tradicionais padrões de comportamento religioso e político.

É muito improvável que o dr. Billy Graham tenha a mesma espécie de sucesso que Wesley, ainda que apenas porque não tenta consolidar seus ganhos por meio de tão eficiente sistema de seguimento (ver Capítulo 10). Aqueles que frequentam suas reuniões ficam impressionados pelo cuidado com que ele evita a menção do inferno — uma das principais armas de conversão de Wesley. Uma das mais importantes ocorrências na história religiosa inglesa talvez tenha sido aquela em que, segundo se conta, um operário saiu correndo exultante de uma igreja onde o deão Farrar estava pregando e gritou: “Boas novas, companheiros, o velho Farrar diz que não existe inferno!” (132) Isso poderia ter acontecido por volta do ano de 1878, quando Farrar publicou seu livro “Eternal Hope”, contendo os cinco sermões que havia feito na Abadia de Westminster criticando o castigo eterno. (133) Contudo, o dr. Graham sabe que o medo do inferno ainda não está completamente esquecido; e, se usar a conhecida técnica “revivalista” — “O avião da salvação vai partir do aeroporto de Harringay às 3h30 em ponto. (…) Quais de vós, pecadores, lá estarão para apanhá-lo?” — provavelmente não descreverá as chamas, o enxofre e o forcado do diabo, mas se contentará com um impressionante: “O melhor que vocês têm a fazer é correr, minha gente. Senão…” O “senão” parece ser suficientemente eficaz em muitos casos. O leitor perceberá também como a bomba de hidrogênio poderá tornar-se importante para o êxito futuro de certas espécies de evangelismo religioso. Já lemos a advertência do dr. Graham a seus compatriotas: “O maior pecado da América é nossa desconsideração por Deus. (…) Deus pode permitir que a Rússia destrua a América. (….) Quando vejo uma bela cidade como Nova York, tenho também uma visão de edifícios desmoronando e de poeira. Continuo tendo a impressão de que, a menos que voltemos a Ele, Deus permitirá que algo caia sobre nós de uma maneira que não posso prever”. (134)

Como muitos evangelistas antes dele, o dr. Graham acredita ser o agente desse Deus destruidor por causa das inúmeras conversões repentinas que obtém com o emprego de tais métodos: “Eu não sou grande intelectual e existem milhares de homens que são melhores pregadores do que eu. Vocês não podem explicar-me se deixarem de fora o sobrenatural. Eu não sou senão um instrumento de Deus”.

Capítulo VII

Lavagem Cerebral na Religião e na Política

Os elementos reunidos nos capítulos V e VI mostram como vários tipos de crença podem ser implantados em muitas pessoas, após a função cerebral ter sido suficientemente perturbada por medo, ira ou excitação provocadas acidental ou deliberadamente. Dos resultados causados por tais perturbações, o mais comum é o enfraquecimento temporário do discernimento e o aumento da sugestionabilidade. Suas várias manifestações de grupo são às vezes classificadas sob o título de “instinto de rebanho” e apresentam-se mais espetacularmente em tempo de guerra, durante epidemias graves e em todos os períodos semelhantes de perigo comum, que aumentam a ansiedade e também a sugestionabilidade individual e coletiva.

Outro resultado da superestimulação pode ser a ocorrência das fases “equivalentes”, “paradoxais” e “ultraparadoxais”, de atividade cerebral anormal, discutidas em capítulos anteriores, que invertem os padrões normais de comportamento do paciente. Se puder ser produzido um repentino e completo colapso pelo prolongamento ou intensificação da pressão emocional, a lousa do cérebro talvez fique temporariamente limpa de seus padrões de comportamento mais recentemente implantados, permitindo talvez que sejam substituídos mais facilmente por outros.

De fato, o que acontece a animais irracionais quando submetidos a pressão parece também acontecer a seres humanos; isto é, se forem temporariamente deixadas de lado as interpretações psicológicas de seu comportamento e concentrada a atenção nos fenômenos puramente fisiológicos, verificar-se-á frequentemente que os princípios mecânicos envolvidos são semelhantes.

As técnicas de doutrinação política e religiosa são muitas vezes tão semelhantes que, em comunidades primitivas ou em estados teocráticos mais civilizados, como o dos judeus antigos, se tornam realmente idênticas. Assim, o estudo dos métodos de doutrinação religiosa melhor registrados dará resultados que serão, ceteris paribus, igualmente aplicáveis ao campo político. No entanto, algumas das semelhanças mais evidentes são com frequência ignoradas, por atribuir-se, quer ao tratamento religioso (como na Europa Ocidental e nos Estados Unidos de hoje) quer ao tratamento político (como na Europa Oriental e na China) caráter oficial em prejuízo do outro.

A mesma ampla diferenciação de crença separa politicamente os comunistas dos democratas capitalistas, como separa religiosamente os católicos dos protestantes. Muitos desses mesmos pequenos desacordos funcionais amarguraram as relações entre stalinistas e trotskistas; entre metodistas, metodistas primitivos e metodistas calvinistas. Líderes políticos têm-se mostrado dispostos a usar fuzilamentos em massa e câmaras de gás em apoio de suas crenças, como líderes se mostraram no passado dispostos a usar fogo e espada. Nem os católicos nem os protestantes podem vangloriar-se de passado mais limpo que seus oponentes. Há, quanto à selvageria, pouca oportunidade de escolha entre os protestantes e os católicos nas guerras religiosas da Alemanha; os massacres católicos de huguenotes protestantes na França não foram menos fanáticos que o massacre de católicos irlandeses pelos protestantes de Cromwell. Além disso, tanto católicos como protestantes empunharam com igual vigor a espada de Deus contra os pagãos de ultramar e também contra os membros do culto de feitiçaria pré-cristã na Europa; agindo sempre na firme convicção de que eram inspirados pelos mais elevados e nobres motivos. Os mais bondosos, generosos e humanos dos homens foram realmente, através da história, condicionados a praticar atos que parecem horrorosos em retrospecto àqueles que tiveram condicionamento diferente. Muitas pessoas, sensatas em tudo o mais, aferram-se a opiniões estranhas e cruéis apenas porque foram firmemente implantadas em seu cérebro em tenra idade e não podem ser livradas delas por meio de argumentação, mais do que o poderia a geração que ainda acreditava na chateza da terra, embora já circunavegada em várias ocasiões. Para alterar pontos-de-vista fundamentais, não é preciso necessariamente eliminá-los por meio de tambores vodu ou “revivals” religiosos. Existem outros métodos menos toscos e espetaculares que podem ser muito eficazes.

Neste ponto, o leitor talvez perdoe uma recapitulação dos primeiros princípios fisiológicos.

Com sua variedade de temperamentos, constatou-se que colapso ou dramática mudança nos padrões de comportamento podiam ser causados em animais não apenas aumentando-se a força dos estímulos aplicados, mas também por outros três meios importantes:

1 — Podia-se prolongar o tempo entre fazer um sinal preliminar e dar ou negar comida ou um choque elétrico inesperado; descobriu-se que o prolongamento de um estado de tensão e ansiedade era muito perturbador. O resultado era a inibição protetora, que podia tornar-se rapidamente “transmarginal”, com efeitos caóticos sobre a função cerebral.

2 — Podia-se alterar padrões de comportamento confundindo o cérebro, se sinais positivos e negativos de condicionamento de alimentação se seguissem um ao outro rapidamente e não fossem seguidos pelo esperado alimento ou choque. A maioria dos animais parecia capaz de ajustar-se, dentro de limites, ao que esperava; mas experimentava mais dificuldade em enfrentar o imprevisto.

3 — Se todos esses meios deixassem de produzir alteração ou colapso, podia-se recorrer à debilitação física, febres, etc., que poderiam ser eficazes quando os mesmos estímulos eram repetidos mais tarde.

Nas técnicas de conversão e lavagem cerebral a serem agora discutidas todos esses mecanismos fisiológicos também entram em ação, isoladamente ou em combinação; e não causa surpresa ver como os métodos de conversão e obtenção de confissões usados pela Inquisição Espanhola nos séculos XVI e XVII diferem pouco daqueles que têm sido usados pelos comunistas por trás da Cortina de Ferro. É provável, porém, que os comunistas tenham atingido maior perfeição técnica, devido ao melhor conhecimento dos princípios fisiológicos básicos aprendidos com animais e pela comparação de descobertas empíricas com aqueles princípios. Por outro lado, o emprego de violência física na obtenção de declarações e confissões é oficialmente proibido por lei na Rússia, da mesma maneira que nos Estados Unidos e no Reino Unido. Geralmente se dá também às pessoas acusadas ampla oportunidade de saber que tudo quanto disserem poderá ser apresentado como prova em seu julgamento subsequente.

Os especialistas em lavagem cerebral usam uma técnica de conversão que não depende apenas da intensificação da sugestionabilidade de grupo, mas também de estimular no indivíduo ansiedade, um sentimento de culpa real ou imaginária e um conflito de lealdades, suficientemente fortes e prolongados para provocar o desejado colapso. No “revival” de Jonatham Edwards, em Northampton, antes mencionado (135) já se registrara que a sugestionabilidade de grupo era aumentada até um ponto em que a tentativa de suicídio de um paroquiano deprimido e o suicídio efetivo de outro afetaram tão profundamente seus vizinhos que, esquecendo-se de sua recém-descoberta alegria e certeza de salvação eterna, muitos deles ficaram tão obcecados pelo que reconheciam como tentação diabólica a ponto de seguirem o exemplo. Quem desejar investigar a técnica de lavagem cerebral e obtenção de confissão, como é praticada atrás da Cortina de Ferro (e também deste lado dela, em certos postos policiais onde o espírito da lei é desprezado), fará bem em começar com um estudo do “revivalismo” americano do século XVIII a partir da década de 1730. Os mecanismos psicológicos parecem os mesmos, e as crenças e padrões de comportamento implantados, especialmente entre os puritanos da Nova Inglaterra, não foram superados quanto à rigidez e intolerância nem mesmo no período stalinista da U. R. S. S. Não nos interessamos aqui pela verdade ou falsidade de suas crenças fundamentalistas e calvinistas; este livro trata apenas da fisiologia da conversão e controle do pensamento.

Edwards (136) acreditava que o mundo bem poderia “ser transformado em um grande lago ou globo líquido de fogo, no qual os maus serão afundados (e) (…) suas cabeças, seus olhos, suas línguas, suas mãos, seus pés, seus rins e seus órgãos vitais ficarão para sempre cheios de um fogo resplandecente e derretedor, suficiente para derreter as próprias rochas e elementos. E eles estarão cheios do mais aceso e vivo sentido para sentir os tormentos, não por dez milhões de idades, mas para todo o sempre, absolutamente sem fim (…)”.

Diz ele ainda que os eternamente condenados seriam “atormentados também na presença dos santos glorificados. Assim os santos se tornarão mais sensíveis à grandeza de sua salvação. O quadro da miséria dos réprobos duplicará o ardor do amor e da gratidão dos santos no céu”.

Em um relato sobre o “revival” de Northampton, (137) declara ele que, antes de seu início, “a licenciosidade prevaleceu muito, durante alguns anos, entre os moços da cidade; inúmeros deles estavam muito acostumados a andar de noite, a frequentar a taberna e a práticas libidinosas. No que alguns, por seu exemplo, corrompiam excessivamente outros (…) mas (…) no abril seguinte, 1734, aconteceu a morte muito repentina e horrível de um moço, na flor da idade (…). Seguiu-se a morte de uma jovem mulher casada, que se afligira muito em relação à salvação de sua alma, antes de adoecer, e ficara em grande aflição no começo de sua enfermidade”.

Parece que essas mortes tornaram os paroquianos de Edwards mais sensíveis que o normal à sua pregação sobre o fogo do inferno, pois dentro de pouco tempo: “Dificilmente se encontraria na cidade uma única pessoa, moça ou velha, que permanecesse indiferente às grandes coisas do mundo eterno. Aqueles que costumavam ser os mais frívolos e dissolutos, e aqueles que se mostravam mais dispostos a pensar e falar levianamente de religião vital e experimental, estavam agora geralmente sujeitos ao grande despertar”.

Edwards passa então a descrever o “despertar”, tão útil na conversão religiosa ou política: “As pessoas são despertadas pela primeira vez com uma sensação de sua miserável condição por natureza; do perigo em que estão de perecer eternamente; e, o que é de grande importância para elas, de escaparem rapidamente e entrarem em um estado melhor. Aqueles que antes eram seguros e insensíveis, tornam-se sensíveis à maneira pela qual estavam a caminho de arruinar-se em seu antigo rumo”.

Reconhece ele também importantes diferenças em tipos de temperamento, que precisam ser consideradas durante a fase de “amaciamento”, antes da conversão: “Há uma variedade muito grande quanto ao grau de medo e aflição a que as pessoas são submetidas, antes de obterem algum confortável indício de perdão e aceitação por Deus. Alguns são, desde o começo, abundamentemente mais dotados de encorajamento e esperança do que outros; alguns tiveram dez vezes menos aflição de espírito do que outros, nos quais, todavia, a questão parece ser a mesma; alguns tiveram tanta noção do desagrado de Deus e do grande perigo de condenação em que estiveram, a ponto de não poderem dormir à noite; e muitos disseram que, quando se deitaram, a ideia de dormir em tal condição lhes foi amedrontadora, e quase não estiveram livres do terror enquanto dormiam, e que despertaram com medo, tristeza e aflição ainda habitando seus espíritos. (…) As terríveis apreensões que as pessoas tiveram de sua miséria foram em sua maior parte aumentando, à medida que elas se aproximavam da libertação, embora frequentemente passem por muitas mudanças e alterações na disposição e nas circunstâncias de seus espíritos; às vezes se acreditam completamente insensíveis e temem que o Espírito de Deus as tenha deixado e que sejam entregues à severidade judicial; no entanto, parecem muito profundamente ocupadas com aquele medo e com grande ansiedade de obter de novo convicções”.

Edwards (138) tinha o costume de provocar culpa e aguda apreensão como primeiro passo para a conversão de pessoas normais e insistia em que a tensão devia ser aumentada até o pecador entrar em colapso e submeter-se completamente à vontade de Deus; no entanto, seus paroquianos parecem ter percebido que fazer isso no caso de um pecador já sofrendo de melancolia religiosa poderia forçá-lo ao horrível crime de suicídio: “Outra coisa de que alguns pastores foram acusados, injustamente em meu entender, é de falar em terror àqueles que já estão sob grandes terrores, em lugar de confortá-los. (…) Culpar um pastor por declarar assim a verdade àqueles que estão sob o despertar e não administrar-lhes conforto imediatamente, é o mesmo que culpar um cirurgião, porque, quando começou a enfiar sua lanceta, com o que já causou grande dor a seu paciente, e este se encolheu e gritou de angústia, foi tão cruel a ponto de não deter sua mão, mas continuar a afundá-la ainda mais, até chegar ao fundo da ferida”.

Assim, os ocasionais casos de suicídio e insanidade precisavam ser lançados na coluna do Deve de seu livro de conversão; contudo, embora pregando os terrores do foro do inferno e da condenação eterna, sempre tinha em mente que uma via de fuga, constituída pela principal crença a ser implantada, devia ficar aberta: “Com efeito, algo além do terror deve ser pregado àqueles cujas consciências são despertadas. Deve ser-lhes dito que existe um Salvador que é excelente e glorioso; que derramou seu precioso sangue pelos pecadores e que é em todos os sentidos suficiente para salvá-los; que está pronto a recebê-los, se o seguirem zelosamente; pois essa também é a verdade, tanto quanto o estarem agora em uma condição infinitamente pavorosa. (…) Os pecadores, ao mesmo tempo que lhes é dito como seu caso é miserável, devem ser convidados a virem e aceitarem um Salvador, e entregarem seus corações a ele, com todos os cativantes e encorajadores argumentos que o evangelho oferece”.

Edwards achou que alguns de seus neófitos talvez precisassem suportar conflitos mentais e tortura durante dias, semanas ou meses antes de sucumbirem, aceitarem os termos calvinistas de salvação por ele pregados e, assim, conquistarem a libertação. Observou também que: “Aqueles que, cumprindo condenações legais, tiveram os maiores terrores, nem sempre obtiveram a maior luz e conforto; nem lhes foi sempre a luz comunicada muito repentinamente; ainda assim, porém, acho que o tempo de conversão foi geralmente mais sensível em tais pessoas. Muitas vezes a primeira mudança sensível depois do extremo de terrores é uma calma e em seguida gradualmente entra a luz; pequenos lampejos de início (…) e é sentida no íntimo, talvez certa disposição de louvar a Deus; e, depois de algum tempo, a luz entra mais clara e poderosamente. Ainda assim, porém, penso que, com maior frequência, grande terrores foram seguidos de mais repentina e grande luz, e conforto, quando os pacientes pareciam estar, por assim dizer, subjugados e levados a uma calma, tirados de uma espécie de tumulto do espírito”.

Esta calma final do estado de conversão repentina é igualmente bem descrita por William James em “Varieties of Religious Experience”. Os mais empedernidos pecadores, isto é, aqueles de tipo temperamental menos aberto à sugestão, terão perdido peso considerável sob suas prolongadas agonias de espírito, antes da final submissão e santificação. Seus casos fazem lembrar o dos cães “fortes” que Pavlov precisava debilitar antes de quebrar seus padrões de comportamento. Todos os mecanismos fisiológicos explorados por Pavlov em suas experiências animais, a não ser a mudança glandular por castração, parecem de fato ter sido explorados por Edwards ou seus sucessores em suas campanhas missionárias calvinistas.

O êxito duradouro desses métodos é ilustrado pelas reações de Harriet Beecher Stowe, autora de “A Cabana do Pai Tomás”, cem anos mais tarde, quando o espírito de Jonathan Edwards ainda dominava a comunidade onde ela vivia: “Sua primeira provação teológica séria ocorreu aos 11 anos de idade, quando sua irmã mais velha, Catherine, perdeu em um naufrágio o homem com quem ia casar-se e não pôde ter certeza de que ele estava salvo. Lymam Beecher (seu pai) não se mostrou tranquilizador. Catherine trabalhou no caso e finalmente encontrou um diário. Oh, que horror! Seu namorado jamais se arrependera; estava condenado a uma eternidade de tormento. Catherine ficou desesperada e Harriet partilhou de sua angústia, mas ambas, a partir desse momento, começaram a duvidar seriamente da doutrina calvinista fundamental de que Deus escolhe apenas alguns para a graça e destina o resto à condenação, sem que o salvo ou o pecador seja capaz de influenciar o resultado. (…) Em 1840, ela chegou a ponto de refutar as palavras de Jonathan Edwards (por escrito) (…) e em 1857 foi tão longe a ponto de negar o Pecado Original”. (139)

Em 1835, Charles C. Finney, que vinha fazendo conversões em massa no Estado de Nova York, publicou um franco e pormenorizado manual sobre o assunto, “Lectures on Revivals of Religion” (140) Tudo, recomenda ele, deve ser apresentado aos prosélitos potenciais em simples preto e branco; eles devem ser mandados para casa, por exemplo, a fim de lerem sozinhos o seguinte hino do dr. Watts:

My thoughts on awful subjects roll,
Damnation and the dead:
What horrors seize the guilty soul,
Upon a dying bed!

Lingering about these mortal shores,
She makes a long delay,
Till, like a flood, with rapid force,
Death sweeps the wretch away.

Then, swift and dreadful, she descends
Down to the fiery coast,
Amongst the abominable fiendes
Herself a frightened ghost.

There endlesse crowds of sinners lie,
And darkness makes their chains;
Tortured with keen despair they cry,
Yet wait for fiercer pains.
Not all their anguish and their blood

For their past guilt atones,
Nor the compasion of a God
Shall hearken to their groans. (141)

Contudo, uma estrofe final oferece ao aterrorizado leitor sua via de fuga, congratulando-se com ele por não ter morrido no pecado antes de alcançá-la:

Amazing grace, that kept my breath,
Nor did my soul remove,
Till I had learn’d my Saviour’s death,
And well insured his love. (142)

Finney escreveu também: “Olhai, por assim dizer, através de um telescópio que o erga para perto de vós; olhai para dentro do inferno e ouvi-os gemer; depois virai o vidro para cima e olhai para o céu e vede os santos lá, com seus mantos brancos, com suas harpas nas mãos, e ouvi-os cantar a canção do amor redentor; e perguntai a vós mesmos: Será possível que eu convença Deus a elevar o pecador para lá?”

Aqueles que concordam com o deão Farrar sobre a improbabilidade teológica do castigo eterno talvez achem isso menos amedrontador do que o era para a maioria dos ouvintes de Finney. Basta, porém, mudar a ameaça de fogo eterno para a de trabalho forçado perpétuo em um campo de prisioneiros do Ártico e se torna evidente a eficácia do método, seja em contexto político ou religioso.

Na lavagem cerebral e na obtenção de confissões, dificilmente pode ser exagerada a importância fisiológica da provocação de um sentimento de culpa e conflito. O prisioneiro pode ser bombardeado com acusações e continuamente interrogado até sentir-se confundido pela ansiedade e contradizer-se em algum pequeno ponto. Este é usado então como uma vara para açoitá-lo; seu cérebro deixa de funcionar normalmente e ele entra em colapso. Em um estado subsequente, altamente sugestionável, ele prontamente assinará e entregará a desejada confissão.

Finney insistiu em que o “revivalista” jamais devia relaxar a pressão mental sobre o prosélito em perspectiva: “Um dos meios pelos quais as pessoas dão falso conforto aos pecadores aflitos é perguntar-lhes: Que fez você? Você não tão mau (…) Quando a verdade é que eles foram muito piores do que pensam ter sido. Nenhum pecador tem ideia de que seus pecados foram maiores do que são. Nenhum pecador tem ideia adequada de como ele é grande pecador. Não é provável que um homem possa viver à plena vista de seus pecados. Deus, em sua misericórdia, poupou todas as suas criaturas na terra à pior das vistas, a do coração humano nu. A culpa do pecador é muito mais profunda e condenadora do que ele pensa e o perigo que ele corre é muito maior do que pensa; se pudesse ver essas coisas como são, provavelmente não viveria sequer um momento”.

Implantado o sentimento de culpa, Finney sabia que, para liquidar a questão, não devia ser feita concessão de espécie alguma: “Um pecador ansioso mostra-se muitas vezes disposto a fazer qualquer coisa menos exatamente aquilo que Deus exige dele. Está disposto a ir ao fim do mundo ou a pagar seu dinheiro, a suportar sofrimento ou qualquer outra coisa, menos à plena e instantânea submissão a Deus. Ora, se fizerdes concessão a ele e lhe falardes de alguma outra coisa que ele possa fazer, fugindo ao mesmo tempo àquele ponto, ele se sentirá muito confortado”.

Finney achava também que: “Períodos prolongados de persuasão são geralmente devidos à instrução falha. Sempre que instruções claras e exatas são dadas aos pecadores, verificareis geralmente que as persuasões são profundas e pungentes mas breves. (…) Quando os pecadores são enganados por falsas opiniões, podem ser mantidos durante semanas, talvez meses e às vezes anos em um estado debilitador e finalmente talvez ser coroados no reino e salvos. Mas quando a verdade é tornada perfeitamente clara ao espírito do pecador, se ele não se submete logo, seu caso é desesperado. (…) Pelo que tive oportunidade de observar dessas conversões que foram muito repentinas, saíram em geral os melhores cristãos. (…) Não há um caso de persuasão prolongada registrado em toda a Bíblia. Todas as conversões lá registradas são repentinas”.

Considerando-se as tensões que o método de Finney produzia no cérebro de seus ouvintes, após ter feito com que aceitassem qualquer parte de sua fé na realidade do fogo do inferno, suas conclusões finais são provavelmente justificáveis: “Medo de conversões repentinas! Alguns dos melhores cristãos que conheço foram persuadidos e convertidos no espaço de alguns minutos (…) e têm sido luzes cintilantes na igreja desde então e geralmente manifestando na religião a mesma determinação de caráter que manifestaram quando pela primeira se adiantaram e colocaram-se ao lado do Senhor”.

Dizem que Finney foi responsável por muitos milhares de conversões assim.

Opiniões de diversos líderes religiosos contemporâneos a respeito dos métodos de Finney foram publicadas por William B. Sprague em um livro intitulado “Lectures on Revivals of Religion”. (143) Expressava-se o temor de que as pessoas dominadas por um sentimento de salvação de tal tipo de culto mais estável e intelectual. A menos que houvesse grande cuidado, os convertidos tentariam dominar o pregador devido à força de suas próprias convicções novas. O rev. Edward D. Griffin, presidente do William College, em Williamstown, Massachusetts, por exemplo, escreve: “Entre outros excessos, quando os despertados foram chamados para a nave, algumas mulheres se viram convertidas e, no meio da congregação reunida, em altas vozes, começaram a rezar por seus maridos. E isso foi encarado por homens até então considerados sóbrios — talvez sóbrios demais como prova da extraordinária descida do Espírito Santo. Tais desordens e outras ainda piores do que essas se propagarão por toda parte, se pastores e membros distintos da Igreja não se unirem diligentemente para conter as medidas atuais. (…) Tais excessos (…) colocarão diante dos cegos pedras de tropeço sobre as quais milhões cairão no inferno”.

Por outro lado, o rev. Noach Porter, pastor de uma Igreja Congregacional em Farmington, Connecticut, sai vigorosamente em favor dos “revivals”. Resume suas descobertas com as seguintes palavras: “Parece, portanto, que, por meio dessas visitações cheias de graças, durante um período de trinta e sete anos, quatrocentas e sessenta pessoas foram acrescidas à Igreja. No mesmo período, o número total dos acrescidos, além desses, ultrapassa trezentos por pouco e desses mais de cem vieram de outras igrejas. (…) Nessas poucas e curtas temporadas, Deus fez por nós muito mais do que durante todos os prolongados meses e anos intermediários; e, de fato, parece que foi principalmente nesses períodos que a Igreja até agora renovou suas forças, de modo a apresentar seu testemunho com qualquer grau de sucesso nos intervalos”.

A contribuição do rev. Noah Porter conclui com esta importante observação: “Contudo, se a experiência e observação me ensinaram alguma coisa, é que existe uma maneira de discutir esses assuntos muito logicamente no púlpito, que pouco bem faz (…) (é preciso que os ouvintes) sejam levados a sentir que são eles seus próprios destruidores, que caídos, dependentes e perdidos como estão, a salvação lhes é oferecida muito livre e sinceramente, e que se perecerem a culpa deve recair para sempre sobre eles próprios”.

Uma citação final de Finney, muito importante para nosso problema: “Dai-vos ao trabalho de aprender o estado de espírito dele — o que está pensando, como se sente e o que sente mais profundamente — depois fazei pressão intensa; não desviais o espírito dele falando sobre qualquer outra coisa. Não temais fazer pressão nesse ponto, pelo temor de levá-lo a distração. Algumas pessoas temem fazer pressão em um ponto a que a mente é tremulamente sensível, para não ferir o espírito. (…) Deveis clarear o ponto, lançar a luz da verdade em toda a volta dele e levar a alma a ceder; depois a mente ficará em repouso”.

Não seria possível descrever método mecânico melhor para manter o cérebro no necessário estado de persistente tensão e excitação até que a sugestionabilidade seja aumentada e a submissão final ocorra. Todos os métodos, sejam ruidosos ou soturnamente silenciosos, visam a esse ponto, um ponto que os domadores de cavalos também têm em mente quando domam um potro — quando o paciente adquire o paradoxal sentimento de que o novo “serviço é liberdade perfeita”. Este sentimento, que os cristãos afirmam ser exclusivo de sua fé, foi expressado nessas palavras pelo herói de Marcus Apuleius, Lucius, quando convertido ao culto de Isis. (144)

O conselho de Finney ao pregador “revivalista” para que descubra o ponto a que “a mente é tremulamente sensível” acentua também a importância da observação registrada de que todo cão (e, portanto, provavelmente todo homem) têm uma fraqueza ou sensibilidade do cérebro que pode ser explorada depois de descoberta. Orwell em seu romance “Nineteen-Eighty-Four” (145) conta como o herói, enquanto está sendo doutrinado, demonstra ter irresistível medo de ratos, relíquia de um susto quando criança. Este conhecimento é usado pelo seu interrogador para produzir sua submissão final e transformar seu ódio ao “Grande Irmão” em um amor desprovido de crítica. Quer Orwell tenha ou não introduzido a realidade na ficção, o método descrito é fisiologicamente convincente. O estudo das modernas técnicas de lavagem cerebral política e obtenção de confissões mostra que os interrogadores estão sempre à procura de tópicos a que a vítima seja sensível; agem sobre esses tópicos até obrigarem-na a confessar ou acreditar no que desejam. Se em sua vida passada nada puder ser encontrado capaz de despertar sentimentos de ansiedade ou culpa, então é preciso inventar situações ou interpretações de situações apropriadas para criá-los — como fizeram alguns psiquiatras durante a Segunda Guerra Mundial para causar estados de excitação e colapso em seus pacientes no curso de tratamento abreativo por drogas (ver Capítulo III).

Finney primeiro tinha de persuadir um cidadão americano comum e decente de que estava levando uma vida pecaminosa e certamente condenado ao fogo do inferno, antes de convencê-lo a aceitar um tipo determinado de salvação religiosa. Os especialistas em conversão política fazem igualmente as pessoas comuns confessarem que levavam vidas de erro plutodemocrático, ou agiam como feras fascistas e, a título de expiação, aceitar com prazer todo castigo severo que lhes seja imposto, até mesmo a morte.

Edwards e Finney levaram a extremos métodos considerados eficazes desde tempos imemoriais por inúmeras seitas religiosas e estão começando a ser cada vez mais imitados por certas crenças políticas. Por exemplo, através dos séculos muitas pessoas se mostraram fascinadas pela tremenda força e resistência, tanto no comportamento como em crença, demonstradas pelo padre jesuíta altamente treinado. Em seu livro “Don Fernando”, Somerset Maugham diz o seguinte a respeito do famoso livro “Exercícios Espirituais”, de Santo Inácio, o fundador da ordem, usado pelos jesuítas como manual de treinamento: “Quando se olha para os exercícios em seu todo não se pode deixar de observar como são maravilhosamente idealizados para atingir seu objetivo. (…) Dizem que o resultado da primeira semana é reduzir o neófito à completa prostração. A contrição aflige-o, a vergonha e o medo angustiam-no. Não só se sente aterrorizado pelos assustadores quadros em que pousou seu espírito, mas também fica enfraquecido por falta de comida e esgotado por falta de dormir. É levado a tal desespero que não sabe onde procurar alívio. Então um novo ideal é colocado à sua frente, o ideal de Cristo; e a esse ideal, com a vontade destruída, ele é levado a sacrificar-se de coração alegre. (…) Os ‘Exercícios Espirituais’ são o método mais maravilhoso até hoje inventado para conquistar controle sobre essa coisa errante, instável e voluntariosa que é a alma do homem”. (146)

Aqueles que acompanharam nossa argumentação até agora não ficarão surpreendidos, como ficou Maugham, ao descobrir que: “Considerando-se que seu efeito foi conseguido através de constante e impiedoso apelo ao terror e à vergonha é surpreendente observar que a última de todas as contemplações é uma contemplação de amor”.

Somerset Maugham fala também de uma velha edição espanhola dos “Exercícios Espirituais” na qual o editor, padre Raymon Garcia, S. J., tentou ajudar o neófito descrevendo-lhe com consideráveis pormenores o objeto de algumas de suas meditações. A respeito das meditações sobre o inferno, por exemplo, Somerset Maugham escreve: “Com os olhos de sua imaginação o penitente deve ver as terríveis chamas e as almas nelas encerradas como se fossem corpos de fogo. ‘Olhai’, grita ele (padre Raymon), ‘olhai as infelizes criaturas contorcendo-se nas chamas ardentes, com seus cabelos em pé, seus olhos saltados de suas cabeças, seu aspecto horrível, mordendo as mãos, com suores e angústia da morte, e mil vozes pior que a morte’. (…) ‘E que diremos’, pergunta padre Raymon, ‘da sede e fome que atormentam? Muita coisa. Furiosa é a sede causada pelo calor e pelo pranto incessante. (…) Os réprobos vivem mergulhados nisso, como peixes na água ou antes (melhor, diz meu autor) como que penetrados por um carvão aquecido ao vivo, as chamas entrando em suas gargantas, veias, ossos, entranhas e todos os seus órgãos vitais’”.

A lição da meditação foi transmitida ao exercitante pelo padre Raymon na seguinte e sombria advertência: “Que dizeis a isto, minha alma? Se em vossa macia cama vos é tão penoso passar uma longa noite de insônia e sofrimento aguardando ansiosamente o alívio do amanhecer, que sentireis nessa noite eterna na qual nunca virá o amanhecer, durante a qual nunca vereis um raio de esperança?” Somerset Maugham considera “Exercícios Espirituais” um livro que não se pode ler sem reverente admiração: “Isso porque se deve lembrar que foi ele o eficaz instrumento que permitiu à Sociedade de Jesus manter durante séculos sua ascendência. Quatrocentos comentários foram escritos a seu respeito. (…)”. Leão XIII disse sobre ele: “Aqui está o sustento que eu desejava para minha alma”.

Todos esses métodos podem ser usados para ajudar a criar alguns dos mais nobres padrões de vida do homem. Devemos compreender, porém, que eles podem ser usados também para destruí-los.

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Conversão Política e Lavagem Cerebral

Em um apêndice especial a sua obra “The Devils of Loudun”, Aldous Huxley encareceu a força desses métodos em discussão: “Nenhum homem, por mais altamente civilizado que seja, pode ouvir durante muito tempo um tambor africano, um cântico indiano ou um hino galês, e conservar intacta sua personalidade crítica e autoconsciente. Seria interessante tomar um grupo dos mais eminentes filósofos das melhores universidades, fechá-los em uma sala quente com dervixes marroquinos ou voduístas haitianos e medir, com cronômetro, a força de sua resistência psicológica aos efeitos do som rítmico. Os positivistas lógicos seriam capazes de resistir mais tempo que os idealistas subjetivos? Os marxistas se mostrariam mais resistentes que os tomistas ou os vedantistas? Que fascinante, que proveitoso campo de experiência! Enquanto isso, tudo quanto podemos prever com segurança é que, se expostos por tempo suficientemente longo aos tantas e cantos, todos os nossos filósofos acabariam pulando e uivando como os selvagens”.

Diz ainda Aldous Huxley: “… engenhos novos e antes não sonhados foram inventados para excitar multidões. Há o rádio, que estendeu enormemente o alcance dos gritos estridentes do demagogo. Há o alto-falante, amplificando e reduplicando indefinidamente a impetuosa música do ódio de classes e do nacionalismo militante. Há a câmara fotográfica (da qual outrora se dizia ingenuamente que não pode mentir) e sua prole, o cinema e a televisão. (…) Reuni uma multidão de homens e mulheres previamente condicionados pela leitura diária de jornais; tratai-os com música de banda amplificada, luzes brilhantes e a oratória de um demagogo que (como sempre são os demagogos) seja simultaneamente o explorador e a vítima da intoxicação de rebanho, e podereis de pronto reduzi-los a um estado de sub-humanidade quase sem mente. Nunca antes tão poucos estiveram em condições de transformar tantos em tolos, maníacos ou criminosos”. (147)

Apesar do êxito de tais ataques às emoções, as democracias ocidentais subestimam sua importância política; talvez porque os resultados igualmente obtidos em terrenos religiosos possam ser atribuídos exclusivamente a forças espirituais e não, em parte pelo menos, a seus efeitos fisiológicos sobre os pacientes. Acha-se ainda um mistério como Hitler convenceu muita gente inteligente na Alemanha a considerá-lo pouco menos que um deus; no entanto, Hitler nunca ocultou seus métodos, que incluíam a provocação deliberada de tais fenômenos pela excitação organizada e hipnotismo coletivo, vangloriando-se mesmo da facilidade que havia em impor a “mentira genial a suas vítimas”. A força da rebelião mau-mau foi subestimada pelas autoridades de Quênia, as quais não perceberam que Jomo Kenyatta, que deu origem a ela, nunca apelou primordialmente ao intelecto de seus adeptos, mas recorreu deliberadamente à técnica religiosa emocional para finalidades políticas. Em 1953, a força dos métodos mau-mau era tal que em Nairobi, segundo se noticiou, na cabana policial que encerrava prisioneiros condenados à morte do dia seguinte havia canções e hilaridade (148); fenômeno que deve ter deixado muita gente intrigada, como aconteceu também com os entusiásticos Aleluias na prisão de Newgate no tempo de Wesley. (Ver Capítulo IX). As cerimônias de juramento mau-mau destinavam-se deliberadamente a provocar horror emocional e excitação em seus participantes — a tal ponto que não podem sequer ser relatadas com pormenores, pois as leis inglesas referentes à obscenidade o proíbem. (149)

A ineficácia de toscos métodos de espancamento com pacientes que provavelmente haviam sido submetidos a essa completa conversão político-religiosa é sugerida pelo seguinte relato: Duas autoridades policiais europeias foram sentenciadas a dezoito meses de trabalho forçado sob a acusação de haverem causado lesões corporais graves em um prisioneiro, kikuyu Kamau Kichina, que morreu na prisão. Um inspetor-chefe foi multado em 25 libras e uma ex-autoridade distrital foi multada em 10 libras sob a acusação de terem contribuído em menor escala para a provocação de lesões corporais.

“O magistrado, sr. A. C. Harrison, disse que a testemunha médica, dr. Brown, considerava como causas mais prováveis da morte os ferimentos sofridos pelo Kamau juntamente com a exposição às intempéries:

Durante todo o cativeiro de Kamau não se poupou esforço para obrigá-lo a admitir sua culpa. Foi açoitado, espancado a pontapés, algemado com os braços entre as pernas e presos atrás do pescoço, privado de alimentação durante um período e deixado pelo menos duas noites amarrado a um poste em um barracão, sem paredes em roda, tendo apenas um teto em cima e usando simplesmente um cobertor para combater o frio. Embora um ou dois dias antes de sua morte não fosse mais capaz de ficar em pé ou andar convenientemente, não lhe foi prestada nem sequer solicitada assistência médica. Nunca foi levado à presença de um magistrado de maneira adequada, nem submetido a qualquer julgamento — direito de todos os súditos britânicos. O magistrado disse que um fator perturbador era a possibilidade do Kamau ser inocente de fato tanto quanto legalmente. Apesar do tratamento que recebeu, morreu sem admitir qualquer culpa.” (150)

Os comunistas chineses propagam seu evangelho por métodos semelhantes. Têm o bom senso de evitar tratamento puramente intelectual e de despertar cólera política anunciando e acentuando continuamente as atitudes hostis dos Estados Unidos para com a Nova China. No entanto, se a atitude hostil dos Estados Unidos, ao contrário da atitude mais conciliatória da Grã-Bretanha naquela ocasião, não tivesse oferecido aos comunistas um pretexto para instigar intensa cólera e ódio entre a população chinesa, teriam de inventar outro inimigo externo, para manter vivo o medo e ódio que Chiang Kai-shek havia excitado antes de o derrotarem. Os americanos tornaram as coisas fáceis continuando a apoiar Chiang.

Não apenas foram despertados cólera e medo em relação a inimigos exteriores, como meio de tornar as massas sugestionáveis, mas também emoções ainda mais fortes foram provocadas contra supostos inimigos internos, como ricos latifundiários, banqueiros e comerciantes. Foi feito todo o esforço para despertar intenso sentimento de culpa e ansiedade no maior número possível de não-comunistas. Mesmo pequenos lojistas foram levados a sentir que tinham sido capitalistas reacionários e nefandos pecadores contra o novo Estado Comunista. Foram encorajadas orgias de confissão de grupo sobre desvios políticos. A denúncia de pais e parentes por seus filhos — como no regime de Hitler — contribuiu para a desejada atmosfera de insegurança e ansiedade; pois quase toda gente tinha em seu passado algum incidente de que se envergonhava. Contudo, a não ser quando foi considerado necessário excitar a multidão por meio de execuções espetaculares — como na França durante o Terror — geralmente se ofereceu o meio de fugir de pecados reais ou imaginários: mesmo os piores pecadores, depois de terem expressado verdadeiro arrependimento, podiam em teoria conseguir sua volta à aceitação social, embora talvez apenas depois de muitos anos de trabalho forçado. O emprego de tais métodos torna mais fácil compreender relatos como o seguinte sobre uma entrevista com uma mulher americana de trinta e cinco anos, pouco depois de ter sido solta de uma prisão em Pequim. Lá permanecera durante mais de quatro anos e declarou que: “os chineses haviam tido absoluta razão ao prendê-la por seus atos hostis ao povo chinês”. Disse que fora acorrentada e algemada a intervalos durante vários meses até 1953. “Fui algemada e tive correntes nos tornozelos”, declarou. “Não considerei isso uma tortura. Eles usam correntes para fazer a gente pensar seriamente nas coisas. Isso poderia ser considerado como uma forma de castigo por desonestidade intelectual. O principal em uma prisão comunista é o fato de ser um lugar de esperança. (…)”. A outras perguntas, respondeu: “Eu não sou digna de ser comunista. Ser comunista é uma coisa terrivelmente difícil”. (…) (Ela disse que) não fora doutrinada, mas “se submetera a reabilitação, lera muitos livros e fizera estudos regulares. Suas confissões aos chineses foram feitas voluntariamente”. (151)

O estado mental de alguns americanos que estão tendo agora permissão de voltar aos Estados Unidos, depois da doutrinação em prisões chinesas, mostra como podem ser vulneráveis a tais persuasões até mesmo pessoas de alta inteligência, embora não se saiba ainda quanto tempo os efeitos da conversão duram após as vítimas terem voltado a seu antigo ambiente.

Uma escritora, Han Suyin, em “A Many Splendoured Thing” (152) descreve os métodos empregados na China Comunista logo depois de terminada a Guerra Civil: “Três meses depois da libertação da cidade os tambores ainda estavam tocando. Às vezes nos terrenos do Colégio Técnico; ou na Escola da Missão no Portão Oriental; frequentemente no acampamento dos soldados do lado de fora da Muralha do Sul. Quando parti estavam tocando. Tocam ainda hoje quando pela rua principal os caminhões abertos rodam, levando os inimigos do povo à morte rápida, enquanto as multidões assobiam e rugem, manifestando barulhentamente ódio e aplauso; os chefes da claque erguem suas vozes estridentes em gritos de slogans, foguetes são disparados como que para um festival e os dançarinos dançam, dançam e dançam. Eu me pergunto, Sen, se Mestre Confúcio ouviu essa harmonia de cinco tempos e a considerou medida certa para regular as emoções da humanidade. Eu me pergunto se há oitocentos anos antes de ter nascido aquele delicado judeu, o Cristo, nossos ancestrais realizavam seu Festival da Primavera e seus Ritos da Fertilidade com essa dança e esse ritmo. Vem do fundo de nosso povo, esse enfeitiçamento de tambor e corpo. Sinto-o subir de meu ventre, que é onde mora todo sentimento verdadeiro; forte e compulsivo como o amor, como se a medula de meus ossos o tivesse ouvido milhões de dias antes deste dia”.

Han Suyin escreve ainda: “O homem sempre luta para conquistar o mundo, para estabelecer a vontade do homem em nome de seu Deus. Com estandartes e gritos, legiões e cruzes, águias e sóis, com slogans e com sangue. Pés no pó, cabeça entre as estrelas. Velhos deuses com pintura nova e úmida no rosto”.

E acentua: “Para o comunista, cada indivíduo era uma fortaleza a ser conquistada só por luta espiritual. O fato de a luta envolver noites insones e esforço físico era prova adicional de superioridade espiritual. Haviam saído à conquista de almas e os corpos se seguiriam”.

O medo de continuada guerra civil, de intervenção estrangeira ou de ambas as coisas convenceu os líderes comunistas chineses de que precisavam empregar táticas de choque para converter as massas. Um método mais intelectual talvez resultasse em um tipo mais estável de conversão, mas seria perigosamente demorado e só se consumaria com o gradual falecimento daqueles criados nos antigos modos de pensar e o crescimento dos jovens educados nos novos modos. Para fazer uma nova China da noite para o dia, era essencial o rompimento emocional. Tão eficazes foram os métodos empregados, que milhares se mataram de desespero, sendo tão forte o sentimento de culpa neles artificialmente implantado que se sentiam indignos de aceitar a salvação comunista oferecida; deixando os milhões mais resistentes a dançar, dançar e dançar de alegria por sua libertação de uma servidão milenária — até aprenderem a tremer nas periódicas visitas da Polícia Familiar que passou então a manter um prontuário sobre a história e as atividades de toda família.

A revista americana “Time” vem recentemente insistindo em que o “mundo não-comunista, que não foi capaz de impedir essa vasta subversão, tem pelo menos o dever de compreendê-la”. Alguns dos outros pormenores (153) sobre os métodos que foram empregados na China deviam ser agora facilmente compreendidos pelos leitores que acompanharam a argumentação deste livro: “O que deu ao terror chinês rapidez e peso foram técnicas comprovadas emprestadas da União Soviética ao tempo em que Stalin estava no apogeu de seu poder. O sistema chinês difere, porém, do russo em um aspecto importante. (…) O terror de Mao goza da máxima publicidade. (…) Centenas de julgamentos coletivos, muitas vezes envolvendo milhares de participantes que gritam por sangue, (são) realizados nas grandes cidades, geralmente em um campo de esportes populares, nos quais as vítimas são publicamente difamadas e depois publicamente fuziladas. Existe uma frase oficial para designar essa variação peculiarmente chinesa do terror comunista: Campanha para supressão dos contrarrevolucionários com fanfarra”.

Lo Jui-ching, inventor dessa apropriada frase, tornou-se chefe de polícia e principal “terrorista executivo” da China comunista. Dizem que em 1949 percebeu que a nova resistência à arregimentação comunista “estava, não nos fuzis de alguns milhares de guerrilheiros, mas em milhões de corações”. Advertiu repetidamente os chineses de que: “dois caminhos estão abertos a todos os contrarrevolucionários: o caminho da morte para aqueles que resistem e o caminho da vida para aqueles que confessam. (…) Confessar é melhor que não confessar”.

Em outubro de 1949, Lo lançou duas campanhas sucessivas: “A campanha dos Cinco-Anti (às vezes chamados de Cinco Vícios) foi ostensivamente desenvolvida contra suborno, sonegação de imposto, fraude em contratos, furto de propriedade do estado e furto de segredos econômicos do estado. Sob esse manto, homens de negócios e industriais foram submetidos à pressão em intermináveis reuniões de luta (lavagem cerebral) (…) centenas de milhares suicidaram-se. Em certa época em Changai, o cais do rio Whangpoo era isolado com cordas, os telhados dos edifícios eram guardados para impedir suicídio e os habitantes adquiriram o hábito de evitar andar na calçada perto de arranha-céus por temerem que suicidas caíssem dos telhados sobre eles (…)”.

Alguns dos que confessaram foram ainda fuzilados, mas outros tiveram a oportunidade de trabalhar por sua salvação política em campos de trabalho forçado.

“No fundo desse quadro terrorista estão os campos de trabalho forçado. (…) De acordo com a teoria comunista, todos os indivíduos empregados em trabalho forçado são voluntários e o pessoal que supervisiona o trabalho escravizado sempre usa palavras sonoras, quase amorosas, para descrever as pessoas sob suas ordens. Aqueles que morrem de exposição às intempéries ou excesso de trabalho são elogiados como heróis mortos.”

 “Time” finalmente registra: “Algo de profunda significação para a China, para a Ásia e para todo o mundo ocorreu nos últimos seis meses de 1955. O crescendo do terror de 1951 e as posteriores aplicações de terror habilmente programadas e cuidadosamente calculadas tiveram seus efeitos cumulativos. Um dos mais resistentes e flexíveis povos aparentemente abandonou a esperança. (…) Planos que deviam ser executados em dez ou quinze anos foram reduzidos a cinco. (…) A revolução socialista, no geral, disse Mao, poderia ser completada em escala nacional dentro de mais três anos”.

Richard L. Walker em “China Under Comunism” (154) faz pormenorizado relato dos métodos individuais e de pequenos grupos usados no treinamento de trabalhadores comunistas ativos para servirem como “correia de transmissão” entre o Partido e as massas. Eles devem expressar o ponto de vista do Partido em todo lugar para onde forem mandados. Walker acha que esses métodos se originaram “nas técnicas de treinamento desenvolvidas pelo Partido Comunista da União Soviética e que estão sendo hoje aplicadas em toda parte na órbita comunista — da România e Alemanha Oriental até as selvas da Malaia e as cidades devastadas pela guerra na Coreia do Norte”.

Prosseguindo, diz: “Pavlov sustenta que o homem integra impressões de seu ambiente em seus reflexos. Isso parece enquadrar-se idealmente na convicção comunista de determinação ambiental econômica. Assim, por uma extensão das teorias de Pavlov, quando prevaleceram sobre as de voluntarismo na U.R.S.S., psicólogos soviéticos sustentaram que, com adequado condicionamento, o ser humano podia ser transformado no novo homem soviético ideal. A psicologia pavloviana sustenta que o corpo humano não pode resistir ao condicionamento e os cientistas soviéticos vêm tentando desde então aperfeiçoar técnicas pavlovianas de modo que todo foco de resistência no indivíduo possa ser vencido”.

Esse curso de treinamento especial geralmente dura de nove a doze meses, e o mesmo programa geral é usado em toda parte, embora com variações correspondentes ao nível intelectual do discípulo. Os pormenores citados por Walker corroboram claramente os princípios fisiológicos esboçados neste livro. Ele descreve os seis fatores presentes durante todo o período de treinamento. Em primeiro lugar, o treinamento ocorre em uma área ou campo especial, que corta quase completamente todos os laços da pessoa em treinamento com suas famílias e seus antigos amigos, e facilita o rompimento dos velhos padrões de comportamento.

“Um segundo fator constante é o cansaço. Os estudantes são submetidos a programa que mantém cansaço físico e mental durante todo o treinamento. Não há oportunidade para repouso ou reflexão. Eles são ocupados em decorar grande quantidade de material teórico e deles se espera que empreguem com facilidade a nova terminologia. Aliada ao cansaço existe uma terceira constante: tensão (…) Incerteza é o quarto fator durante todo o processo. (…) Os indivíduos em treinamento que deixam ostensivamente de compreender o padrão do campo nas primeiras semanas desaparecem da noite para o dia e há geralmente um rumor bem difundido a respeito de seu destino. (…) Um quinto fator constante é o emprego de linguagem viciada. (…) O último fator é a seriedade atribuída a todo o processo. O humor é proibido”.

Há sempre pequenos grupos de discussão, formados de dez ou doze indivíduos em treinamento, que se mantêm juntos durante todo o curso. (155) Esses grupos sempre contêm um “delator”, embora os membros geralmente encontrem a maior dificuldade para identificá-lo. Os pequenos grupos juntam-se em reuniões de grupos maiores para ouvir conferências e relatar confissões feitas a eles pelos membros individuais. Parte importante do treinamento é a relação de autobiografias e diários, que são discutidos tanto nos pequenos grupos como nos grupos maiores.

Walker cita um ex-estudante como tendo explicado: “A narração direta de sua vida passada não era suficiente. Para cada ação que você descrevia, tinha de dar pormenorizadamente seu motivo. Sua crítica despertada tinha de ser evidente em toda sentença. Você tinha de dizer por que fumava, por que bebia, por que tivera relações sociais com certas pessoas — por quê? por quê? por quê?” Essas pormenorizadas confissões tornavam-se então propriedade pública e podiam ser usadas por diretores para descobrir um “ponto sensível” sobre o qual agir. (Pontos sensíveis, como foi mostrado antes, costumavam ser procurados e explorados por “revivalistas” dos séculos XVIII e XIX na tentativa de provocar conversões religiosas rápidas).

Como meio de aumentar o cansaço, os estudantes são encorajados a apresentar-se como voluntários para seu trabalho ou estudo adicional, fazendo outros do grupo seguirem seu exemplo. Parte importante do processo é a estimulação de medo e dúvida. Deverá ele contar tudo a seu grupo? Em tal caso, o que contar não será usado contra si próprio? O estudante tem de lutar silenciosamente e sozinho contra todas essas ansiedades e conflitos, até finalmente entrar em colapso e decidir confessar tudo; e esse é o começo de seu fim como indivíduo.

A primeira fase do processo de conversão é chamada “fase de controle físico” e dura cerca de dois meses. Aos noviços são atribuídas todas as espécies de tarefas físicas de rotina, muitas vezes de caráter humilhante. E, como se poderia esperar: “Durante esse período de exaustão física, os temas de treinamento são destinados a instilar o máximo de desilusão na mente do estudante. É desiludido em relação a seu passado; é desiludido em relação a seu treinamento. (…) É durante este período que se estabelece o padrão da fase seguinte. Os pequenos grupos reúnem-se uma vez por dia pelo menos durante duas horas, com o propósito de estudar. O estudo inicial é dedicado à análise dos antecedentes de cada estudante, suas ideias, sua família, seus amigos do passado, ideais e assim por diante. Isso dá ao líder e ao funcionário secretamente infiltrado oportunidade de conhecer intimamente cada membro de seu grupo e anotar os pontos fracos para posterior exploração. A crítica e a autocrítica desempenham papel importante; há uma competição para determinar qual dos recrutas pode ser melhor sucedido na descoberta dos erros de seu passado”.

Depois de dois meses de “controle físico”, começa uma segunda fase de doutrinação mais intensa. O trabalho físico é então reduzido e aumenta muito o número de reuniões de grupos pequenos e grandes. Cuida-se de fazer com que em seis e às vezes sete noites da semana o estudante vá para a cama com a mente e o físico completamente esgotados.

“Durante esse período a intensa pressão torna-se evidente a todos, mas não há como escapar. A tensão aumenta com as sessões de discussão; há irritação nos aposentos residenciais; a competição social é intensa em todas as atividades.”

Durante essa fase os candidatos promissores são gradualmente separados dos outros. Aqueles que reagem de maneira indesejável às pressões impostas são retirados e mandados para algum outro lugar — “de muitos deles nunca mais se ouve falar”. Finalmente, como se poderia esperar, os restantes chegam à terceira fase de crise e colapso. Isso ocorre após cerca de seis meses de treinamento.

“A crise geralmente começa com histeria e soluços durante a noite, que continuam durante a reunião de grupo pequeno do dia seguinte e são imediatamente discutidos. (…) A crise geralmente sobrevém ao mesmo tempo para todos os membros de um pequeno grupo. Aparentemente o colapso de um dos membros provoca uma reação em cadeia. (…) Em alguns casos, naturalmente, isso é muito mais evidente que em outros. Os cínicos e aqueles dotados de senso de humor parecem sobreviver melhor; os que têm fortes emoções ou profundas convicções religiosas ou outras frequentemente sofrem colapso primeiro”

De acordo com Walker, um ex-estudante afirmou que um quinto dos estudantes sofre colapso completo e alguns deles acabam como “maníacos balbuciantes”. É geralmente durante essa crise aguda e colapso que ocorre o que os chineses chamam apropriadamente de “corte do rabo”: “Os rabos são laços com a sociedade antiga, como família, amigos, valores antigos e assim por diante”.

Com esse rompimento total dos velhos padrões de comportamento, os novos são muito mais firmemente implantados, como no caso de conversões religiosas repentinas.

“Até o período de crise, a maior parte do jargão comunista era relativamente sem sentido. Era apenas uma nova linguagem a ser decorada, praticada e rearranjada em padrões. Agora ele começa a perceber que ela tem certa pertinência com seu problema. (…) Em lugar de seu sentimento de culpa ele está agora inflamado pela convicção de que deve divulgar sua segurança recém-descoberta e ajudar outros a encontrarem paz de espírito através do serviço à Organização. (…) Demora pelo menos mais quatro meses de intenso trabalho para consolidar o domínio sobre a mente agora disposta. Algumas recompensas são oferecidas em troca de entusiasmo e apreciação pela conversão do estudante.”

Esses missionários agora altamente treinados e “dedicados” saem para organizar grupos de discussão e confissão de vários tipos em toda a China. Cada profissão e ofício tem seu grupo especializado, e as mesmas técnicas de treinamento são empregadas neles, embora em escala menos intensa. Walker acentua: “Os métodos de espionagem mútua e atitudes engendrados no treinamento de pessoal não têm limites. Invadem a mais recôndita intimidade do lar e da família. Na China de Mao Tse-tung toda ação é política”.

De fato, as experiências chinesas de excitação coletiva, ruptura e recondicionamento das mentes de membros de pequenos grupos são encaradas como baseadas nos mesmos princípios fisiológicos que governam não apenas vários tipos de conversão religiosa, mas também alguns dos tratamentos de psicoterapia individual e de grupo; a tensão pode ser produzida em cada caso, o medo, a ansiedade e o conflito são estimulados e o diretor visa a um ponto no qual seus pacientes comecem a ficar inseguros de si mesmos, no qual a sugestionabilidade seja aumentada e no qual velhos padrões de comportamento sejam rompidos. Quando é atingida essa fase de “corte do rabo”, novos padrões e crenças têm probabilidade de assumir força e significação absolutamente novas. A longa história da conversão religiosa oferece inúmeros exemplos de pessoas que apanham a Bíblia e de repente encontram novo significado brilhando em velhos e conhecidos textos. Assim também o neófito comunista, na fase de corte do rabo, descobre de súbito surpreendente esclarecimento em slogans partidários que até então o deixavam frio; e o paciente no divã deixa igualmente de lutar contra seu psicoterapista e adquire por fim nova e fascinante “visão interior” de sua própria condição mental. Estudando, porém, os efeitos produzidos sobre a função cerebral pelas técnicas de pressão de qualquer disciplina, deve-se lembrar que quando manejadas inabilmente podem levar a um aumento da contrassugestionabilidade e não da sugestionabilidade. Cada disciplina tem suas próprias vítimas e derrotas quando aplicada a tipos temperamentais inadequados. A alta proporção de malogros da “correia de transmissão” relatada a Walker — um em cada cinco, transformado em completa ruína nervosa e muitos outros eliminados — talvez reflita a excessiva padronização do método de treinamento empregado; contudo, isto talvez assegure maior uniformidade mental e espiritual dos sobreviventes — se é que vale a pena.

Um dos métodos de consolidação do terreno conquistado por tais técnicas de conversão política ou religiosa é ainda a manutenção de medo e tensão controlados. Os comunistas chineses sabem, talvez pelo estudo dos métodos missionários católicos, que todos, em uma ou outra ocasião, têm o que pode ser qualificado de “maus pensamentos”; e que, se for possível aceitar a doutrina de que o pensamento é à sua maneira tão mau quanto a ação, eles terão o domínio sobre as pessoas. Nas democracias políticas é regra geral que todos podem pensar no mal que quiserem, desde que não transformem o pensamento em ação antissocial. Mas o texto do Evangelho de São Mateus, v. 28, que torna o adultério mental tão repreensível quanto o adultério físico, deu a algumas seitas cristãs justificativa para aplicar a mesma regra a todos os Mandamentos. A ansiedade e culpa assim despertadas no fiel podem mantê-lo em contínuo estado de tensão fisiológica e fazer com que ele dependa de seus conselheiros religiosos para orientação cotidiana. Todavia, enquanto o penitente perturbado por pensamentos lascivos a respeito da esposa de seu vizinho ou pensamentos homicidas em relação a seu vizinho se sente suficientemente seguro no confessionário, porque o padre se comprometeu pelos mais sagrados votos a não revelar tais confidências a outrem, um reinado comunista de terror é coisa diferente. Muitos chineses perseguidos por ideias dissidentes pensarão vinte vezes antes de confessá-las ao líder do grupo local, apesar dos convites nesse sentido; e viverão no constante temor de falar dormindo ou denunciar-se em público por um descuido no falar. Isso garante que as pessoas terão excessivo cuidado em fazer as coisas politicamente certas, ainda que não pensem assim. A Polícia Familiar é uma advertência muito constante do perigo que correm.

Tal ansiedade é autoperpetuadora. Mesmo os membros mais conformistas de um estado ditatorial fatalmente sofrem ansiedade ou sentimentos de culpa periódicos, pois, com as frequentes modificações na linha partidária e as revoluções palacianas que se tornam necessárias para que o público condene os líderes anteriores, automaticamente terão muitas vezes pensamentos errados. E o castigo por pensar errado não é o fogo do inferno na vida futura, mas desastre econômico e social neste mundo. A atmosfera tensa permite aos ditadores aproveitar os métodos “revivalistas” com efeito ainda maior que o obtido pelos líderes da Igreja que os aperfeiçoaram originariamente.

No “Times”, de Londres, um artigo sobre “Modelagem de Mentes para a Nova China” (156) também acentua as semelhanças entre algumas práticas religiosas e o novo comunismo. O correspondente especial do jornal escreve:

“Os comunistas negam que o marxismo seja uma religião, mas quem ouvisse o tímido e quase vacilante relato do velho sobre a maneira que as autoridades lidaram com ele fatalmente pensaria em fanáticos religiosos lutando pela alma de um pecador — e fazendo com que o próprio homem vencesse a luta. Ele era dono de uma modesta farmácia (…) vira como iam as coisas e procurara as autoridades para manifestar-lhes sua preocupação.”

“Ao invés de lhe agradecerem por sua generosa e previdente oferta, catequizaram-no com bastante severidade, disseram-lhe que não estavam perfeitamente convencidos de que sua oferta fosse feita por sua espontânea vontade sem motivos ocultos e mandaram-no de volta para que pensasse no assunto sozinho e sossegado. Não iam interferir, disseram-lhe; desejavam apenas voluntários espontâneos e convencidos. No fim do mês, ele voltou e novamente o mandaram embora para consultar seu coração. Depois, quando ele naturalmente insistiu em sua oferta com mais ardor a cada novo adiamento e quando finalmente concordaram em que seus motivos eram puros, lembraram-lhe seus acionistas. Estariam todos eles de acordo? Ele tinha de convocar uma reunião do grupo e só depois — quando todos eles estivessem clamando por permissão para negociar da maneira nova — só então o Estado concordaria em tomar deles a preocupação, prometendo-lhes uma participação nos lucros.”

 O correspondente do “Times” prossegue dizendo que não sabia até que ponto admirar e até que ponto ficar apavorado com os métodos usados pelas autoridades:

“Foi um vislumbre do processo de regeneração moral ou lavagem cerebral sobre o qual se ouve falar tanto na China. Não pode ser deixado de lado em qualquer tentativa de compreender as forças em ação. (…) Nada é mais impressionante que a habilidade e paciência com que os membros do partido em todos os escalões atuam sobre a mente das pessoas. Apoiados por todas as pressões sociais, passam horas, dias e semanas lutando por conversão e desejando cooperação sempre que possível. E obtêm resultados, seja em confissão pública ou em declarações privadas. Enquanto a Rússia se dispõe a modelar vidas antes de tudo, a China está empenhada em modelar mentes também. É coisa muito mais formidável. (…) Com relação à estabilidade do regime e sua determinação de levar a nação a novo poderio, não pode haver a menor dúvida.”

Aldous Huxley comentou essas questões em termos gerais: “Na verdade, o delírio da multidão provocado por membros da oposição e em nome de príncipes heréticos tem sido em toda parte condenado por aqueles que se encontram no poder. Todavia, o delírio da multidão despertado por agentes do governo, o delírio da multidão em nome da ortodoxia, é coisa inteiramente diferente. Em todos os casos nos quais pode ser levada a servir aos interesses dos homens que controlam a Igreja e o Estado, a autotranscendência de cima para baixo por meio de intoxicação de rebanho é tratada como coisa legítima e mesmo altamente desejável. Peregrinações e concentrações políticas, revivals coribânticos e desfiles patrióticos — essas coisas são eticamente corretas, desde que sejam nossas peregrinações, nossas concentrações, nossos revivais e nossos desfiles. (…) Quando o delírio da multidão é explorado em benefício de governos e igrejas ortodoxas, os exploradores têm sempre muito cuidado em não permitir que a intoxicação avance demais”.

As cerimônias religiosas e políticas controladas são, porém, aplaudidas por aqueles que dispõem da autoridade, pois oferecem “oportunidades para incutir sugestões nas mentes que momentaneamente deixaram de ser capazes de raciocínio ou livre vontade”.(157)

Embora haja geralmente dissidentes não influenciados por qualquer método empregado, a mecânica da doutrinação de grupos grandes e pequenos de pessoas pode ser relativamente simples, e é por isso que deve ser mais bem compreendida por todos quantos possam ser submetidos a elas. A precisão histórica ou a coerência lógica da crença implantada às vezes pode não ter relação com o grau de sucesso conseguido, desde que sejam invocadas as perturbadoras emoções humanas do medo e cólera, e mantidas por tempo suficiente para aumentar a sugestionabilidade e permitir que entrem em ação os outros mecanismos discutidos neste livro.

Uma publicação do Ministério da Defesa da Grã-Bretanha descreve como os comunistas chineses, empregando métodos toscos e fáceis, muitas vezes mal adaptados à mente britânica, conseguiram doutrinar inúmeros oficiais britânicos não comissionados de patente inferior e soldados rasos que estavam aprisionados na Coreia. Na maioria dos casos a doutrinação foi incompleta e apenas temporária; todavia quarenta soldados tornaram-se firmes prosélitos. Os oficiais e todos os oficiais não-comissionados de alta patente, que foram mantidos separados dos demais, permaneceram, segundo notícia oficial, completamente imunes. A violência física parece ter sido também empregada — como o foi contra o “praça embriagado dos Buffs” no famoso poema de Sir Francis Hastings Doyle, que recusou ajoelhar-se quando capturado pelos chineses em época muito anterior e morreu na melhor tradição militar. No entanto, se não fossem a dificuldade de linguagem e as técnicas relativamente primitivas que os chineses parecem ter empregado nessa ocasião, quase certamente mais soldados teriam sido dominados. Apesar do que diz o Livro Branco do Governo Britânico sobre o assunto, parece muito difícil acreditar que a posse de um alto posto de oficial não-comissionado ou de uma patente de oficial do Exército britânico torne a pessoa tão imune a métodos capazes de causar o colapso, pelo menos temporário, de um cardeal Mindszenty.

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Capítulo VIII

Lavagem Cerebral na Antiguidade

Por Robert Graves

Parecia importante descobrir se os médicos e sacerdotes gregos, uma vez que os padrões básicos de comportamento parecem não mudar nos seres humanos, se haviam antecipado a qualquer das descobertas deste livro — imunes como estavam à espiritualidade do Cristianismo e apegados a uma maneira mais mecanística de encarar a natureza. Transferi esse problema a Robert Graves e expliquei-lhe os princípios mecanísticos que pareciam importantes. Tornou-se logo evidente que existiam muitas antecipações de métodos modernos. O seguinte é o relato de algumas dessas antecipações, que ele bondosamente me forneceu.

Os gregos consultavam oráculos por algumas razões particulares e urgentes quando precisavam de conselho ou tratamento psicológico, da mesma maneira como hoje uma pessoa visita um psiquiatra, uma cartomante ou um padre católico romano. E assim como os terapistas freudianos e jungistas de hoje se dizem capazes de explicar sintomas físicos em termos de conflito subconsciente, interpretando os sonhos simbólicos de seus pacientes durante prolongado tratamento no divã, os sacerdotes gregos interpretavam os sonhos dos perturbados visitantes de seus templos e também explicavam em termos teológicos os sintomas histéricos e convulsivos. Escritores da escola médica hipocrática, com sede em Cos, não criticavam menos esses psiquiatras sacerdotais do que os neurologistas modernos tendem a criticar alguns teóricos psicossomáticos de hoje. (158)

“Se o paciente imita um bode, se berra ou se tem convulsão do lado direito, dizem que a Mãe dos Deuses é a causa. (…) Se espuma na boca e dá pontapés, a causa é atribuída a Áries. Se os sintomas são temores e terrores à noite, delírios, saltar da cama e correr para o ar livre, são descritos como ataques de Hecate ou assaltos dos espíritos dos mortos.”

Os sonhos e transes parecem muitas vezes ter sido produzidos deliberadamente sob sugestão. O relatório de Marcus Apuleius em “The Golden Ass” sobre as visões que teve no Templo de Isis depois de sua espetacular conversão torna a técnica perfeitamente clara. Escreve ele: “Não muito tempo depois, podem crer-me, foi-me dada outra visão na qual minhas instruções foram de submeter-me a uma terceira iniciação. Fiquei surpreendido e perplexo, não sendo capaz de entender a ordem. Eu já fora duas vezes iniciado, que mistério ainda restava ser revelado? Certamente, pensei, os sacerdotes falharam comigo. Ou me deram uma revelação falsa ou então esconderam alguma coisa. Confesso que comecei mesmo a suspeitar que me tivessem enganado. Contudo, enquanto ainda procurava decifrar a questão e quase ficava louco de preocupação, um bondoso deus, cujo nome não sei, explicou-me o caso em um sonho (…)”. (159)

Calculo que o psicoterapista moderno com frequência experimenta a mesma dificuldade inicial para manter a fé de seu paciente. Precisa constantemente voltar a insistir em suas ideias originais sobre a doença até que, por fim, o paciente sonhe gentilmente o que deve sonhar — sendo isso apresentado como prova positiva de que o diagnóstico é sólido.

Os gregos antigos também usavam dança religiosa como tratamento de doenças nervosas. Seus ritos coribânticos consistiam em dançar de maneira desenfreada ao som de flautas e tambores até os participantes ficarem esgotados. Os coribantes não apenas provocavam transes e sentimentos de possessão divina, mas também se diziam capazes de curá-los. Aristóteles observou posteriormente que, antes de ser possível expulsar as afecções mórbidas, estas precisavam primeiro ser artificialmente estimuladas; o mesmo, calculo eu novamente, que se descobriu com a abreação por drogas na última guerra.

Os jovens gregos que se tornavam iniciados nos Mistérios — fossem eleusianos, samotrácios, corintios ou mitraicos — submetiam-se a um tipo mais formal de doutrinação religiosa que os visitantes dos oráculos. O que acontecia nessas ocasiões secretas infelizmente só pode ser descoberto em seus contornos gerais por ocasionais insinuações e indiscrições de iniciados — principalmente aqueles que depois se converteram ao Cristianismo — mas aqui está um breve resumo do que acontecia nos Mistérios Eleusianos, baseado em autoridades dignas de confiança, entre as quais J. E. Harrison, em “Prolegomena to the Study of Greek Religion” (160) e Victor Magnion, em “Les Mystères d’Eleusis” (161).

Os Mistérios Menores, consagrados a Persefone e Dionísio, realizavam-se na primavera e eram uma preparação para os Maiores. O estado e os antecedentes do candidato tinham de ser cuidadosamente examinados pelos sacerdotes, dos quais ele não podia esperar mais que frio desprezo. Primeiro o faziam entregar simbolicamente sua fortuna ao templo e depois passar por uma prolongada provação de abstinência e silêncio. Finalmente, tomava uma bebida soporífera e ia dormir em uma cabana feita de ramos de árvore, sobre uma cama de folhas e flores. Era despertado por música suave e, depois de colher uma fruta da Árvore da Vida e fazer uma escolha formal entre um caminho certo e outro errado, era instruído em doutrina filosófica secreta, purificada por fogo e água, e por fim admitido ao coro sagrado.

Possuía então a senha para admissão, em data muito posterior aos Mistérios Maiores (e mais antigos) consagrados a Demétrio, para o que se submetia voluntariamente a provação muito mais severa. Abstinha-se de carne, alho, feijão, caranguejos, ovos e certas espécies de peixe; mantinha-se sexualmente casto; guardava completo silêncio; só bebia água sagrada; banhava-se no mar; tomava purgantes. A cerimônia seguinte de iniciação representaria morte e renascimento. Ao ser admitido no templo, era despojado de todas as suas roupas e depois comparecia perante um juiz, que o condenava à morte. Tendo sido formalmente realizada a execução, um mistagogo levava-o por uma rampa até uma gruta escura que representava o Submundo, onde ouvia os gritos dos réprobos e conhecia fantasmas horríveis, entre os quais bestas selvagens, serpentes e lascivas Empusas. Mãos invisíveis lambuzavam-no de sujeira e ele não podia fugir porque as Fúrias com açoites de bronze ameaçavam-no por trás. Em seguida, recebia instrução para banhar-se em um tanque e lavar-se bem, antes de comparecer perante outro tribunal.

Sendo sentenciado a castigo, era golpeado na cabeça, agarrado pelos cabelos, jogado para baixo e espancado violentamente por demônios; mas não ousava defender-se. Quando parecia suficientemente humilhado de espírito, o mistagogo fazia reflexões morais sobre esses sofrimentos e dava-lhe um gole da água de Lete para que esquecesse o passado. Em seguida, aparentemente, entrava em um círculo mágico e ficava girando tediosamente, até conseguir escapar — mas só por meio de um ritual de renascimento da própria Deusa — e recebia um novo nome. Subia em um lugar brilhante e deleitável, vestia roupas limpas, tomava leite e mel, e juntava-se ao grupo dos iluminados. Finalmente, assistia ao clímax dos Mistérios — um casamento assexual sagrado no escuro entre ele próprio e o principal hierofante e a sacerdotiza de Demétrio; observava uma espiga de cereal ser colhida em silêncio; e ouvia ser anunciado o nascimento da criança sagrada.

O professor George Thomson observa que “vários, escritores gregos descrevem com pormenores os efeitos emocionais da iniciação mística e a uniformidade dos sintomas mostra que eram reconhecidos como normais. Consistiam em calafrio, tremor, suor, confusão mental, aflição, consternação e alegria misturados com alarma e agitação”. (162)

Em Lobadeia, porém, os ritos locais de Demétrio haviam sido assumidos pelos sacerdotes oraculares de Trofônio e, não sendo os visitantes obrigados a jurar segredo absoluto, como em Eleuses, Corinto e outros lugares, sobrevivem dois ou três relatos pormenorizados dos processos. Pelo relato de Pausânias, que escreveu por volta de 174 depois de Cristo e que visitara pessoalmente o Oráculo de Trofônio, vê-se como o mistagogo perturbava cuidadosamente a atividade cerebral dos iniciados antes de tentar doutriná-los. O relato de Pausânias diz o seguinte: (163) O Oráculo de Trofônio é um abismo na terra, não um abismo natural, mas construído cuidadosamente com alvenaria. O formato é semelhante ao de uma vasilha de cozer pão.

“Não existe passagem levando até o fundo; mas quando um homem vai a Trofônio, trazem-lhe uma escada estreita e leve. Depois de descer, ele vê um buraco entre o chão e a alvenaria. Por isso, deita-se no chão de costas e segurando nas mãos bolos de cevada ligados com mel, enfia primeiro os pés no buraco e depois segue atrás esforçando-se por fazer os joelhos atravessarem o buraco. Depois de terem atravessado, o resto do corpo é imediatamente arrastado atrás deles e afundado, do mesmo modo como um homem pode ser apanhado e arrastado para o fundo pelo redemoinho de um rio potente e rápido”

Pausânias acrescenta que o método de esclarecimento variava de acordo com o visitante: “a alguns eram dados estímulos auditivos, a outros estímulos visuais, mas todos voltavam pela mesma abertura, com os pés para a frente. Dizem que nenhum daqueles que desceram morreu, exceto um dos guardas pessoais de Demétrio (…)”.

O tratamento posterior é também descrito: “Quando um homem sobe de Trofônio os sacerdotes tomam-no de novo pela mão e colocam-no no que é chamado de cadeia da Memória, que fica não muito distante do santuário; e, estando lá sentado, ele é interrogado por eles sobre o que viu e ouviu. Depois de serem informados, entregam-no a seus amigos, que o levam, ainda dominado pelo medo e absolutamente inconsciente de si mesmo e de seu ambiente, até os edifícios onde estava alojado antes, em preparação para esse acontecimento, isto é, a Casa da Boa Fortuna e do Bom Demônio. Em seguida, porém, ele terá todo o seu juízo como antes e a capacidade de rir voltará a ele. Não escrevo por ouvir dizer: eu próprio consultei Trofônio e vi outros que fizeram o mesmo”.

Podemos imaginar por este relato o agudo medo e excitação despertados na vítima quando é de repente “afundado, do mesmo modo que um homem pode ser apanhado e arrastado para o fundo pelo redemoinho de um rio potente e rápido”.

Plutarco (164) deixou um convincente relato do que acontecia dentro do abismo de Trofônio para ajudar a vítima a ficar mais vulnerável:

“Ele (Timarco) estando ansioso por saber — pois era um belo moço e um principiante em filosofia — o que poderia ser o Demônio de Sócrates, não comunicou senão a Cebes e a mim o seu intuito, desceu à caverna de Trofônio e executou todas as cerimônias que eram exigidas para obter um oráculo. Lá ficou duas noites e um dia, de modo que seus amigos desesperaram de vê-lo de volta e o lamentaram como perdido; mas na manhã seguinte ele saiu com um semblante alegre, e contou-nos muitas coisas maravilhosas que vira e ouvira. (…)”

“Assim que entrou, densa escuridão cercou-o; em seguida, após haver orado, ficou longo tempo deitado no chão, mas não estava certo se acordado ou em sonho, só imaginou que um forte golpe caiu sobre sua cabeça e que, através das suturas abertas de seu crânio, sua alma escapou para fora. (…)”

É difícil saber se os efeitos que ele nos descreve foram todos reais ou em parte alucinatórios.

“Olhando para cima não viu terra, mas certas ilhas brilhando com um fogo brando, que trocava de cores de acordo com a diferente variação da luz, inumeráveis e muito grandes, desiguais, mas todas redondas. (…) Quando olhou para baixo apareceu um vasto abismo. (…) De lá milhares de uivos e berros de animais, gritos de crianças, gemidos de homens e mulheres e toda espécie de ruídos terríveis chegavam a seus ouvidos; mas fracamente, como se fosse muito distante e atravessasse uma vasta cavidade; e isso o aterrorizou excessivamente.”

“Pouco depois, uma coisa invisível assim lhe falou: Timarco, que desejas compreender? E ele replicou: Tudo, pois que coisa existe que não seja maravilhosa e surpreendente?”

Vários parágrafos são então dedicados à doutrinação filosófica, recebida por Timarco quando era posto em conveniente estado mental de preparação para os métodos acima descritos. Por exemplo:

“Toda alma tem alguma porção de razão; um homem não pode ser homem sem isso; mas tanto de cada alma quanto está misturado com carne e apetite é mudado e através de sofrimento ou prazer torna-se irracional.”

“Há quatro divisões de todas as coisas; a primeira é de vida; a segunda de movimento; a terceira de geração; e a quarta de corrupção. A primeira é ligada à segunda por uma unidade, na substância visível; a segunda à terceira pela compreensão, no Sol; e a terceira à quarta pela natureza, na Lua. (…)”

Essas quatro divisões sugerem que os sacerdotes pertenciam à disciplina órfica. E novamente: “A parte mais pura da alma não é puxada para dentro do corpo, mas nada acima e toca a parte mais extrema da cabeça do homem; é como uma corda para sustentar e dirigir a parte baixada da alma, enquanto ela se mostra obediente e não é vencida pelos apetites da carne”.

Essas revelações pareciam de crucial importância para o ouvinte, no confuso estado mental produzido em parte por ter sido golpeado na cabeça; mas fazem-me lembrar algumas das teorias sobre egos, ids, mitos arquetípicos e sonhos pré-natais dianéticos dados em tratamento por várias escolas de psicoterapia doutrinária moderna.

Plutarco prossegue: “A voz não continuando mais, Timarco (segundo disse ele) virou-se para descobrir quem falava; mas uma violenta dor, como se seu crânio tivesse sido prensado, tomou sua cabeça, de modo que ele perdeu todo sentido e compreensão; mas recuperando-se em pouco tempo, encontrou-se na entrada da caverna, onde se deitara inicialmente”.

Este relato confirma a declaração de Pausânias de que quem decidia aproximar-se do Oráculo de Trofônio tinha antes de tudo de hospedar-se por determinado número de dias em um edifício consagrado ao Bom Demônio e à Boa Fortuna. Durante sua estada ali, devia observar certas regras de pureza e particularmente abster-se de banhos quentes, presumivelmente porque aliviariam a tensão. Chegava ao oráculo vestido com uma túnica de linho, cingido por fitas e calçado com as botas do país. Antes de descer ao oráculo, falava com os sacerdotes e depois de sua volta faziam-no escrever o que vira ou ouvira, sem dúvida para ajudar sua mais firme implantação.

Parece que essa técnica tinha muitas vezes efeitos duradouros sobre o estado mental da pessoa a ela submetida, pois vários escritores citam um provérbio grego que diz: “Ele deve ter vindo do Oráculo de Trofônio”. Aplicava-se isso a qualquer pessoa que parecesse particularmente grave ou solene e significava que o susto dado ao visitante o tornara incapaz de voltar a rir. O tratamento posterior na Casa da Boa Fortuna e do Bom Demônio talvez se destinasse a desmentir esse provérbio.

Outro provérbio grego adotado pelos romanos aplicava-se a quem falasse ou agisse de maneira tão estranha a ponto de tornar-se suspeito de perturbação mental: “Ele devia visitar Anticira!” — sendo este geralmente reconhecido como o lugar mais promissor do mundo para tratamento. Anticira, pequena cidade da Focida construída sobre um istmo rochoso, de três milhas de circunferência, que avança pelo golfo de Corinto, perto do monte Parnasso, tinha originariamente o nome de Cyparissos. Estefânio de Bizâncio, o lexicógrafo, relata (sob o título de Anticira) que Hércules lá foi tratado de mania homicida, o que sugere que o estabelecimento de tratamento era muito antigo. Não sobrevive relato autobiográfico do tratamento aplicado; contudo, pode-se tirar deduções de várias fontes. A Focida em geral pertencia a Apolo, Deus da Medicina, mas a irmã gêmea deste, Artemis, que também tinha poderes curativos e era considerada especialista em drogas perigosas, possuía o único templo importante em Anticira, onde figurava nas moedas da cidade com tocha e cão de caça. (Ela era chamada “Dictynnaean Artemis”, o que estabelece a ligação cretense.) A tocha e sua famosa e venerável imagem negra mostram que ela era uma Deusa da Terra com filiação no Mundo dos Mortos e, portanto, padroeira adequada do centro curativo. O templo ficava embaixo de um penhasco em uma ilha a certa distância da cidade.

A razão dada por Estrabo (165) para a fama da Anticira é que ambas as variedades do específico soberano contra a insanidade, isto é, o heléboro, lá cresciam particularmente bem e eram misturadas pelos farmacêuticos locais com outro arbusto local incomum, chamado sesamoideo, que tornava sua ação mais segura e mais eficaz. Todavia, essa não pode ser toda a verdade, pois a menos que houvesse psicoterapeutas em serviço, incapazes de deixar aquela cidade, não teria sido necessário a um senador romano pedir licença especial ao imperador Calígula para completar seu tratamento lá: (166) ele poderia ter levado para Roma medicamentos e médicos, e Anticira era um lugar desolado, árido e deprimente onde ninguém permanecia sem ser obrigado. Como “heléboro” significa “o alimento de Hele” (outra deusa do mesmo tipo da Dictynnaean Artemis) e como um famoso amuleto de ouro chamado heléboro, contendo flores de heléboro, só era usado por mulheres, parece provável que as sacerdotisas de Artemis fossem as psicoterapistas locais. De acordo com Dioscórides (167) ambas as variedades de heléboro, a branca e a preta, cresciam muito bem em Anticira. Embora o heléboro “branco” seja muito semelhante ao preto exceto quanto à cor da raiz, Dioscórides, Pausânias (168) e Plínio (169) concordam em que o branco era um vomitório e o preto (também chamado “melampodium”, em homenagem ao herói Melampus que curou as três filhas de Proteu homicidamente insanas) era um forte purgante. Plínio diz que o heléboro preto inspirava imenso temor religioso, mais mesmo que o branco, e era colhido com cuidadosa cerimônia. Os sesamoideos, que os farmacêuticos de Anticira misturavam com o heléboro branco, também atuava como forte purgativo. Contudo, não eram apenas os poderes debilitantes dos heléboros branco e preto, e dos sesamoideos — tomados em jejum, em caldo de feijão, e depois da aplicação de outros eméticos — os responsáveis pela cura. Plínio relata que os dois heléboros eram narcóticos. O tratamento evidentemente incluía uma forma de abreação por droga, combinada com forte sugestão. O temor inspirado pelo lugar sombrio e a droga venenosa com seus “sintomas alarmantes” (170) seria aumentado pela debilitação — até mesmo vinho era proibido — e na “sonolência inatural” que sobrevinha depois de tomar heléboro, as sacerdotisas sem dúvida usavam o ritual do Mundo dos Mortos para ajudar a dissipar os sintomas do paciente. As semelhanças com alguns métodos modernos são evidentes.

Dioscórides, Plínio e Pausânias afirmam que lá foram curados delírio, insanidade, paralisia e melancolia (entre outras doenças), mas o tratamento era tão rigoroso que nenhuma mulher, criança ou homem medroso era aconselhado a submeter-se a ele. É sabido que em casos obstinados a cura era prolongada; o senador que pediu permissão para permanecer em Anticira lá ficou por algum tempo. Calígula mandou-lhe uma espada com ordem para suicidar-se, dizendo: “Se você vem tomando heléboro há tanto tempo sem êxito, é melhor experimentar o tratamento de sangria”.

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Capítulo IX

A Obtenção de Confissões

Quase os mesmos métodos básicos de obter confissões são atualmente empregados pela polícia em muitas partes do mundo; mas a técnica russa comunista sob Stalin parece ter sido a mais eficiente. Foi herdada de forma grosseira da polícia czarista, e, quer os czaristas a tenham copiado dos inquisidores católicos, quer tenha medrado espontaneamente na Rússia, dada a semelhança entre a intolerância religiosa e a política, é assunto histórico delicado. Seja como for, se o estudo do “revivalismo” protestante lança a mais intensa luz sobre o processo de inspirar culpa coletiva, é para a história da Inquisição Católica que se deve voltar em busca de informações sobre as técnicas de arrancar confissões aos que divergem. É possível que os comunistas russos tenham simplesmente usado pesquisas fisiológicas para aprimorar técnicas já estabelecidas.

Para arrancar confissões, deve-se procurar provocar sentimentos de ansiedade e culpa, bem como estados de conflito mental, se ainda não estiverem presentes. Mesmo que a pessoa acusada seja realmente culpada, o funcionamento normal de seu cérebro deve ser de tal forma perturbado que a sua capacidade de julgar fique prejudicada. Se possível, deve-se fazê-la sentir predileção pelo castigo (especialmente se em combinação com uma esperança de salvação quando tudo terminar) de preferência à continuação da tensão mental já existente ou provocada agora pelo inquiridor. Sempre que pessoas culpadas fizerem confissões “voluntárias” à polícia contra os seus maiores interesses, incorrendo assim em sentenças de prisão ou de morte, e ficar evidente que não se empregou a violência física, é interessante averiguar se não foram usados um ou mais dos quatro métodos fisiológicos, também descobertos por Pavlov, para se conseguir quebrar a resistência de animais.

Pode-se formular as seguintes perguntas:

1 — Os inquiridores policiais provocaram deliberadamente ansiedade? Aumentaram o poder de qualquer estímulo excitante aplicado ao cérebro?

2 — Prolongaram a tensão até o ponto de o cérebro tornar-se exausto e extremamente inibido? Em tal caso, uma inibição protetora, que começou a tornar-se excessiva, poderia causar a perturbação temporária do juízo normal, aumentando grandemente a sugestionabilidade.

3 — Bombardeou-se o cérebro do suspeito com tal variedade de estimulantes, recorrendo os inquiridores a atitudes e perguntas tão variadas, que ele se perturbou, culpando-se, talvez falsamente?

4 — Aplicaram-se meios capazes de provocar adicional debilitação física e exaustão mental, que finalmente causaram o colapso da função e da resistência normais do cérebro, mesmo quando (1), (2) e (3) usados isoladamente deixaram de produzir qualquer efeito?

Uma vez começado o colapso sob o interrogatório, o cérebro normal pode revelar mudanças semelhantes às obtidas na excitação de grupos, porquanto tanto os métodos de grupo como os individuais de excitar e exaurir o cérebro tendem a alcançar os mesmos efeitos básicos finais sobre a função. Ou há um aumento na sugestionabilidade, que permitiria ao inquiridor policial convencer mesmo um inocente de sua culpa, ou as fases paradoxais e ultraparadoxais da atividade cortical podem sobrevir e fazê-lo mudar completamente suas primitivas convicções e normas de comportamento, levando-o a sentir o desejo de fazer confissões opostas à na natureza e juízo normais.

Em algumas fases da inquirição sob pressão, prisioneiros há que podem sentir aproximar-se o desejo de confessar e, em seguida, recuam. Em tal fase, observarão que as coisas “se vão tornando muito estranhas”; entre um minuto e o seguinte podem manter atitudes e opiniões completamente diferentes, em virtude de serem estimuladas as flutuações da função cerebral. Mais cedo ou mais tarde, contudo, é provável que prevaleça a nova atitude e, então, confessarão. Fazem-se assim todas as tentativas para se manter a mudança e evitar o regresso a modos de pensar anteriores, quando se afrouxar a pressão emocional.

Não deve haver mistério a respeito dos pormenores dessas técnicas policiais. São do domínio público. “Conspiracy of Silence” (171), de Alexandre Weissberg, deveria ser um livro didático para adultos em todos os países livres, a fim de ensinar-nos o que pode acontecer a homens de espírito independente numa ditadura e, também, em menor grau, mesmo em democracias que não se mantenham permanentemente alerta para preservar os seus direitos civis. Weissberg, comunista alemão, sobreviveu ao expurgo stalinista que se verificou na Rússia pouco antes da Segunda Guerra Mundial e que condenou milhões de pessoas à execução ou a longos períodos de trabalho forçado. Após passar três anos em prisões russas, onde foi forçado a assinar confissões que mais tarde repudiou, Weissberg foi repatriado para a Alemanha graças ao Tratado Russo-Germânico de 1939. O relato de suas experiências é pormenorizado e, lido em confronto com trabalhos autobiográficos semelhantes de outras fontes, merece o selo da autenticidade.

O livro “Invitation to Moscow” (172), de Stypulkowski, relata como ele logrou fugir a uma confissão apesar de mais de cento e trinta períodos de interrogatório, alguns dos quais duraram muitas horas; contudo, sua confissão era necessária com urgência, pois encenava-se rapidamente, para fins de propaganda, um julgamento polonês e os inquiridores tiveram de desistir antes que fosse alcançado o necessário grau de exaustão. Absolvido Stypulkowski, recambiaram-no para a Polônia, donde, logo após, fugiu para a Europa Ocidental, onde escreveu o livro. (173) A autobiografia de Koestler expõe as técnicas de lavagem cerebral que lhe foram descritas por amigos comunistas com especiais fontes de informação. Também a novela de Orwell, “Nineteen-Eighty-Four” (174), escrita em 1949, parece basear-se em narrativas reais que se filtraram da Europa Oriental para a Ocidental. Realmente, os mesmos métodos parecem ter sido empregados nos Estados satélites russos — Bulgária, România, Polônia e Hungria. Já nos referimos à exposição do Ministério da Defesa sobre os métodos usados pelos chineses com prisioneiros de guerra britânicos na Coreia. Também o governo dos Estados Unidos publicou, há pouco, o seu relatório. Ainda mais recentemente, Krushchev (175) em sua acusação a Stalin, deu mais algumas informações gerais sobre os meios de arrancar confissões empregados durante o regime de Stalin. Posteriormente, os drs. L. E. Hinkle e H. G. Wolff publicaram um relato completo e pormenorizado dos métodos usados na Rússia e na China, valendo-se de informações que colheram e analisaram quando trabalharam como consultores do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. (176)

Uma vez que sejam convenientemente compreendidos os princípios básicos, tornam-se mais compreensíveis muitas variações locais de técnica, e as pessoas que tenham a desventura de se tornar vítimas da inquirição policial em muitos países poderão ter útil compreensão dos métodos legalmente empregados contra elas e saberão como melhor escapar à fase final do processo, em que o julgamento normal é solapado.

Admitindo-se que se exerça pressão justa, de maneira correta e durante bastante tempo, prisioneiros normais têm pouca probabilidade de protelar o colapso. Somente os excepcionais ou os doentes mentais é que têm probabilidade de resistir durante longos períodos. Pessoas normais, permitam-me repetir, portam-se naturalmente, apenas porque se deixam sensibilizar e influenciar pelo que se passa em torno delas. Os lunáticos é que são impermeáveis à sugestão. O dr. Roy Swank (ver Capítulo II) observou que, se fosse mantido bastante tempo na frente de batalha, sem nenhuma interrupção, todo o pessoal combatente dos Estados Unidos, exceto alguns dos insanos, acabaria desfalecendo. Isso corresponde às nossas próprias observações durante a mesma guerra. No entanto, por ser mais persistente, um hábil interrogatório, numa prisão ou numa delegacia de polícia, pode provocar tensão nervosa ainda maior do que a provocada pelo interrogatório feito por sentinelas ou atiradores inimigos, numa pequena trincheira.

Reportando-nos aos verdadeiros métodos empregados atrás da Cortina de Ferro à época de Stalin: empregavam-se todos os esforços no sentido de produzir a ansiedade, inculcar a culpa, confundir a vítima, criar uma situação em que ela não soubesse o que ia acontecer-lhe de um minuto para o outro. Reduzia-se-lhe a dieta a fim de determinar a queda de peso e a debilitação, pois os estímulos fisiológicos, que podem falhar quando o peso do corpo está em seu nível normal de, diga-se, 140 libras, tendem a produzir rápido colapso quando o peso do corpo cai para cerca de 90 libras. Todos os esforços se faziam também para destruir os padrões de comportamento normal. Para começar, a vítima podia ser chamada em seu trabalho a fim de ser submetida a interrogatório na polícia e, em seguida, receber ordens para voltar ao serviço e comparecer a outro interrogatório poucos dias depois. Vários interrogatórios semelhantes podiam realizar-se antes de sua prisão.

Produz-se elemento imediato de ansiedade com a advertência de que é um ato criminoso dizer a alguém — amigos, parentes ou mesmo à esposa — que está sendo interrogado pela polícia. Sendo assim privada de todo conselho que pudesse naturalmente esperar de parentes e amigos, a pessoa sente redobrarem sua tensão e ansiedade. Se a tentação se tornar tão irresistível que ele consiga um confidente, expor-se-á de pronto a longo encarceramento pelo crime, ainda que não haja cometido nenhum outro. Outra ansiedade que o seu erro possa provocar, afligi-lo-á durante o interrogatório e poderá precipitar o colapso. Pode-se agravar a tensão por muitos outros modos, como deixando a pessoa ouvir os pelotões de fuzilamento em ação ou prendendo-a para um julgamento constantemente adiado.

O prisioneiro, a quem se diz: “Sabemos de tudo; será prudente confessar!” — fica perplexo, se realmente nada tem a confessar. Quando era inquirido antes de sua prisão, Weissberg relata: “Passei em revista os acontecimentos dos últimos dez anos em meu espírito. Analisei todas as pessoas com quem tivera contato pessoal ou com quem me correspondera. E, afinal, nada descobri que pudesse razoavelmente oferecer motivos para suspeita. (…) Subitamente, um incidente ocorrido em 1933, que havia muito se achava esquecido, veio-me à memória e lá se foi totalmente o restante de minha tranquilidade. Meus Deus! — conjeturei, deve ser isso!”(177)

Tratava-se de um pequeno incidente que nada tinha a ver com o pretenso crime de que ele era acusado; contudo, padeceu tormentos, perguntando a si próprio se o confessava ou não. As instruções que lhe deram antes de sua prisão mostram como se podem suscitar artificialmente culpa e ansiedade: “Vá para casa e volte depois de amanhã. Nesse ínterim, medite sobre toda a sua vida. Depois, volte aqui e me diga quando teve o primeiro contato com o inimigo e que ideias o levaram a passar-se para o seu lado. Se você espontaneamente confessar e nos provar que deseja ser novamente leal partidário do Soviete, faremos tudo que pudermos para ajudá-lo”.

A prisão geralmente se dá altas horas da noite, o que aumenta ainda mais o medo. Uma vez na cela, o prisioneiro fica virtualmente privado do contato com o mundo exterior, podendo decorrer até quinze dias antes que lhe façam leve insinuação sobre a acusação que pesa sobre sua pessoa. Estes são outros meios de prolongar-lhe a tensão, a fim de que, bem antes de começar o interrogatório, o pensamento principie a atraiçoá-lo. Ele terá estado a rebuscar no espírito todas as razões possíveis de sua prisão e talvez encontre todas as respostas, exceto a verdadeira. É possível mesmo que comece a crer em suas conjeturas, como se fossem fatos.

O preso comum na Rússia tinha certos direitos, ainda quando as coisas assumissem a maior gravidade. A violência física era supostamente proibida e, se ele julgasse que o interrogatório não se realizava honestamente, tinha o direito de apelar para uma autoridade superior ao seu inquiridor policial. Contudo. Khrushchev agora admite o que Weissberg relatara anteriormente, isto é, que, a partir de 1937, a “pressão física”, que chegava à tortura, fora empregada com certos presos políticos. “Assim Stalin sancionara em nome do Comitê Central do Partido Comunista de Toda a União Comunista (bolchevista) a violação mais brutal da legalidade socialista. (…)” o inquiridor russo era, como o seu fac-símile britânico, também oficialmente proibido de aceitar confissões que não julgasse verazes. Tal regra é de suma importância para uma compreensão exata de todo o processo, porquanto, como em outros países também, podem fazer-se confissões que, embora completamente inverídicas, vêm a ser acreditadas tanto pelo inquiridor como pelo preso. Isso se dá em virtude de o inquiridor, de início, insinuar ao preso que ele é culpado de um crime, procurando convencê-lo, se ele já estiver convencido, de que isso é real. Ainda que o prisioneiro seja inocente, a longa tensão a que fora submetido pode muito bem tê-lo levado, pelo terror, a um estado de sugestionabilidade. E, se se tratar de indivíduo indeciso, poderá então aceitar o ponto de vista do inquiridor, que é o de sua culpa. Se houver pressão na inquirição, é bem possível mesmo que ele comece, por assim dizer, a tocar um velho disco, confessando crimes insinuados pela polícia em interrogatórios anteriores. Esquecida a polícia de que as ocorrências eram primitivamente suas próprias conjeturas, engana-se: o preso confessa agora, “espontaneamente”, o que ela durante todo o tempo suspeitou. Comumente não se compreende que a fadiga e a ansiedade provocam a sugestionabilidade tanto no inquiridor como no preso (a tarefa de obter confissões é dificílima e penosa), que podem iludir-se reciprocamente, persuadindo-se ambos da autenticidade do crime confessado. Contudo, diz-se agora que, sob o novo regime, se operou na Rússia, em 1955, uma mudança nos regulamentos, de modo que a própria confissão de um preso já não é aceita como evidência de culpa. (178)

Segundo as leis da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, ninguém pode ser compelido a fazer declarações ou responder a perguntas que o incriminem. No entanto, todos os anos, inúmeras pessoas aflitas e às vezes temporariamente perturbadas, após serem cuidadosamente prevenidas de que tudo quanto confessarem pode ser considerado meios de prova, podem também ser levadas a confessar crimes graves e leves à polícia britânica, que é hoje, com certeza, a melhor e mais eficiente organização policial do mundo. Rigorosíssimo código do Regulamento dos Juizes tem de ser observado nas delegacias de polícia; não se podem fazer ameaças de violência, nem promessas, e, todavia, os jornais continuam a denunciar longas e pormenorizadas declarações de culpa, constantemente feitas e assinadas por tais pessoas e que muitas vezes revertem suas ações do pior aspecto. Posteriormente, podem serenar-se, voltar a um estado mais normal de atividade cerebral e pedem que se cancelem tais declarações. É então, sem dúvida, muito tarde. As experiências de Pavlov em animais podem concorrer para mostrar por que isso tão frequentemente acontece. Juizes, a polícia e médicos de prisão há muito que estão cientes da paradoxal conclusão de que, em alto grau, as mais completas e verdadeiras confissões podem ser feitas por uma pessoa suspeita “justamente depois” de ter sido formalmente acusada de assassínio ou outro crime grave. Pessoas suspeitas, quer tenham sido detidas logo após a perpetração do pretenso crime, quer somente após frequentes interrogatórios e longo período de incerteza, é provável que sejam levadas a um estado de alta ansiedade e emoção, quando formalmente acusadas, e tenham as faculdades cerebrais temporariamente prejudicadas. Este é o ponto exato em que há probabilidade de ocorrer um estado de intensa sugestionabilidade, ou a fase de reação paradoxal ou ultraparadoxal à fadiga. Ai, de fato, tais pessoas podem muito facilmente ser persuadidas a fazer declarações que não só aumentam suas probabilidades de condenação, mas ainda às vezes as incriminam injustamente. Assim, frequentemente o preso fica todo o período anterior ao julgamento e no decorrer dele procurando compreender como veio a assinar declaração “voluntária” tão prejudicial, feita à polícia, e esforçando-se, outrossim, por esclarecer-se e livrar-se de suas consequências.

Membros da polícia dos Estados Unidos não se sentem constrangidos em escrever compêndios práticos sobre a maneira de obter confissões policiais. Clarence D. Lee, por exemplo, em “Instrumental Detection of Deception” (179) explica o uso de detector de mentiras. O dr. Lee sabe que o aparelho pode, às vezes, ser muito pouco seguro e que não pode ser usado com confiança num tribunal (180) mas pode ser extraordinariamente eficiente para assustar os inexperientes e ignorantes, cujas confissões os comprometem: “O instrumento e a execução da prova exercem fortísmo efeito psicológico sobre o culpado, induzindo-o a confessar. A vista das agulhas, que oscilam a cada pulsação e a cada respiração, pode muito bem esfrangalhar-lhe o moral. Exibindo-se-lhe os resultados registrados, com breve explicação sobre o significado dos diferentes índices de falsidade, frequentemente se obtêm resultados imediatos. É também igualmente útil revelar-lhe as semelhanças entre as reações que acompanham a simples mentira numa prova de controle e as suas reações a perguntas relevantes na prova formal. (…) Como meio de obter confissões, qualquer procedimento desse tipo é admissível, depois que o inquiridor se convence da responsabilidade do acusado através dos métodos de prova prescritos”.

O Sr. Lee acrescenta que de sessenta a oitenta por cento dos que se revelam culpados na prova, finalmente confessam; mas que a percentagem de confissões obtidas depende da confiança do inquiridor em si próprio, do método empregado, de sua capacidade de persuasão, de sua perseverança e de sua atitude simpática para com o suspeito. Por um meio ou por outro, o inquiridor deve convencer o indiciado de que se acha convicto de sua culpa, visto que qualquer sinal de dúvida por parte do inquiridor pode prejudicar o seu objetivo.

Ainda que determinada prova seja negativa, o inquiridor pode fingir que a julga positiva a fim de propiciar uma confissão. O Sr. Lee também confirma o que observamos em tantos outros casos, especialmente que: “as pessoas mais suscetíveis de apelo às emoções são mais facilmente induzidas a confessar. Incluem-se neste grupo os assim chamados delinquentes acidentais, tais como: o transgressor que foge, os que matam no calor da paixão, os delinquentes juvenis e primários, bem como os criminosos sexuais — aqueles cujo instinto sexual se perverteu: os homossexuais, os estupradores, os que violentam e matam, os sádicos e masoquistas”.

Os que não são persuadidos a confessar com o detector de mentiras são os criminosos “profissionais” que provavelmente compreenderam pela experiência o perigo de cooperar em qualquer forma de interrogatório ou inquirição policial, recusando-se assim a responder a quaisquer perguntas. “Tal tipo de transgressor constitui o único problema realmente difícil no que se refere à obtenção de confissões”.

O conselho do sr. Lee a inquiridores que achem difícil, em certos casos, arrancar confissões é que, logo que se provoque a ansiedade (e a sugestionabilidade talvez se ache elevada), “o inquiridor não deve perder tempo em recorrer à sua melhor estratégia antes que o suspeito se recupere do trauma mental resultante da prova. O inquiridor possui todas as vantagens psicológicas, ao passo que o suspeito fica indefeso”. Dão-se interessantes pormenores das técnicas empregadas: “Onde se recomenda uma aproximação simpática, é bom atuar sobre a autojustificação das más ações praticadas pelo delinquente, que geralmente lhe paira no espírito. Sugerir que houve forte razão para ele cometer o crime, que ele possui muita inteligência para tê-lo praticado sem que houvesse motivo. No caso de crimes sexuais, explicar que a fome sexual é um dos mais fortes instintos que motivam nossas vidas. No caso de roubo, insinuar que o acusado poderia achar-se faminto ou privado das coisas indispensáveis à vida; ou, quando se trate de homicídio, que a vítima lhe fizera grande mal e provavelmente merecia o que lhe aconteceu. Mostre-se amistoso e simpático, e anime-o a escrever ou relatar toda a história — para se purificar e iniciar nova vida”.

O sr. Lee considera tais métodos éticos e imprescindíveis para a proteção do cidadão sob o amparo da lei num país tão flagelado pelo crime como os Estados Unidos. Ele frisa que: “Antes que se possa impor o castigo, os acusados devem ser condenados em processos legais adequados, e um dos meios mais eficazes de obter condenação é a confissão dos acusados”.

As pessoas interessadas em comparar reconhecidos métodos ocidentais de obter confissões com os que têm sido usados atrás da Cortina de Ferro encontrarão uma bibliografia no livro altamente elucidativo do Sr. Lee. O referido autor cita exposição muitíssimo esclarecedora de um antigo delegado de polícia do Departamento Policial de Nova York, publicada na “Police Magazine”, em 1925:

“O meu método usual é registrar a declaração do prisioneiro, logo que ele chegue, tal qual deseje fazê-la. No dia imediato, quando já houvermos colhido informações adicionais, interrogamo-lo de novo, formulando nossas perguntas à luz de tais informações. Então, analisaremos as discrepâncias entre o primeiro depoimento e o segundo. Depois o interrogaremos, no dia seguinte, e novamente analisaremos as divergências, apertando mais a rede em torno dele, se os fatos coligidos revelarem com mais segurança a sua responsabilidade. Fazemo-lo falar muitas vezes, dia após dia; e, finalmente, se ele for culpado ou tiver conhecimento culpável do crime, estará em condições de sofrer um colapso e relatar todo o caso.

No caso de um criminoso polido, ladino, bem educado, capaz de apresentar respostas corteses a quase todas as perguntas, insistimos com ele até descobrir esse ponto fraco. Sua primeira história, ele conta fluentemente. De fato, é sempre fluente. No entanto, a discrepância começa a aparecer cada vez mais claramente. Basta apertá-lo de novo que ele fraquejará. Sem dúvida, caso esteja dizendo a verdade, contará a mesma história sempre; mas, se estiver mentindo, falseará uma vez ou outra. O mentiroso não pode lembrar-se de tudo. Está sujeito a esquecer alguma coisa do que disse antes.

Jamais houve coisa semelhante ao terceiro grau. Facilmente se coloca um homem num ângulo mental, contanto que ele seja realmente culpado, e, então, ele vergará todas as vezes, se se conseguir meter uma cunha como impulso. É bem difícil obter confissões, salvo se se tiver uma pequena pista com que dar início ao interrogatório. Mas desde que se descubra aquele ponto fraco, as discrepâncias na história do indivíduo começam a aumentar até que ele, finalmente, se torna tão confuso e estonteado que percebe achar-se encerrado o jogo. Todas as suas defesas se esboroam. Ele fica encurralado e imobilizado. Ai, então, é que se debulha em lágrimas. A tortura lhe vem do próprio espírito, não de fora.” (181)

A única coisa a acrescentar é que em tal técnica é sabido que a verdade e a falsidade podem irremediavelmente confundir-se, tanto no espírito do acusado como no do inquiridor, e que, se aquilo a que ele chama “ponto fraco” não está presente, o inquiridor policial empenhado em obter uma confissão pode criá-la por sugestão.

A obtenção do que mais tarde se apura serem falsas confissões, tidas como genuínas tanto pelos inquiridores como pelos acusados, relembra fenômeno idêntico no consultório de um psicoterapeuta, quando, por exemplo, ele começa a crer e a fazer o paciente crer que certos traumas da infância causaram os seus sintomas. Após horas de reflexo e ansiedade, no divã e fora dele, em que se revivem primitivos temores e sentimentos de culpa relacionados com o sexo, o paciente pode dar explicações detalhadas e complicadas sobre danos emocionais sofridos por ele numa ou noutra ocasião. Se o terapeuta for daqueles que creem em traumas de nascimento e fizer perguntas a respeito, é possível que o paciente comece mesmo a lembrar e a reviver isso com pormenores.(182) O terapeuta pode então convencer-se de que é correta sua teoria sobre o trauma de nascimento; todavia, o que provavelmente ocorreu é o que pode também ocorrer em interrogatórios policiais: o paciente simplesmente devolveu, de boa-fé, o que lhe foi inicialmente insinuado ou sugerido. Contudo, tanto o paciente como o médico podem verdadeiramente vir a crer em tais fatos, empregando tais métodos de investigação. Devemos ainda lembrar-nos de que todas as atuais teorias freudianas sobre a satisfação sexual do subconsciente humano somente foram estabelecidas pelo emprego de métodos semelhantes. Falsidades podem vir a ser criadas com novas e importantes verdades.

Nas fases iniciais de seu trabalho, Freud concluiu que quase todas as mulheres histéricas que o procuravam para tratamento lhe contavam uma história de interferência sexual, muitas vezes de natureza pervertida ou de incesto, envolvendo os próprios pais. Isso se dava quase certamente porque se achava tão interessado em tal linha de pesquisa que, inconscientemente, inculcava as ideias nos espíritos dos pacientes, que lhas devolviam depois. As tensões emocionais do tratamento tornavam-no e aos seus pacientes reciprocamente sugestionáveis.

Ernest Jones, em seu recente livro sobre Freud (183), diz a respeito desse interessantíssimo episódio: “Até a primavera de 1897, ele (Freud) ainda mantinha firmemente a sua convicção da realidade desses traumas da infância. (…) Naquela época dúvidas começaram a surgir. (…) Depois, subitamente, resolveu confiar-lhe (a Fleis) (…) a terrível verdade de que a maioria — não todas das seduções na infância, que seus pacientes revelaram e a respeito das quais ele estabelecera toda a sua teoria sobre o histerismo, jamais ocorrera”.

O próprio Freud escreveu: “(…) o resultado a princípio foi desesperançada perplexidade. A análise reconduzira, por caminhos seguros, a esses traumas sexuais, que, todavia, não eram verdadeiros. A realidade sumira de sob os pés. Naquela época eu teria alegremente renunciado a toda a coisa (psicanálise). (…) Talvez tenha persistido simplesmente porque não tinha escolha e não podia então reiniciar-me em outra coisa”. (184)

O perigo do terapeuta e do paciente serem submetidos a “lavagem cerebral” vê-se no livro de Ernest Jones, em que ele diz: “A paixão de Freud por chegar à verdade com o máximo de certeza foi, torno a dizê-lo, o motivo mais profundo e mais forte de sua natureza”. Todavia, Jones observara: “Com referência a um paciente que ele (Freud) tratava antes da guerra e cuja vida eu conhecia muito intimamente, descobri vezes e vezes em que ele acreditava em relatos (durante a psicanálise) que eu sabia serem realmente falsos e também, casualmente, em que recusava dar crédito a coisas que eram realmente verdadeiras. Joan Riviere (também) mencionou um exemplo extraordinário dessa combinação de credulidade e persistência”.

Mesmo o mais consciencioso inquiridor policial está sujeito a cometer os mesmos enganos que o igualmente consciencioso Freud; e, nos expurgos russos, onde a tensão emocional deve ter-se elevado muito mais do que geralmente ocorre na atmosfera de uma delegacia policial inglesa, ou num divã psicoterapêutico, o inquiridor e o preso devem muitas vezes ter criado entre si sistemas ilusórios perfeitos. Pois o prisioneiro pode achar-se completamente inocente, mas o inquiridor policial é obrigado a continuar o interrogatório até arrancar-lhe a verdade, o que significa que ele próprio deve vir a crer no que foi confessado.

O major A. Farrar-Hockley dá uma descrição precisa das técnicas por meio das quais se podem inculcar ideias sem o emprego de sugestão forte, direta e clara. (185) Aprendeu-o como resultado de suas experiências quando prisioneiro britânico de guerra na Coreia. Obviamente, aplicam-se os mesmos princípios em algumas práticas psicoterapêuticas e em interrogatórios policiais nos quais se evita também forte sugestão direta: “Os chineses são velhos mestres nessa técnica. Não me diziam o que realmente queriam. Sempre que nos aproximávamos de algo substancial, eles imediatamente o atacavam de outro ângulo, e fazíamos a volta toda, sem que eu jamais descobrisse o que era. E, então, iam-se embora, deixando-me a pensar. Acredito que, se o inquiridor insistisse durante muito tempo com alguém em estado de grande debilidade e, então, lhe atirasse subitamente a ideia, o indivíduo a apanharia e ficaria dominado por ela. Ele começaria a dizer: Ora, por Deus, quisera saber se de fato é tudo verdade, eis o que pensava desde o princípio. Todas as vezes que eles partiam, eu passava horas a dizer: Foi assim mesmo? Não, não podia ter sido assim. Será que foi assim e assim? E isso é o que eles procuravam fazer. Esforçavam-se por deixar-me num estado em que a ideia inesperadamente amadurecesse e eu começasse a querer saber se quem havia pensado nisso fora eu ou eles”.

Quanto aos meios de se levar alguém ao ponto de confessar espontaneamente algum crime imaginário, diz ele: “Agora, outro método é sugerir gradualmente algo, falando-se a respeito do assunto, aproximando-se dele cada vez mais e simplesmente dando-se um fragmento, de modo que criemos a ideia em nosso próprio espírito e, finalmente, digamos alguma coisa; isto pressupõe que nos achamos num estado de espírito bastante fraco, o que não se passava comigo na ocasião, pelo menos no meu entender. E, depois, a gente diz algo e eles afirmam: Mas você disse isto, você revelou isto; não fomos nós. E, após algum tempo, a gente começa a dizer: Meus Deus, realmente o disse? Donde o tirei?”

Aqui a semelhança entre a lavagem cerebral moderna e alguns métodos modernos de psicoterapia é evidente.

Dos muitos milhares de supostas feiticeiras queimadas na Europa, apenas uma pequena proporção parece realmente ter participado do culto; no entanto, isso não impediu que as restantes fizessem as confissões mais pormenorizadas de infanticídios, sortilégios e outras práticas abomináveis. “Malleus Maleficarum” (186), publicado pela primeira vez no século XV e que tanto juízes católicos como protestantes que presidiam a julgamentos de feiticeiras usavam como guia, descreve crenças contemporâneas a respeito do poder da bruxaria e estabelece o melhor meio de arrancar confissões. “De Praestigiis Daemonum”, publicado em 1583 e que é um protesto de Johann Wier contra os julgamentos de feiticeiras, provocou a fúria do clero. No entanto, não impediu muitos outros milhares de mortes injustas por fogo ou enforcamento, após julgamentos dirigidos pelos mais conscienciosos e honestos inquiridores. Dizem que só no Império Britânico quase 4.000 supostas feiticeiras foram enforcadas. (187)

Em “Essay on Witchcraft” (188), de Hutchinson, publicado no século XVIII, faz-se referência a Matthew Hopkins, investigador oficial de feiticeiras dos Condados Orientais associados, no período de 1644 a 1646. Ele fez enforcar nada menos de sessenta supostas feiticeiras em seu próprio Condado de Essex, em doze meses, e considerava-se autoridade em “sinais especiais” — protuberâncias, manchas escorbúticas, verrugas — que ele julgava mamilos suplementares usados por mulheres idosas para amamentar a prole. Alguns clérigos corajosos protestaram contra os caçadores de bruxas, entre os quais Gaul, reitor de Soughton, em Huntingdonshire.

Gaul (189), num panfleto de protesto, relacionou os doze sinais usuais de feitiçaria, “dos quais muitíssimo se utilizava na época”. Escreveu o seguinte: “A todos estes não posso senão acrescentar um com minúcias, de que tive conhecimento ultimamente, em parte em conversa com um dos caçadores de feiticeiras (como são chamados); em parte, pela confissão (que ouvi) de uma suposta feiticeira, que fora presa e assim tratada, como disse; e, em parte, pela conversa de camponeses. Apanhando a suposta feiticeira, colocam-na no centro de uma sala, sobre um banco ou uma mesa, com as pernas cruzadas ou em outra posição incômoda, em que será amarrada, caso não se submeta. Lá é vigiada e mantida sem se alimentar nem dormir durante 24 horas. (Pois dizem que dentro desse tempo verão sua prole vir mamar.) Fazem também um orifício na porta a fim de que a prole entre. E, com medo que assuma forma menos reconhecível, as pessoas incumbidas da vigilância são instruídas para varrer a sala frequentemente, e, se virem aranhas ou moscas, para matá-las. E, caso não consigam matá-las, então poderão ter a certeza de que são sua prole”.

Hutchinson comenta:

“Era absolutamente necessário que esses caçadores de feiticeiras somente fossem a cidades onde pudessem cumprir a sua missão sem serem controlados por opositores. Entretanto, se os tempos fossem outros, teriam encontrado poucas cidades onde lhes fosse permitido pôr em prática a prova do banco, tão cruel como as maiores torturas. Imagine só uma pobre anciã, portadora de todas as enfermidades e fraquezas próprias da velhice, colocada como idiota no centro de uma sala e tendo a populaça de dez cidades a rodear-lhe a casa; depois, as pernas amarradas transversalmente de modo que todo o peso do corpo incidisse sobre o assento. Por esse meio, após algumas horas, a circulação do sangue paralisar-se-ia bastante e o seu assento ficaria tão martirizador como o cavalo de madeira. E assim teria de continuar a sofrer durante vinte e quatro horas, sem repouso nem alimentos. Sendo este o perverso modo de prova, não era de admirar que, ao se acharem cansadas da vida, confessassem quaisquer histórias que lhes agradassem, cujo significado muitas vezes desconheciam. Com referência a uma prova em que as confissões arrancadas não passavam de meros sonhos e invenções tendente a livrá-las de torturas, aduzirei alguns pormenores por elas confessados.

Elizabeth Clark, velha indigente, que tinha apenas uma perna, era acusada de ter um filho chamado Vinegar Tom; outro, chamado Sack and Sugar, e outro por quem ela lutaria até o sangue subir-lhe aos joelhos. Acrescentou que o demônio ia ter com ela, como se fora homem, e era tão parecido com homem que ela se via obrigada a levantar-se e deixá-lo entrar, quando batia à porta, e que ela o sentia quente. Ellen Clark alimentava a sua cria. Hagtree nutria sua cria com mingau de aveia durante um ano e meio e depois a perdeu. A cria de Susan Cock atormentava carneiros; a de Joyce Boan matava cordeiros e as de Ann West mamavam umas nas outras.”

Weissberg (190) escreve que, quando lhe fazem perguntas sobre as milhões de confissões arrancadas durante os grandes expurgos russos e em que ele esteve envolvido, aponta a mania de caça às bruxas na Europa. Convenceu-se de que houve muita fumaça provocada por pouco fogo em ambas as ocasiões.

Até na Grã-Bretanha, apesar da reconhecida integridade da polícia britânica, falsas confissões são às vezes arrancadas de modo completamente inexplicável, especialmente quando se procura reunir provas que possam levar um suspeito a ser processado, julgado por assassínio e, a seguir, enforcado. Exemplo bom e recente disso quase certamente ocorreu no caso de Timothy Evans. O seu julgamento destina-se a tornar-se um clássico médico-legal, em virtude de implicar o enforcamento de provável inocente, pois uma terceira confissão e uma quarta, ambas falsas, que se lhe arrancaram, foram julgadas genuínas pela polícia. Evans foi julgado e enforcado por assassínio em 1950, depois que os corpos de sua esposa e de sua filha foram encontrados escondidos na casa em que a família alugava quartos em Londres.

Em 1953, outro ocupante de cômodos na mesma casa descobriu restos humanos escondidos atrás da parede. Uma busca policial posterior, na casa e no jardim, revelou restos dos corpos de seis mulheres, que foram assassinadas. Um homem chamado Cristie foi julgado e condenado por assassínio e confessou haver matado todas as seis. Christie fora amigo e co-inquilino da família Evans à época do assassínio da senhora Evans e de sua filha. Encontram-se informações para estudo desse caso em um Livro Branco publicado pelo Governo de sua Majestade (191) e num livro, “The Man on your Conscience” (192), bem como numa publicação especial do “Spectator”, escrita por Lord Altrincham e Ian Gilmour: “The Case of Thimoty Evans”. (193)

Evans era tão mentalmente atrasado e ignorante que não sabia ler nem escrever. Havia quarenta e oito horas que estava nas mãos da polícia, sem nenhuma ajuda legal, quando fez sua terceira e quarta confissões completas do assassínio de sua mulher e de sua filha, confissões que o levaram à forca. Antes, entregara-se à polícia e fizera duas confissões prévias de que se havia desembaraçado do corpo de sua mulher, mas que não a havia assassinado. Pouquíssimas pessoas ainda acreditavam que Evans realmente assassinara sua mulher, apesar de sua pormenorizada confissão de havê-lo feito. Esse crime singular foi quase com certeza um de toda uma série de assassínios idênticos que, mais tarde, se descobriu terem sido cometidos por Christie, na mesma casa. Há agora também enorme dúvida de que Evans tenha assassinado sua filha, crime que ele igualmente acabou confessando.

Acertadamente ou não, o governo ainda não permitiu a completa transcrição desse agora famoso julgamento, a fim de que o público comum pudesse lê-lo e estudá-lo acuradamente. Entretanto, as partes publicadas no referido Livro Branco revelam as várias tensões emocionais que o cérebro doente de Evans deve ter suportado antes de fazer suas confissões finais. Estas certamente acarretaram todas as diferentes alterações das funções cerebrais e consequente comportamento que se discutem no referido livro.

Antes de tudo, Evans experimentou longo período de pânico e ansiedade após encontrar a esposa morta na casa habitada por ele e Christie, o que provocou sua subsequente fuga para Gales. Lá temos as duas primeiras confissões à polícia galesa de que não matou a esposa, mas que se desfez de seu corpo. A essas confissões seguiu-se uma viagem ferroviária de retorno a Londres, sob custódia policial. Lá encontrou novo inspetor-chefe, que devia incumbir-se do caso. Ao chegar, Evans afirmou ser a primeira vez que ouvia falar que a sua filha, a quem muito amava, acabava de ser encontrada morta, assim como sua esposa, na mesma casa. Antes que se refizesse do choque, segundo contou, mostraram-lhe algumas roupas da esposa e da filha assassinadas: um pedaço de corda, uma toalha de mesa verde e um cobertor, que se dizia que o incriminavam como o suposto assassino, embora não confesso, de sua esposa e de sua filha. Também disse ter sido informado do modo como ambos os corpos foram encontrados pela polícia, escondidos na casa, e que ele era considerado responsável por ambas as mortes. Mais tarde, ele fez uma confissão geral e depois, outra, pormenorizada, dos dois assassínios.

O sr. Scott Henderson, Conselheiro da Rainha, externa no Livro Branco sua opinião de que a polícia não forneceu a Evans pormenores importantes dos dois assassínios, que ele posteriormente confessou. Entretanto, reexaminando todas as provas agora disponíveis, Altrincham e Gilmour dão as razões pelas quais afirmam o seguinte: “(…) não pode haver dúvida razoável de que, antes de sua confissão, a polícia contou ou apresentou a Evans todas as minúcias que o sr. Scott Henderson considera tão comprometedoras. Particularmente, ressalta da declaração do inspetor Black que Evans não fez menção à gravata com que sua esposa foi estrangulada, até que a polícia lha exibiu. (…) Estamos convencidos de que a confissão de Notting Hill foi falsa (…)”.

Pela leitura do quarto depoimento de Evans, que é longo, ver-se-á a grande possibilidade de que pelo menos algumas particularidades sobre como ele assassinou a esposa e a filha poderiam ter incluído, inadvertidamente ou mesmo por completa ignorância, certas coisas insinuadas e inculcadas em seu espírito pela investigação e interrogatório policiais. A polícia, na ocasião, tinha toda a razão para acreditar que Evans cometera ambos os assassínios, pelo modo como finalmente os confessou, e Christie tornou-se a principal testemunha de acusação. Parece de todo possível que algumas de suas próprias convicções lhe eram devolvidas na forma de confissão, uma vez que a fadiga e a intensificação da sugestionabilidade acometeram Evans. Acontece também estarmos cientes de quão mentalmente perturbado se achava Evans, quando fez sua confissão final, pois no Livro Branco do Governo lemos a respeito de seu temores: “A polícia levar-me-á lá embaixo e começará a maltratar-me”, se uma confissão completa não fosse feita. Realmente, isto jamais teria acontecido a um homem intimado a comparecer a um tribunal britânico, sob a acusação de assassínio, ainda que apenas para evitar a possibilidade de hábeis advogados de defesa agitarem o assunto no tribunal para provar que a confissão se fizera sob coação. O seguinte extrato de seu julgamento, publicado no Livro Branco, fornece um quadro elucidativo do estado de espírito de Evans, por ocasião de tais confissões, e como, segundo ele, foram obtidas.

P. — Na tarde de 2 de dezembro o sr. Black o trouxe de Gales para Paddington? — R. — Sim, senhor.

P. — Quando chegou a Paddington, encontrou-o o inspetor-chefe Jennings, que o senhor agora conhece? — R. — Sim.

P. — Levaram-no à Delegacia de Polícia de Notting Hill? — R. — Sim.

P. — Que aconteceu ao chegar lá? — R. — Ele me contou que minha esposa e minha filha estavam mortas.

O Senhor Juiz Lewis: — Não consigo ouvir o que ele diz.

O Senhor Malcom Morris: — Agora queira falar alto; isto é importantíssimo, e é importantíssimo que o senhor fale sem que se façam perguntas desnecessárias. Simplesmente conte a sua própria história. Disse-lhe ele que a sua mulher e a sua filha? — R. — Foram encontradas mortas, senhor.

P. — Ele disse onde? — R. — Sim, no n.10 de Rillington Place, na lavanderia, e acrescentou que tinha boas razões para crer que eu soubesse algo a respeito.

P. — Disse ele como lhe parecia que morreram? — R. — Sim, por estrangulamento.

P. — Disse ele como o quê? — R. — Bem, minha esposa com uma corda, e minha filha fora estrangulada com uma gravata.

P. — Mostraram-lhe alguma coisa àquela hora? — R. — Sim, as roupas de minha mulher e de minha filha.

P. — Havia também uma toalha de mesa verde e um cobertor? — R. — Sim, senhor.

P. — E um pedaço de corda? — R. — Sim.

P. — Não quero fazer a mesma pergunta duas vezes, mas, antes que ele lhe dissesse isso, o senhor tinha alguma ideia de que algo havia acontecido à sua filha? — R. — Não, senhor; nenhuma ideia absolutamente.

P. — Há outra pergunta que devo fazer-lhe: contou-lhe ele, quando lhe disse que os corpos foram encontrados na lavanderia, se tinham sido escondidos ou não? — R. — Sim, disse-me que foram cobertos com madeira.

P. — Tendo-lhe revelado isso e tendo-lhe mostrado aquelas peças de roupa e dito que tinha razões para crer que o senhor soubesse algo sobre ambas as mortes, acrescentou ter motivos para julgá-lo responsável por elas? — R. — Sim, senhor.

P. — Que disse? — R. — Apenas respondi: “Sim, senhor”.

Sr. Juiz Lewis: — Quê? — R. — Eu disse “sim”.

Sr. Malcolm Morris: — Por quê? — R. — Ora, quando descobri que minha filha estava morta, fiquei transtornado e não me importava com o que viesse a acontecer-me então.

P. — Amava-a muito? — R. — Sim.

P. — Então o senhor fez a declaração que o inspetor-chefe registrou em seu livro de apontamento? — R. — Sim.

P. — Antes de irmos àquilo, houve outra razão para que o senhor dissesse “sim”, além do fato de ter aberto mão de tudo, quando soube que sua filha se achava morta? — R. — Ora, achava-me amedrontado na ocasião.

P. — Por que se achava amedrontado, ou de que tinha medo? — R. — Ora, pensei que, se não fizesse uma declaração, a polícia me levaria lá embaixo e começaria a maltratar-me.

Sr. Juiz Lewis: — Pensou o quê? — R. — Que a polícia me levaria lá embaixo e começaria a maltratar-me, se eu não o declarasse.

Sr. Malcolm Morris: — O senhor realmente acreditava nisso, não é? — R. — Sim.

P. — Dizendo que sua esposa contraía dívida sobre dívida, o senhor fez então a seguinte declaração — “Já não podia suportá-lo, portanto estrangulei-a com um pedaço de corda”? — R. — Sim, senhor.

P. — E, mais tarde, que o senhor estrangulara sua filha, na noite de terça-feira, com sua gravata? — R. — Sim.

P. — O senhor possuía de fato uma corda em seu apartamento? — R. — Não, senhor.

P. — É sua a gravata que consta da Prova n.3, nesta caixa? — R. — Não, senhor.

P. — Já a havia visto antes de ter-lhe sido exibida pelo inspetor-chefe? — R. — Não, senhor.

Evans fez o possível em seu julgamento para negar sua anterior confissão e acusou Christie de ambos os assassínios. Mas já era muito tarde. Alguns indícios posteriores do estado de esgotamento e sugestionabilidade de Evans — provando que não só os culpados podem ser influenciados por tais processos — ressaltam de sua reinquirição pelo promotor público, antes que fosse declarado culpado e enforcado:

P. — É verdade que, em cinco diferentes ocasiões, em diferentes lugares e a diferentes pessoas, o senhor confessou o assassínio de sua esposa e de sua filha? — R. — Confessei-o, senhor, mas não é verdade.

P. — É verdade que o senhor o confessou cinco vezes, em diferentes lugares e a diferentes pessoas? — R. — Sim, é.

P. — Pode dizer em qual dessas ocasiões o senhor estava perturbado? — R. — Na maior parte delas.

E mais tarde lemos:

P. — Posteriormente, o senhor assinou — não assinou? — uma declaração minuciosa, Prova n.o 8, de que sua esposa contraía dívida sobre dívida. “Não podia suportá-lo mais, por isso a estrangulei com um pedaço de corda e levei-a para o andar inferior, naquela mesma noite, enquanto o velho se achava no hospital; esperei que os Christie fossem deitar-se e, então, transportei-a para a lavanderia, depois da meia-noite. Isso se passou em 8 de novembro.” O Senhor disse isto? — R. — Sim, senhor.

P. — Então, o senhor prossegue. “Na noite de quinta-feira, depois que cheguei do trabalho, estrangulei minha filha em nosso quarto com minha gravata e mais tarde levei-a lá embaixo na lavanderia, depois que os Christie se haviam deitado.” O senhor disse isto? — R. — Sim, senhor.

P. — Por quê? — R. — Ora, como declarei antes, achava-me perturbado e não sabia o que dizia.

P. — Ainda perturbado? — R. — Sim, senhor.

P. — Hora após hora, dia após dia? — R. — Não sabia que a minha filha estava morta até que o inspetor Jennings me disse.

P. — Compreendo. Essa é a sua defesa. Declarou-se culpado, isto é, confessou o assassínio de sua esposa e de sua filha por ter ficado aturdido ao saber que sua filha estava morta? — R. — Sim, porque já não tinha ninguém a quem devotar minha vida.

Depois de três anos, encontramos o Sr. Scott Henderson. Conselheiro da Rainha, tentando resolver o controvertido problema da inocência ou responsabilidade de Evans (após a descoberta de tantos outros assassínios idênticos praticados por Christie, na mesma casa) e esforçando-se em arrancar uma nova confissão de Christie, dois dias antes da data marcada para seu enforcamento. Christie, contudo, tinha uma longa história de repetidas doenças histéricas, que começaram na Primeira Guerra Mundial. E assim, não inesperadamente, vemos no “Livro Branco” que ele chegou ao fim da vida talvez mais histericamente sugestionável e confuso do que o próprio Evans jamais estivera. Pois Christie, também, já ficara completamente prostrado e chegara ao ponto em que parecia disposto a admitir quase tudo que lhe fosse proposto, de modo bastante convincente, pelo sr. Henderson, justamente como confessara tantas coisas que lhe foram expostas pela polícia, seu advogado e vários médicos, antes de seu próprio julgamento e durante ele. Por exemplo, no “Livro Branco” consta ter dito ao Sr. Scott Henderson: “(…) A mesma coisa ocorreu com a polícia no começo. Quando me inquiriram a respeito de certas coisas, eu não sabia absolutamente nada do que falavam. Solicitei ao inspetor Griffin que me dissesse algo capaz de me esclarecer o espírito em alguns pontos. Então, contou-me que alguns corpos foram encontrados, e eu não conhecia coisa alguma do caso até que ele me disse: Você deve ser responsável por isso, pois foram encontrados num canto da cozinha. E logo afirmou: Não há dúvida de que você o fez. Voltei-me então e respondi: Bem, se esse é o caso, devo tê-lo feito, mas não sabia se o havia feito ou não. Pelo que ele disse, estava muito claro que eu devia tê-lo feito”.

Mais adiante, lemos ainda:

P. — Aplica-se o mesmo à sra. Evans? Pode lembrar-se se teve ou não algo que ver com a sua morte? — R. — Bem, não estou certo. Se alguém se dirigiu a mim (eis o que devo declarar de inicio) e me disse que há prova cabal de que eu tinha algo que ver com uma delas ou com ambas, devo aceitá-lo como verdadeiro, como devo tê-lo feito, mas quero conhecer a verdade a respeito disso tanto quanto o senhor.

P. — Sem se declarar convencido de que há prova definitiva de que deve tê-lo feito, acha-se pronto a declarar que de fato o fez? — R. — Somente ontem fui informado de que não existe tal prova.

P. — Embora não haja prova de que o senhor tenha algo que ver com a morte da sra. Evans, acha-se pronto a dizer que foi responsável? — R. — Ora, não posso dizer que fui ou não fui.

P. — Não se acha pronto a dizer uma coisa ou outra? — R. — Não se trata de eu achar-me pronto ou não. Simplesmente não posso, a menos que dissesse mentiras a respeito do assunto. Está ainda nebuloso, mas se alguém dissesse: “Ora, é evidente que você o fez, embora não haja provas bastante a respeito”, então admitiria que o fiz.

Os casos desses dois homens foram mencionados com pormenores, porquanto estão bem documentados e mostram como se podem cometer enganos, quando se arrancam confissões, a despeito dos enormes cuidados empregados por todos os interessados, a fim de evitar que tais coisas aconteçam. Há muito maior probabilidade de ocorrerem, quando o inquiridor começa com convicções muito fortes, que lhe são então devolvidas em subsequentes confissões. Mais ainda, uma pessoa sob interrogatório às vezes consegue submeter o inquiridor a uma lavagem cerebral, em virtude da força e firmeza de suas próprias convicções, verdadeiras ou falsas.

Já descrevemos alguns dos meios empregados em outros países para provocar um estado de sugestionabilidade em presos prestes a serem inquiridos. Na Rússia, o preso era geralmente privado do sono normal; era interrogado durante a noite e não lhe permitiam cochilar durante o dia. A luz brilhante, ininterruptamente mantida acesa em sua cela, e a ordem para que conservasse as mãos e o rosto descobertos, caso se deitasse, eram, teoricamente, precauções destinadas a impedir tentativas de fuga ou de suicídio, mas, na realidade, tinham também por objetivo impedi-lo de repousar no calor e no escuro. Stypulkowsky descreve a caminhada para a sala de inquirição: “Essa caminhada por si mesma era medonha. Tudo contribuía para torná-la assim: as mãos amarradas às costas; o lúgubre comportamento do silencioso guarda; os corredores escuros e vazios; a tela de arame na escada; o ritmo dos movimentos e o eco dos estalos dos lábios. Ela me estimulava a imaginação quanto ao que me aconteceria dentro de alguns minutos. Aonde e para que me levavam? A encenação desempenhava importante papel nos métodos de investigação que empregavam comigo. Foi sugestiva até o último dia, embora, após muitas caminhadas dessa natureza, eu soubesse, como um cavalo bem amestrado, quando deveria voltar o rosto para a parede e se os guardas me apertavam o braço direito ou o esquerdo”.

A vida pregressa de um preso é também examinada nos mínimos pormenores a fim de se descobrir algum fato especial ao qual ele seja particularmente sensível. Encontrando um ponto melindroso, os inquiridores agem de acordo com o conselho de Finney, mencionando constantemente um episódio que esteja bem vivo no espírito do preso. Entrementes, este perde peso, fica fisicamente debilitado e mais nervoso a cada momento. Fica-lhe confuso o espírito; o esforço de tentar lembrar-se do que disse em interrogatórios anteriores para fazer a história coerente torna-se tremendamente árduo. Às vezes, fazem-no preencher longos questionários, mais com o propósito de submetê-lo a maiores fadigas do que conseguir alguma nova informação valiosa. Quando começa a fraquejar-lhe a memória no que diz respeito a respostas a interrogatórios anteriores, a dificuldade de confirmar a mesma história torna-o mais aflito do que nunca. Finalmente, a menos que algum acidente dê à inquirição fim prematuro, seu cérebro fica tão perturbado que lhe é impossível dar respostas seguras; fica totalmente inibido, vulnerável a sugestões, surgem as fases paradoxais e ultraparadoxais, e a fortaleza afinal se rende incondicionalmente.

Muitos outros tipos de pressão podem empregar-se para provocar estados anormais de atividade cerebral. Pode-se fazer uma pessoa reter a urina indefinidamente, mantendo-a sentada numa cadeira. Podem ser-lhe colocadas diante dos olhos luzes brilhantes durante o longo interrogatório. Isso é o que nos informa um jornalista de Berlim Ocidental, capturado e obrigado a confessar, numa prisão da Alemanha Oriental, como se vê do seguinte relato: “A tortura consistia em impedi-lo de dormir durante dez dias. O sono era proibido durante o dia. De noite, deitado sob uma luz elétrica brilhante em sua cela, era acordado de quinze em quinze minutos. Quinze minutos depois de apagarem as luzes, era despertado com pancadas na porta da cela; quinze minutos mais tarde, havia assobios agudos e, em seguida, ligavam a luz elétrica a um dispositivo automático que alternava uma luz vermelho-opaca com uma terrível luz branca emitida por poderosa lâmpada. (…) Isso se repetiu noite após noite, durante dez noites, até que (ele) sofreu um colapso, com calafrios e alucinações. Após esse processo de amaciamento, foi considerado em condições para o interrogatório, que se verificava quase todas as noites, com a duração de seis a sete horas cada vez, durante um período de três meses e outro de dois meses. O interrogatório prolongava-se indefinidamente, porquanto o inquiridor deliberadamente registrava o oposto do que o preso dizia e depois, laboriosamente, suscitava novo depoimento, corrigido”. (194)

Todos esses métodos estimulam e cansam o cérebro e, assim, precipitam o processo de sua inibição protetora, bem como da sugestionabilidade à constante repetição, hora após hora, por parte do inquiridor, da mesma acusação. Outro meio de mudar as condições normais de um preso, especialmente quando se trata de alguém que até então tenha sido pessoa de autoridade ou importância consiste em fazê-lo usar roupas carcerárias, velhas e mal ajustadas, com calças que ele precise suster com as mãos, e deixá-lo sem se barbear (a desculpa é que ele poderia ter dinheiro ou veneno oculto nas roupas e que poderia tentar o suicídio com um cinto ou suspensórios.) É então chamado pelo seu número de prisão e forçado a dar às autoridades policiais todos os seus qualificativos, sempre que dele se aproximem. Tão súbita degradação social pode mostrar-se eficacíssima.

Para os fleumáticos e tenazes, encontram-se muitas pressões extras, que, mantendo-se ainda dentro da lei, evitam o emprego da tortura ou da violência física. Uma é o confinamento solitário nas fases preliminares da inquirição. Depois, quando o preso revele indícios de anormalidade, mas não se mostre ainda bastante sugestionável para confessar o que dele se espera, é colocado numa cela com mais dois ou três presos. Estes são espiões instruídos para mostrarem simpatia para com ele, para se identificarem com os seus problemas, convencendo-o, se possível, a confessar o seu crime, a aceitar o castigo e a encerrar o assunto. Os espiões são geralmente presos que sucumbiram ao mesmo processo e se tornaram totalmente convencidos da necessidade de “cooperação” com o inquiridor. A influência que exercem é a do elefante domado sobre o recém-capturado; a do cão de circo treinado sobre o obstinado recém-vindo; a do neófito seguro sobre uma pessoa que ainda luta com os seus problemas religiosos.

Ainda há o velho ardil, tão velho pelo menos como a Inquisição Espanhola, de pôr um preso obstinado frente à confissão, real ou falsa, de algum companheiro acusado do mesmo crime. “Está tudo acabado agora; é melhor se abrir”. Então é delicadamente censurado por sua tola lealdade para com os amigos e a família, e fazem-lhe sentir que, embora a confissão já não seja necessária, porquanto sua responsabilidade ficou evidenciada com as provas de outros, ser-lhe-á melhor fazer uma declaração formal de arrependimento. Isto lhe garantirá uma sentença mais branda e apressará sua volta como membro respeitado e digno da comunidade. Como nas conversões religiosas, a força desse método reside em proporcionar um meio de se livrar das torturas do inferno para futura salvação.

Weissberg (195) dá horrível relato dos meios menos sutis usados pelos russos, durante o terror stalinista, para conseguir confissões: “Ele (Shalit) odiava os presos, por que lhe resistiam e não se dispunham a admitir imediatamente o que queria que admitissem. (…) Era capaz de gritar exatamente a mesma pergunta durante seis horas, ininterruptamente, sem a menor variação e sem mostrar o menor sinal de fadiga. (…) Repetia exatamente a mesma pergunta, no mesmo tom elevado de voz, com exatamente os mesmos gestos, centenas — não, creio realmente que eram milhares de vezes. (…) Frequentemente perguntei a mim mesmo se Shalit não seria completamente estúpido. Não lhe seria possível encontrar coisa diferente para dizer? Gradualmente, cheguei à conclusão de que não era estúpido. (…) Tudo que podia fazer era tentar esgotar seus presos fisicamente, e ele empregava essa técnica com mais determinação e lógica de ferro que qualquer outro inquiridor que jamais conheci. Segundo o ponto de vista de G. P. U., ele estava certo”.

Esse Shalit era membro do que chamava sistema de “Correia”, uma “tira em incessante movimento”, na qual o acusado “era mantido sob contínuo interrogatório dia e noite, até cair em colapso”. “Como os inquiridores se revezavam regularmente, podia-se continuar indefinidamente. (…) Alguns presos tinham resistido até à tortura, mas eu soube de um que conseguiu resistir à ‘Correia’”.

Ele descreve as sensações produzidas numa pessoa submetida à prova: “Posso suportar outra noite, outra noite e outra noite, poderia pensar. Mas e daí? Que vantagem resulta disso? Eles dispõem de todo o tempo do mundo. Num ponto ou noutro, terei de sucumbir fisicamente”.

Weissberg descreve as subsequentes fases da “Correia”, quando empregada com a sua pessoa: “Os meus olhos eram dois globos de dor numa cabeça que parecia prestes a estourar se não fosse a faixa de ferro que cada vez mais se apertava em torno dela. Durante quatro horas Shalit repetiu sua pergunta favorita. (…) Quando Weissband o substituiu, às oito horas, sentia-me quase inconsciente. (…) Não fui levado para a minha refeição senão às nove. Concederam-me dez minutos para fazer tudo: ir ao sanitário, lavar-me e tomar a refeição. Depois, levaram-me novamente para a ‘Correia’”.

Depois de cento e quarenta horas, Weissberg relata: “Círculos vermelhos rodopiavam diante dos meus olhos e o cérebro já não funcionava. A sala começou a balançar-se. A dor estava pior que nunca e parecia estender-se por todo o corpo. (…) Mas consegui resistir até que Weissband substituiu Shalit à noitinha”.

Finalmente, ele recorda: “Era meia-noite do sétimo dia da minha Correia. Eu lutara até cair, mas agora estava vencido. Nada me restava senão capitulação e confissão”.

Contudo, Weissberg posteriormente retirou essa confissão e teve de suportar outro período na “Correia”, até que fizesse nova confissão, também retirada mais tarde.

A qualquer sinal de enfraquecimento ou anuência, o inquiridor pode deixar o seu papel de promotor e assumir o de amigo do preso, aconselhando-o, com simpatia, a confessar. Eis o que o inquiridor disse a Stypulkowski: “Tenho dó de você. Percebo como se acha cansado. Tenho a satisfação de informá-lo, em nome das autoridades, que o governo soviético não quer que você perca a vida, nem fique trinta anos apodrecendo em algum campo de concentração na Sibéria. Ao contrário, o governo soviético quer que você viva e trabalhe como homem livre”.

O inquiridor assumiu depois o papel tradicional do evangelista religioso: “Você deve decidir hoje que rumo terá o seu futuro. Você poderia ser ministro do Gabinete, um dos líderes da nova ordem mundial e trabalhar pelo seu país. A alternativa é confiar na proteção anglo-saxônica, apodrecer na prisão e aguardar o resultado”.

Stypulkowski presta um tributo ao poder de persuasão desse apelo: “Rompia a madrugada quando tive de repelir esse ataque, o mais forte até então desfechado”.

A última fase cruciante do colapso do preso e de sua rendição incondicional é muitíssimo bem descrita:

“Recordando as coisas que se presumia houvesse ele feito, apressa-se em explicá-las ao inquiridor, mas confunde fatos reais com os que lhe foram insinuados pelo último. Em sua determinação de tudo confessar, fala de coisas que jamais aconteceram, repete conversas que certa vez ouviu. Ainda não é o bastante para o inquiridor, por isso o preso tenta lembrar-se de algo mais — apenas para demonstrar convincentemente que ele nada tenciona ocultar.

O preso ainda confia em que sua inteligência, sua capacidade de crítica e seu caráter o guiarão limitando-lhe os depoimentos a inofensivas exposições de fatos. Mas aí é que ele se engana. Não compreende que durante as poucas semanas de interrogatório suas faculdades diminuíram, seu poder de raciocínio se deteriorou. (…) É um homem completamente mudado.”

F. Beck e W. Godin, cujo livro “Russian Purge” também se baseia em suas experiências pessoais de interrogatório e encarceramento no Expurgo Soviético de 1936-39, acentuam que certa vez os suspeitos resolveram confessar: “O método de inquirição, que os funcionários do N. K. V. D. chamavam orgulhosamente de método de Yeshov, consistia em fazer com que a primeira tarefa do preso fosse construir todo o processo contra si próprio. (…) O resultado grotesco disso era que os acusados se esforçavam por convencer os magistrados do inquérito de que suas lendas, forjadas, eram verdadeiras e constituíam os mais graves crimes. (…) Se fossem rejeitadas, apenas significava que o interrogatório continuaria até que a lenda fosse alterada ou substituída por outra que importasse em crime político suficientemente grave”. (196)

Como na inquirição de feiticeiras e no emprego inseguro de algumas técnicas psicoterapêuticas, as confissões obtidas “distinguiam-se às vezes por alto grau de imaginação fértil”. Referem-se a um operário de uma fábrica de materiais pedagógicos, por exemplo, que “afirmava pertencer a uma organização cujo objeto era a construção de vulcões artificiais que fizessem voar pelos ares toda a União Soviética”. Tais confissões podem mesmo ser acreditadas, repito, por um inquiridor que se torne muito emocionalmente apaixonado e diligente em obtê-las.

Stypulkowsk também relata as mudanças físicas deliberadamente provocadas para apressar o colapso final: “Só compreendi isso inteiramente ao ser posto frente a frente com (um dos) meus amigos, ao fim de um interrogatório de (dois meses). (…) Mal pude reconhecê-lo. Os olhos estavam irrequietos e apavorantes, profundamente encovados no crânio. A pele se achava amarela, enrugada e densamente coberta de suor. O rosto desse esqueleto estava manchado. O corpo agitava-se incessantemente. (…) A voz era insegura e convulsa: Você mudou um pouco, disse. (…) Você também, respondeu, esforçando-se por sorrir. Não me havia visto ao espelho”.

Uma das mais horríveis consequências dessas crueis inquirições, como as descrevem as vítimas, é que estas, subitamente, começam a sentir afeição pelo inquiridor que as tratou tão severamente — sinal indicativo de que as fases paradoxais e ultraparadoxais da atividade anormal do cérebro podem ter sido atingidas: acham-se próximas do ponto de colapso e prestes a confessar. Então, quanto mais inflexível for o suposto criminoso, tanto mais duradoura a doutrinação pode ser, após ter sido levado ao colapso e compelido a confessar: às vezes, estará ansioso por sacrificar muitos anos de sua vida futura em reabilitar-se, após a desonra.

Os inquisidores do Santo Ofício empregaram em grande escala os mesmos métodos básicos. (197) Hereges suspeitos eram também citados para interrogatório preliminar e proibidos de dizer a seus parentes que estavam sendo inquiridos. Uma vez na prisão, suportavam a constante ameaça de serem queimados vivos, o que só podiam evitar com uma confissão completa. Todavia, desde que esta tinha de ser uma confissão sincera, eram obrigados a se julgarem verdadeiramente culpados de crimes, insinuados pelos Inquisidores, ou convenientemente fantasiados pela própria imaginação, exaustivamente trabalhada. Penitentes confessos tinham o privilégio de ser estrangulados em vez de queimados, podendo mesmo ser poupados, despojados de todos os seus bens e obrigados a fazer penitência durante toda a vida. Exigiam deles também informações sobre as próprias famílias, sendo a recusa de alguma informação importante sobre responsabilidade do próprio pai igualmente punível com a fogueira. Os instrumentos de tortura para arrancar confissões estavam sempre prontos, mas parece terem sido raramente usados: (198) a ameaça de tortura era, em geral, bastante para causar o colapso. Todos os esforços eram despendidos para obter as desejadas confissões sem violência física, porquanto, mais tarde, se poderia alegar que o herege somente confessara sob coação — pois é ainda dogma largamente sustentado, mas fisiologicamente insustentável, que não podem ser entendidos como coação maus-tratos que deixem o homem com toda a pele, com o uso dos membros e com os sentidos perfeitos.

A importância de exercer pressão sobre o herege até que ele se rendesse e confessasse, verdadeiramente arrependido, era que poderia livrar-se do fogo eterno, no inferno, ainda que a lei o condenasse a ser queimado vivo aqui na terra. O emprego de delatores secretos, acareação do herege não declarado com o herege confesso, a promessa de perdão após a confissão (que mais tarde poderia ser retirada), tudo era conhecido. E os calabouços asseguravam a necessária debilitação física. Pouquíssimas pessoas eram, no entanto, queimadas vivas, comparadas às que se apressavam a confessar e a aceitar as crenças e penitências impostas pela Igreja. As vítimas da fogueira eram em geral hereges que foram perdoados, mas, mais tarde, reincidiram.

Os metodistas do século XVIII revelavam zelo e energia idênticos na arte de doutrinação. Seus devotados pregadores nobremente acompanhavam pessoas legalmente condenadas, em sua última e medonha viagem, em carros abertos, da Prisão de Newgate ao cadafalso público em Tyburn, e alcançavam bom êxito em afugentar o temor da morte de muitas delas. “The Life of Mr. Silas Told”, autobiografia, publicada pela primeira vez em 1786 (199), oferece uma descrição gráfica de tais acontecimentos: “A descrição que passo a fazer é a de Mary Pinner, condenada à morte por atear fogo à casa de seu patrão. À mesma hora, foram empurrados para a morte três ou quatro homens, com os quais Mary se mostrou muito licenciosa. (…) Tudo fiz por tornar essa moça o maior e o primeiro objeto de minha visita, mas experimentei várias repulsas de sua parte. Fiquei pesaroso ao ver-lhe o insensato procedimento, especialmente quando acabava de chegar a sentença de morte, em que se achava incluída”.

Told então começa a usar o método aprendido depois de sua súbita conversão por Wesley: “Portanto, levei-a a um Jade e disse-lhe: Mary, como pode ser que você, mais que todos os outros malfeitores, esteja tão indiferente a respeito de sua alma preciosa e imortal? Você não sabe que o olho de Deus, que tudo vê, penetra todas as suas ações? Não tem medo de ir para o inferno, vendo que dentro de pouco tempo deverá apresentar-se diante do grande Jeová, contra quem você pecou arrogantemente? Está decidida a destruir a própria alma? Está enamorada da perdição eterna e da ira de Deus, que tão loucamente persegue? Almeja engolfar-se no abismo insondável e no lago que arde em fogo e enxofre que jamais se extinguirão? Oh! lembre-se, se morrer em suas atuais condições, morrerá eternamente sob a ira de um Salvador ofendido e todas essas misérias terá de suportá-las eternamente!”

Percebendo uma mudança em seu semblante e descobrindo que ela frequentemente assistira às suas pregações na Capela de West Street, antes de sua prisão, Told relata que posteriormente “não ouviu expressão alguma indecente nem observou ato algum indiscreto de sua parte, até o seu último momento. No entanto, ele prosseguiu com o objetivo de consolidar o bom êxito inicial. Na noite anterior à sua execução, insistentemente lhe supliquei que passasse todos os momentos a empenhar-se ardorosamente junto a Deus no sentido de alcançar o perdão através do Seu queridíssimo Filho. (…) Idêntico conselho dei aos restantes malfeitores, um dos quais adotou a mesma resolução”.

Ele também empregou a sugestão coletiva para alcançar os seus notáveis resultados, pois prossegue: “Depois quis que os carcereiros do interior (de Newgate) os trancassem a todos numa cela a fim de que pudessem elevar suas súplicas coletivas ao terrível e tremendo Juiz dos vivos e dos mortos, diante do qual todos tinham inevitavelmente de aparecer dentro de vertiginosos momentos. Isso foi prontamente permitido; assim, de comum acordo, dedicaram aquela noite a um benefício inexprimível, orando, cantando hinos, rejubilando-se, sendo que o próprio Deus estava evidentemente entre eles. Quando me dirigi a eles na manhã seguinte, após ter recebido essa reconfortante informação, solicitei aos carcereiros que abrissem os cárceres e os levassem ao pátio da imprensa”.

Os resultados certamente justificaram a psicoterapia de grupo usada: “Mary Pinner foi a primeira a sair. O júbilo apoderou-se de mim quando observei a feliz transformação em seu semblante. Ao sair da cela, parecia estar cheia de paz e do amor de Deus, e, batendo palmas, soltou um grito triunfante, com estas palavras: Esta noite, Deus, pelo amor de Cristo, perdoou-me todos os pecados: sei que passei da morte para a vida e que logo estarei com o meu Redentor na glória”.

Told descreve sua horrível viagem a Tyburn com os presos, num carro de execução aberto: “Ela conservou esse estado de felicidade, cantando, louvando e glorificando a Deus, ininterruptamente, até chegar à forca. (…) Começou então a animar os seus companheiros de sofrimento, suplicando-lhes que não duvidassem da boa vontade de Deus em salvá-los”.

Possivelmente, existem hoje em dia poucos pregadores que, colocados no lugar de Told, teriam tanto êxito em levar homens e mulheres comuns a caminharem com alegria para o patíbulo público, convencidos de que Deus aprovava esse castigo legal britânico para furtos de valor inferior a cinco xelins e os receberia de braços abertos em Seu Reino, uma vez que se achavam sinceramente arrependidos. (200) Todavia, essa mesma capacidade extraordinária de persuadir pessoas a aceitarem alegremente punições terríveis e injustas tem sido demonstrada inúmeras vezes, em anos recentes, no campo político, por ateus materialistas da Rússia, da Hungria e da China, que parecem usar as mesmas técnicas básicas.

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Capítulo X

Consolidação e Prevenção

Uma coisa é fazer com que a mente de uma pessoa normal sucumba sob pressão insuportável, erradicar ideias e padrões de comportamento antigos e plantar outros novos no solo desocupado; coisa completamente diferente é fazer com que essas novas ideias criem raízes firmes. Todo treinador de animal e professor primário sabe muito bem disso como os professores primários se ressentem dos efeitos das longas férias de verão sobre seus alunos promissores! — mas igrejas e organizações políticas talvez o esqueçam. George Whitfield, vigoroso pregador calvinista do século XVIII, cujas conversões foram tão espetaculares quanto as de John Wesley, e que passou grande parte da vida em excursões “revivalistas” pela Inglaterra, Escócia, Gales e Estados Unidos, admitiu no fim de sua vida: “Meu irmão Wesley agiu sabiamente. As almas que foram despertadas sob seu ministério ele juntou em Classe e assim preservou o fruto de seu trabalho. Disso eu me descuidei e minha gente é um castelo na areia”. (201)

Whitfield não fundou seita distinta e, embora tivesse brigado com Wesley em 1741 por causa da questão da predestinação, foi sua patrona, condessa Selina de Huntingdon, quem reuniu seus adeptos em um grupo de capelas metodistas calvinísticas, conhecido como “União da Condessa de Huntington”.

As Reuniões de Classe de Wesley merecem atenção especial. Tendo convertido grande parte da Inglaterra com o emprego de formas de pregação poderosas e provocadoras de medo, consolidou seus ganhos por métodos de seguimento altamente eficientes, que eram aplicados logo que possível depois de ter ocorrido “repentina conversão” ou “santificação”. Wesley dividia seus neófitos em grupos de não mais de doze pessoas, que se reuniam toda semana sob a direção de um líder nomeado; eram então discutidos em combinado segredo problemas de natureza íntima relacionados com sua conversão e seu futuro modo de vida. O Líder de Classe era originariamente obrigado a visitar todos os membros de sua classe pelo menos uma vez por semana, ostensivamente para receber uma pequena contribuição semanal em dinheiro. Esse meio de acesso ao lar dos neófitos logo lhes permitia decidir se a conversão era ou não genuína; posteriormente, ele submete à prova suas conclusões nas reuniões de classe semanais. Os membros que não fossem considerados como sinceramente arrependidos e dispostos a levar uma vida nova eram expulsos tanto da classe como da Sociedade Metodista em geral. Seria difícil superestimar a importância dessas reuniões de classe para manutenção do poder do Metodismo durante os séculos XVIII e XIX. Wesley desejava livrar-se de todos quantos duvidavam de suas opiniões particulares sobre o caminho certo da salvação — havia rompido, entre outros, com Peter Bõhler, que ajudara a convertê-lo, e durante algum tempo até mesmo com George Whitfield — e de todos quantos pudessem trazer descrédito para o Movimento por seu modo errado de vida. O próprio Wesley escreveu: “Mas uma vez que nos esforçamos por observar-nos reciprocamente, logo encontramos alguns que não viviam o Evangelho. Não tenho conhecimento de que hipócritas se hajam infiltrado; mas vários se tornaram frios e cederam aos pecados que durante longo tempo facilmente os perseguiam. Percebemos depressa que havia muitas más consequências em permitir que esses permanecessem entre nós. Era perigoso para outros, visto que todo o pecado tem natureza infecciosa (…)”. (202)

Wesley, cujo autoritarismo melindrou os colonizadores da Geórgia antes de sua conversão, transformou então sua pedra de tropeço em um degrau: “Reuni todos os líderes de classes (assim costumávamos chamá-los e aos seus grupos) e desejei que cada um deles fizesse um inquérito particular sobre o comportamento daqueles que via semanalmente. Fizeram isso. Foram descobertos muitos desregrados. Alguns se afastaram do mal de seu caminho. Outros foram afastados de nós. Muitos o viram com temor e festejaram Deus com reverência. Logo que possível, o mesmo método foi empregado em Londres e todos os outros lugares. Homens maus foram descobertos e repreendidos. Foram tolerados por uma estação. Se abandonavam seus pecados, nós os recebíamos alegremente; se persistiam neles com obstinação, declarava-se abertamente que não eram mais dos nossos. Os demais lamentavam e oravam por eles, mas se rejubilavam porque, no que dependia de nós, o escândalo fora afastado da sociedade”.

A visita pessoal a lares metodistas por Líderes de Classe foi resolvida inicialmente por ter Wesley achado que, com o crescimento do movimento: “As pessoas estavam tão dispersas por todas as partes da cidade, de Wapping a Westminster, que eu não podia ver facilmente qual era o comportamento de cada pessoa em sua vizinhança; de modo que vários desregrados faziam muito mal antes que eu disso tivesse conhecimento”.

As Reuniões de Classe destinavam-se àqueles já sensibilizados por sua repentina e irresistível experiência de conversão; o íntimo sentimento de grupo, os hinos e orações coletivos, a discussão íntima de problemas pessoais e conselhos sobre os meios de evitar a “ira vindoura” eram constante lembrança de sua santificação original. Wesley dirigia pessoalmente a política geral do Movimento, ditando que atitude seus pregadores leigos deviam tomar frente a novas mudanças políticas ou sociais. Os pregadores leigos mantinham-se em frequente contato com ele durante suas viagens; realizavam-se periódicas “conferências” metodistas; e os líderes de classe eram responsáveis perante os pregadores leigos pela disciplina das unidades menores. Wesley percebia o perigo de agitar multidões, reduzindo-as a penitência, e depois deixar que outros fizessem o trabalho de recondicionamento. Quando viajava pela zona rural católica da Irlanda em 1750, foi convidado a pregar em Mullingar, mas recusou porque: (203) “Tenho pouca esperança de fazer bem em um lugar onde só poderia pregar uma vez e onde não tolerariam que alguém senão eu pregasse”.

Em 1763, igualmente, escreveu de Haverfordwest: “Eu estava mais convencido que nunca de que pregar como um apóstolo, sem reunir aqueles que são despertados e treiná-los nos caminhos de Deus, é apenas criar filhos para o assassino (o Diabo)”.

Quando investigava um culto religioso de manuseio de serpente na Carolina do Norte em 1947, foi fácil, para mim, compreender o que Wesley quisera dizer. A descida do Espírito Santo nessas reuniões, reservadas a brancos, era supostamente demonstrada pela ocorrência de feroz excitação, contrações corporais e exaustão e colapso finais, nos participantes mais sensíveis. (204) Esses estados histéricos eram provocados por meio de cantos e palmas rítmicos, e o manuseio de serpentes genuinamente venenosas — como está relatado no Capítulo V — levava vários visitantes inesperadamente ao ponto de colapso e conversão repentina. Todavia, um visitante jovem do sexo masculino — o “assassino” encarnado assistia a essas reuniões com o deliberado propósito de seduzir moças que acabavam de ser “salvas”. O fato é que quando a inibição protetora causa um colapso e deixa a mente altamente sugestionável a novos padrões de comportamento, a conversão pode ser não-específica. Se o pregador chega a tempo de pregar castidade e sobriedade, muito bem; mas o “assassino” (o diabo) descobrira que na noite que se seguia à repentina perturbação emocional, a moça santificada podia ser persuadida a abandono erótico tão facilmente quanto à aceitação da mensagem do Evangelho. Contudo, quando tentou dar seguimento a seus sucessos amorosos um ou dois dias depois descobriu, em geral, que a fase anormal de sugestionabilidade havia passado e que os padrões morais da moça tinham voltado à normalidade. Como não estivera continuamente ao lado dela para consolidar sua vitória, ela podia então repeli-lo e dizer que não era capaz de compreender o que lhe acontecera na noite em questão. Dois tipos de crença ou comportamento pessoal podiam, de fato, ser implantados ao término de uma reunião “revivalista”: pelo pregador ou pelo “assassino”. O próprio Jesus acentuou (Mateus, XII, 43-45) como corre perigo o homem que foi curado de um espírito imundo e volta para encontrar sua casa “varrida e ornamentada”. Se sua família e seus amigos não tiverem cuidado, ele cairá vítima de sete outros espíritos imundos e se tornará pior do que antes.

A Reunião de Classe wesleyana deriva-se, naturalmente, de uma prática cristã anterior; e esta por sua vez dos judeus. A fé judaica era controlada pelos co-presidentes do Sinédrio, em parte por meio dos serviços do Templo e em parte pelo sistema de sinagoga. As festas anuais obrigatórias do Templo começavam com o Jejum da Expiação — uma comissão de culpa nacional — seguido pelos Tabernáculos onde canto e dança extáticos enchiam toda a população de Israel de Amor a Deus e era preciso adotar cuidadosas medidas contra a “insensatez” das mulheres. Depois vinham as festas da Páscoa e as Semanas, nas quais imensas multidões ficavam contagiadas por entusiasmo religioso. O cuidadoso e sério condicionamento semanal na sinagoga, com hinos, orações e interpretações da escritura, e a confissão anual de pecado no Dia da Expiação também contribuíram para que os judeus se mantivessem unidos como nação e assim permanecessem durante dois mil anos, mesmo quando foram espalhados pelo mundo e seu Templo foi profanado.

Os comunistas perceberam há muito tempo a importância de dividir os neófitos em pequenos grupos ou células para finalidades de seguimento e consolidação. São supervisionados por um líder de célula, que é por sua vez responsável perante as altas autoridades do Partido. Em pequenas reuniões partidárias, as modificações correntes de orientação são discutidas; os membros são encorajados a ventilar suas dúvidas; e a confissão de “desvio” pessoal é encorajada. Assim é fácil para o líder de célula, como era fácil para os líderes de classe de Wesley, saber se foi ou não obtido um dedicado e diligente trabalhador para a Causa. Todos os sistemas autoritários bem sucedidos, políticos ou religiosos, empregam atualmente condicionamento de seguimento e estendem-no do alto até o fundo do movimento.

Sociedades primitivas também se utilizaram de reuniões periódicas de grupo, nas quais emoções eram despertadas por dança e toque de tambor, para ajudar a manter crenças religiosas e consolidar atitudes religiosas anteriormente implantadas. A excitação pode ser mantida até ocorrerem cansaço e exaustão. O líder talvez seja então mais facilmente capaz de implantar ou reforçar crenças em um estado de sugestionabilidade, artificialmente intensificada. Os escravos da África Ocidental provavelmente trouxeram tais métodos com eles para a América. Em 1947, assisti a vários ofícios vespertinos dominicais em uma pequena igreja de negros em Durham, na Carolina do Norte. Durante várias horas a congregação era encorajada a executar danças de solo ao som de palmas e de batidas de tambores de maneira alta e rítmica. A dança era da variedade do “jitterbug”. Membros da congregação muitas vezes entravam em estado de transe e continuavam a dançar até o ponto de colapso. A sugestionabilidade era grandemente intensificada nos participantes e o pastor exortava os dançarinos com a constante repetição das frases “Deus é Bom!” ou “Graças a Deus por tudo quanto Ele fez por Vós!” Livres de todas as emoções reprimidas, esgotados por horas de dança e com a submissão e gratidão a Deus reforçadas pela sugestão, os negros voltavam alegremente a viver outra semana em cortiços superlotados, segregados e ignorados pela comunidade branca. (205) O “revival” metodista também contribuiu para condicionar os ingleses do começo do século XIX a aceitarem condições sociais que teriam causado revoluções na maioria dos outros países europeus. Wesley ensinou as massas a preocuparem-se menos com sua miserável vida na terra, como vítimas da Revolução Industrial, do que com a vida futura. Elas ficaram assim capazes de suportar quase qualquer coisa.

A quantidade de consolidação necessária para fixar novos padrões de pensamento e comportamento deve depender do tipo particular de sistema nervoso superior, tanto quanto dos métodos empregados. Algumas pessoas parecem absorver novas doutrinas muito mais facilmente que outras, mas pode-se confiar em que os tipos mais vagarosos ou mais obstinados as absorverão mais seguramente, uma vez aceitas. E há um tipo tão basicamente sugestionável e instável que novos padrões de comportamento podem ser constantemente implantados nele, sem que nenhum fique jamais fixado: é o tipo popularmente chamado de “ator nato”.

Os diversos métodos necessários para converter pessoas de tipos temperamentais diferentes ainda não foram objeto de pesquisa suficiente. Contudo, talvez certos fatos tenham emergido. O extrovertido normal, por exemplo, parece ser “apanhado” com mais facilidade e seus novos padrões podem ser mantidos por métodos excitativos de grupo não específicos e absolutamente toscos, desde que resultem em estimulação emocional forte, continuada e muitas vezes repetida. A pessoa obsessa ou o introvertido talvez seja mais insensível a tal aproximação; para mudar seu comportamento, talvez sejam então necessárias debilitação física, uma aproximação individual, pressão individual muito forte e, no período de seguimento, repetido reforço e meticulosa explicação de doutrina. E o “incrédulo Tomé”, que sempre faz questão de “enfiar a mão no ferimento” antes de acreditar no que lhe contam. Alguns tipos mais instáveis, por outro lado, nunca verificam pormenores nem se preocupam com coerência seja em religião ou política; aceitam temporariamente tudo e sem discutir.

Há ainda o psicopata que, em geral, aprendeu muito pouco com seu treinamento ambiental anterior e cujo registro de ondas cerebrais elétricas ainda mostra acentuada imaturidade para sua idade. É de fato muito difícil condicionar ou recondicionar tais pessoas, algumas das quais criminosas, antes que seus padrões de ondas cerebrais se tornem mais normais, seu cérebro amadureça e elas pareçam começar a aprender pela experiência como fazem os homens comuns. Mais cedo ou mais tarde será encontrada uma droga para apressar o amadurecimento do cérebro retardado desses psicopatas, ajudando assim a resolver um difícil problema social que só é agravado pelas rigorosas penas de prisão e açoitamento que têm sido com frequência preconizadas como tratamento.

A necessidade de variar os métodos de condicionamento e recondicionamento de acordo com os diferentes temperamentos é claramente demonstrada por um estudo da maneira como penas de prisão afetam os vários tipos. Na maioria das pessoas comuns e, portanto, razoavelmente sugestionáveis a ameaça de prisão, com suas limitações sociais, é suficiente para dissuadir do crime; e uma única experiência de prisão encerra abruptamente a carreira criminosa de três quartos daqueles que não se deixaram dissuadir pela ameaça. Há, porém, um grande e duro núcleo de “velhos presidiários” e de psicopatas cujos padrões anormais de comportamento cerebral não podem ser modificados pela disciplina da prisão, por mais rigorosa ou mesmo brutalmente que seja aplicada. As pessoas tensas e ansiosas, em geral, podem ser mais eficientemente condicionadas que as calmas. Aquelas de temperamento basicamente instável e histérico não podem ser tão facilmente condicionadas, pois sucumbem prontamente à sugestão, seja social ou antissocial.

Evidentemente, pesquisa mais minuciosa é necessária a respeito de muitas dessas questões. Vimos as espécies de métodos excitativos que podem ser usados em sociedades tanto primitivas como civilizadas para aumentar a sugestionabilidade de grupo e assim manter um padrão comum de crença; e, também, para doutrinar alguns indivíduos com crenças inteiramente novas. Vimos ainda que os indivíduos variam em sua reação a esses métodos e que, desejando-se submetê-los a uma conversão religiosa e política radical e em seguida estabilizá-la, a técnica precisa ser modificada em muitos casos. Por exemplo, a conversão de John e Charles Wesley foi facilitada por um “amaciamento” preliminar por parte tanto de Peter Böhler, como do missionário morávio; no entanto, foi só depois de Peter Bõhler ter deixado o país que o coração de John finalmente e de repente “Se aqueceu” em uma pequena reunião de grupo religioso em Aldersgate Street. E três dias antes disso, Charles, a quem a doença reduzira a um estado de debilidade mental e física na humilde casa de John Bray, um funileiro, obtinha sua desejada e igualmente repentina conversão, deitado sozinho em seu quarto, em circunstâncias diferentes. No entanto, Charles foi capaz de descrever-se no dia seguinte como:

A slave redeemed from death and sin,
A branch cut from the eternal fire.
How shall I equal triumphs raise,
And sing my great Deliverer’s praise? (206)

É necessário, portanto, pesquisar sobre métodos excitativos de grupo para descobrir até onde são aplicáveis a todos os membros de um grupo e até onde determinados indivíduos são imunes a eles. Evidentemente com frequência deve acontecer de muitos parecerem influenciados, mas fazerem reservas mentais, e adotarem o modo de comportamento da maioria por política e não por convicção. Precisamos conhecer muito mais sobre as diferentes reações a métodos de doutrinação de pessoas em confinamento solitário ou colocadas em grupos selecionados para “reeducação”. O problema fisiológico complica-se ainda mais com o conhecimento de que os tipos temperamentais tanto do homem como do animal irracional raramente são puros. Pavlov descobriu que muitos de seus cães eram misturas de quatro temperamentos básicos; e o mesmo parece aplicar-se aos seres humanos. Em culturas primitivas, onde a vida é dura e o condicionamento rigoroso, é provável que os sobreviventes sejam mais temperamentalmente padronizados do que em sociedades mais civilizadas e assim disciplinados por métodos menos variados. Pode-se mesmo sugerir que, quanto mais elevada a civilização, tanto maior o número de indivíduos “normais” cronicamente ansiosos, obsessos, histéricos, esquizoides e depressivos que a comunidade pode dar-se ao luxo de suportar. Parece que um número maior de variáveis em tipos de personalidade exige maior variação nas terapias de grupo e individuais necessárias para sua cura; mas ainda não dispomos de informação sobre esse ponto. Talvez seja verdade o que diz Aldous Huxley: “Enquanto isso, tudo quando podemos prever com segurança é que, se expostos por tempo suficientemente longo aos tantãs e cantos, todos os nossos filósofos acabariam pulando e uivando com os selvagens”. (207) Contudo, sabemos também que há filósofos que são mais facilmente convertidos a novos padrões de comportamento e novas crenças por meio de oração e jejum solitários ou mesmo pelo uso de drogas como a mescalina.

Pavlov, porém, descobriu que quando o sistema nervoso superior de animais era intoleravelmente forçado pela aplicação de várias espécies de pressões, de maior ou menor poder, inibição transmarginal de uma ou outra espécie (com as fases equivalentes, paradoxais e ultraparadoxais que a acompanham) finalmente sobrevinha em todos os tipos temperamentais. Nos tipos mais fortes isso pode acontecer apenas depois de longo período de excitação grande e, às vezes, descontrolada; enquanto no inibido pode acontecer muito depressa. Parece, portanto, que há caminhos finais comuns que todos os animais individualmente, embora suas reações temperamentais iniciais às pressões impostas variem muito, devem finalmente tomar, desde que as pressões sejam continuadas por tempo suficientemente longo. Provavelmente o mesmo ocorre com os seres humanos e, nesse caso, isso talvez ajude a explicar por que excitantes toques de tambor, dança e continuado movimento corporal são tão usados em tão grande número de grupos religiosos primitivos. Os esforços e a excitação de manter a dança em progresso por muitas horas sem parar devem cansar e, se necessário, finalmente dominar até mesmo os mais fortes e mais obstinados temperamentos, que seriam capazes de resistir a simples conversa assustadora e excitante durante dias ou semanas.

A recente guerra também mostrou (208) que contínua experiência de combate ativo, com seu ruído, excitação, medo e perda de peso e sono, com o tempo produz colapso em todos os tipos temperamentais. Embora o quadro inicial de colapso possa diferir, a fase inibitória final de exaustão de combate, tão bem descrita por Swank (209) e muitos outros, é bastante constante na maioria dos tipos comuns de pessoas. Portanto, se esses princípios fisiológicos básicos forem compreendidos, deverá ser possível chegar à mesma pessoa, convertendo-a e mantendo-a em sua nova crença pela imposição de toda uma variedade de pressões que acabam por alterar sua função cerebral de maneira semelhante. Certos indivíduos, porém, podem ser inesperadamente resistentes a métodos aprovados. Na Carolina do Norte, um homem de compleição robusta assistiu aos serviços “revivalistas” de sua comunidade, que incluíam dança abreativa, canto e excitação de grupo, praticamente todo domingo durante nove anos, na esperança de obter a experiência de repentina conversão e salvação, que quase todos os seus companheiros já tinham obtido por esses métodos. Até então, a salvação não lhe havia sido concedida, apesar de todos os esforços, mas ele não perdera o ânimo. Provavelmente era do temperamento fleumático, que, como Pavlov descobriu, só podia ser perturbado em animais quando se juntava debilitação física ou castração e outras pressões.

Outro assunto de pesquisa promissora é o seguinte: que estímulos psicológicos provocadores de medo são mais adequados aos diferentes tipos temperamentais e aos diferentes ambientes e culturas? Poucos homens categorizados de Oxford, no tempo de Wesley, por exemplo, parecem ter sido perturbados por suas ameaças de fogo do inferno, que os deixaram em geral imunes aos Sermões da Universidade proferidos por Wesley como Membro do Lincoln College. No entanto, com essas mesmas ameaças de condenação eterna, Wesley conseguiu fazer com que muitos mineiros dissolutos e incultos da Cornualha e de Gloucester abandonassem seu consolo anterior, que era o gim barato, e levassem vida limpa de sóbrio serviço à coletividade. Todavia, quase duzentos anos mais tarde, outro evangelista, Frank Buchman, conseguiu certo sucesso com alguns homens de Oxford convidando-os para reuniões de pequenos grupos nas quais os encorajava a confessar publicamente pecadilhos sexuais que pesavam em sua consciência e assim obter um sentimento de graça. Psiquiatras também descobriram como esse assunto pode ser útil para aumentar tensão ansiosa, que pode ser continuada se necessário até o paciente ficar mais sugestionável e incapaz de repelir o assalto final à cidadela de suas crenças anteriores. Contudo, enquanto os psicoterapistas geralmente tratam indivíduos sobre o divã, Buchman muitas vezes trabalhava com pequenos grupos escolhidos sentados informalmente à volta da mesa do chá. Atualmente os próprios psicoterapistas estão começando a usar esses métodos de grupo e encorajar a discussão em grupo da vida sexual de seus pacientes, mas diferentes interpretações são dadas depois, de modo que se criam crenças diferentes. A ameaça sempre presente de ser queimado vivo por heresia era muito eficaz na Idade Média para finalidade de doutrinação, do mesmo modo como a ameaça de eliminação o é nos estados comunistas de hoje. Este aspecto particular de nosso problema — descobrir os pontos sensíveis certos — poderia constituir todo um capítulo devido às variações encontradas em diferentes grupos, resultantes em parte do nível educacional e do condicionamento anterior das pessoas envolvidas.

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A Prevenção de Conversão, Lavagem Cerebral e Confissões

Há necessidade também, tanto na Grã-Bretanha como nos Estados Unidos, de mais pesquisa sobre os meios existentes para resistir à conversão política. Nem sempre se pode fazer oposição a poderosas técnicas fisiológicas e mecanísticas por meio de serena aceitação intelectual de doutrinas religiosas ou filosóficas. Alguns estadistas e chefes militares parecem acreditar que, existindo o necessário patriotismo e adequado treinamento, um homem decente pode resistir a qualquer assalto feito contra a fortaleza de sua integridade seja por fascistas, comunistas ou qualquer outro fora da lei iludido. O que é absolutamente inverídico. Estamos pagando continuamente o preço desses erros de julgamento.

Certos princípios básicos surgem, porém, de um estudo do comportamento animal sob pressão e parecem igualmente relevantes em relação ao homem. Alguns desses já foram mencionados. Sutherland, por exemplo, acentuou a dificuldade encontrada para fazer sucumbir animais que não cooperam com o experimentador, em contraste com a facilidade para fazer sucumbir aqueles que procuram nobremente executar as tarefas que lhe são cometidas. (210) Quando um cão recusa taciturnamente prestar atenção às luzes cintilantes e outros sinais de alimento destinados a seu condicionamento, seu cérebro permanece não afetado; consequentemente Pavlov costumava levar seus cães à plataforma de experiência em estado de fome, esperando fixar a atenção deles em sinais que pudessem ser seguidos por alimento. Os seres humanos, como os cães, não sucumbem quando recusam simplesmente enfrentar um problema ou tarefa a eles apresentado ou praticam uma ação evasiva antes de dar-lhe oportunidade de perturbar seu equilíbrio emocional. Quem recusa cooperar em qualquer técnica de conversão ou lavagem cerebral e, ao invés de prestar atenção ao interrogador ou pregador, consegue concentrar-se mentalmente em algum problema completamente diferente, resiste por mais tempo. Um bom exemplo é Kim de Kipling, que resistiu à hipnose indiana pela rememoração desesperada das tábuas de multiplicação inglesas. O coronel R. H. Stevens, capturado pela gestapo em 1940 quando em serviço especial na Holanda, foi acorrentado à parede de sua cela de prisão alemã “como um cão” durante dois anos em uma tentativa de destruir seu moral. Achou valioso dar à sua memória a tarefa de reconstruir a casa onde vivera na infância “aposento por aposento até os mínimos detalhes, os padrões das cortinas, os ornamentos sobre a lareira, os livros na biblioteca”. (211) As autoridades militares tanto britânicas como americanas insistem com razão em que os prisioneiros de guerra devem recusar cooperar militar ou politicamente com seus captores ou responder a quaisquer perguntas depois de dar seu nome, posto, número de serviço e data de nascimento. Qualquer incerteza quanto ao grau de cooperação legítima desejável com o inimigo leva a dificuldades e muitas vezes a colapso. O coronel Stevens descobriu que “a coisa que eles pareciam detestar era uma espécie de ar frio e digno, expressando certo grau de desprezo por tudo”. A adoção dessa atitude ajudou-o a sobreviver não apenas em seu período acorrentado à parede em confinamento solitário, mas também em outros três anos no campo de concentração de Dachau.

Eminente perito médico-legal vem dizendo, extra-oficialmente, nos últimos vinte anos: “Se os suspeitos, quando interrogados pela polícia, se empenhassem em responder apenas às perguntas que lhes fossem apresentadas por escrito através de seus advogados e de ninguém mais o que não é mais que seu direito legal — haveria realmente muito poucas provas policiais de crime”. E os advogados sabem há muito tempo como é difícil condenar alguém que não seja possível convencer a falar. No entanto, muitos suspeitos, normalmente respeitadores da lei, mesmo quando culpados, deixam-se convencer facilmente a assinar as mais danosas confissões voluntariamente devido a excessivo desejo inicial de cooperar com a polícia e responder a toda espécie de perguntas difíceis e profundas sem um advogado ao lado para dizer: “Meu cliente se reserva sua explicação sobre o alegado incidente”.

O grau de “cooperação” ou “transferência” fisiológica que pode ser estabelecido entre o investigador policial e o cidadão sob interrogatório, o pregador e sua congregação, ou o orador político e seus ouvintes é vital para o problema. Quem se deixa estimular a medo ou cólera por político, padre ou policial é muito mais facilmente levado a aceitar o desejado padrão de “cooperação”, embora isso possa ir contra seu discernimento normal. Os obstáculos que o catequizador religioso ou político não pode vencer são a indiferença ou o divertimento alheado, controlado e continuado por parte do paciente, diante dos esforços que estão sendo feitos para submetê-lo, conquistá-lo ou tentá-lo à discussão. A segurança do mundo livre parece, portanto, residir no cultivo, não apenas da coragem, da virtude moral e da lógica, mas também do humor: humor que produz o estado bem equilibrado em que se ri do exagero emocional por achá-lo feio e inútil.

Nas touradas, os primeiros esforços do matador e seus auxiliares são dirigidos no sentido de excitar, aborrecer e frustrar o touro, a fim de cansá-lo e assim torná-lo mais sugestionável e impressionável. O matador precisa “dominar” o touro para levá-lo a fazer o que é exigido dele na fase final: isto é, seguir os movimentos da muleta vermelha com a obediência de quem está em transe. Um “bom” touro que recebe os aplausos populares quando é finalmente arrastado morto para fora da arena é aquele que “coopera” tornando-se o mais agressivo possível quando atraído pelas capas e ferido nos músculos do ombro pela lança do picador e os dardos farpados do “banderillero”. É mantido sempre em movimento até estar emocional e fisicamente exausto, e só quando não consegue mais manter erguida sua cabeça é que o matador aplica o coup-de-grâce com um estocada de sua espada entre as omoplatas relaxadas.

Um “mau” touro — a menos que um defeito físico, como cegueira parcial, o impeça de seguir os movimentos da capa ou da muleta — é aquele que recusa ficar excitado e assim consegue evitar exaustão e sugestionabilidade. Até recentemente, o tratamento para touros fleumáticos eram banderillas de fuego — um tipo de dardo, com explosivo na ponta, que os fazia corcovear e pular por toda a arena — mas esse recurso é agora proibido. O terror do matador é, portanto, o touro que não pode ser levado ao pânico pelos meios tradicionais, que pareça continuar pensando por si próprio e seja assim imprevisível em suas reações. Quando eventualmente morto, depois de ter muitas vezes mandado seu matador para o hospital ou a sepultura, ou retirado da arena por ordem de um presidente prudente, é seguido por assobios, rugidos e pragas. O “bom” touro é, de fato, aquele que se poderia considerar (atribuindo-lhe sentimentos humanos) imune à provação com que se defronta, confiante em sua coragem, em sua cólera fácil diante de coisas que lhe desagradam, sua grande força física, sua capacidade de lutar até o fim. O “mau” touro é aquele dotado de instinto de conservação mais forte que a obstinada noção do dever.

Não se deve levar tão longe tal analogia. Serve ela, porém, para acentuar que algumas pessoas são convertidas contra sua vontade porque insistem em fazer o que consideram “a coisa certa” e se dispõem a combater o que muito mais sabiamente deveriam evitar ou ignorar. Suas energias deviam, pelo contrário, ser dedicadas a manter uma linha de total não cooperação, apesar de seu orgulho e de uma inclinação natural a provar sua coragem e força contra aqueles que tentam provocá-las.

Entre os que foram mais capazes de preservar seus padrões e crenças nos campos de concentração alemães durante a Segunda Guerra Mundial incluíram-se os membros da seita das Testemunhas de Jeová. Esse grupo religioso pacifista tem muitas crenças estranhas, mas elas foram implantadas com tanta força e certeza por seus líderes religiosos que permanecem atuantes quando a continuada debilitação e degradação psicológica já reduziram outras pessoas dos mais elevados ideais, mas sem lealdades específicas, à aceitação dos mais baixos conceitos de moral individual e coletiva. Uma garantia contra a conversão é, com efeito, uma ardente e obsessiva crença em algum outro credo ou modo de vida. A história mostra que soldados bem doutrinados e treinados podem ser tão bravos e obstinados quanto as Testemunhas de Jeová. Um dos prosélitos de Wesley, o corajoso John Evans, “quando a bala de canhão arrancou suas duas pernas na batalha de Fontenoy, concitou todos quantos o cercavam, enquanto foi capaz de falar, a louvar, e temer a Deus, e honrar o Rei, como quem não temesse outra coisa senão desperdiçar em vão seu último alento”.(212) Em grupos de pessoas, a moral é de suprema importância, pois quando fatigados os indivíduos geralmente se tornam muito mais sugestionáveis às atitudes alheias coletivas corajosas ou covardes.

Já se tornou evidente que a vítima da tentativa de lavagem cerebral ou obtenção de confissão deve fazer o máximo, quando possível, para não perder peso devido a preocupação ou submeter-se a cansaço desnecessário; e deve aprender a dormir sempre que possível. Pessoas de temperamento fleumático e fortes, de compleição física robusta, que são mentalmente bem ajustadas com um ponto de vista sobre a vida bem firmado e feliz, têm probabilidade de resistir por mais tempo que aquelas dotadas de poucas dessas qualidades ou desprovidas de todas elas.

É uma ilusão acreditar que o conhecimento intelectual do que está acontecendo possa sempre impedir que um homem seja doutrinado. Depois de ficar exausto e sugestionável, ou de seu cérebro entrar nas fases paradoxais ou ultraparadoxais, a percepção pode ser perturbada; mesmo o conhecimento do que o espera pode ser de pouca valia para evitar o colapso. Posteriormente ele racionalizará as crenças recém implantadas e oferecerá a seus amigos explicações sinceras e absurdas sobre os motivos de sua tão repentina mudança de atitude. Os deprimidos mentais sabem muito bem, em seus períodos de lucidez, que tão logo ocorra novo ataque perderão toda percepção racional na insensatez de suas ideias depressivas. Os prisioneiros políticos deviam perceber igualmente que, depois de uma falha provocada na função cerebral, seu discernimento normal será prejudicado ou inteiramente perdido; e que, tão logo se vejam ficando sugestionáveis, devem fazer todo esforço para fugir a mais pressão. Acima de tudo, devem lembrar-se de que a cólera pode ser um meio poderoso para aumentar a sugestionabilidade, tanto quanto o medo e a culpa.

Acentuando a importância de mais pesquisa sobre todo este problema, deve-se ressaltar mais uma vez que o conceito de força de vontade e de capacidade de qualquer indivíduo para resistir a um período indefinido de pressões fisiológicas, que podem ser hoje impostas tanto ao corpo como ao cérebro, encontrou pouco apoio científico tanto na paz como na guerra. Estaremos apenas nos iludindo se pensarmos que, com exceção de raríssimos indivíduos, alguém seja capaz de resistir imutável até o fim. Isso não significa que todas as pessoas possam ser genuinamente doutrinadas por tais meios. Algumas darão apenas submissão temporária às exigências que lhe forem feitas e voltarão a lutar quando recuperarem a força do corpo e da mente. Outras serão salvas pela superveniência da loucura. Ou a vontade de resistir poderá ceder, mas não o intelecto propriamente dito.

Como foi mencionado em um contexto anterior, a fogueira, o patíbulo, o pelotão de fuzilamento, a prisão ou o manicômio são os destinos geralmente reservados aos que falham.

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Capítulo XI

Conclusões Gerais

Como o propósito deste livro foi discutir possíveis aspectos fisiológicos de conversões políticas e religiosas, não há necessidade de apresentar desculpas pelo seu limitado tratamento mecanístico. As experiências de Pavlov são apenas um dos meios de lançar luz sobre um problema fascinante. Existem outros meios, entre os quais estudos bioquímicos e elétricos da função cerebral normal e anormal. Muitas experiências serão ainda necessárias antes que possam ser tiradas conclusões finais e enquanto isso os pontos de vista precisam ser constantemente revisados à medida que surgem novos conhecimentos. Resta também ainda muita coisa a aprender pelo emprego de outros processos (213), entre os quais o estudo dos mesmos fenômenos com bases filosóficas e espirituais; o autor sabe muito bem, por exemplo, que comer uma lauta ceia e adotar uma postura supina na cama não explica tudo quanto se precisa saber a respeito do subsequente pesadelo. Dessa pesquisa, porém, nada se inclui no âmbito do presente livro, que reconhecidamente cria muitos problemas novos enquanto tenta resolver os velhos.

É, no entanto, um paradoxo moderno que o progresso científico rápido muitas vezes ocorra quando um campo de pesquisa experimental é deliberadamente limitado. Durante séculos, a medicina foi, de fato, controlada por aqueles que usavam um amplo e compreensivo sistema de metafísica escolástica para explicar todas as formas de doença; no entanto, resultou pouco progresso no diagnóstico ou tratamento das doenças. A partir do momento em que a classe médica decidiu esquecer suas preocupações metafísicas — que significava concentrar a atenção sobre o homem inteiro em sua posição ambiental e religiosa — e simplesmente se dispôs a examinar os mecanismos funcionais dos pulmões, coração, fígado e finalmente o próprio cérebro, começou seu estupendo progresso prático do presente. Durante centenas de anos antes disso, até mesmo o estudo da anatomia era considerado desnecessário como auxiliar da medicina; os filósofos escolásticos se diziam capazes de explicar satisfatoriamente o suposto funcionamento do corpo, assim como da mente. A atitude médica da Idade Média fazia lembrar, de fato, algumas opiniões psicológicas contemporâneas, como a de que um conhecimento satisfatório da metapsicologia basta para explicar o que muitas vezes podem ser os resultados variados de função normal e anormal do cérebro. De tempos a tempos, as várias partes precisam ser reagrupadas em um novo todo; mas é aí que frequentemente surgem os perigos de generalização errada.

Newton, sendo no íntimo um filósofo, mais interessado em profecia bíblica e alquimia que nas leis mecânicas da gravidade, pensava que suas descobertas haviam contribuído pouco para o cabedal de conhecimento humano. No fim de sua vida acusava a si próprio de ter vagabundeado pelas praias de um vasto oceano de conhecimento e brincado com algumas pedrinhas e conchas. No entanto, mais de dois séculos depois, ainda nos encontramos sem conhecimento filosófico da gravidade, embora suas simples fórmulas mecânicas, elaboradas por Newton, se tenham demonstrado de inestimável valor prático. E ainda nos defrontamos com o problema de Newton: qual o melhor lugar onde concentrar a pesquisa sobre problemas referentes à mente do homem? Inúmeros pensadores navegaram bravamente por um oceano filosófico muito largo, apenas para se verem presos em um mar dos Sargassos de emaranhadas algas e insuspeitados recifes de inelutáveis fatos físicos. Este livro é um simples mariscar pela praia, mas um exame das pedrinhas e conchas recolhidas talvez sugira o valor de concentrar-se às vezes mais no trabalho do próprio cérebro na pesquisa psiquiátrica, do que explorar o oceano metafísico à procura de mistérios ocultos. Por meio de uma reunião de estudos mecanísticos e fisiológicos relativamente simples, ficou aqui demonstrado que não apenas certos métodos de conversão religiosa e política — seja praticada em grupos ou em indivíduos — mas também alguns dos resultados da psicanálise, da abreação por droga e das terapias de choque no tratamento de pacientes doentes, podem começar a ser melhor compreendidos em suas relações mútuas. (214)

Uma nova concentração sobre a fisiologia cerebral e a mecânica cerebral deverá enfraquecer a fé e as crenças religiosas? Pelo contrário, melhor compreensão dos meios de criar e consolidar a fé permitirá que as organizações religiosas se expandam muito mais rapidamente. O pregador pode ficar certo de que quanto menos misteriosamente “Deus executa seus prodígios”, mais fácil será dar ao povo conhecimento essencial e amor de Deus. O homem não pode e não deve tentar existir sem alguma forma de religião, mas convém acrescentar que, embora seja perfeitamente possível doutrinar pessoas com ideias baseadas em uma tradição econômica e histórica antiquada ou mesmo com deliberadas mentiras, e mantê-las fixadas nessas crenças, a saúde e eficiência de uma nação dependem de estreita relação entre prática social e crença religiosa. Qualquer contradição entre elas só pode contribuir para criar tensão mental e prejudicar julgamento. Não existe alternativa para o Cristianismo como religião do Mundo Ocidental, mas provavelmente será necessário colocar os incidentes do Novo Testamento em perspectiva histórica menos ambígua; consolidar as lições do sacrifício de Cristo pelos pecados de Seu povo; reforçar os textos fundamentais de “Teme a Deus” e “Ama teu próximo como a ti mesmo”; dar a eles verdadeira validade social e política; e assim tornar desnecessário que o homem de negócio, o operário ou o sacerdote seja vítima de uma dissociação entre seus atos e sua profissão.

Boswell, em seu “London Journal” (215) relata uma conversa que teve com o dr. Johnson a respeito de Wesley: “Falamos sobre a pregação e do grande sucesso que os metodistas tiveram. Ele (Johnson) disse que isso era devido a pregarem de maneira simples e vulgar, que era a única maneira de fazer bem à gente comum. (…) Disse que falar da embriaguez como um crime, porque degrada a razão, a mais nobre faculdade do homem, não prestará serviço ao vulgo. Mas dizer-lhe que poderia morrer na embriaguez e mostrar como isso seria horrível o afetará muito”.

O dr. Johnson tinha razão; para assegurar tais prosélitos é preciso dominá-los emocionalmente. Contudo, não estamos mais no século XVIII. Então não parecia importante o que a gente comum acreditava por que ela não exercia poder político e devia apenas trabalhar, não pensar; e por que ela não lia livros ou jornais. Hoje, porém, a conversão religiosa ao fundamentalismo parece antiquada; em uma nação moderna e sadia todos precisam ter uma mente que não seja “uma casa dividida de fé e razão”, como o falecido Pope tão sabiamente chamou o fenômeno da dissociação religiosa, e ninguém pode rejeitar, como mentiras nocivas, os fatos aceitos da geologia, arqueologia e biologia. Se este livro ofendeu as suscetibilidades religiosas ou éticas de algum leitor, apesar de meus esforços para evitar tal coisa, permitam-me apresentar como desculpa a necessidade de maior compreensão, pelo maior número possível de leitores inteligentes, do poder e da relativa simplicidade de alguns dos métodos aqui discutidos. Para promover a verdadeira religião, preservar nosso modo de vida democrático e nossas liberdades civis duramente conquistadas, precisamos aprender a reconhecer que esses mesmos métodos estão sendo usados para finalidades triviais ou más, e não para finalidades nobres.

No entanto, a ciência, por mais explorada que seja por soldados, mercadores e políticos, é muitas vezes uma disciplina negativa; a religião, a ética e a política devem ser fortemente positivas. Portanto, depois de aprender a tornar o cérebro humano resistente às tensões e pressões, a torná-lo mais capaz de pensar e aprender com a experiência e a dirigi-lo de novo, quando desorientado, para o equilíbrio religioso e ético, os médicos sem dúvida se contentarão em sentar-se e ficar observando os sacerdotes e políticos executarem seu trabalho apropriado e, esperamos, com muito menos necessidade que atualmente de tantos guardas de presídio e policiais. Os médicos — se é que eu posso falar em nome de minha classe — certamente não se dizem capazes de formular uma nova dispensação religiosa ou política; sua função é simplesmente aprender como proporcionar a saúde que permita lutar pela mais adequada de tais dispensações e conquistá-la.

Embora os homens não sejam cães, devem procurar humildemente lembrar-se de que se assemelham muito aos cães em suas funções cerebrais e não se ufanarem como semideuses. São dotados de apreensões religiosas e sociais, e são dotados do poder da razão; mas todas essas faculdades estão fisiologicamente ligadas ao cérebro. Portanto, não se deve abusar do cérebro impondo-lhe à força qualquer mística política ou religiosa que tolha o desenvolvimento da razão ou qualquer forma de cru racionalismo que tolha o desenvolvimento do sentimento religioso.

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Apêndice

Considerações Sobre a Mistificação Religiosa em Tempos Recentes

Por Nélson Jahr Garcia

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Introdução

Meu interesse pela comunicação persuasiva começou cedo. Era ainda criança quando acompanhava meu pai às reuniões do PRT (Partido Republicano Trabalhista). Achava interessante aqueles políticos que não diziam coisa alguma, mas o faziam com absoluta segurança e convenciam. Ajudava meu pai a distribuir cédulas, afixar cartazes, etiquetas que se colavam nos postes e paredes. Assistia, também, aos discursos de palanques que seduziam tanta gente e eu não compreendia por quê. Aprendi cedo que os políticos em geral são egoístas, falsos, mentirosos, mas conseguem incrível adesão e apoio dos incautos.

Chegou 1966, entrei na Faculdade do Largo São Francisco, em menos de um mês filei-me ao PAR (Partido Acadêmico Renovador) onde me ofereci para trabalhar nas campanhas dos candidatos ao Centro Acadêmico XI de Agosto. Creio ter feito um bom trabalho.

Vieram os anos mais difíceis da ditadura militar, trabalhei em campanhas de desmoralização do governo, ajudei a criar “slogans”, organizar passeatas, até a derrubar cavalariços repressores.

Mais ou menos nessa época contestava movimentos religiosos que me pareciam idênticos aos políticos, a mesma falsidade, exploração dos ingênuos, enriquecimento indevido.

Início da década de 70, comecei a lecionar na ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP), onde acabei estudando, fazendo mestrado e doutoramento. Aprendi muito graças à Sociologia, Antropologia e Psicologia; mesmo porque a chamada “Ciência da Comunicação”, apesar do nome pomposo, não existe até hoje, é só um conglomerado indefinido de conceitos de outras áreas do conhecimento.

Conheci os livros e textos de William Sargant sobre lavagem cerebral, conversões religiosas, confissões. Resolvi conhecer na prática e passei a frequentar cultos, reuniões políticas, pregações. Anotava, meditava e tentava concluir. Não posso chamar de pesquisa porque mal cheguei a formular uma metodologia rigorosa, posso chamar de observações. Passo a relatar algumas poucas.

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Billy Graham

Meados dos anos 70. Anunciava-se a vinda de Billy Graham ao Brasil. Falava-se nas esquinas, proclamava-se na mídia, distribuíam-se folhetos. Iria falar no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Havia comentários de que no Reino Unido e nos EUA, seus ouvintes rolavam no chão, tentando apagar as chamas do inferno que sentiam consumi-los. Houve arrependimentos, conversões, milagres; ao final, os ouvintes corriam desesperados em direção ao pregador pedindo absolvição de pecados e salvação.

Com esses relatos, criava-se o clima de “suspense” cujo poder de manipulação foi bem descrito por William Sargant.

Chegou o dia, fui. Estava inseguro e temeroso, devo confessar, mas valeu a pena, aprendi muito.

Estádio lotado. Billy só chegaria cerca de uma hora depois, reforçando o “suspense”. Enquanto isso alguns assistentes falavam sobre pecados, arrependimento, salvação e outras bobagens que tais.

Finalmente chegou o esperado. Impressionou-me. Era um homem bastante alto (para os padrões brasileiros), olhar incisivo, braços e dedos longos, fisionomia marcante (lembrando um pouco Orson Welles). Seu aspecto físico é importante, quando ele olhava e apontava em uma direção, embora abrangesse um ângulo significativo de pessoas, cada uma (inclusive eu) sentia como se fosse aquela a quem estava se dirigindo, exclusivamente. Incrível como alguém consegue falar a muitos como se fosse a cada um.

Trazia uma Bíblia nas mãos.

Ficou alguns minutos em silêncio, apenas olhando a multidão sem dizer nada; criava mais “suspense”.

Com voz tonitruante começou: “o mundo vai terminar”, apontou o livro e repetiu: “está escrito aqui que o mundo vai terminar, quando e como ninguém sabe, mas vai terminar”.

Repetiu várias vezes, em tons de voz diferentes. Acrescentou enfim que o mundo iria terminar, ninguém sabia quando, mas algumas pessoas escolhidas perceberiam os sinais do fim dos tempos. Concluiu, sugerindo ser um escolhido, que sentia que o fim dos tempos “é agora” (is now).

Argumentava, sempre indicando a “Holy Bíble”, com fatos concretos. Dizia que, segundo o Apocalipse, o fim dos tempos seria precedido da queda de enormes bolas de fogo que destruiriam cidade inteiras. Perguntava se não era a perfeita descrição, feita milhares de anos antes, das bombas atômicas agora existentes. Seguia dizendo que no fim dos tempos haveria guerra fratricidas, em que irmãos matariam irmãos, sem causas que o justificassem e perguntava se não era a perfeita descrição do Vietnã. Insistia ainda que as mulheres trairiam seus maridos, que os filhos não respeitariam os pais e perguntava se não era o que ocorria a todo o tempo. Tudo isso, olhando e apontando e olhando para a multidão, alguns dos espectadores coravam e tremiam.

Depois de repetir exaustivamente argumentos semelhantes concluía pela necessidade de salvação, de arrependimento, de se converter à fé.

Insistia em que, se estivesse errado, mas algum dos presentes saísse e sofresse um acidente grave, para ele, naquele dia, seria o fim dos tempos.

Afinal pediu um aceno por aqueles que quisessem a salvação.

Face ao que havia conseguido no Reino Unido e nos EUA, no Brasil foi um fracasso explicável. Sua pregação era traduzida simultaneamente, e os gestos não coincidiam com as palavras. Alem disso, os brasileiros nunca se importaram nem um pouco com bombas atômicas ou a Guerra do Vietnã.

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Ritos afro

Não tive muitas experiências com cultos de origem africana. Uma amiga, baiana, levou-me a conhecer Umbanda e Candomblé. Não vi nada de novo do que já conhecia, palmas, tambores, músicas, agitações, convulsões. Impressionei-me com um fato: diferentemente de outros cultos, não me pediram um centavo sequer.

Só me esvaiu essa impressão mais tarde. Era fim de ano (o tal de Réveillon). Estávamos eu e amigos no Rio de Janeiro. Terminada a ceia um colega me convocou a participar das cerimônias em homenagem a Iemanjá. Fomos. Deixei dinheiro e documentos escondidos no carro e fui à praia (Copacabana, posto 6). O amigo sumiu. Aproximei-me de uma mãe de santo alegando estar com problemas na vida. Passei a tomar passes, um pouco embriagado de champanhe. A mulher passava as mãos no meu corpo, concentrando-se nos bolsos. Eu, levemente embriagado, comecei a rir, tentando conter-me, porque sabia que não encontraria nada. Difícil mesmo era suportar os pequenos goles de pinga e baforadas de charuto obrigatórios. A mulher empolgou-se com meu riso acreditando que eu estaria possesso, as mãos vasculhavam com afoiteza maior, inútil. Vi várias pessoas sendo possuídas e com prejuízo.

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Pregações

Minha frequência a cultos religiosos, para observar as formas pelas quais se praticavam os rituais, limitou-se àqueles que procuravam apelar intensamente para as emoções e sentimentos dos ouvintes. Abstraí portanto, as cerimônias da Igreja Católica e de algumas seitas protestantes que se mantiveram nos moldes tradicionais, de práticas repetitivas, discretas, com apelos dirigidos à razão; aquelas que a imprensa chegou a denominar de “a igreja do Deus de paletó e gravata”.

Também assisti a inúmeras pregações que eram retransmitidas por rádio ou pela TV, apesar de que nesse formato perdiam muito de sua força persuasiva e de envolvimento emocional.

Não vou citar o nome dos templos e das seitas, mas o leitor pode facilmente se informar e descobrir por si.

Não vi nada de novo ou original. As práticas religiosas são praticamente idênticas às empregadas por John Wesley e outros revivalistas do século XVIII. E o que é incrível, os efeitos também são bastante semelhantes.

O ritualismo segue algumas fases, relativamente constantes.

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Início do ritual

Abre-se o “templo”, entram as primeiras pessoas, começa a tocar uma música ritmada e repetitiva, com um ritmo de cerva de 60 batidas por minuto, próximo do ritmo cardíaco, que produz um certo efeito hipnótico (não encontrei referências científicas para esse fenômeno que, todavia, é mencionado por vários observadores).

Surge o pastor assistente, pregando com uma voz tranquila, pausada e ritmada (os americanos chamam de “voice roll”), aparentemente tentando hipnotizar os ouvintes.

Em muitos casos há um grupo de jovens e belas cantoras, eventualmente há rapazes também, cujos cantos ritmados envolvem os assistentes num clima de excitação.

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Chegada do pastor

Entra o pastor, sob gritos e ovações provocados pelos assistentes: “Aleluia”, “Glória a Jesus” etc.

Começa a pregação. O discurso apela para ameaças, castigos, acusações de culpa. O homem é um pecador é precisa se salvar antes que seja tarde, caso contrário, será devorado pelas chamas do inferno, haverá choro e ranger de dentes, o Armagedom (início do fim do mundo) já chegou.

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Testemunhos

Os testemunhos têm uma função importante nas cerimônias religiosas. É o momento em que pessoas comuns descrevem a forma pela qual se converteram à fé e como isso as curou ou salvou. Há os que descrevem sua dificuldade de andar devido à artrite e que a fé os permitiu andar normalmente. Outros conseguiram se livrar do vício de álcool ou drogas e passaram a conviver bem com a família. O desempregado conseguiu montar uma oficina para conserto de bicicletas e com isso devolveu bem estar à família.

A seguir o pregador chama aqueles que têm algum mal, pede que tenham fé, aperta-lhes a mão, pressiona-lhes a cabeça, abraça forte e pede à divindade que cure aquele piedoso.

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O clima

Nos tópicos acima descrevi situações objetivas, quase frias, mas não é assim. Todos os fatos mencionados são acompanhados de músicas intensas, gritos, braços levantados, tremores de mãos. O suspense está sempre presente, as pessoas são colocadas em estado de ansiedade constante, sem jamais saber qual será o próximo acontecimento. Geralmente estão sob jejum, são induzidas ao cansaço pela constância das palmas, danças vigorosas, cânticos intensos. Sensações de temor, culpa e necessidade de arrependimento são recorrentemente estimulados.

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Efeitos

As consequências dessas técnicas são conhecidas por muitos. Ainda jovem tinha um amigo, não devo mencionar seu nome, mas o apelido era “Xarope”, adquirido após uma conversão repentina. Era um rapaz normal, melhor dizendo comum, até ingressar em uma determinada seita. Ficou insuportável, pegava cigarros dos amigos, jogava ao chão e pisava em cima. Revistas pornográficas, tão comuns entre o pessoal da geração, ele as pegava e rasgava furiosamente. Insistia frequentemente que fora um pecador que encontrara a salvação pela fé. Pregava o tempo todo; em pouco tempo os amigos se afastaram. Não sei o que ocorreu com ele depois, afastei-me também.

Essas conversões são incrivelmente rápidas e não ocorrem apenas em religiões, são frequentes em setores para-religiosos como a TFP (Tradição Família e Propriedade) em partidos políticos radicais, nas Forças Armadas, academias de arte marcial, algumas escolas.

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Lucratividade

A fé tornou-se um “produto” altamente lucrativo. Donativos frequentes, oriundos de fiéis de todas classes sociais, proporcionaram uma acumulação de riquezas extraordinária por parte de líderes religiosos. Chegou-se mesmo a vender perdão de pecados (“indulgências”) que revoltaram Lutero levando-o a criar o protestantismo.

Durante séculos a Igreja Católica foi a grande multinacional da fé, dominando o mercado religioso em todo o mundo ocidental. Em tempos recentes começou a sofrer a concorrência de outras seitas. Os evangélicos adquiriram redes de rádio e TV, jornais, revistas. Os cultos, antes realizados em pequenos templos, passaram a ser realizados em grandes estádios desportivos, tornaram-se espetáculos. A concorrência ficou tão acirrada como a que existe entre supermercados. Em São Paulo, região da Consolação, ocorreu um fato pitoresco; um templo, denominado Igreja do 14o dia, era dirigido por um pastor e sua esposa; separaram-se e a esposa criou, em local próximo, a Igreja do 15o dia.

Como ocorre com as redes de lojas, os templos se expandem a cada dia, inúmeros galpões e armazéns transformam-se em varejistas da fé, e as fortuna circulam como águas de enchentes.

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Igreja Católica

A Igreja Católica sempre empregou recursos persuasivos fortes. Sem falar nas técnicas radicais da Inquisição, que resultaram nos crimes mais hediondos, havia recursos mais discretos. A grandiosidade das igrejas, o aparato dos gestos e vestimentas dos sacerdotes, o latim como língua obrigatória, os ritmos dos sinos frequentes (na missa ou fora delas), o incenso a contaminar o ar ambiente, os cânticos, as orações em alta voz. Todo esse arsenal, porém, tornou-se repetitivo, cansou. O catolicismo tornou-se formal e burocrata. Com o papa Leão XXIII surgiram mudanças, criaram-se encontros os mais diversos (casais, jovens etc.). Passaram a tocar e cantar músicas modernas, abandonou-se o latim. Com o papa Paulo VI, um dos mais conservadores e reacionários dos últimos tempos, tudo voltou atrás. A Igreja perdeu fiéis, sacerdotes abandonaram os votos, seminários esvaziaram-se. Recentemente, porém, surgiu o Padre Marcelo Rossi, uma espécie de caricatura dos evangélicos. Voltaram as músicas modernas, multiplicaram-se os gritos, o erguer de braços e agitação de mãos. Aprenderam que os apelos emocionais, à luz da Psicologia e da Psiquiatria, permitem obter melhores resultados que as práticas provenientes das teorias filosóficas de São Tomas de Aquino ou Santo Agostinho. O Vaticano, numa postura estranha, mantém-se conivente. O resultado é sugestivo, multidões comparecem aos cultos. Ainda não há curas milagrosas, exorcismos ou convulsões, talvez seja questão de aguardar um pouco.

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Notas

Obs: Várias notas se reportam a outras, repetindo-as portanto, nesses casos o leitor deve verificar a numeração.

(1)-(4)-(67)-(74) — W. Sargant: “The Mechanism of Conversion” – British Medical Journal, II, 311; 1951.

(2)-(175) — P.O.W. – The Fight Continues after the Battle. Relatório da Comissão Consultiva da Secretaria de Defesa sobre Prisioneiros de Guerra – U. S. Government Printing Office, Washington; 1955.

(3)-(96) — Koestler – The God that Failed – Seis estudos sobre o comunismo. Hamish Hamilton, Londres; 1950

(5)-(7)-(14)-(15)-(17)-(18)-(26)-(28)-(44)-(45) — I. P. Pavlov – Lectures on Conditioned Reflexes, Vol. 2, Conditioned Reflexes and Psychiatry. Trad. inglesa com introdução de Horsley Gantt – Lawrence & Wishart, Londres; 1941.

(6)-(25)-(27) — H. Fabing em comunicação pessoal.

(8)-(11)-(32)-(36)-(38)-(39)-(43)-(59)-(60)-(61) — W.Sargant e H.J. Shorvon “Acute War Neurosis: Special Reference to Pavlov’s Experimental Observations and and Mechanism of Abreaction” – Arch. Neurol. Psychiat. Chicago. LIV, 231; 1945.

(9) —  J. S. Horsley — “Narco-Analysis: A New Technique in Short-cut Psychotherapy. A Comparison with Other Methods” – Lancet. 1,55; 1936.

(10)-(214) — William Sargant — “Some Observations on Abreaction with Drugs” – Dig. Neurol. Psychiat. XVI, 193; 1948.

(12) —Despertar do fervor religioso, mediante campanha ou reuniões com esse propósito.

(13)-(70)-(204)-(205) — W. Sargant — “Some Cultural Group Abreaction Techniques and their Relation to Modern Treatment” – Proc. Roy. Soc. Med XLII, 367; 1949.

(16) — W. Cordon – Soviet Studies, III, 34 – Universidade de Glasgow; 1951-52.

(19) — Y. P. Frolov – Pavlov and His Scholl. Tradução inglêsa de C. P. Dutt-Kegan Paul, Trench, Trubner, Londres; 1938.

(20) — B. P. Babkin – Pavlov. A Biography – Gollancz, Londres; 1951.

(21) — J. Wortis – Soviet Psychiatry – The Williams & Wilkins Co., Baltimore; 1950.

(22) — E. A. Asratyan – I. P. Pavlov. His Life and Work (tradução inglesa) – Foreign Languages Publishing House, Moscou; 1953.

(23) — I. P. Pavlov – Selected Works – (tradução inglesa) – Foreign Languages Publishing House, Moscou; 1955.

(24) — G. Ekstein, em comunicação pessoal.

(29)-(34) — C. Symonds — “The Human Response to Flyng Stress” – Brit. Med. J., 11, 703; 1943.

(30) — R. L. Swank — “Combat Exhaustion” – J. Nerv. Ment. Dis., CIX, 477; 1949.

(31)-(54)-(79) — R. R. Grinker e J. P. Spiegel – War Neurosis in North Africa. The Tunisian Campain (January-May, 1943) – Josiah Macy, Jr. Foundation, New York; 1943.

(33)-(35) — B. L. Swank e B. Cohen — “Chronic Symptomatology of Combat Neurosis” – War Med., VIII, 143; 1945. H. L. Swank e E. Marchand — “Combat Neurosis. Development of Combat Exhaustion” – Arch. Neurol. Psychiat., LV, 236; 1946.

(37) — E. L. Spears — “Prelude to Victory” – Jonathan Cape, London; 1939.

(40)-(49) — W. Sargant — “Physical Treatment of Acute War Neurosis: Some Clinical Observations” Brit. Med. J., II, 574; 1942.

(41) — H. B. Craigle — “Physical Treatment of Acute War Neuroses” (Correspondência) – Brit. Med. J., II, 675; 1942.

(42) — Proc. Roy. Soc. Med., XXXIV, 757; 1941.

(46) — Suetônio: History of Twelve Caesars, traduzida por Philemon Holland (1610) – Broadway Translations, Geo. Routledge; Londres.

(47) — W. Gordon: “Cerebral Physiology and Psychiatry” – Journ. Ment. Sci., XCIV, 118; 1948.

(48) — R. R. Madden; Phantasmata or Illusions and Fanaticisms of Protean Forms Productive of Great Evils, vols. I e II. – T. C. Newby, Londres, 1857.

(50) — J. Breuer e S. Freud: Studies in Hysteria, 1893, traduzido por A. A. Brill – Nerv, and Ment. Dis. Publishing Co., Nova York; 1936.

(51) — W. S. Sadler: Theory and Practice of Psychiatry, Henry Kimpton, Londres; 1936.

(52) — M. Culpin: Psychoneuroses of War and Peace, Cambridge University Press; 1920.

(53) — W. Brown: Psychological Methods of Healing. An Introduction to Psychotherapy, University of London Press; 1938.

(55) — H. A. Palmer: “Abreactive Tecniques — Ether”, J. Roy. Army Med. Corps, LXXXIV, 80; 1945.

(56) — D. P. Penhallow: “Mutism and Deafness due to Emotional Shock cured by Etherisation”, Boston Med. & Surg. J., CLXXIV, 131; 1915.

(57) — A. Hurst: Medical Diseases of War, Edward Arnold, Londres; 1940.

(58)-(62)-(131) — H. J. Shorvon e W. Sargant; “Excitatory Abreaction: Special reference to its Mechanism and the use of Ether”, J. Ment. Sci., XCIII, 709, 1947.

(63) — P. Janet – Principles of Psychoterapy – Macmillan, Londres; 1925.

(64) — C. H. Rogerson: “Narco-Analysis with Nitrous Oxide” – Brit. Med. J., I, 811; 1944.

(65) — L. J. Meduna: Carbon Dioxide Therapy – Chas. C. Thomas, Springfield, Illinois; 1950.

(66) — J. L. Simon e H. Taube: “A Preliminary Study of the use of Methedrine in Psychiatric Diagnosis” – J. Nerv. Ment. Dis., CIV, 593, 1946.

(68) — B. C. M. Sundkler: Bantu Prophets in South Africa – Lutterworth Press, Londres; 1948.

(69) — V. Cerletti e L. Bini: “L’elettroshock” – Arch. Gen. Neurol Psichiat. Psicoanal.” XIX, 266, 1938.

(71) — M. Sakel: “The Pharmacologieal Shock Treatment of Schizophrenia” (Nerv. & Ment. Dis. Monogr. Series no.” 62), Nervous and Mental Desease Publishing Co., Nova York, 1938.

(72) — W. Sargant: “Indications and Mechanisms of Abreaction and its Relations to the Shock Therapies” – Internat. Psychiat. Cong. (1950) Proc., IV, 192, Hermann et Cie., Paris, 1952.

(73) — Robert Graves em uma comunicação pessoal.

(75) — E. Moniz: “Tentatives opératoires dans le traitement de certaines psichoses” – Masson et Cie., Paris, 1936.

(76) — B. Ström-Olsen e P. M. Tow: “Late Social Results of Pre-frontal Leucotomy” – Lancet, I, 87, 1949.

(77) — G. Rylander: “Personality Analysis Before and After Frontal Lobotomy”, em The Frontal Lobes – Williams & Williams, Baltimore; 1948.

(78) — J. Pippard: “Personality Changes after Rostral Leucotomy: A comparison with standard leucotomy” – J. Ment. Sci., CI, 425; 1953.

(80) — G. Wesley – The Journal of John Wesley, vol. II, edição clássica preparada por N. Curnock – Charles H. Kelly, Londres; 1909-16.

(81) — J. Wesley: The Journal of John Wesley, vol. II, edição clássica preparada por N. Curnock – Charles H. Kelly, Londres; 1909-16.

(82) — Pessoa que promove “revival”, campanha destinada a despertar fervor religioso.

(83) — H. Nicolson: Good Behaviour – Constable, Londres; 1955.

(84) — “Durante muito tempo meu espírito aprisionado ficou
Firmemente preso pelo pecado e pela noite da natureza;
Teu olho difundia um raio inspirador.
Eu acordei, o calabouço resplandecia de luz;
Meus grilhões caíram, meu coração estava livre,
Levantei-me, avancei e Te segui.”

(85)-(101)-(108)-(120) — R. A. Knox: Enthusiasm: A Chapter in Religious History – Clarendon Press, Oxford; 1950.

(86)-(111)-(173)-(201)-(203) — W. L. Doughty: John Wesley – Preacher – Epworth Press, Londres; 1955. Diário, de Wesley, vol. V. Ver nota 3 na pagina 104.

(87) — Diário, de Wesley, vol. II.

(88)-(89) — Diário, de Wesley, vol. II.

(90) — A “lei” neste contexto incluiu a certeza de que o fogo do inferno aguarda o pecador que não se salvou.

(91)-(212) — L. Tyerman: Life and Times of Rev, John Wesley, M. A. 3 vols. – Hodder & Stoughton, Londres; 1871.

(92)-(113)-(116)-(129)-(138) — Life of Wesley, de Tyerman, citada por W. James em The Varieties of Religious Experience – Longmans, Green, Londres; 1914.

(93)-(94) — C. Smyth: Simeon and Church Order – Cambridge University Press; 1940.

(95) — A. Koestler: Arrow in the Blue – Hamish Hamilton, Londres; 1952.

(97)-(98) — A. Koestler: The Invisible Writing – Hamish Hamilton, Londres; 1954.

(99) — P. Verger: Dieux d’Afrique – Kaul Hartmann, Paris; 1954.

(100)-(103) — M. Deren: Divine Horsemen. The Living Gods of Haiti – Thames and Hudson, Londres; 1953.

(102) — Sra. B. Chilver, em comunicação pessoal.

(104) — G. Bolinder: Devilman’s Jungle, tradução de M. A. Michael – Dennis Dobson, Londres; 1954.

(105) — J. G. Frazer: The Golden Bough. A Study in Magic and Religion – Abridged edition, Macmillan, Londres; 1950.

(106) — Ver capítulo I.

(107) — Quaker, em inglês, deriva-se do verbo “quake”, que quer dizer “tremer”.

(109) — George Fox: The Journal of George Fox – Everyman edition, Dent, Londres.

(110) — H. Harrer: Seven Years in Tibet, tradução de Richard Graves – Rupert Hart-Davis, Londres; 1953.

(112) — Ben Johnson – Pelays. Everyman edition – Dent, Londres; 1948.

(114) — John Wesley era, coisa bastante interessante, grande crente no tratamento elétrico embora não aplicado até o ponto de produzir convulsão. Uma garrafa de Leyden que era usada para esse fim pode ser vista no Museu Wesley, City Road, Londres. A partir de 1756, clínicas especiais para esse tratamento foram instaladas em Moorfields, Southwark, St. Paul’s e Seven Dials. Wesley escreve em tom quase moderno.

“Centenas, talvez milhares, receberam indizível bem; e eu não conheço um único homem, mulher ou criança, que tenha recebido algum mal, com isso; de modo que, quando ouço falar no perigo de ser eletrificado (especialmente se são médicos que falam), não posso senão atribuir isso à grande falta de senso ou de honestidade.”

Diz ainda mais:

“Sabemos que são milhares de remédios em um só; em particular, que é o remédio mais eficaz cm distúrbios nervosos de toda espécie, que já foi até hoje descoberto.”

Wesley é citado em Life of Wesley de Terman.

(115) — A. D. de Pirajno: A Cure for Serpents: A Doctor in Africa, tradução de Kathleen Naylor – André Deutsch, Londres; 1955.

(117) — D. Hill: Capitulo IV de Physical Methods of Treatment in Psychiatry, de W. Sargant e E. Slater, 3a. edição – E. & S. Livingstone, Edinburgh; 1954.

(118) — A. Huxley: The Doors of Perception – Chatto & Windus, Londres; 1954.

(119) — L. Alexander: Treatment of Mental Disorders – W. B. Saunders, Filadelfia; 1953.

(121) — G. Salmon: The Evidence of the Work of the Holy Spirit (Com um apêndice sobre o Movimento Revivalista no Norte da Irlanda) – Hodges Smith, Dublin; 1859.

(122) — P. F. Kirby: The Grand Tour in Italy 1700-1800 – S. F. Vanni, Nova York; 1952.

(123) — J. F. C. Hecker: The Epidemics of the Middle Ages, traduzido por B. G. Babington – Sydenham Soc., Londres; 1844.

(124) — E. L. Backman: Religious Dances in the Christian Church and in Popular Medicine – Allen & Unwin, Londres; 1952.

(125)-(136)-(137) — J.Edwards – A New Narrative of the Revival of Religion in New England with Thoughts on that Revival. Com um ensaio introdutório de John Pye Smith. D. D. – Wm. Callins Glasgow, 1829.

(126) — F. Youssoupoff – Loste Splendour. Traduzido por A. Gren e N. Katkoff – Jonathan Cape, Londres; 1953.

(127) — G. R. Taylor – Sex in History – Thames and Hudson, Londres; 1953.

(128) — Robert Graves, em uma comunicação pessodi.

(130) — H. Leuba — “Amer. J. Psychology”, VII, 345, 1895.

(132) — Robert Graves, em uma comunicaçao pessoal.

(133)-(135) — F. W. Farrar – Eternal Hope – Macmillan, Londres, 1878.

(134) — Artigo sobre o dr. Billy Graham na revista Time, LXIV, 38, 1954.

(139) — E. Wilson. em uma crítica a The Rungless Ladder Harriet Beccher Stowe, de C. H. Forster Duke University Press – The New Yorker, XXXI, 125; 1955.

(140) — C. G. Finney – Lectures on Revivals of Religion (13a. edição) – Simpkin. Marshall, Londres; 1840.

(141) — Meus pensamentos giram em torno de assuntos medonhos, Condenação eterna e os mortos:
Que horrores dominam a alma culpada, Em um leito de morte!

Andando devagar por essas praias mortais
Ela se demora muito,
Até que, como uma enchente, com rápida força,
A morte arrebata os maus.

Depois, rápida e tremenda, ela desce
Até a ardente costa,
Entre os abomináveis demônios,
Ela própria um fantasma atemorizado.

Lá multidões sem fim de pecadores jazem
E a escuridão forma seus grilhões;
Torturados com intenso desespero eles gritam,
Esperando, porém, sofrimentos ainda mais atrozes.

Nem toda sua angústia e seu sangue
Expia sua culpa passada,
Nem a compaixão de um deus
Dará ouvidos a seus gemidos.

(142) — Maravilhosa graça, que me prendeu o fôlego,
Não afastou minha alma,
Até eu ficar sabendo da morte de meu Salvador
E ter bem garantido seu amor.

(143) — W. S. Sprague – Lectures on Revivals of Religion. Com introdução do rev. G. Redford e rev. J. Angell. 2a. edição – Wm. Collins, Glascow; .1833.

(144)-(159) — Apuleius – The Golden Ass. Tradução de R. Graves – Penguin Books, Londres; 1950.

(145)-(174) — George Orwell – Nineteen-Eighty-Four – Seeker & Warburg, Londres; 1949.

(146) — Somerset Maughan – Don Fernando – Heinemann, Londres, 1950.

(147) -(157)-(207) — A. Huxley – The Devils of Loudon – Chatto & Windus, Londres. 1952.

(148) — Robert Graves, em uma comunicação pessoal.

(149) — L. S. B. Leaky – Defeating Mau Mau – Methuen, Londres; 1954.

(150) — The Times, 1o. de setembro de 1955.

(151) — The Times, 1o. de novembro de 1955.

(152) — Han Suyn – A Many Splendoured Thing – Jonathan Cape, Londres; 1952.

(153) — Revista Time, 5 de março de 1956.

(154) — R. L. Walker – China Under Comunism – Allen & Unwin, Londres; 1956.

(155) — Ver as reuniões de classe de Wesley no capítulo X.

(156) — The Times, 16 de maio de 1956.

(158)-(162) — G. Thomson — “Aeschylus and Athens”. 2a. edição – Lawrence & Wishart, Londres, 1946.

(160) — J. E. Harrison – Prolegomena to the Study of Greek Religion – Cambridge University Press; 1922.

(161) — V. Magnion – Les Misteres d’Eleusis – Paris; 1950.

(163) — Pausânias — “Description of Greece” vol I Tradução com comentário, de T. D. Frazer – Macmillan, Londres, 1898.

(164) — Plutarco — “Um Discurso a Respeito do Demônio de Sócrates”, em Plutarch’s Miscellanies and Essays. Traduzido do grego por várias mãos. Corrigido e revisto por William Goodwin, 6a. edição, vol. II – Little, Brown, Boston, Mass., 1889.

(165) — Estrabo IX, 418.

(166) — Suetônio – Calígula, XXIX.

(167) — Dioscórides – De Matéria Médica, IV. 148-9.

(168) — Pausânias – X, 361.

(169)-(170) — Plínio – Natural History, XXV, 23 a 27.

(171)-(177)-(190)-(195) — A. Weissberg — “Conspiracy of Silence” – Hamish Hamilton, London; 1952.

(172) — Z. Stypulkowski — “Invitation to Moscow” – Thames and Hudson London; 1951.

(176) — Texto completo citado em The Observer – Londres, 10 de junho de 1956.

(178) — The Observer, Londres, 29 de julho de 1956.

(179) — C. D. Lee — “The Instrumental Detection of Deception. The Lie Test”. Monografia da Série The Police Science, Compilada por V. A. Leonard – Charles C. Thomas, Springfield, Illinois; 1953.

(180) — Uma resposta falsa, mas muito positiva, foi por exemplo, dada por um suspeito, que observava uma moça tomar banho de sol, despida, através da janela da delegacia de polícia.

(181) — Police Magazine, III, 5 de setembro de 1925.

(182) — D. W. Winnicott — “Mind and its Relation to the Psyche-Soma” – Brit. J. of Medi. Psychol., XXVII, 201; 1954.

(183)-(184) — E. Jones – Sigmund Feud; Life and Work. 2 Vols. – Hogarth Press, Londres; 1955.

(185) — A. Farrar-Hockley — “The Spirit in Jeopardy”. Texto transmitido pela BBC, em 2 de janeiro de 1955.

(186) — Malleus Maleficarum. Traduzido para o inglês, com introdução bibliografia e notas pelo rev. Montague Summers – Pushkin Press, Londres, 1948.

(187)-(188)-(189) — J. Caulfield – Portraits, Memoirs and Characters of Remarkables Persons. 2 vols. – R. S. Kirby, Londres; 1813.

(191) — J. S. Henderson – Report of Inquiry into Conviction of Timothy Evans, and A Supplementary Report – H. M. Stationery Office, Londres; julho e setembro de 1953.

(192) — M. Eddowes – The Man on Your Conscience – Cassel, Londres; 1955.

(193) — Lord Altrincham and I. Gilmour – The Care of Timothy Evans – Special Spectator Publication, 1956.

(194) — The Times, Londres, 18 de maio de 1956.

(196) — F. Beck and W. Godin – Russian Purge and the Extraction of Confession. Traduzido para o inglês por E. Mosbacher e D. Porter – Hurst & Blackett, Londres, 1951.

(197) — R. Sabatini – Torquemada and the Spanish inquisition. 7a. edição – Stanley Paul, Londres; 1039.

(198) — Eis a descrição da ameaça de tortura feita a Joana d’Arc pelos Inquisidores, mas não aplicada. Contudo, ela foi queimada viva mais tarde; “Em 9 de maio, levaram-na para a grande torre, onde ele (Cauchon) a esperava com Lemaitre e nove Doutores. Os instrumentos de tortura foram-lhe exibidos, e, junto deles, os torturadores: Mauger, Leparmentier e seus assistentes. Achava-se também presente o usual corpo de greffiers de douleurs e notaires d’angoisse, exercitados na indispensável arte de apanhar confissões dos incompreensíveis guinchos das vítimas. Monsieur de Beauvais deu-lhe tempo bastante para compreender a natureza dos instrumentos reunidos: polias e cordas, manivelas e o cavalete, malhos e funis, ganchos, grelhas, facas, espetos, botas de tortura, tenazes, bem como os braseiros que ardiam nas sombras. Então, como diz em seu relato da cena, Joana foi solicitada e aconselhada a dar cabal explicação de certos pormenores, sob pena de ser entregue aos funcionários, que por nossa ordem aqui estão prontos para submetê-la a torturas e assim forçá-la a voltar ao caminho da verdade e a reconhecê-lo, de modo que se assegure a salvação de sua alma e de seu corpo, postos em grande perigo por seus inveterados erros.” L. Fabre – Joan of Arc – Odhams Press, London; 1954.

(199) — S. Told – The Life of Mr. Silas Told Written by Himself. Com uma nota para o leitor sério e imparcial, por John Wesley, A. M. 1786 – Reimpresso pela Epworth Press, Londres – 1954.

(200) — Mesmo até 1800 ainda havia na Inglaterra mais de 200 crimes, puníveis por enforcamento público. Ver A. P. Herbert – Mr. Gay’s London – Ernest Benn, Londres; 1948.

(202) — M. Piette – John Wesley in the Evolution of Protestantism – Sheed & Ward, Londres; 1938.

(206) — M. R. Brailsford – A Tale of Two Brothers: John and Charles Wesley – Rupert Hart-Davis, Londres, 1954. Um escravo redimido da morte e do pecado,
Um ramo cortado do fogo eterno.
Como conquistarei triunfos iguais
E cantarei em louvor de meu grande Libertador?

(208) — Ver capítuloII.

(209) — Ver capítuloII.

(210) — C. Sutherland, em uma comunicação pessoal.

(211) — R. H. Stevens – The Spirit in the Cage — “script” de rádio para a BBC, março de 1947.

(213) — Por exemplo, J. A. M. Meerloo en “The Rape of the Mind” estudou recentemente o fenômeno da lavagem cerebral política tanto do ponto de vista pavloviano como do psicanalitico. J. A. M. Meerloo – The Rape of the Mind. The Psychology of Thought Control Menticide and Brainwashing – World Publishing Co., Nova York, 1956.

(215) — Boswell’s London Journal, 1762-63. Compilado por F. A. Pottle – Wm. Heinemann Londres; 1950.

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Nestas referências não se incluem as que já foram mencionadas nas notas

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