Psicografia de Chico Xavier colocada à prova

“A verdade que fere é pior do que a mentira que consola… entenda quem puder”
– O Evangelho de Chico Xavier (2000)

“E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”
– João 8:32

Foge do escopo de Ceticismo Aberto discutir crenças religiosas, mas é essencialmente parte do escopo deCeticismo Aberto discutir crenças sobre fenômenos supostamente paranormais ou sobrenaturais. Alguns deles se relacionam, sim, com religiões, e é no contexto de analisar criticamente sua suposta paranormalidade que os abordamos.

Introdução mais do que necessária ao discutir aqui supostos feitos extraordinários de Francisco Cândido Xavier. Tido como médium reconhecido principalmente pelas mensagens “psicografadas”, em qualquer análise cética de sua obra o trabalho do criminologista e grafoscopista Carlos Augusto Perandréa deve ser considerado. Em 1990 Perandréa publicou no periódico científico da Universidade Estadual de Londrina, Semina, estudo comparando um bilhete de Ilda Mascaro Saullo, falecida em 1977, com uma mensagem “psicografada” por Chico Xavier no ano seguinte.

Suas conclusões são categóricas:

“A mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier, em 22 de julho de 1978, atribuída a Ilda Mascaro Saullo, contém, conforme demonstração fotográfica, em ‘número’ e em ‘qualidade’, consideráveis e irrefutáveis características de gênese gráfica suficientes para a revelação e identificação de Ilda Mascaro Saullo como autora da mensagem questionada. Em menor número, constam, também, elementos de gênese gráfica, que coincidem com os existentes na escrita-padrão de Francisco Cândido Xavier”. [ênfase adicionada]

Um trabalho de um reconhecido criminologista, revisado por pares, publicado em uma revista científica de uma grande instituição acadêmica, afirmando haver características “irrefutáveis” para identificar uma mensagem escrita por Chico Xavier como também sendo de autoria de uma mulher falecida meses antes? A ciência comprova a psicografia?

Muitos pensam e afirmam que sim, motivo pelo qual devemos avaliar a alegação.

Não tão pares

Como Vitor Moura já havia atentado em sua análise do caso Ilda Mascaro Saullo, os comentários dos revisores do trabalho de Perandréa são reveladores: nenhum deles avalia tecnicamente o trabalho em si mesmo. Um deles defende a publicação com base na “possibilidade de identificação da autoria de mensagens espirituais” ressaltando que “o autor abstém-se de vincular sua descoberta a qualquer fato juridicamente relevante” – o periódico dedicava seu número a assuntos jurídicos. O outro recomendou a publicação baseada na “confiabilidade científica e ética, moral” do próprio Perandréa, confiando nos “grandes conhecimentos técnicos” do mesmo Perandréa.

Aparentemente nenhum deles avaliou a grafoscopia em si mesma, e o caráter científico do estudo devido à sua publicação em um periódico revisado por pares se torna menos sólido.

Como uma avaliação crítica centrando-se à parte técnica do trabalho resultaria? Perandréa publicou logo depois o trabalho como um livro, “A psicografia à luz da grafoscopia” (Editora Jornalística Fé, 1991), e recentemente Moizés Montalvão, embora tampouco seja um perito em grafoscopia, divulgou uma análise extremamente interessante da obra: “Psicografia à luz da grafoscopia: o que Perandréa não viu

Gramas

Em sua análise, Perandréa destaca as semelhanças. Como exemplo, entre a forma como Ilda escreveu “Ortensio”, e como Chico a psicografou:

“No cotejamento dos vocábulos [abaixo], constata-se perfeita igualdade nas letras ‘t’, bem como nos gramas de ligação entre os símbolos ‘r’ para ‘t’, ‘t’ para ‘e’, ‘e’ para ‘n’.”

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Curiosa similaridade. Como Montalvão nota, contudo:

“’Ortensio’ é constituído de 8 letras e 7 gramas (ligações entre as letras. O técnico encontrou equivalência em uma letra (t) e em três gramas. O que nos leva a supor que não houve semelhança em 7 das 8 letras e em 4 dos 7 gramas. Ou seja, cerca de 75 por centro está diferente. Ainda assim ele considerou o resultado positivo!”.

A crítica se estende, e renovamos nossa indicação de sua leitura. Escrita de forma clara e honesta – Montalvão deixa claro não ser um grafoscopista logo de início – qualquer leigo pode notar que a grafoscopia não é uma ciência muito exata. Onde Perandréa procura semelhanças, Montalvão busca as diferenças. E há muitas diferenças.

Aos que querem acreditar, a segunda conclusão de Perandréa – a de que a escrita-padrão do próxio Xavier se mesclou na psicografia – explicaria todas as diferenças. E as semelhanças permaneceriam comprovação “considerável e irrefutável” de que Ilda Mascaro escrevera do além através das mãos do médium.

Há entretanto uma diferença que não pode ser atribuída razoavelmente à “gênese gráfica” de Chico Xavier.

Teresa

No trecho inicial de sua carta usada para comparação, Ilda Mascaro escreve ao filho, Ortensio, e à nora, Teresa.

chicoxavier ildamascaro03 paranormal fortianismo destaques

A linha inicial da mensagem “psicografada” por Xavier é diferente, não apenas na forma das letras, mas na forma como o nome da nora é soletrado: “Thereza”.

“Considerando-se a hipótese de ter havido comunicação mediúnica, o fato equivale à demonstração de que a falecida ‘esquecera’ como se escrevia o nome da nora (por Ilda chamada ‘filha querida’)”! É claro que por essa linha de raciocínio o caso se complica”, nota Montalvão. Destaque-se ainda que Perandréa, ao contrário de Montalvão, não faz nenhum comentário sobre esta discrepância.

Ainda que na grafia original de Ilda com algum esforço se possa entender um “h” depois do “T”, não há dúvida de que “Teresa” foi redigido com “s”. Assim como não há dúvida que Xavier escreveu “Thereza”, com “Th” e “z”. Alguns meses após o falecimento, Ilda teria mesmo esquecido como grafava o nome da filha querida? Seria ainda outro exemplo do médium interferindo na mensagem? Até que ponto toda diferença poderá ser atribuída a tal justificativa, e toda semelhança a algum fenômeno sobrenatural ou paranormal?

Os que querem acreditar têm todo o direito de acreditar, mas alegar um arcabouço claro e objetivo de que esta mensagem de Chico Xavier é irrefutavelmente identificada como provinda do espírito de uma pessoa falecida não parece razoável.

“Muito pouco de Ilda Mascaro se encontra na mensagem psicografada por Chico Xavier”, conclui a avaliação crítica de Montalvão.

Abaixo, da esquerda para a direita: trecho da mensagem “psicografada” por Xavier, recado de Ilda Mascaro e outra “ psicografia” de Xavier, de outro suposto espírito, completamente diferente.

chicoxavier ildamascaro02 paranormal fortianismo destaques

Confira: “Psicografia à luz da grafoscopia: o que Perandréa não viu”.

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