Osório Borba põe em xeque credibilidade de “Parnaso do Além-Túmulo”

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Osório Borba. Escritor e Crítico literário.

As fraudes nas mensagens espirituais divulgadas nos meios ditos “espíritas” no Brasil podem ser constatadas na medida em que os supostos espíritos-autores só conseguem se projetar dentro de seus meios. Fora do “espiritismo”, eles quase não repercutem ou, quando chegam a tal efeito, é da forma negativa de escândalo.

É o caso do suposto espírito do escritor Humberto de Campos, que, apropriado pelo entusiasmado leitor de livros, o médium católico Chico Xavier, virou “autor” de diversos livros produzidos pelo mineiro de Pedro Leopoldo, que no seu conteúdo contradizem, em qualidade artística, à obra que Humberto produziu em vida.

Só a título de exemplo temos o próprio best seller Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, com sérias falhas historiográficas sobre o Brasil, algumas demonstrações de racismo em suas passagens e uma narrativa que lembra mais contos de fadas de valor muito duvidoso. Muito abaixo da vibrante e ilustrada obra que Humberto havia produzido em vida.

Há denúncias que este livro, na verdade, esconde plágios de outras obras. Mesmo o satírico livro Brasil Anedótico, que Humberto lançou em 1927, teve trechos reescritos, como que num plágio sutil, em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, que, pasmem, foi lançado sob o pretexto de ser um livro “sério” sobre a predestinação global da nação brasileira.

Humberto havia criticado, no final de sua breve vida, o livro Parnaso do Além-Túmulo, que Chico Xavier lançou em 1932, e, embora tenha se admirado com a “semelhança” estilística com a dos autores em vida, mesmo assim levantou dúvidas sobre a autenticidade de autoria das mesmas.

Há fortes indícios de que o livro não tenha sido psicografado, mas, mesmo assim, em edições posteriores, Chico havia jogado o nome de Humberto de Campos para uma suposta mensagem mediúnica de prefácio nas edições posteriores do livro.

Um dado estranho, também, é que o conteúdo do livro variou conforme os anos, com o acréscimo gradual de “novos poemas” atribuídos a autores falecidos, até o ano de 1956, data da edição “definitiva” da obra publicada pela FEB. E, já em 1958, repercutiam denúncias de que um sobrinho de Xavier estaria colaborando na redação dos poemas.

Mas, já no meio da década de 1940, o escritor pernambucano Osório Borba havia pensado em publicar um livro desmascarando o Párnaso do Além-Túmulo. Ele, Cid Franco e o jornalista e espírita José Herculano Pires foram visitar Chico Xavier em Pedro Leopoldo. Herculano Pires é um espírita bem mais cauteloso e, como tradutor dos livros de Allan Kardec, é o único a manter fidelidade aos textos originais do professor francês.

No regresso a Belo Horizonte, num bar, conforme relatou o próprio Herculano em 1973, Osório decidiu que irá publicar o livro desmascarando a antologia “espírita”. “Vou pro­var que o Chico é um pasticheiro, seja consciente ou inconsciente. Ele me impressionou bem, mas tenho de provar isso. Meu livro está quase pronto”, disse.

Vários casos de supostos autores espirituais (que vão de Casimiro de Abreu a Luiz de Camões) foram comentados na conversa no bar. De repente, quando a discussão surgiu em torno de Augusto dos Anjos, Osório fez o seguinte comentário:

“Está aí um ponto curioso. Chico o pasticha bem, mas cometeu em Parnaso de Além-Túmulo um engano imperdoável: atribuiu a Antero de Quental o soneto Número Infinito, que pastichou para Augusto”, disse.

Osório, que havia trabalhado, em Recife, nos periódicos Diário da Tarde, Diário da Manhã e o famoso Diário de Pernambuco, no Rio de Janeiro, nos jornais Diário Carioca, Jornal do Commercio, A Manhã, Diário Carioca, Diário de Notícias e a Esquerda, e, em São Paulo, no jornal O Estado de São Paulo, estava indignado com o lapso cometido por Chico Xavier.

Embora Herculano Pires, em sua boa-fé, havia visto autenticidade nas autorias atribuídas, sobretudo a de Augusto dos Anjos, Osório mantinha sua indignação, prometendo lhe enviar cartas sobre sua análise e publicar o livro.

Aparentemente, nem as cartas foram enviadas e nem o livro foi lançado. Osório faleceu aos 60 anos, em novembro de 1960, sem editar a prometida obra. Provavelmente, o assunto “morreu” porque o carisma de Chico, que aparentemente “venceu” uma batalha judicial contra os herdeiros de Humberto de Campos, já havia crescido mesmo sob uma tempestade de polêmicas.

No entanto, Osório havia escrito críticas severas ao livro, em diversos artigos, como se observa neste que ele escreveu em outro periódico em que colaborou, o Diário de Minas, de Belo Horizonte, em agosto de 1958:

As pessoas que se impressionam pela ‘semelhança’ dos escritos ‘mediúnicos’ de Chico Xavier com os deixados pelos seus indigitados autores, ou são inteiramente leigas sem maior discernimento em matéria de literatura, ou deixaram-se levar ligeiramente por uma primeira impressão. Se examinarem corretamente a literatura psicográfica verão que tal semelhança é de pastiche, mais precisamente, de caricatura. O pensamento das psicografias é absolutamente indigno do pensamento dos autores a quem são imputados, e a forma em geral e a técnica poética, ainda piores. E há inúmeros casos de parodia e repetição de temas, frases inteiras, versos, além dos plágios”. 

A revolta de um renomado intelectual e crítico literário dá um tom muito forte às dúvidas da credibilidade de Párnaso do Além-Túmulo. E que também causou indignação a outros especialistas, diante das contradições e falhas observadas na comparação dos estilos desses poemas “espirituais” com o que seus respectivos supostos autores produziram em vida.

Isso é duplamente grave. Do âmbito espiritual, porque um espírito nunca iria regredir em estilo e manifestação de sua inteligência quando deixa o corpo carnal. Pelo contrário, sua inteligência se torna mais evidente e acentuada, quando sai dos limites do corpo físico. E não iria se limitar à produção monotemática relacionada a abordagens religiosas sobre “vida eterna” e “fraternidade”.

Do âmbito da vida de cá, num país como o Brasil, com pouco estímulo à leitura regular e criteriosa de livros, somente poucos percebem as contradições de livros como Párnaso do Além-Túmulo e Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.

Mesmo pessoas que leem muitos livros mas não têm ainda o senso de discernimento desenvolvido, são capazes de cair em ciladas assim, de usar a fé e nas “palavras de amor” como critérios de legitimação de obras “espirituais”.

Tudo parece lindo, mas, se tais obras causam o protesto ácido de profundos conhecedores de literatura, é bom ficar de olho aberto e desconfiar das “lindas mensagens” dos livros espiritólicos. Amor não inocenta fraude.

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