VÁRIOS PADRES PEDÓFILOS EM PORTUGAL…EPIDEMIA

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A Rede de Cuidadores, que denunciou a existência de vários padres pedófilos em Portugal, admite enviar em breve um relatório sobre o assunto ao Papa Francisco. Até porque, segundo Catalina Pestana – que lidera aquela organização de apoio a vítimas de pedofilia –, o novo líder da Igreja portuguesa, D. Manuel Clemente, ainda não mostrou empenho em debater uma situação, que “tem sido sistematicamente escondida pela hierarquia ao longo de anos”.

“Fomos informados de que o novo Patriarca de Lisboa nos receberia após tomar posse, mas até agora não houve qualquer contacto formal ou informal” – lamenta Catalina Pestana, explicando que o objectivo do encontro dos responsáveis da Rede de Cuidadores com D. Manuel Clemente é pedir uma intervenção mais firme da Igreja perante os casos suspeitos. “Continuam a chegar-nos denúncias. Ainda na semana passada, um homem adulto, já casado e com filhos, contou-nos os abusos de que foi vítima no seminário”.

Para enviar o documento para a Santa Sé, Catalina Pestana e Álvaro de Carvalho, o médico psiquiatra que também pertence aos órgãos dirigentes da Rede, aguardam apenas o resultado da importante reunião que irá decorrer na próxima semana no Vaticano, entre o Sumo Pontífice e os oito cardeais por ele nomeados para reformar a Igreja (ver caixa). Isto porque daqui poderão resultar orientações claras para as hierarquias das igrejas nacionais, quanto à forma de actuar em relação a suspeitas de pedofilia.

“Em Portugal, a hierarquia insiste que a pedofilia não é um problema”, sublinha Catalina, referindo-se a várias atitudes dos altos responsáveis do clero – como o ex-Patriarca D. José Policarpo que garantiu nunca ter tido conhecimento de casos de pedofilia, quando nas mãos do Ministério Público estavam oito suspeitos de abuso sexual no seio da Igreja. “Foram considerados como relevantes, mas tiveram de ser arquivados por meras questões de prazos” – explica Álvaro de Carvalho, recordando várias situações como a de um padre da Cruz Quebrada que foi indiciado por abusar de dois escuteiros de 15 anos (mas que não pode ser acusado por os crimes terem prescrito) e a de um sacerdote que passou por várias paróquias de Lisboa e do Oeste e que terá abusado de dez jovens (casos também prescritos).

IGREJA REJEITA COMISSÃO

“A lei civil não pode fazer nada por eles e a hierarquia da Igreja não quer” – salienta a antiga provedora da Casa Pia de Lisboa, lembrando que, nesses casos investigados pelo Ministério Público, os padres apenas foram enviados para outras dioceses (um para Paris e outro para o Algarve).

Certo é que a Igreja continua a defender que em Portugal não se justifica a criação de uma comissão especial para analisar as denúncias de pedofilia, como sucedeu nos últimos anos em países como EUA, Brasil, Austrália, Irlanda, Holanda, Áustria e Bélgica, entre outros. “Nesses países, criou-se uma comissão específica por existirem muitos casos graves. Em Portugal, não se vê necessidade disso”, argumenta o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel Morujão.

O sacerdote garante que a Igreja está atenta ao problema e que em todo o país estão a ser aplicadas as novas directivas do Vaticano sobre o combate à pedofilia, aprovadas pelos bispos portugueses em Abril de 2012: “Cada diocese está a pôr em prática essas orientações, tendo órgãos próprios para averiguar todas as suspeitas”.

Também Saturino Gomes, especialista em Direito Canónico, acredita que as comissões não fazem sentido em Portugal. “O problema não tem dimensão”, diz, explicando que é ao bispo de cada diocese que cabe averiguar as denúncias, verificando antes de tudo a sua “credibilidade”.

Portugal em contacto com associações estrangeiras

Para os grupos de defesa das vítimas de pedofilia, porém, estas comissões têm ajudado a detectar milhares de casos em todo o mundo e a revelar a verdadeira dimensão do problema. Na Austrália, por exemplo, a Igreja admitiu, no início deste ano, a existência de 620 casos, depois de uma comissão parlamentar ter tomado em mãos a investigação de abusos em ordens religiosas. Na Holanda e na Áustria, também foram criadas recentemente (2010) comissões específicas: na Igreja holandesa foram identificados 800 pedófilos e na austríaca detectados 840 casos.

“Uma das coisas que esperamos que saia desta reunião do Papa, na próxima semana, é a definição do papel dos leigos no combate à pedofilia na Igreja” – esclarece Catalina Pestana, acrescentando: “A Rede de Cuidadores tem estado em contacto com representantes de outras associações de vítimas de abusos, italianas e latino-americanas, para ganhar força, partilhar preocupações e discutir as metodologias necessárias para acabar com esta epidemia que está coberta pela impunidade”.

Entretanto, o Papa Francisco – a quem a ONU solicitou, em Julho, um relatório sobre o encobrimento de casos e a assistência prestada às vítimas de pedofilia – vai dando sinais do seu firme combate a este crime. Menos de um mês depois de tomar posse, pediu “determinação” à Igreja contra o abuso de menores. Em Julho, alterou o código penal do Vaticano, agravando as penas para estes crimes e, na semana passada, destituiu um bispo peruano acusado de pedofilia e que pertencia à Opus Dei.

Outro sinal de que o combate à pedofilia é uma prioridade chegou através do Papa Emérito. Numa carta aberta publicada esta terça-feira no jornal Italiano La Repubblica, Bento XVI garantiu que nunca encobriu situações, confessou que tentou “desmascarar estas coisas” e avisou que a Igreja vai fazer “todos os possíveis para que tais casos não se repitam”.

catarina.guerreiro@sol.pt

joana.f.costa@sol.pt

http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=86840

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