OS MILAGRES DIANTE DA FÉ E DA CIÊNCIA

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MILAGRES – A ABORDAGEM DA PSICOLOGIA E DA TEOLOGIA

Miguel Chalub
É importante lembrar que a palavra milagre já traduz isso na sua etimologia: é um acontecimento que maravilha, que causa admiração. A palavra milagre tem a mesma raiz da palavra admiração: aquilo que causa espanto, que causa maravilha […] é atribuída a uma intervenção especial, à intervenção de um ente sobrenatural, Deus. Isso vai fazer com que seja um fato extraordinário, não abrangido pelas leis naturais, causando essa admiração […] Na cultura ocidental-cristã, as primeiras idéias do milagre estão na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento. O milagre é sempre mostrado como um sinal, um fenômeno, um testemunho. Isso está muito presente no Antigo Testamento e de- pois continua no Novo Testamento. No Cristianismo, o milagre é sempre visto como um sinal de Deus, sinal da presença divina, da intervenção divina, testemunho da providência divina, do cuidado de Deus, da ligação que Deus tem com o mundo. Curiosamente, em uma das origens do nosso pensamento – que é o Judaísmo, o pensamento rabínico –, dividiram- se os milagres em ocultos e revelados (ou reveladores) […] O ser humano que precisa do milagre para provar sua fé mostra uma fé tíbia, fraca, imatura. A fé dispensa o milagre. O milagre é um acontecimento que nada tem a ver com a fé. Essa idéia passou para o Cristianismo, mas sofreu uma bifurcação.
Dentro do Cristianismo, a primeira idéia é que o milagre cotidiano, o milagre oculto, é um pouco esquecido, e passa a ser milagre o fato extraordinário, a intervenção e a revelação de Deus. Deus não só intervém na natureza, como também se revela através dessa in- tervenção. Ou seja, o milagre é um demonstrativo da presença e da intervenção de Deus. Mas para que isso possa acontecer, já nos primeiros pensadores cristãos, na era patrística, alguns critérios foram estabelecidos, para separar o milagre do prodígio, que tinha idéia de coisa falsa, mentira, engano, ligado à magia e à superstição.
Para distinguir a intervenção verdadeira de Deus – o milagre –, os padres da Igreja, os pensadores do primeiro século da Era Cristã, estabeleceram alguns critérios que nos aproximam do pensamento psicológico a respeito do milagre. Por exemplo: é necessário que esteja de acordo com o caráter divino, ou seja, o milagre não pode ser um prodígio, não pode causar sério abalo na natureza, porque não seria simplesmente a expressão do arbítrio de Deus. É como se Deus quisesse provar a sua força e fosse capaz de derrogar a lei da na- tureza simplesmente para mostrar que ele é Deus, é o Todo-Poderoso. Isso, se ocorresse, seria um prodígio – explicações ainda misteriosas mas não ligadas à divindade. Então, para ser um milagre, tem de corresponder ao que chamamos o caráter de Deus, ou à personali- dade de Deus. Deus não é um mágico, não é um prestidigitador que faz maravilhas para os homens ficarem impressionados.
Outra característica do milagre é que ele tem que ensinar a verdade. O milagre só tem sentido se ensinar uma verdade. Os milagres do Novo Testamento, do Evangelho, são assim. Nenhum dos acontecimentos miraculosos se deu gratuitamente, para dizer que Jesus era “o tal”. Ele foi transmissor de uma verdade, algumas já conhecidas, do Antigo Testamento, e outras inauguradas pela nova fé, pela instauração do Cristianismo. Além disso, é preciso que o milagre esteja em harmonia com o já estabelecido. Os milagres têm que estar em harmonia com coisas já estabelecidas, tanto no sentido natural quanto no sobrenatural ou no preternatural. O milagre não pode estar totalmente em contradição com o que já está estabelecido. Teria que haver uma adequação aos fins religiosos. O milagre não é um ato de teatro, de circo, não é uma prestidigitação, mas deve adequar-se aos fins religiosos e traduzir um benefício para a salvação. Nós temos que encontrar no milagre qual é o benefício que ele traz para o ser humano. O milagre que não trouxesse nenhum benefício para a salvação não seria, em princípio, um milagre, mas talvez um prodígio.
Uma outra coisa importante a respeito do milagre é que ele não é propriamente uma anulação das leis naturais. Elas não podem ser anuladas. Ele seria uma suspensão episódica dessas leis e teria que ultrapassar qualquer força criada, ou seja, se aquele fenômeno pudes- se ser explicado por uma força criada, uma força natural, não poderia ser milagre. Em sua essência, teria que ultrapassar as forças criadas. Se as quatro forças fundamentais da física – o eletromagnetismo, a gravitação, a atração forte e a atração fraca – pudessem explicar o fenômeno, ele não teria ultrapassado forças criadas e, por isso, não seria um milagre. Poderia ser um fenômeno não explicado, um fenômeno cuja causalidade ainda está oculta, mas não seria um milagre.
Outra situação – e esta não é científica – refere-se aos chamados fenômenos preternaturais, que são fenômenos que vão além da natureza humana, mas ainda dentro da natureza criada. Não são milagres, porque o milagre, como já vimos, ultrapassa a natureza criada. Esses continuam tendo natureza criada, mas ultrapassam a natureza humana. Exemplifican- do, dentro de um perfil teológico, seriam intervenções de espíritos, anjos e almas humanas na realidade humana. É uma situação em que a ciência não opina, é difícil que um estudo científico rigoroso admita esse tipo de fenômeno. Enfim, isso não fica no reino da episteme, mas no reino da doxa, da crença. Quem quiser acreditar, que acredite. Quem é rigoroso na ciência não vai acreditar na existência de fenômenos preternaturais.
A finalidade do milagre é o milagre propriamente dito. O milagre no sentido comum tem a finalidade de acordar o ser humano para o milagre da Criação, já que o dia-a-dia faz com que o ser humano comece a se embrutecer, a não perceber como a existência é um milagre. Então, Deus interviria de vez em quando sobre a realidade para que o ser humano acorde.
O protestantismo tradicional – composto por protestantes, batistas, presbiterianos, metodistas e outros – não aceita o milagre. Esse milagre de intervenção, como o Catolicismo entende ainda hoje, é uma idéia de Santo Tomás. OS MILAGRES SE ENCERRAM NA ERA APOS- TÓLICA. Na verdade, não eram provas da veracidade do Cristianismo, mas frutos da própria época apostólica. Já o protestantismo pentecostal recupera a idéia do milagre como fato portentoso, extraordinário, mas dentro de uma visão bastante ligada às necessidades da vida, a enriquecimento ou saúde. Evidentemente, NÃO HÁ NENHUMA CRÍTICA À ORIENTAÇÃO PROTESTANTE, MAS SABEMOS QUE ELES VOLTARAM A ADMITIR O MILAGRE, APESAR DESTE NÃO FAZER PARTE DA TEOLOGIA PROTESTANTE TRADICIONAL.
É interessante, no pensamento católico, a questão dos santos. Nós sabemos, pelo me- nos no Catolicismo popular, que os santos fazem milagres, possivelmente por intercessão junto a Deus. Isso é uma questão de teologia até para crianças. Em termos de milagre, existem os santos atuais e os santos antigos. Quase sempre, os milagres são feitos pelos santos atuais. OS SANTOS ANTIGOS SÃO ESQUECIDOS, NÃO FAZEM MILAGRES. Quando estava preparando esta palestra, vi uma referência à Santa Nicoleta, de quem eu nunca ouvira falar. Antigamente, era altamente milagrosa. Agora se esqueceram da Santa, e ela não faz mais milagres. Ninguém faz novena ou reza para ela. Foi esquecida ou não intervém mais. Os que intervêm são os santos do século XX. Eles estão movendo Deus, para que Deus intervenha. Mas é verdade que existem santos perenes, como Santo Antônio. Ele está sempre fazendo milagres.
Pergunto: por que será que só os santos atuais fazem milagre, e os santos antigos não fazem? É claro que isso está ligado a um fenômeno puramente psicológico, que é o fenômeno da divulgação, do conhecimento. A MENTALIDADE É ESSA: “SÓ PODE FAZER MILAGRE SANTO QUE EU CONHEÇA. SANTO QUE NÃO CONHEÇO NÃO FAZ MILAGRE.” O que demonstra como, de maneira transversa, sou a causa segunda do milagre. Só quando conheço o santo acredito que ele resolva certos assuntos. Se a moça é casadoira, vou pedir a Santo Antônio – e não a São Jorge – que arrume marido para ela. Na verdade, quem vai arranjar marido é ela mesma, através da convicção de que pode arranjar um. Santo Antônio fica com a fama. Isso é um pouco folclórico, apenas um episódio para ilustrar o que estou falando. É o ser humano que é miraculoso, ele participa desse milagre, dessa ação divina. Talvez, sem ele, a ação divina não ocorresse, já que Deus não é um violentador da natureza.
Com o início da era moderna, isso ficou mais agudo no pensamento religioso quando Kepler e Galileu exigem a verdade demonstrada e não aceitam mais a verdade revelada. Não aceitam e exigem a verdade demonstrada. Inauguram a ciência moderna. Nesse sentido, uma série de pensadores vão dando contribuições. Pincei apenas alguns deles. Por exemplo, Spinoza, quando aproxima os desígnios de Deus da lei da natureza. NÃO HAVERIA NADA DE EXTRAORDINÁRIO NO MILAGRE, UMA VEZ QUE DEUS E A NATUREZA SÃO A MESMA COISA. Spinoza acaba sendo um panteísta, principalmente no seu Tratado político-filosófico. Se os desígnios de Deus são as mesmas coisas que as leis da natureza, não existe milagre propriamente dito, já que aquilo pertence ao próprio mundo natural.
Uma contribuição interessante da psicologia é o pensamento de Hume. Ele diz que, quando pensamos no milagre, há uma tensão entre o testemunho de um outro e a nossa própria experiência. O milagre só tem sentido quando possui nossa própria experiência. O testemunho do outro não é suficiente. […] Lessing também […] Ele diz uma coisa curiosa: é preciso distinguir o vaticínio (ou milagre) da notícia a respeito dele. Para Lessing, a maior parte dos casos é notícia, não são fatos. É verdade. A maior parte dos fatos extraordinários não é fato, são notícias dos fatos que as pessoas dão e que nos autorizam a repensar sobre o fato e a notícia. Isso me fez lembrar da psicologia social, o fato que alguém narra para outro de forma diferente, extraordinária. Existem inúmeras experiências de psicologia social sobre isso. Quando se começa a apurar a veracidade da notícia, ela vai acabando, vai se esvaziando e ninguém consegue realmente demonstrá-la.
No folclore popular, há pessoas que viram alma do outro mundo, por exemplo, viram coisas extraordinárias. Quando se resolve apurar bem como foi, prevalece a notícia. Se pergunto: “Você viu esse fato extraordinário?” Dizem: “Não, eu não vi. Quem viu foi o meu irmão, ele me relatou o fato, mas eu não vi.” “Vamos conversar com o seu irmão. “Escute aqui, você viu?” “Não, eu propriamente não vi, mas um cunhado meu contou, ele viu.” Quando chego ao final dessa cadeia, ninguém viu. Foi uma notícia apenas. Notícia do mila- gre, notícia do vaticínio. Os vaticínios são típicos. Até porque são sempre a posteriori. Não sei se vocês já perceberam isso. Toda vez que acontece um terremoto na Turquia, ou um fato qualquer, sempre há um “eu previ”. Só que ninguém viu quando ele previu, e ele só previu agora, depois que o fato aconteceu. O vaticínio é mais ou menos isso. Dificilmente se consegue chegar à pessoa com quem realmente ocorreu o fato. Sabe-se da notícia do fato.
A questão das curas milagrosas está dentro desse princípio. Nós sabemos que algumas doenças curam-se espontaneamente, ainda que sejam graves e até mortais. NÃO HÁ NENHUM CASO CONHECIDO DA CURA ESPONTÂNEA DA HIDROFOBIA, DA RAIVA. MAS NÓS SABEMOS QUE ELA É UMA VIROSE COMO OUTRA QUALQUER. UMA VIROSE EM QUE O ORGANISMO, POR RAZÕES LIGADAS À BIOLOGIA MOLECULAR E À GENÉTICA, NÃO CONSEGUE ESTAR IMUNE A ELA. TODOS PERECEM. Porém, se um dia alguém não perecer, isso não é um milagre, porque existe essa possibilidade estatística. Existe a possibilidade de haver uma mutação genética em alguma pessoa determinada, essa mutação produzir anticorpos contra o vírus da raiva, e a pessoa se curar da raiva es- pontaneamente. Não é um absurdo, não é milagre que isso possa acontecer. Embora, até o momento, seja de ocorrência zero.
Nós estamos assistindo no momento à questão da AIDS ou da SIDA. Quando a doença surgiu, aconteceu um fenômeno que não tinha explicação nítida. As pessoas contraíam o vírus da AIDS e morriam rapidamente.
Há pessoas que, mesmo antes das novas terapias antivirais, estavam há 10, 12 ou 15 anos com o vírus e não aconteceu nada com elas. Milagre? Não, não era milagre. Essas pessoas têm alguma defesa física. Um grupo descobriu uma proteína, uma substância qualquer que fecha o leucócito, não deixa o vírus penetrar. Ou uma outra substância que impede ou diminui a potência do vírus. É uma questão puramente estatística. Há outros fenômenos que, se ocorressem, seria difícil entender como, sob o ponto de vista meramente estatístico. Por exemplo: aparecer um novo membro numa pessoa que não tinha aquele membro, ou seja, uma perna que foi amputada ou um braço que foi amputado. De repente, surgiu um braço ou uma perna. É difícil entender isto em termos de afirmação estatística. Não é totalmente absurdo que, de repente, as células voltem a proliferar e a produzir novamente ossos, músculos e articulações, como elas fazem em certos tumores embrionários.
[…] O que é um tumor cerebral altamente maligno? Nada mais é do que a produção de uma célula nervosa que não devia ser produzida. Produz um cérebro, um teci- do cerebral anômalo, que acaba matando a pessoa. Nós não sabemos como isso pode acontecer. Curiosamente, também não existe milagre desse tipo, em termos de cura. Existem curas de doenças internas, que estão todas dentro da possibilidade estatística de serem curadas.

Eu tenho, como médico, muitas experiências desse tipo. Eu era neurologista num hospital público do Rio de Janeiro, num lugar de população muito pobre, Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes. Uma vez, me trouxeram dois pedreiros que caíram do andaime ao mesmo tempo. Curiosamente, os dois tiveram a mesma lesão, um traumatismo de medula, ficaram paralisados do tronco para baixo.
Eu era neurologista e comecei a atendê-los. Era uma situação insolúvel, em que a medula ficou gravemente atingida. Esses dois paupérrimos pedreiros ficaram lá no hospital, porque não havia como mandá-los para casa. O que aconteceu: um deles ficou extremamen- te revoltado com aquela situação, xingava Deus, xingava todo o mundo, maltratava a en- fermagem, criava mil problemas. O outro, exatamente com o mesmo problema, agia dife- rente. Ele conseguiu dar uma utilidade à vida. Pegava aqueles fios de soro e fazia tapete com aquilo. Ele pegava maços de cigarro e fazia trabalhos manuais. Ele era o moço de re- cado do hospital. Ajudava os médicos.
Dava os recados, fazia a transmissão telefônica do hospital. Resultado: pouco tempo depois, o primeiro já estava morto, por escaras, perturbações metabólicas. E o outro estava vivo. Não estava andando, evidentemente, mas estava vivo. Quer dizer, alguma coisa foi tocada. É a graça de Deus. Se um dia ele andar, isso acontecerá não por milagre, mas por- que a força que há nele ajudou para que a medula se recompusesse. Como pode ser? Ainda não sabemos, mas já há experimentos nesse sentido.
Uma das coisas que se tem estudado ultimamente é o efeito placebo. O efeito placebo existe numa proporção muito grande para pacientes, 30% deles. Com placebo pode-se criar cabelo. No placebo foi feito o estudo com o Viagra e todas as substâncias novas que sur- gem. Um dos fenômenos mais desconhecidos é o próprio cérebro do indivíduo. Tenho a impressão de que novas descobertas sobre o tema acontecerão no próximo milênio. O mila- gre que ocorre com as famílias, o milagre que ocorre com a pessoa que é curada é muito maior do que o próprio milagre do tumor sendo curado. Isso tem um sentido sobrenatural maior do que o material.

Você me fez lembrar de uma história que li muitos anos atrás, quando garoto, não me lembro mais qual foi a fonte. É sobre um homem que se viu impelido a pro- curar a vida religiosa, foi ser monge. Na história, o personagem conta o seguinte: “Eu era marinheiro na minha juventude. Navegava pelo mundo todo. Como marinheiro minha vida era de esbórnia, vida de mulheres, farras, bebidas… Todo porto era isso. Um dia, cheguei numa cidade chamada Rio de Janeiro, no Brasil, um país muito distante. Desembarquei lá. Evidentemente, fui procurar as mulheres. Tinha farra, bebida e tal. Estava voltando para o navio, numa noite muito escura, chovendo, olhei para o alto e vi Cristo. Ele me apareceu de braços abertos. Vi o Cristo. Nem tinha pensado em Cristo, religião não era comigo. Aquilo me chocou tanto que voltei para a Noruega, abandonei tudo, fui ser monge, e estou aqui há sessenta anos, rezando, aguardando um encontro com ele, que me apareceu…”
Aí um noviço disse: “Olha, padre, eu vou dizer uma coisa – meu avô foi cônsul nesse país durante algum tempo. No Rio existe no alto de uma montanha, uma estátua de pedra e de cimento armado do Cristo, com os braços abertos, e que de noite fica iluminada…” E falou sobre o nosso Cristo Redentor, no Corcovado. Aí o monge pensou, parou, parou, pen- sou: “Quer dizer que eu larguei as mulheres, a bebida, a esbórnia, estou aqui há sessenta anos de cilício, jejum, mortificação por causa de uma estátua?” “Sabe de uma coisa?” – concluiu ele – “Foi milagre mesmo.” É mais ou menos isso.
CORPOS QUE NÃO DE DECOMPÕES APÓS A MORTE E SE CONSERVAM INTACTOS
A não-corrupção não é prova de santidade nem de intervenção de Deus. Como foi di- to, quem precisa de milagre para ter fé não merece ter fé. É como aquela história de que um
país sem heróis não merece ter heróis. Se você precisa de milagre para crer, não precisa crer em nada. Está dispensado de crer. Acho que isso não é prova. A incorrupção pode ocorrer, normalmente. Há exemplos famosos. Não no sentido milagroso, mas sim no sentido cientí- fico. A formação rochosa, de terreno, também pode preservar o corpo durante muito tempo. Não indefinidamente como o gelo, mas durante muito tempo.
Temos que ver cada caso. Lenin, por exemplo, só se conserva daquela maneira por- que de quinze em quinze dias toma uma injeção de formol, toma um banho de formol. Durante a noite, eles tiram o cadáver daquele mostruário, dão um banho de formol. Eu não sei se fazem isso com os santos cujo corpo não corrompe. Não conheço o caso de Santa Rita, não sei se o corpo está tão incorruptível assim. Agora, pode estar mumificado. As múmias estão aí, têm quatro mil anos. É verdade que passaram por um processo. Teoricamente, esses santos não passaram.

Há exemplos famosos. As hóstias sangrentas, por exemplo. Aquela hós- tia que fica vermelha com o sangue de Cristo, uma prova da transubstanciação. Quando foram analisar, era uma bactéria que dá no trigo e que tem um pigmento vermelho. Não tem nada de extraordinário. É uma bactéria que contaminou o trigo.
Então, é preciso tomar muito cuidado. A credulidade é perigosa nestes casos. Eu acho perigosa porque, na verdade, é o oposto da verdadeira crença. É o que acontece nessas igre- jas pentecostais protestantes e até católicas carismáticas. Eles invertem o sentido da salva- ção. A salvação passa a ser “ficar rico”, “ter saúde”, “se livrar dos males”.
Prof. Luiz Bevilacqua
Eu acredito que Jesus Cristo não tem grande simpatia pelos milagres visíveis. Acho que ele é muito mais simpático a outro tipo de milagre. Por quê? Porque algumas vezes, no seu testemunho, ele critica essa necessidade de estar havendo milagre, de coisas acontece- rem: “Se não vedes prodígios e milagres, não haveríeis de crer?”, “Será que preciso fazer milagres a toda hora?” Diante do Cristo crucificado, o povo pedia um outro milagre: desce da cruz, que nós acreditamos. “Não vou descer da cruz. Já tiveram o suficiente.” No final, a passagem com São Tomé: “Tomé, você viu e acreditou, mas bem-aventurados são aqueles que não viram, mas vão acreditar.” Acho que Jesus Cristo tinha uma simpatia maior por um outro tipo de milagre: o milagre oculto. Aquela coisa permanente, que nós vivemos no dia- a-dia.

Uma coisa extraordinária é nossa capacidade de viver num momento, em algum lu- gar do Universo, num planetinha pequenininho, um grão de areia no mundo, num cosmos extraordinário, sujeito ao conjunto de leis naturais que nos permite a vida e coisas que nós não entendemos. Esse é o milagre oculto. Acho que Jesus Cristo tinha muita simpatia por
esse tipo de milagre numa outra ordem, numa ordem espiritual, sobrenatural. O milagre, no Catolicismo, tem uma distinção peculiar, então nós devemos procurar na vida de Cristo, no ensinamento de Jesus, os seus milagres e a sua origem, ver se há alguma coisa que possa- mos tirar dali. Eu acredito que sim. A pergunta seria: há necessidade de milagre no contex- to católico? Isso é realmente necessário? É preciso um milagre para que haja um sentido na religião? Precisamos desses milagres. E por que isso? Qual é o sentido que vai para além do aleijado que se levanta e anda, ou da menina de Naim que estava morta e acorda, além de Lázaro e vários outros? Há alguma coisa além disso? Acredito que sim.

Concluindo a análise sobre os milagres, devemos considerar três aspectos: o primei- ro é que os milagres não são uma prova da divindade. Também não são realizados para satisfazer a curiosidade dos indivíduos em várias circunstâncias: tentar Deus (Mt 4, 5), bus- ca do maravilhoso, uma punição ou uma simples curiosidade (Mt 12, 33). O segundo aspec- to conclusivo é que o milagre requer e confirma a fé inicial (Lc 7, 1-16; Mc 7, 24-30), sub- entendida ou explicitamente professada (Jo 11, 27). De fato, somente através dela podemos compreender que os sinais que Jesus realiza provêm autenticamente do Pai (João 9, 1-41). O terceiro aspecto é que os milagres são inseridos no interior da mensagem global anuncia- da por Jesus. A realização da vinda do Reino de Deus coincide com a destruição do reino de Satanás (Lucas 11, 20).
REVISTA MAGIS SUBSÍDIOS
Número 40 – Fevereiro de 2002
OS MILAGRES DIANTE DA FÉ E DA CIÊNCIA

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